Chapter 8 Developing smart city infrastructure as platforms
8.7 Platform opportunities for Hafslund Nett, DLC and eSmart Systems
8.7.1 Hafslund Nett
As entrevistas permitem a interpretação ou, se assim se entender, a recriação dos factos, balizadas pelo tempo e pela experiência que sobre eles decorreu. São elementos complementares em relação aos silêncios e às omissões da informação das atas. Esta interpretação ou recriação não é de um exercício de História Oral que trata, ainda que se possam utilizar técnicas desta modalidade. É um espaço de reconstrução de fragmentos de memórias que vai permitir outras leituras, ter em conta outras perspetivas, outros entendimentos, interpretar a outra luz as informações contidas nas atas. As entrevistas permitem complementar os espaços de silêncio e as omissões das atas, mediante a tentativa de compreender o que se terá passado, as considerações tecidas sobre acontecimentos ou situações passadas. Genericamente, «as entrevistas vêm apoiar e verificar as observações oriundas da pesquisa documental» (Colomb, 2007).
São as pessoas, os entrevistados, que vivem e corporizam as políticas do dia-a- dia, lhes conferem sentido, as interpretam e recriam de acordo com situações, contextos, interesses e objetivos, daí a importância deste instrumento complementar de recolha de informação. No âmbito da análise das políticas públicas torna-se essencial a entrevista, particularmente por duas ordens de razões (Bongrand & Laborier, 2005, p. 77): a primeira, que se refere à possibilidade de reconstrução de modos de estar e de compreender os mecanismos de relacionamento e de poder estabelecidos entre os diferentes atores. Quere-se com isto dizer, que a entrevista permite ir além dos factos, do simples relato, penetrando os sentidos e as ideias do que é expresso, apreendendo os juízos formulados, os pressupostos do dito e do não-dito. No campo das políticas e da ação pública, a entrevista é determinante para a análise e compreensão de valores e de estruturação do referencial. A segunda razão resulta do facto de, por intermédio da entrevista, se perspetivarem as grandes linhas de orientação individuais e coletivas, se perceberem os sentidos da ação que se estrutura e organiza no tempo e num espaço concreto. Neste campo, a entrevista permite aferir de impressões e as opiniões sobre os acontecimentos, conferindo sustentabilidade e coerência ao conjunto de factos que são relatados e analisados. De acordo com esta ideia, os factos não valem por si mas por
aquilo que pressupõem, se transmite por intermédio da sua descrição e/ou caracterização, da valorização que é feita dos acontecimentos e da sua descrição. Valorização mediante juízos de valor ou considerações que refletem preocupações sobre os acontecimentos. A entrevista torna-se assim um complemento à análise documental, permite criar outras formas de interpretar o vivido, os acontecimentos, quer pelo próprio entrevistado, mediante a criação da sua história, quer pelo investigador que analisa o dito e os seus porquês. Por intermédio da entrevista é possível aceder às ideias, perceber como os valores emergem por entre as conversas, como os sentidos e os sentimentos condicionam o que se diz.
Para que seja possível equacionar valores e ideias implica que a entrevista seja tão aberta quanto possível, para permitir ao entrevistado expressar-se livremente sobre um dado acontecimento sem que, contudo, se afaste demasiado do objetivo: fazer luz sobre um dado facto. Optou-se, assim, pela realização de entrevistas semiestruturadas, que simultaneamente deem uma orientação ao entrevistado para que se centre no essencial e para que não se disperse no acessório. Neste caso, o ponto de partida foi comum a todos, referente às situações rotuladas de indisciplina. É a linha de orientação das entrevistas.
Os objetivos que estiveram subjacentes à realização das entrevistas tinham em conta a reconstrução de situações e de acontecimentos, a identificação das formas de racionalização e de reconstrução desses momentos. Compreender como o tempo e a experiência influenciaram a análise e a compreensão das vivências, qual o papel definido para os instrumentos no contexto da ação educativa. É «um olhar atrás», fruto das vivências adquiridas, das conquistas efetuadas, do conhecimento mobilizado, das experiências acumuladas.
Sem qualquer orientação pré-definida, foram realizadas duas entrevistas de características exploratórias. Na primeira abordagem pretendeu-se perceber quais as suas potencialidades, o nível de discursos produzidos, o teor das ideias veiculadas. Simultaneamente, o objetivo era o de preparar as condições para a sua realização, considerando o nível de estruturação, as questões de orientação da conversa e equacionar o tempo de realização, entre outros. As primeiras entrevistas tiveram apenas
comportamentos. Permitiu verificar que poderiam servir como uma das bases de trabalho, pois as conversas perspetivaram novas pistas, diferentes das que decorriam do conteúdo das atas, complementando ideias e compreendendo outros sentidos.
Foram realizadas seis entrevistas entre abril de 2009 e maio de 2010. Não tiveram a pretensão de se constituírem como uma amostra representativa do corpo docente da escola. A preocupação pela definição dos elementos entrevistados passou apenas pelo protagonismo que cada um deles assumiu no processo de gestão do coletivo. Por esta razão se entrevistou o Diretor, o Vice-diretor, a Psicóloga, um elemento coordenador dos projetos e das atividades extra ou de complemento curricular, um coordenador de uma área disciplinar. Por inépcia uma não ficou registada.
Para além do grupo de entrevistados torna-se importante configurar um plano de trabalho inerente à realização da entrevista. Esta opção passou por um modelo semiestruturado que teve em consideração três momentos, apresentados no quadro seguinte:
Quadro 5 - Guião de entrevista semiestruturada Fases Procedimento
Evocação
É pedido ao sujeito que pense em tudo (situações, momentos) o que julgue importante referente à alteração dos comportamentos e às situações de
indisciplina ocorridas na escola …
Enunciação
Pede-se, posteriormente, que enuncie as situações mais marcantes neste processo, na perspetiva de equacionar qual/quais o(s) problema(s) e as soluções
encontradas…
Averiguação Posteriormente à enunciação, pede-se ao entrevistado que complemente as
respostas e o entrevistador procura esclarecer as dúvidas remanescentes…
A opção por este modelo (Figueiredo, 1997) decorre da possibilidade de perspetivar situações que vão desde as ideias aos sentimentos, símbolos e valores, o conhecimento ou a ação que se afirmam ou afloram por entre os discursos produzidos. Por intermédio destas três fases ─ evocação, enunciação e averiguação ─ é possível identificar quais os fatores ou acontecimentos que mais marcaram ou influenciaram o entrevistado, como os descreve, que referências evocam, que considerações tecem. Torna-se possível ultrapassar o relato despretensioso da mera vivência dos
acontecimentos e analisar com mais profundidade como foram vividos, como são interpretados, o que se destaca, que ideias se veiculam.
As entrevistas decorreram quase sempre no contexto da escola, umas vezes agendadas outras informalmente por disponibilidade circunstancial do docente, exceto uma por solicitação do próprio entrevistado. Todas tiveram uma duração que variou entre 30 e 90 minutos, tendo sido, com autorização de cada entrevistado, gravadas para posteriormente serem transcritas. Todas foram sujeitas à apreciação do respetivo entrevistado, que pôde fazer livremente as suas observações e comentários. Tendo em consideração o objeto do estudo e os objetivos traçados, a opção foi circunscrever as entrevistas aos docentes não se tendo considerado outros intervenientes por muito pertinente que isso pudesse ser.