Os cyborgs pertencem já ao relicário das metáforas do futuro antigo. Os Replicantes do Blade Runner (1982) de Riddley Scott perderam sofisticação e parecem agora criações mais apropriadas para dar conta dos conflitos e ansiedades dos urbanitas dos anos 80 que das realidades do século XXI.1 Afinal, pensar o corpo humano como lugar de expe- rimentação de próteses, de hibridação entre máquina e organismo,2
parece bem pouco ao lado de relatos, que algum cientista mais fanático quer fazer real, da multiplicação de clones, humanos produzidos nos la- boratórios sem recurso a chips e fios eléctricos. O proteico clone, mais que o rígido cyborg, parece estar de acordo com o sentido da crescente ima- terialidade e flexibilidade prometido por profetas do apocalipse profis- sionais, como, por exemplo, Virilio (1995) ou Baudrillard (2007). E, no entanto, é justamente esse carácter material e um pouco démodé do cy-
borg que pode servir como antídoto às celebrações de virtualização do
mundo que fazem tudo por esquecer as muito terrenas ligações do urbanita com o seu entorno estabelecidas por meio da tecnologia. Enquanto a metáfora do ciberespaço joga com as infinitas possi- bilidades de identidades incorpóreas à la carte, o híbrido cyborg lembra- -nos, pelo contrário, a dimensão corpórea e material da experiência espacial.
1A melhor referência para entender a relevância do conceito cyborg continua a ser
Donna Haraway, Simians, Cyborgs, and Women: the Reinvention of Nature (London: Free Association Books, 1991). Para uma discussão sobre a actualidade do filme Blade Runner, v. Ted Greenwald, «The dark world of Ridley Scott», Wired (2007): 179-185.
2Segundo a definição de Haraway, «o cyborg é um organismo cibernético, um híbri-
O assunto é tanto mais importante quanto um dos mitos funda- cionais associados às tecnologias da informação prometia a deslocaliza- ção das actividades humanas e o fim das cidades. Se a tecnologia tem o dom de fazer do globo um espaço homogéneo, insensível aos cons- trangimentos locais,3qual o sentido de nos aglomerarmos em poluídas
e engarrafadas aglomerações urbanas? Por que não morar no monte alentejano e abandonar a caótica Lisboa? Mas os dados aqui são con- clusivos: em 2007 o número de urbanitas no mundo supera já o de ru- rais, uma tendência que não dá mostras de abrandar. As cidades são res- ponsáveis por cerca de dois terços da explosão demográfica à escala global desde os anos 50 e crescem a um ritmo de um milhão de recém- -nascidos e imigrantes por semana.4
O século XXIserá, sem dúvida, um século de cidades, com as popu-
lações distribuídas por uma série de aglomerados urbanos ligados entre si por redes tecnológicas. É aqui que se concentram as oportunidades de emprego, as actividades económicas mais lucrativas, os centros edu- cativos, a oferta cultural ou os serviços de saúde. As tecnologias da in- formação, mais que contrariar esta tendência, promovem-na de forma ainda mais intensa, como já o demonstraram, por exemplo, Manuel Castells (2002)5e Saskia Sassen (1991). Aquele não duvida mesmo em
afirmar que a «Internet é o meio tecnológico que permite que a con- centração metropolitana e a conexão global em rede ocorram de forma simultânea» (Castells 2001, 253). Ambos os autores destacam como a economia do século XXI, centrada em serviços, como finanças, seguros,
assessorias, serviços legais, contabilidade, publicidade e marketing, en- contra nas grandes metrópoles um ecossistema propício ao seu desen- volvimento. Também não esquecem que mesmo os mais pobres têm na metrópole maiores possibilidades de sobrevivência e ascensão social, ao trocarem empregos em regiões mais atrasadas e rurais por uma vida como porteiros, cozinheiros ou amas.
Tais considerações parecem, no entanto, insuficientes perante o facto de grande parte dos novos urbanitas se concentrar em bairros de lata (UN-Habitat, 2003, 1). Além disso, muitos dos novos bairros não surgem associados às grandes metrópoles cujos nomes nos são fami-
3V., neste sentido, por exemplo, o best-seller de Thomas Friedman, O Mundo é Plano. Uma História Breve do Século XXI (Lisboa: Actual Editora, 2005).
4Population Information Program, Population Reports: Meeting the Urban Challenge,
vol. XXX, no. 4, Fall (2002): 1.
5 V., em particular, o capítulo 6, Manuel Castells, «O espaço dos fluxos», in A Sociedade em Rede (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002), 493-556.
liares, mas sim a cidades médias de que nunca ouvimos falar. Em África, por exemplo, o crescimento de megacidades, como Lagos (de 300 000 habitantes em 1950 para os actuais 10 milhões), é paralelo à transfor- mação de pequenas cidades e oásis, como Ouagadougou, Nouakchott, Douala ou Bamako, em cidades maiores do que São Francisco ou Manchester. Não é por isso descabido descrever a actual situação de ur- banização global como um «planeta de bairros de lata» (Davis 2004). Mas mesmo aqui, onde a carência de infra-estruturas é um dos elemen- tos que definem a identidade destas novas aglomerações, a tecnologia continua a ser um elemento essencial para descrever a sociedade urbana. Como é possível falar do crescimento dos bairros de lata e ignorar os próprios materiais de construção que lhes dão nome (também em francês bidonville, ou em Marrocos mudun safi, cidades de metal), ou os sistemas sanitários improvisados, tecnologias às quais somos quase sem- pre cegos? Este artigo não dá a atenção merecida a essas «tecnologias creoulas», mas felizmente há bibliografia para preencher tal lacuna.6
David Edgerton, incita-nos mesmo a esquecer a pergunta de qual a tecnologia que falta nos bairros de lata para passarmos a investigar quais as tecnologias que os sustentam (Edgerton 2007, 96).
Os cyborgs, mesmo aqueles que habitam bairros de lata, não vivem num mundo virtual, mas sim em espaços cruzados por tecnologia. Sem fluxos de água, electricidade, alimentos, automóveis, gás, informação ou ar é impossível a sobrevivência daqueles. O que importa perceber é de que forma a construção da cidade dos cyborgs, da sua estrutura física, im- plica também novas formas de sociabilidade. Sabemos que a cons- trução, por exemplo, no século XIXde redes de distribuição e evacuação de águas das cidades europeias não se limitou a acalmar a sede das populações. A transformação dos habitantes das grandes cidades em clientes da companhia das águas veio acompanhada por campanhas para mudar os hábitos higiénicos dos urbanitas, que incluíam tanto o cuidado com a alimentação como a lavagem do corpo ou a erradicação da prostituição (Saraiva 2005). O cyborg é muito mais que um humano cujas capacidades de acção são alargadas pela tecnologia. É melhor percebê-lo como um corpo híbrido onde se materializam relações políticas, sociais, tecnológicas.
6V., sobre este tema, o inovador e provocador artigo de David Edgerton, «Creole
technologies and global histories. Rethinking how things travel in space and time», Host, n.º 1 (2007): 75-112.
Ignorar a cidade feita de tubagens, cabos, condutas, túneis e galerias é ignorar grande parte das relações características da urbe (Graham e Marvin 2001; Gandy 2005). Estudar uma cidade e negligenciar, por exemplo, os seus esgotos, o seu abastecimento energético ou a sua rede viária significa saltar por cima de aspectos essenciais de justiça e equidade social. São já clássicos os estudos de Langdon Winner (1986) e de Marshall Berman (1982) sobre o urbanismo de Robert Moses, o Haussmann de Nova Iorque, que durante cerca de três décadas levou a cabo um plano agressivo de construção de vias rápidas, túneis e viadu- tos destinado a optimizar os mercados regionais e a facilidade de circu- lação (Berman 1982; Winner 1986). Se Berman demonstrou que foram bairros desfavorecidos, como Brooklyn, que mais sofreram com as feri- das provocadas no espaço urbano por alguém que afirmava actuar no corpo da cidade como o talhante com o seu cutelo, Winner, por seu lado, explorou a decisão nos bastidores de construir viadutos sobre a
Grand Central Parkway suficientemente baixos para impedir que auto-
carros públicos usassem esta nova artéria de ligação com o rico subúr- bio de Long Island. Os nova-iorquinos mais pobres não só viram os seus bairros tradicionais isolados pela nova escala da infra-estrutura au- tomóvel, como foram ainda impedidos de se deslocar para os novos es- paços de expansão da cidade.
Mas talvez sejam os desastres e as falhas das infra-estruturas que me- lhor dão conta tanto da dificuldade em sobreviver à sua ausência como do seu profundo carácter social. Redes que durante a maior parte do tempo são percebidas como um a priori no nosso quotidiano cyborg revelam a sua fragilidade e materialidade apenas quando falham. Só os apagões na Nova Zelândia em 1998, na Califórnia em 2001 e em Itália e nos Estados Unidos em 2003 foram capazes de trazer para as primeiras páginas dos jornais o aborrecido tema da gestão de infra-estruturas de abastecimento energético. E foi também o Katrina que revelou de forma dramática a ligação de Nova Orleans ao seu sistema de diques, barra- gens e canais de escoamento de águas torrenciais. Uma infra-estrutura que, tal como no caso de Nova-Iorque, também acompanhava cli- vagens sociais e raciais. Ignorar a natureza cyborg dos habitantes da DixieLand transformou a gestão da infra-estrutura em assunto de peri- tos do Army Corps of Engineers quando, afinal, se tratava do mais políti- co dos temas (Marler 2006).
Seguindo a mesma lógica da desgraça reveladora, Stephen Graham (2005), um dos mais destacados praticantes da nova etnografia das infra- -estruturas, olha para os modos do terrorismo e do combate aéreo como
uma declaração de guerra à cidade dos cyborgs.7A ameaça terrorista fez
dos pontos nodais das redes de infra-estruturas lugares sensíveis para a sobrevivência das nossas sociedades. O caso mais evidente é o dos aten- tados de Madrid e Londres, onde atacar a muito prosaica e tradicional rede de comboios e metro que liga a cidade horizontal foi considerado o meio mais eficaz para maximizar o número de vítimas. No pólo opos- to, a nova doutrina da guerra aérea converteu a infra-estrutura urbana no seu alvo privilegiado, com o objectivo último de, literalmente, desli- gar cidades. O já citado Thomas Friedman, celebrado colunista do New
York Times e guru da globalização, afirmava em 1999, a propósito da
guerra do Kosovo: «As luzes de Belgrado deveriam ser apagadas: todas as redes eléctricas, tubagens de água, pontes, estradas e indústrias de guerra têm que ser atingidas… Faremos o vosso país recuar no tempo pulverizando-vos. Querem 1950? Nós podemos fazer 1950. Querem 1389? Isso também se pode arranjar» (Graham 2005, 175).
Afinal, muitos dos bombardeamentos da segunda guerra mundial da aviação norte-americana à Alemanha e ao Japão seguiram a estratégia de- lineada por economistas e sociólogos mobilizados pelo Departamento de Defesa para identificar de que eram feitas as sociedades alemã e japonesa. A descoberta desses Oppenheimers das ciências sociais limitou-se a perce- ber a tecnologia como o cimento que une as sociedades. Mais interes- sante ainda é o facto de, ao terminar o conflito, as equipas de cientistas que desenharam os protocolos dos bombardeamentos terem começado a olhar para as cidades norte-americanas com as mesmas ferramentas uti- lizadas para destruir Tóquio ou Hamburgo (Galison 2003). Cidades como Nova Iorque, Pittsburgh ou Wichita começaram a aparecer em mapas que demonstravam como umas poucas bombas atómicas soviéti- cas seriam capazes de paralisar os Estados Unidos. Com estes mapas na mão, as autoridades federais não tardaram em mobilizar estados, câmaras, empresas e comunidades locais para a batalha contra frágeis centros ur- banos sobrepovoados, em favor da dispersão de indústrias e populações pela periferia urbana.