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Å leve med flere kulturer kan føre til identitetsvansker og ekskludering i skole- og

Na ocasião de uma entrevista, Raimundo Alves Feitosa, com 93 anos de idade e a saúde debilitada por uma trombose, se esforçou para reconstituir uma história da qual foi o principal personagem. Com a memória falha, confundiu datas, esqueceu nomes. Aposentado, recebia uma pensão de 70 reais e vivia com as sobrinhas e outros

123 familiares em uma pequena casa na periferia de Fortaleza, no bairro Vila União. Católico, devoto de Nossa Senhora do Rosário, Raimundo Feitosa sempre foi, acima de tudo, um folião. Virou noites seguidas para cair no batuque. Solteiro convicto, “rapaz velho” , como ele próprio se definiu, foi abandonado pela noiva às vésperas do casamento e nunca mais se envolveu com alguém. Casou com o maracatu, paixão à qual dedicou o resto de sua vida. Na casinha da Vila União, quase nada lembrava o passado de Raimundo Alves Feitosa. Nenhuma fantasia antiga, nenhum troféu, nenhum recorte de jornal.

Conta, Raimundo Alves Feitosa, conhecido mais como Boca Aberta, apelido dado por seu pai, devido ao fato de quando criança ficar muitas vezes, “parado, só de boca aberta”, que por volta dos anos trinta, foi convidado por seu patrão para conhecer Pernambuco, depois de muito relutar, acabou aceitando, “Meu patrão foi embora pra Pernambuco com a família toda. Ele pelejou para me levar junto e no começo eu não queria. Ele dizia: "Seu Mundico, vamos comigo embora pra Pernambuco". É que ele me chamava assim, de Mundico. Eu até disse pra ele que não podia, que o meu lugar era aqui, com minha mãe. Meus irmãos. Então, meu patrão foi embora e eu fiquei. Meu patrão foi embora pra pernambuco com a família toda.”

Lembra ele que foi de navio não se recorda quando, acha que foi em 1930 ou 1932. Chegando em Recife se encantou pela animação do lugar, as pessoas cantando e dançando no meio da rua. Passou três ano por lá, acompanhou três carnavais seguidos, “ tinha blocos, clubes, frevos e macumba. Esse último aí, a macumba, é o maracatu. Foi de quem eu me engracei mais. Acompanhava os blocos de sete horas da manhã até o final da tarde. Depois eu ia pra casa, jantava e esperava o maracatu passar. Aí caía na dança até as quatro horas da madrugada. Ia pra casa, tomava banho e voltava pra festa.”

Quando perguntado sobre a criação do maracatu Az de Ouro, em 1936, diz: “ logo que voltei. Um dia, era perto do carnaval, saí do trabalho e vi as orquestras tocando. Estava com dois amigos que tinham ido comigo tomar umas cachaças. Eu disse pra eles: "negrada, eu queria fazer um bloco aqui em Fortaleza, mas tinha que ser um bloco bonito, uma coisa que eu vi lá em Pernambuco e gostei muito". Eles aí perguntavam que tipo de bloco era. Eu respondi: Ma – ra – ca – tu! Eles nem sabiam o que era isso.”

Afirmou Boca Aberta, que, inicialmente, o Az de Ouro era formado apenas por amigos, no primeiro ano em torno de 42 pessoas, no ano seguinte 80, e no terceiro em torno de 500. Participou durante 13 anos, juntamente, com seus seis irmãos, até ficar

124 impossibilitado devido a problemas de saúde, “Nunca mais eu vi o maracatu. Mesmo porque não tenho mais vista pra isso. Pra mim ficou tudo escuro. Outro dia um senhor da prefeitura me chamou pra ir ver o maracatu no carnaval e eu não fui. Não fui e nem vou mais. Não tenho mais saúde. Não vou, Se tivesse vista, eu ia.” (O Povo, 13 maio. 1995)

O Maracatu cearense é diferente do pernambucano em vários aspectos. De início, o maracatu cearense apresentava-se durante as festas religiosas ligadas a igreja Católica, e, atualmente, sua manifestação se dá principalmente no período do Carnaval. Os personagens são diferentes. O cearense conta com o balaieiro, os pretos velhos e uma maior representatividade da ala dos índios; ainda, no maracatu pernambucano há várias calungas (bonecas pretas), enquanto que no cearense há apenas uma, levada por uma negra do cordão, especialmente, designada à essa missão. Além disso, sempre houve, no Ceará, a tradição de todos os brincantes, com exceção dos índios, pintarem o rosto com tinta preta brilhante.47 No Maracatu pernambucano, os brincantes não pintam os rostos. Quanto à musicalidade, o ritmo e os instrumentos utilizados são diferentes. O ritmo do maracatu cearense é mais lento, cadenciado, dolente e solene. O maracatu pernambucano é mais acelerado, usando a caixa com esteira, com ritmos característicos: baque virado e baque solto.

O compositor e músico, Calé Alencar, defende ser o maracatu fortalezense originário da coroações de Reis do Congo, acontecidas a partir do século XVIII nas

47 Uma das singularidades apresentadas no maracatu fortalezense é a prática dos participantes pintarem o

rosto de preto. Tal ato despertou a atenção e a discussão de vários pesquisadores sobre o assunto. A presença do falso negrume nos maracatus fortalezenses sempre intrigou os pesquisadores nos seus estudos. A antropóloga, Ana Claudia Rodrigues Silva na dissertação intitulada, “Vamos maracutá!!!! Um estudo sobre os maracatus cearenses”, buscou entender por que os brincantes do maracatu cearense pintam o rosto de preto. Para responder a essa questão a autora remeteu-se a Raimundo Feitosa, que numa entrevista concedida a um jornal local afirmou que no seu maracatu os brincantes pintavam o rosto para que ficassem “bem pretos” conforme aqueles que tinha visto em Pernambuco, “pois no Ceará não tem preto”. Claudia Rodrigues analisou o comentário feito por Raimundo Feitosa como sendo fruto de uma ideologia do “branqueamento”, que surgiu no Brasil após a década de 20 do século passado, e pregava a mestiçagem da população, “ nessa mistura o negro teria desaparecido do Ceará”. Defende ela que apesar da manifestação ter uma forte presença na cidade, principalmente, durante o carnaval, sofre muita discriminação por parte da “elite”, que entende que ser negro é ter a pele escura. “ Para a elite dominante do Ceará, ser negro é “ter pele escura”. Assim o maracatu, ou as pessoas que fazem o folguedo, não são consideradas negras, por isso pintam o rosto de preto.” (SILVA,2004, p. 78) Entende a autora que a ideologia do branqueamento foi absorvido por grande parte dos participantes dos maracatus de Fortaleza. O fato de pintarem o rosto de preto reforça a idéia de não existirem negros no Estado. Mas observa também, que o fato de ser coroada uma rainha negra, sendo ela negra ou não, trás a representação de negros no Ceará. Segundo a autora a identidade afro está presente não apenas no enredo da manifestação que apresenta aspectos de uma cultura africana e descendente, mas também nos brincantes que independentes de se auto afirmarem negros ou não, possuem no mínimo uma identificação com a cultura negra, que as fazem escolher o maracatu para brincar o carnaval

125 igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos espalhadas por Fortaleza e cidades interioranas como Sobral, Icó, Aracati e Crato.

Numa entrevista realizada pela jornalista Aurora Miranda Leão, e publicada no site Aurora do Cinema, diz o Músico:

Bem, o maracatu é uma expressão cultural do Nordeste do Brasil que tem uma relação cultural com a nossa afrodescendência e, depois de passar um período dentro das festas do ciclo do Natal, migrou para o carnaval, sendo hoje uma das expressões mais importantes do ciclo carnavalesco no Nordeste. Podemos dizer que a origem são as coroações de Reis do Congo que aconteciam nas igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Então, havia em vários lugares do Brasil, não só no Nordeste, as coroações que já aconteciam em Portugal no século XVI. Os negros trouxeram esse costume para o Brasil e os povos africanos aqui deram seqüência às coroações de reis do congo, que eram momentos de confraternização e de convivência social, cultural, musical, no dia da eleição da diretoria das irmandades de Nossa Senhora do Rosário. E aí havia uma grande festa: a coroação do Rei e da Rainha... Como havia um cortejo pelas ruas, isso acabou originando tanto o reisado, como a gente conhece o reisado de Congo, como também os maracatus que desfilam no carnaval. Por exemplo, o afoxé baiano, que tem essa relação muito estreita com o cortejo, tem a mesma origem. E podemos dizer que existem pelo menos três tipos: o maracatu em Pernambucano com dois tipos: a versão urbana, com uma música de sotaque de baque virado, e o maracatu rural, com uma característica mais indígena, de baque solto. E tem o maracatu cearense, uma expressão cultural muito própria do povo do Ceará, sobretudo da cidade de Fortaleza, e daqui ele influenciou algumas cidades do interior como Itapipoca, Uruburetama, Aquiraz... mas como expressão cultural cearense, ele é baseado na capital. A partir de 1937, com o maracatu Áz de Ouro, nós verificamos a introdução no desfile carnavalesco e até hoje vamos completar 71 anos no carnaval de rua. Antes disso, os grupos desfilavam de forma espontânea pelas ruas da cidade durante o carnaval. E, mais atrás, tínhamos o maracatu no ciclo das festas natalinas, como eu

126 falei, de onde foram excluídos, e foram encontrar abrigo no carnaval.” (http://www.auroradecinema.com.br; s.d)

Também, numa entrevista publicada no jornal Diário do Nordeste, de 25 de março de 1998, o pesquisador Eduardo Campos afirmou ter sido o maracatu cearense originado à partir do ritual de Coroação dos Reis do Congo realizado pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Capital (representante fortalezense da irmandade do Rosário dos negros).

Como Eduardo Campos, alguns pesquisadores dentre eles, Tinhorão, Ascenço Ferreira, Mario de Andrade, Guerra Peixe, Teo Brandão, Pereira da Costa, dentre outros, afirmam ser o cortejo do maracatu reminiscência das festas e danças que se realizavam por ocasião do coroamento dos reis do Congo.

O fato é que antes do Raimundo Alves Feitosa desfilar com seu maracatu Az de ouro, em 1937, pelas ruas da cidade de Fortaleza, Gustavo Barroso já fazia referência da manifestação em 1917. O autor observou que no maracatu fortalezense praticado no inicio do século XX, todos os figurantes se apresentavam vestidos “de negras, de saia e cabeção, à maneira baiana, mas com altos cocares de penas de ema à cabeça”. O cortejo era formado por duas filas de brincantes que eram conduzidos por um tocador de ganzá ou maracá de folha de Flandres.

As representações tecidas pelo autor apresentam um forte teor de estranhamento frente à manifestação “ao chiado do instrumento bárbaro, o maracatu atravessa as ruas, impenetrável e triste, dançando arrastadamente, cantando em voz cavernosa versos curtos sem significação uns, outros cuja significação se perdeu com o tempo, quase todos eivados de expressões africanas adulteradas pela senzala, misturadas a palavras portuguesas”. (BARROSO,1988,p.13)

“Qual a sorte sobre a terra

De quem teve de nascer?”

O coro selvagem soluçava, ferindo o solo com as pontas das lanças:

127 “Morrer! Morrer!”

O guia do maracatu, saltando meio acurvado e agitando o maracá, pergunta:

“Fausta, Fausta, cadê Mariana?” O coro, lúgubre, responde: Mariana! Mariana!

Torna o tocador, em voz soturna: “Que negra safada só é Mariana!” As duas filas replicam:

“Amarra a saia com jitirana!”(BARROSO,1988p.17)

Afirma o autor, que os manifestantes seguiam em cortejo pelas ruas da cidade de Fortaleza, e vez por outra, paravam diante das residências familiares, e após receberem determinadas quantias, organizavam-se numa roda e executavam uma dança “no mesmo compasso musical, plangente, langoroso, hierático, africano” (BARROSO,1988,p.18)

Teia, teia, teia de engomar Vira de banda, torna a revirar. Teia, teia, teia do mar

Nossa rainha para coroar. (BARROSO,1988,p.45)

João Nogueira, contemporâneo de Barroso, também fez algumas observações sobre a prática do maracatu fortalezense do final do XIX e início do XX. Diz o autor que a manifestação era formada apenas por homens, que saiam trajados de saias brancas e cabeções de renda, trazendo o corpo e o rosto pintados de negro. “ á simples vista pareciam africanos. Não dançavam. Andavam lentamente, pelas ruas. Assim vimos passar, algumas vezes, estes precursores das famosas Marretas. Acompanhados de reco- recos e de maracás, cantavam: “Aruenda tenda cadê ioiô. A nossa rainha já se coroou.” (NOGUEIRA,1981,p. 43)

Provavelmente, o maracatu cearense tenha se originado dessas coroações de Reis que aconteciam na Província desde o século XIX. De fato, o maracatu é um ritual, que consta de um cortejo com músicas e danças que precede a coroação de uma rainha negra. Os registros mais antigos da manifestação apontam a ocorrência dos desfiles no

128 período denominado “ciclo natalino”, nas festas da Nossa Senhora do Rosário e de Corpus Christi, onde não eram bem aceitos.

Esses maracatus antigos recebiam a denominação de bairros e ruas da cidade de Fortaleza, do Outeiro; do Beco da Apertada Hora; do Morro do Moinho; da rua de São Cosme e do Manoel Conrado. A partir de 1937, com o desfile de estréia do maracatu Az de Ouro, o maracatu cearense passou a assumir a formação de um bloco carnavalesco e a desfilar durante os carnavais, como ocorre até hoje.

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