Na perspectiva de Bordenave (1994), o interesse em participar se generalizou nos últimos anos, no Brasil e no mundo todo. Um exemplo é o grande surgimento de associações, como indicativo de pessoas que buscam organização para participar de questões diversas no mundo.
Hoje, com o advento do fenômeno da responsabilidade social, o que mais se vê são pessoas de classes diversas, profissões, meios sociais, querendo participar de projetos sociais, campanhas etc. Por que, então, essa busca por participar e o que é participação?
Segundo Bordenave (1994), como nenhum homem é uma ilha e desde suas origens o homem vive agrupado com seus iguais, a participação sempre acompanha as formas históricas que a vida social foi tomando.
Historicamente, participação é o tema central de doutrinas reformistas, como forma de se contrapor à massificação burocrática e aos monopólios de poder. Nos anos 1960, surgiu o princípio democrático, segundo o qual todos os atingidos por medidas sociais e políticas deveriam participar do processo decisório, qualquer que fosse o modelo político ou econômico adotado (SILVA, 1987).
O conceito assumiu importância nas teorias e nos sistemas que buscavam explicar a natureza do relacionamento entre indivíduo e sociedade como entidades separadas, vendo-o ora como coerção, ora como fusão ou integração. A visão do social como interiorização de relações, oferecida pelos existencialistas, e, sobretudo, como realidade existencial, mudou a problemática.
De acordo com Silva (1987), nos países em desenvolvimento, o conceito de participação assumiu várias formas - política, social e econômica. Os movimentos de reivindicação pleitearam a participação política, sob a forma de cidadania plena e do direito de voto e de sua extensão a todas as camadas e grupos da população. No campo econômico, a participação manifestou-se por meio dos diversos movimentos de origem patronal ou sindical, visando a dar ao empregado maior parte nos benefícios e na gerência da empresa. As modalidades de participação, conforme o autor, são de tal forma diversas, desde a forma de participação nos lucros até a co-gestão, que não há uma divisão muito clara entre esses movimentos e as reivindicações de participação social.
A difusão do conceito de participação, conforme Silva (1987), prende-se à percepção, por grande número de pessoas, da concentração de decisões, por grupos econômicos nos países de economia de mercado e por burocratas ou tecnocratas nos países de economia planificada, criando graves problemas de marginalidade decisória. Assim, parece que as preocupações com a participação e sua busca consciente mais como meta do que como técnica de organização social respondem a um sentimento crescente de alienação do homem comum, a um mal-estar generalizado, que é a raiz dos problemas sociais.
De acordo com Bordenave (1994), toda essa busca por participar é conseqüência de um despertar do homem de uma longa alienação decorrente de um individualismo massificador e atomizador. Na visão de Silva (1987), o homem está respondendo, de certa forma, às tantas vezes desmerecidas despersonalização e desumanização trazidas pelas rotinas do trabalho industrial, pela opressão das estruturas, das burocracias e dos Estados.
Pode-se dizer que a participação está na ordem do dia, em razão do descontentamento geral com a marginalização do povo em assuntos que interessam a todos e que são decididos por poucos, pois, segundo Lima (2005), a participação é uma das categorias centrais na constituição do homem, que, no ato de participar, interagir, dialogar, vai se apropriando da realidade e formando a subjetividade individual e a coletiva.
No entendimento de Bordenave (1994), o tema participação surpreendentemente absorve tanto os setores progressistas, que tencionam uma democracia mais autêntica, como os setores tradicionais, não muito favoráveis aos avanços das forças populares. O fato de tal ocorrência advém da contribuição positiva que a participação imprime. Os progressistas vêem a participação como um facilitador do crescimento de consciência crítica, que fortalece o poder de reivindicação e favorece a resolução de problemas que ao indivíduo sozinho seria insolúvel. Já para os tradicionais, a participação faz-se importante pelo seu aspecto de controle das autoridades, na fiscalização das ações desses. O autor ainda salienta que há um reconhecimento da necessidade política da participação no sentido de descentralização das decisões para o enfrentamento das decisões graves e complexas.
Com base nas contribuições da participação, pode-se pensar que esse é um conceito puramente instrumental, ou seja, voltado apenas para resultados utilitários.
Bordenave (1994) salienta, porém, que, procurando a motivação dos participantes de uma atividade voluntária qualquer, ver-se-á que essa transcende a questão instrumental, pois há nesses participantes uma satisfação pessoal e intima. Ocorre que, segundo o autor, “a participação não é somente um instrumento para a solução de problemas, mas, sobretudo, uma necessidade fundamental do ser humano, como o são a comida, o sono e a saúde”. (BORDENAVE, 1994, p. 16). O autor é incisivo na afirmação de que a participação é inerente à natureza humana que acompanha homens e mulheres desde os tempos primitivos. A participação é o caminho natural para o homem, sua tendência inata de realizar, fazer coisas, afirmar-se a si mesmo, dominar a natureza e o mundo.
Compreendendo que a participação não é um conceito puramente instrumental, Bordenave (1994) ressalta que essa tem duas bases: uma afetiva, referente à participação pelo prazer em fazer as coisas com outros e, outra instrumental, que comporta a compreensão de que o trabalho com os outros é mais eficaz e eficiente do que fazer as coisas sozinho. Para o autor, essas duas bases se complementam e devem se equilibrar para que as pessoas possam se desenvolver como sujeitos conhecedores e modificadores da realidade. Ele salienta, todavia, que, às vezes, essas bases entram em conflito e uma delas passa a sobrepor-se à outra: ou a participação torna-se puramente “consumatória” e as pessoas se despreocupam de obter resultados práticos ou ela é usada apenas como instrumento para atingir objetivos. Em bases afetivas ou instrumentais, a participação é o caminho natural para o homem realizar-se como pessoa e um componente do desenvolvimento pessoal e social. Então, o que é participação?