Junto a Vó Betinha, recolhemos os utensílios usados durante o almoço e lavamos à pia fora de casa. Enquanto isso, muitas conversas, sorrisos, muita alegria. Era a alegria do encontro, o desejo de estar junto aprendendo coisas diferentes com pessoas diferentes. Os erês Macu e Zica brincavam com os cachorros da vizinhança. Quando terminamos, deitamo-nos em redes no alpendre da casa para continuar nossa conversa sobre a formação. Vó Benita, como sempre, pitando seu cachimbo, sentou-se ao lado de Mãe Abá e disse afirmativa: “– Quando as fia e as prefessora ‘abriu’ os ‘trabaio’ na escola, foi os tempo de Exú. Exú abre os ‘camiadô’. Exú teve com as fia ‘mode’ ‘insiná’ sobre os ‘óio’ nas ‘costa’. A ‘veia’ tá dizendo, fias”.
Vó Benita referia-se à primeira intervenção feita na escola. Ela analisava esse momento como um instante Exú. Esteve atenta e astuta observando os paços das formadoras e das formandas em busca de elos com a energia do “Orixá abre-caminhos”. Exú
foi o primeiro a ser criado. Exú é a divindade que quer sempre mudar as coisas. Gosta do desafio, da liberdade. Possui o poder de se transformar imediatamente de um lugar para o outro. Sempre traça e abre novos caminhos, é o dono das estradas. Por sua importância, é sempre servido antes de todos os orixás (CHAIB; RODRIGUES, 2000, p. 70).
nossas aventuras formativas na Escola, “– a formação abriu caminhos Exú, já que não havia nenhuma boa estrada feita em torno desse conteúdo na Escola. Havia um mundo de possibilidades, mas sem nenhuma ação. Comparo a uma roda de capoeira sem axé. Os participantes estão lá, mas falta conhecimento e mandinga para criar a ginga”.
Liliane, envolvida e concentrada na análise feita por Príncipe, continuou:
– Logo nos nossos primeiros contatos com a escola, Quando começamos os
momentos de aproximação com o campo de pesquisa, notamos que a comunidade escolar quase não sabia nada sobre a Lei 10.639/2003. Apenas a diretora da escola, professora Edna, e a professora Neusa tinham conhecimento. Todas as outras pessoas disseram desconhecer a obrigatoriedade desse conteúdo na escola.
O momento foi de abertura para o entendimento da cosmovisão de raiz africana. Foi uma brincadeira Exú. Com ajuda da sociopoética, pudemos envolver o grupo com o tema gerador “O que é a Cosmovisão Africana?” Com a produção das professoras e bolsistas para a produção de dados, foi possível definir o conjunto de ideias prévias relacionadas ao tema gerador e, a partir desse elenco, passamos a planejar os próximos passos da formação.
Príncipe continuou sua reflexão: “–Numa das questões problematizadas nas trilhas dessa pesquisa temos: após realização de avaliação inicial diagnóstica, constatamos ou não que existem conteúdos acerca da Cosmovisão Africana nas práticas pedagógicas intencionais de professoras de uma escola pública?”
Esse momento de avaliação diagnóstica, ou intervenção Exú, possibilitou-nos olhar para ver se trilhas já haviam sido feitas pela comunidade escolar acerca da cosmovisão de raiz africana no Brasil. Nossas ações enraizavam em busca de dar conta desse aspecto da problematização.
Uma primeira análise que eu e meus “eus” queremos fazer envolve o tema formação de professores. As trilhas, ou o caminho Exú, foi aberto pela implementação da Lei 10.639 em 2003. De lá para cá, o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana, bem como a Resolução CNE/CP Nº 01/2004 recomendam que as Instituições de Ensino Superior incluam em seu currículo conteúdos de referência sobre esses temas em nível de graduação, bem como realizem atividades de extensão e de pesquisa. Dessa forma, possibilita-se que o corpo docente tenha condições efetivas de promover uma pedagogia em favor da diversidade, em especial, a étnico-racial (DCN, 2004).
cumprir uma lei sem conhecimento. Na escola não temos livro, nem tínhamos nenhum apoio de material para começar algo em torno disso. Quando você chegou na escola fazendo essa proposta, nos acolhemos por que realmente não sei quando haveria outra oportunidade. Mesmo sem tempo resolvemos fazer a formação para dar um pontapé inicial.
O pensamento da Professora Edna coadunou-se com a denúncia que fazem os pesquisadores Cícera Nunes e Risomar Alves Santos quando mencionam que
os cursos de formação de professores, em geral, não apresentam em suas propostas pedagógicas preocupação com as diversidades existentes na sociedade, dentre elas a de origem racial. Dessa forma, seus egressos em sua maioria, não estão preparados para enfrentar o debate em torno de questões como gênero e diversidade de culturas e raciais exigidas no mundo atual e, consequentemente, na escola (2011, p. 59).
Nessas circunstâncias, Professora Edna revelou-nos que a escola, de fato, não tinha condições curriculares nem pedagógicas de incluir temas que dessem sentido a essa necessidade no contexto da sociedade contemporânea. Professora Neusa reforçou nossa constatação:
– Inclusive quando estudávamos sobre o que é ser negro, lembro que algumas de nós fez depoimentos da forma com que trabalhávamos essas questões. A própria Edna falou da vez em que ensaiou uma peça onde uma aluna fazia o papel da escrava maltratada, feia e suja e a menina não teve coragem de apresentar essa personagem no dia da apresentação. Mas como ela não tinha essa formação, ela não sabia por que a menina se recusou a fazer o papel. Agora se sabe que era uma forma de rebaixar a auto-estima da criança. Era uma violência sem que a gente percebesse por que faltava conhecimento, professora.
Nosso começo foi de iniciação, um começo abre-caminhos Exú, já que não havia na escola nenhuma prática pedagógica, nem curricular, intencional sobre a implementação da Lei 10.639/2003, muito menos no tocante ao tema específico da cosmovisão de raiz africana no Brasil. Professor Príncipe, sentado confortavelmente ao chão do alpendre piauiense, depois de ouvir atentamente as observações feitas por todos nós, sugeriu: Exú abre os caminhos. O axé iniciático envolve as professoras. Há caminho de envolvimento com a cultura afro-brasileira. As raízes das africanidades das participantes fixaram-se na porta de entrada da escola em homenagem a Exú. As raízes teceram caminhos para dentro da escola. Os caminhos que seriam seguidos posteriormente pela comunidade escolar que vivenciaria práticas ainda não experimentadas.
Príncipe, emocionado com os resultados das análises daquele momento da pesquisa bateu cabeça para Mãe Abá. Nesse instante, foi tomado pela energia que nos rege e ensina.
Laroiê!”
5.3 Conto de Análise III: intervenções pedagógicas pretas ou raízes cravadas numa