No que tange a um recorte do ciberespaço com mais especificação em relação às suas ritualidades, depara-se com as redes sociais, fundamentalmente caracterizadas pela sua habilidade de se fazer e desfazer com velocidade ímpar. O estudo desenvolvido por Bauman (2003) observou que a cultura pós-moderna (chamada de “modernidade líquida” pelo autor, conforme visto no capítulo anterior) favorece a comunidade de ocasião em oposição ao pertencimento a uma comunidade de origem. Como essas comunidades de ocasião não são mais constituídas a partir do contato de corpo presente, os vínculos tornam-se efêmeros, criados, desenvolvidos e mantidos por intermédio da rede. Nesse contexto, as redes sociais realizam o
milagre do virtual: evocam o sentimento do pertencer a uma comunidade, sem que essa comunidade realmente exista, despertando a alegria do fazer parte sem ter de arcar com o desconforto do compromisso (BAUMAN, 2003, p. 66). Percebe-se então que a Internet não representa mais um termo técnico relacionado à tecnologia e à conexão de máquinas, mas justamente o contrário: a Internet hoje é um conceito que diz respeito ao estabelecimento dos vínculos afetivos. Desta forma, o ambiente virtual é compreendido como a primazia do simulacro; o palco estrutural dos ritos contemporâneos, a subjetividade da época, uma realidade híbrida que reproduz o capitalismo em sua fase avançada. Na busca pela informação instantânea, reconhece-se como ritualidades típicas das redes sociais subordinadas ao ciberespaço (em âmbito espacial) e à aceleração da vida cotidiana (em âmbito temporal):
(1) voyerismo hiperinterativo: refere-se ao hábito reativo de ler e comentar publicações
(mensagens, fotos e/ou vídeos) dos demais usuários da rede com tamanha frequência que o sujeito chegue a desenvolver um sentimento de vinculação/ participação/ relevância na vida do outro;
(2) publicização recorrente de momentos da vida privada: relaciona-se a postagens
que mencionam localização (onde), companhia (com quem) e atividade (o quê), desenvolvidas pelo sujeito em tempo real;
(3) selfies: trata-se do desejo obsessivo-compulsivo de tirar fotos de si mesmo e publicá-
las em redes sociais, que pode ser classificado em três níveis28:
a. selfies borderline: tirar fotos de si mesmo em média três vezes por dia, mas não publicá-las em mídias sociais;
28
A distinção entre os níveis de selfies foi diagnosticada pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), que considera o “fazer selfies” um transtorno mental.
b. selfies aguda: tirar fotos de si mesmo em média três vezes por dia e publicá-las em redes sociais;
a. selfies crônica: desejo incontrolável de tirar inúmeras fotos de si mesmo ao longo do dia e postá-las em mídias sociais mais de seis vezes por dia.
(4) visibilidade social compulsória: é gerada pela aprovação e reconhecimento oriundos
da necessidade de volatilização a todo o momento;
(5) cyberbullying em tempo real: caracteriza-se pela frequência (constante) das
mensagens difamatórias ou ameaçadoras que circulam nas redes sociais e afetam emocionalmente o alvo da ofensa;
(6) melancolia do único: refere-se ao ritual de se fazer único na rede através da violentação
obliterada do outro (isto é, ter sua imagem em evidencia ao eclipsar a imagem do outro);
(7) sensibilização social hipermediática: trata-se da solidariedade de rede típica de
comunidades virtualizadas – ou seja, norteadas pela instantaneidade –, que pode ser exemplificada por ações relacionadas à doação de dinheiro por motivos nobres, adoção de cães e gatos, divulgação de maus tratos de animais, homenagem a celebridades e pessoas queridas.
A pesquisa anual "Hábitos e comportamento dos usuários de redes sociais no Brasil", realizada pela E.Life Market Research, traça o perfil do brasileiro na rede tendo como base a aplicação de 650 questionários. Sua quarta edição, referente ao ano de 2013, constatou as seguintes tendências de comportamento:
a) o Facebook é a rede social com maior percentual de cadastros e maior utilização - 81,6% dos entrevistados apontam como a rede social acessada em 1º lugar;
b) as redes sociais que mais se destacaram foram o Google+ e o Linkedln - o Google+ cresceu 14% em relação à pesquisa do ano anterior e o Linkedln cresceu 21% em cadastros e 5% em utilização;
c) o Orkut29 foi a rede social que mais decresceu - 18% em cadastros e 14% em
utilização (a rede ainda é bastante utilizada para jogos online);
d) o Instagram foi a rede que mais arrecadou usuários recentes: 22% se cadastraram no
site nos 3 meses anteriores à realização da pesquisa;
e) o acesso via celular em qualquer local é o principal local de acesso para 10,7% e a segunda principal fonte para 53,9% dos brasileiros, em comparação com o desktop (74,7%) e com o notebook (65,7%); o acesso pelo celular é quase tão frequente (61,8%);
f) 71,1% assiste TV enquanto navega na rede (20% acima do último ano) e 50,5% ouvem rádio (12% acima da pesquisa anterior);
g) 93,3% dos usuários do Facebook curtem páginas de empresas, produtos ou serviços para saber das novidades e apoiar as marcas que admiram, sendo que 48,5% passaram a admirar mais determinada marca depois de curti-la no Facebook;
h) 66,9% dos usuários acompanham as páginas dos perfis de empresas, produtos e serviços em redes sociais para ter atendimento online caso necessário – metade dos entrevistados entrou em contato com alguma empresa nos últimos seis meses por intermédio deste canal.
29 A decadência do Orkut em comparação aos demais sites de redes sociais ao longo do ano foi tamanha que seu
Em uma avaliação geral sobre redes sociais, pode-se dizer que assim como Gutenberg fez dos homens comuns leitores, as máquinas xerox permitiram a otimização do trabalho dos editores, a eletrônica e os computadores em rede transformam seus usuários em autores (McLUHAN, 1967, p. 87). A interatividade tornou-se uma exigência típica da época em curso, de tal modo que existir significa aparecer, e que aparecer significa poder. Sobre o tema, Trivinho (2009, p. 1) afirma que os alicerces em que os critérios de participação e pertencimento se apoiam apresentam-se vinculados à procura incessante por reconhecimento, prestígio e fama difusa. Em outras palavras, é como se a vida passasse, necessária e problematicamente, por redes sociais e a existência atual estivesse, fatalmente, vinculada a esse tipo de visibilidade.