2. Narrative reconstruction through comparison
3.6 Fox News – Talking Points
Os neologismos – conforme discutido anteriormente – são mecanismos recorrentes da oralidade que permitem a manutenção da língua em constante processo evolutivo. Mas, no imaginário criativo de JGR, diversas culturas, historicidade e regionalismo se transfiguram espelhadas pelas “novas” palavras do vocabulário do autor mineiro.
No conto Meu tio o Iauaretê, a riqueza de significados oriundos principalmente da língua tupi e do português – isso sem falar das explorações da cultura e dialetos regionais do Brasil e uma ou outra expressão com raízes africanas – é fabulosa.
Vale ressaltar que JGR como que brinca com as palavras, transformando-as tal qual uma combinação de roupas das quais se apropria para determinados fins. Assim o fez com o tupi, com o qual muito se familiarizara, bem como com tantas outras línguas do extenso e mágico vocabulário.
Para ter ideia de tal magia construtivista do renomado autor, empresta-se do conto como exemplo inicial a palavra Macuncôzo: “[...] Eu Macuncôzo... Faz isso não, faz não... [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 159). Buscando deter o interlocutor para que não lhe desse um tiro – apesar do relato de ter matado vários negros (Tiodoro e Bijibo) –, o protagonista tenta identificar-se com a raça africana na tentativa de compadecer o atirador.
Segundo Campos (1970, p. 75), o próprio JGR lhe escreveu uma carta explicando o termo Macuncôzo, que a priori faz referência ao lugar (Sítio Macuncôzo), mas, em continuidade explicativa dada nessa carta, o escritor mineiro informa:
O Macuncôzo é uma nota africana, respingada ali no fim. Uma contranota como tentativa de identificação (conscientemente, por ingênua, primitiva astúcia? Inconscientemente, por culminação de um sentimento de remorso?) com os pretos assassinados; fingindo não ser índio (onça) ou lutando para não ser onça (índio), numa contradição, perpassante apenas, na dersordem, dele final, o sobrinho-do-iauaretê emite aquele apelo negro, nigrífico, pseudonigrificante, solto, só, perdido na correnteza de estertor de suas últimas exclamações (ROSA apud CAMPOS, 1970, p. 75).
A suposta ideia de significação do termo anterior parece confirmar-se nas palavras seguintes ditas pelo protagonista pouco antes de ser morto, pronunciadas entre pausas e grunhidos: Remuaci e Rêiucàanacê (ROSA, J.G., 1969, p. 159).
Com origem tupi, a palavra Remuaci, segundo Masucci (1978, p. 36), é formada da junção do prefixo subordinativo tupi ré (“depois de”) mais a sílaba mu (“parente, raça, amigo, aliado”) e o sufixo aci, que é a abreviação de Moacyr (“sentido, doente”). Logo, ao referir o termo criado com elementos do tupi, JGR dá o sentido grosso modo de uma lamentação do protagonista ao interlocutor em querer saber por qual razão ele o está matando depois de o visitante ter sido acolhido. Novamente uma apelação para o emocional do viajante.
Já Rêiucàanacê, segundo Boudin (1978, p. 225), é formada pelo prefixo tupi rê (“apesar de” também traduzido como “amigo”), yucá com variação tupi de yuká (“matar”) e o sufixo tupi anacê (“parente”). Nesse instante do conto (ROSA, J.G., 1969, p. 159), a expressão remontada por JGR reforça a palavra analisada anterior, referindo-se novamente ao protagonista quando tenta emocionar o agressor no sentido de poupá-lo, informando-lhe que o tinha mais do que como amigo, a ponto de vê-lo como parente.
No trecho “Marido falava bobagem, em noite de lua incerta êle gritava bobagem, gritava, nheengava...” (ROSA, J.G., 1969, p. 133), segundo Ferreira (2007 [1928], p. 98), tem- se o termo nheenga, variação de Nhemgatu (a língua do tupi), que significa “falar”. No trecho, JGR acrescenta ao termo tupi o sufixo do português ava (desinência verbal), a ponto de conjugar a palavra em português tal como se ela fosse um verbo qualquer, num procedimento claro de neologismo. No sentido adaptado nesse trecho, entende-se como “falar”, ou, segundo o autor,
nheengar.
Já em “[...] ela então esbraveja, mopoama, mopoca, peteca, mata cachorro de todo lado [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 132), a palavra peteca, segundo Tibiriçá (1984, p. 138), é um termo do tupi que significa “bater com a palma da mão” e mopoca, também do tupi, significa disparar. Porém, há mais uma vez, mais do que uma aglutinação, pois não consta na maioria dos dicionários pesquisados a palavra mopoama, mas de fácil dedução, já que JGR usou o termo tupi mopoca, omitindo o sufixo ca e somando à palavra outra também de origem tupi, ama, que significa, segundo Tibiriçá (1984, p. 56), “ficar ou estar de pé”. Assim, pode-se entender que o uso de tal palavra nesse contexto lembra o gesto da onça ao dar saltos sobre a presa, caindo quase em pé enquanto desfere patadas, semelhante ao bater com a palma da mão aberta.
Em continuidade ao fato de como era relatado o ataque da onça em várias partes do conto, o narrador esclarece que o informado felino “[...] pula de lado, muda o repulo no ar. Pula em-cruz. É bom mecê aprender. É um pulo e um despulo” (ROSA, J.G., 1969, p. 132). Nota-se claramente no uso da palavra “repulo” o prefixo português re, que dá ideia de repetição ou retomada; somado ao substantivo “pulo”, também do português e que dá origem ao substantivo,
segundo o texto, “repulo”, o que faz lembrar do gesto da onça de retroceder a ponto de melhorar a investida sobre a caça.
Não diferente ocorre com a palavra “despulo”, no mesmo trecho, cujo prefixo português “des”, somado também ao substantivo português “pulo”, pode significar ato negativo, ou, no trecho citado, de não cumprimento do suposto investimento felino.
Outro parágrafo em que o autor usa o prefixo português “re” ocorre em “Dormindo e redormindo, com a cara na mão, com o nariz do focinho encostado numa mão...” (ROSA, J.G., 1969, p. 138). Neste caso, pode-se supor que o autor se utilizou desse neologismo para enfatizar a simplicidade do narrador com a marca de coloquialismo. Quanto ao sentido dado ao contexto, pode-se avaliar que se trata do fato de a onça dormir em poucos sonos, ou seja, pequenos cochilos, que leva a crer que está repondo as energias, mas atenta a qualquer eventualidade.
No trecho “Se é coelho, bichinho pequeno, ela comeu até às juntas: engolindo tudo, mucunando, que mal deixou os ossos” (ROSA, J.G., 1969, p. 133), tem-se na palavra
mucunando o acréscimo de um sufixo português, precisamente um gerúndio, o qual é somado
possivelmente à palavra tupi mucura (mu’kura), que, segundo Ferreira (2007 [1928], p. 94), significa “mamífero marsupial da família dos dedelfídeos”, ou seja, algo semelhante ao gambá. No contexto, o uso de mucunando por JGR refere-se ao fato de a onça mastigar um bicho pequeno, já que o gerúndio usado na formação da palavra dá ideia de uma ação em continuidade, no caso, a mastigação.
Outro uso de acréscimo de sufixo do gerúndio é percebido no excerto “Vi aqueles olhos bonitos, olho amarelo, com as pintinhas pretas bubuiando bom [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 137), na palavra bubuiando, em cuja formação está a expressão bubuia (be’bui), do tupi, que significa, segundo Ferreira (2007 [1928], p. 30), “leve” ou “capaz de boiar”; mais o gerúndio português, como sufixo, dando novamente a ideia de um ato instantâneo. Logo, neste trecho, refere-se ao fato de a onça “espionar” ou “vigiar” à espreita de uma possível presa.
Referindo-se ainda à onça, quando o narrador conta que “Dentro das orelhas, é branquinho, algodão espuxado [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 139), nota-se uma elaboração típica do escritor mineiro em que supostamente, dado o contexto, se utilizou para a criação de “espuxado” as duas primeiras sílabas da palavra portuguesa “espuma”, para se referir à maciez da pele felina, somada às sílabas finais da palavra portuguesa “espichado”, para se referir ao fato de as orelhas da onça estar esticadas, ouvindo cada movimento ao redor; ou, para manter a grafia da palavra no conto, reutiliza talvez outra expressão: “puxado”, neste caso, para manter a continuidade da ideia de “orelhas esticadas”.
O termo tupi canguçu (akãgu’su) em “Cangussú braba é a Tibitaba – onça com sobrancelhas [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 141), segundo Ferreira (2007 [1928], p. 37), significa “onça pintada de cabeça grande”. Contudo, em “[..] aqui mesmo pertinho, tem a onça Mopoca, cangussú fêmeo” (ROSA, J.G., 1969, p. 140), a palavra fêmeo, termo em português designado para identificar o sexo feminino, foi usado com o sufixo “o”, indicativo de masculino. Nesse caso, pode-se supor que a criação do autor é indicativo, no texto, do fato de a onça ser tão brava a tal ponto que suas atitudes e forças são mais comuns no sexo masculino, assim, incomum para a espécie.
Outro termo que merece destaque é “barulhando” na frase “Iquente! Ói cavalo seu barulhando com medo” (ROSA, J.G., 1969, p. 145). Nela, JGR utilizou-se do substantivo em português “barulho” mais o acréscimo de sufixo do gerúndio também em português para criar o verbo “barulhar”. Aí, dá o sentido de que o cavalo está com medo e demonstra isso provocando barulhos estranhos enquanto se movimenta.
A recorrência do gerúndio tão presente no decorrer do conto Meu tio o Iauaretê ainda vai prolongar-se com certa frequência como um recurso utilizado por JGR na construção de neologismos. Como exemplo, pode-se encontrar no trecho “Quando tem um preto numa comitiva, onça vem acompanhando, seguindo escondida, por escondidos, atrás, atrás, atrás, ropitando, tendo olho nele” (ROSA, J.G., 1969, p. 151) o termo “ropitando”, que, segundo Tibiriçá (1984, p. 168), vem do tupi ropytá e significa “ficar com” ou “deter”, é acrescido de gerúndio português, como sufixo, dando novo significado ao uso. Contextualizado, o elemento citado tem o sentido de “vigiando” ou “analisando” a futura presa.
Não distante do trecho anterior, encontra-se a terminologia “beiradeando” com junções de palavras do português: “Foi outro prêto, prêto Bijibo, a gente vinha beiradeando o rio Urucúia, despois o Riacho Morto [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 151). Nesse enfoque, tal palavra refere-se à soma de “beira de” e (novamente) ao gerúndio “ando”, para formar “beiradeando”, tendo, pois, como sentido, andar à beira do rio ou na beirada (margem).
Em continuidade ao tão explorado gerúndio da língua portuguesa, tem-se a expressão “munhamunhando” presente no trecho “Tou rindo de mecê não. Tou munhamunhando sozinho pra mim [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 128). Segundo Boundin (1978, p. 124), é formado pela junção do termo tupi munhã (variação de mu-hê’ê), que significa “dizer ou manifestar bobagens”. A duplicação tupi presente na palavra representa a pluralidade, logo, tem-se o sentido de reforçar a ideia de dizer algo repetidamente. Como sufixo, a palavra recebe o gerúndio do português dando-lhe uma possibilidade de sentido, que no caso seria “falando ou
pensando bobagens” ou, seguindo a temática de neologismo proposta pelo autor, dir-se-ia que se trata também de “bobageando”.
No segmento “Lua tá vesprando, mais logo sobe” (ROSA, J.G., 1969, p. 128), a construção “vesprando” foi dada com a soma do substantivo português “véspera” ao verbo também em português “esperar” ou “aguardar” acrescido do gerúndio “ando” como sufixo. Assim, tem-se o sentido posto na frase de que a lua estava prestes a surgir.
Na sentença “Prêto tinha medo, sabia que onça tava de tocaia: onça vinha, sacaquera, tôda noite eu sabia que ela tava rodeando, de uauaca, perto do foguinho do arranchamento...” (ROSA, J.G., 1969, p. 151), uma palavra merece destaque, precisamente “sacaquera”. Ela é formada, segundo Tibiriçá (1984, p. 168), pelo prefixo tupi sá, que significa “olho (em composição)”, mais o substantivo tupi caquera (kaa’kera), que segundo Ferreira (2007 [1928], p. 38) significa “arbusto da família das cesalpináceas, ‘planta’ que dorme”. Ao formar a palavra “sacaquera”, JGR deu-lhe o sentido situado no contexto de uma onça que vigiava as vítimas escondida detrás das folhagens das plantas de folhas largas.
No decorrer do trecho “[...] caçador rico, jaguariara, vêm todo ano, mês de agosto, pra caçar onça também” (ROSA, J.G., 1969, p. 131), encontra-se o léxico jaguariara, que é formado pela junção de dois elementos do tupi: ya’wara (“onça”) e yara (“senhor ou dono”). Logo, tem-se o sentido dado à nova palavra de “dominador de onças” ou, conforme apresentado no contexto do conto, “caçador de onça”.
Já no trecho “Estremece de diante pra trás, arruma as pernas, toma o açôite, e pula pulão! – é bonito...” (ROSA, J.G., 1969, p. 133), no “pulão” aqui presente, ao colocar o sufixo aumentativo “ão”, JGR agrupa dois léxicos repetidos quanto à grafia, mas não ao significado, pois o termo “pula” deriva do verbo “pular”, enquanto “pulão” deriva do substantivo “pulo” acrescido do sufixo aumentativo “ão”.
Enfim, essas são algumas das criações de JGR que permitem ter uma ideia da facilidade com que o autor “brincava” com a língua, em que palavras eram reformuladas a ponto de adquirir não nova semântica, mas um realce, uma ênfase na raiz formativa.
As representações de espaço, ambientes e seres presentes no conto tornam-se vivas na mente dos apreciadores da referida obra graças às infinitas ilusões criadas a partir da linguagem utilizada.
Logo, JGR, ao dar à luz palavras que encantavam pela simples forma como foram emolduradas, traz um ar à imaginação a tal ponto em que a ficção se confunde com a realidade. É o fabular rosiano que se espelha na fundição de léxicos oriundos do tupinismo, de vários dialetos da língua portuguesa ou até da influência europeia.