2. Narrative reconstruction through comparison
3.3 America’s adversaries
Das observações de Bakhtin sobre gêneros primários, em que a interação verbal se efetiva primeiramente por meio do oral, faz-se necessário uma ressalva, pois, ao referir particularidades da modalidade oral (tratada por Marcuschi e outros autores como oralidade), torna-se inevitável não observá-la sem o universo escrito. Para isso, informes distintos se fazem necessários.
Nessa perspectiva, tendo em vista os acertos teóricos antes apresentados, considera-se relevante entender a relação do tratamento da língua (falada ou escrita) segundo Marcuschi (2008), que sugere a aparente distinção entre (1) oralidade e letramento e (2) fala e escrita, em que uma (1) está interligada com as práticas sociais, enquanto a outra (2) às modalidades de uso da língua.
Para Marcuschi (2008, p. 25), oralidade é “[...] uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso”.
A essa teoria se somam as ideias de Ong (1982 apud MARCUSCHI, 2008; e URBANO, 2011), quando se refere à oralidade como um grande meio de expressão comunicativa e responsável pela racionalidade, sendo de extrema necessidade para a identidade social, regional ou grupal. Como padre jesuíta, Ong teve o privilégio de reconhecer as particularidades constitutivas da língua falada no percurso como religioso e não só se utilizou da oratória para evangelizar como também viu nos outros as diferentes maneiras com que as identidades sociais se construíam.
Padre Ong estabelece uma distinção ao se referir aos estudos da língua falada e escrita em dois níveis de prática da oralidade: a oralidade primária e a secundária. A primeira refere-
se às pessoas que convivem em sociedade sem conhecimentos da escrita, ou não familiarizadas com ela, ou intocadas pelo letramento, realidade comum ainda a certos povos indígenas ou isolados – neste caso, costumes artísticos, epopeias, danças, exibições ou crenças são preservados e retransmitidos oralmente às gerações futuras das sociedades tribais ou interioranas.
Para o padre, as palavras, que são sons, não possuem suporte visual, logo, estão vinculadas diretamente a eventos, acontecimentos e ocorrências do meio. Por ser efêmero, o som, segundo Ong, tem íntima relação com o tempo, diferentemente de outras sensações humanas. Nesse caso, a palavra se torna mais um modo de ação do que de referenciar o pensamento, tática comum às comunidades orais. Por sua vez, além da prática comunicativa, (a palavra se torna responsável em manter viva a memória social; e tal manutenção ocorre, então, por meio do uso oral da língua.
Ainda nessa primeira perspectiva acerca da oralidade, observam-se algumas características peculiares comuns ao universo sonoro e relevantes para o presente trabalho.
Como exemplo, cita-se a espontaneidade discursiva, de certa forma descompromissada ou com tom emocional predominante conforme o grau de intimidade dos usuários linguistas. Do ponto de vista dialogal, a redundância do “já dito” também é aspecto constitutivo desse universo, pois infere a ideia da situação interacional face a face e de suas relações participativas e empáticas de comunicação. O falante adiciona informações e promove alterações à fala de acordo com as reações apresentadas pelos ouvintes.
Nesse caso, percebe-se que a oralidade primária se faz dependente não só desses elementos, mas daqueles ligados ao universo físico da pessoa, e dele se faz também dependente. Em outras palavras, os gestos, a imitação e a repetição se tornam complementares ao oral para que as intencionalidades dos usuários tenham a efetiva exposição do pensamento e a devida resposta compreendida pelos interlocutores.
Já a oralidade secundária é aquela que, segundo o padre Ong, de certa forma depende da escrita para existir e funcionar. Refere-se a pessoas com grau de alfabetização baixo ou realmente semialfabetizadas, mas que possuem, mesmo que diminuído, um considerável contato com as práticas do universo escrito. Convivem em sociedades relativamente letradas, pois têm a oportunidade de estar vinculadas a simples particularidades do cotidiano, como, por exemplo, ler uma placa e tomar um ônibus, assistir a TV ou trabalhar como empregados em casa de patrão com formação e linguagem culta. Isso não impede que analfabetos possam participar de atividades comuns diárias, como as citadas, mas são vistas como parcialmente
letradas, cujo conhecimento, nessa perspectiva, ocorre naturalmente, longe da sala de aula, não aprofundada ou limitada aos padrões ideais convencionais de letramento.
Segundo Marcuschi (2010, p. 25), letrado é o indivíduo “que participa de forma significativa de eventos de letramento e não apenas aquele que faz um uso formal da escrita”. O letramento, segundo o autor, é como uma espécie de condição em que determinado grupo se apropria da escrita e o faz com competência e desenvoltura. É tido, segundo Marcuschi (2010, p. 16), como prática social “formalmente ligada ao uso da escrita”.
Para Urbano (2011, p. 33), ainda há uma terceira classificação denominada oralidade
letrada, a qual se refere à competência com que o usuário tem em tratar o oral e o escrito
adaptando-os ao tratamento culto ou ao popular conforme a necessidade comunicativa ou os devidos contextos de produção.
Diga-se de passagem sobre essa adaptação da fala às necessidades comunicativas que ela requer um domínio linguístico do sujeito para com seu uso, já que se devem observar os fatores externos que podem influenciar na escolha mais ponderada ou descuidada da língua. A respeito, Preti (2005, p. 22) advoga que muitos são os casos de pessoas que se apropriam do “bom uso” do que denomina de variação de linguagem para certos fins argumentativos.
Para o autor:
[...] problemas de variação de linguagem provocados por variação de situações interacionais já tinham demonstrado que falantes cultos podem utilizar uma variedade de registros que vai do formal ao coloquial, em função de suas necessidades de comunicação. E, mais: é a possibilidade dessa variação de registros que nos permite identificar o falante culto real e não seu conhecimento maior ou menor das regras da gramática tradicional, conhecimento de que se utilizaria muito mais na língua escrita (PRETI, 2005, p. 22).
Apesar de não se discutir a questão da variação, ressalta-se que ao falar sobre adaptação da língua às situações comunicativas, segundo Preti (2005), o descuido das escolhas linguísticas pode afetar a forma de como o outro avalia o sujeito quanto à competência comunicativa. Os estereótipos criados ao elevar uma modalidade em detrimento da outra é objeto de investigação por muitos pesquisadores.
A citação sobre variação é relevante ao referir Tonho Tigreiro, protagonista do conto
Meu tio o Iauaretê, quando inevitavelmente o leitor se deixa levar pelas armadilhas de JGR em
que o descuido cria o estereótipo de um caboclo dotado de pouca inteligência.
Outra recorrência que corresponde a uma das marcas características do universo da modalidade oral é a repetição de palavras, que se torna constante na fala dos sujeitos como estratégia discursiva no sentido de reforçar uma afirmação, captar a atenção do ouvinte ou ganhar tempo para preparar a formulação de dada proposição.
A respeito, Marcuschi (1996 apud FÁVERO;ANDRADE; AQUINO, 2009b, p. 61) delega que:
A repetição é uma das atividades de formulação mais presentes na oralidade, podendo assumir um variado conjunto de funções. Dentre elas, podemos destacar a sua contribuição para a organização do discurso e a manutenção da coerência textual, bem como a organização tópica e a geração de sequências mais compreensíveis.
Cabe citar uma observação teórica mais recente mas não diferente na continuidade do assunto sobre repetição de palavras. Trata-se de Piaget (1983), que firma que expressões repetidas ocorrem mais comumente no homem na fase infantil, precisamente na infância, que se estende do nascimento aos 2 primeiros anos de vida, fase denominada por ele de período sensório-motor, cuja repetição balbuciada de uma ou outra palavra recebe, segundo o autor, o nome de ecolalia.
Para Fávero, Andrade e Aquino (2009b, p. 61), as repetições “enquanto atividade de formulação textual conduzem à produção de segmentos inteiros duas ou mais vezes, motivados por fatores de ordem interacional, cognitiva, textual”.
Nos textos escritos, a repetição, segundo Marcuschi (2008), é uma tentativa de aproximar da oralidade por meio de particularidades linguísticas comuns da fala.
Para Preti (2006, p. 128), a repetição pode desencadear uma espontaneidade que promove certo ritmo que os interlocutores “imprimem à sua participação conversacional”, o que, no caso, faz com que o texto se aproxime mais da realidade de uma interatividade entre dois falantes. Segundo o autor:
A repetição também contribui para o envolvimento entre os interlocutores numa conversação, que se desenvolve num processo de colaboração entre os interlocutores (um discurso a dois). A ratificação das ideias e até mesmo a discordância são índices de que os falantes estão envolvidos no desenrolar do tema conversacional (PRETI, 2006, p. 128).
Outro fator característico da modalidade oral é a predominância de frases curtas, inacabadas, divididas frequentemente para auxiliar na memorização das informações compartilhadas na interação dos falantes. Na escrita, percebe-se que esse recurso é pouco utilizado, já que a tendência das frases é ser mais elaboradas e revisadas. Alguns autores – tal como em JGR – se utilizam dessas divisões de frases como estratégia discursiva para dar – dentre outras opções possíveis – a sensação ou a concepção de aproximação ao universo do oral.
A respeito da divisão das frases, principalmente por pequenas pausas, Preti (2006, p. 133) diz que:
A divisão nos mostra comportamentos comuns em fala espontânea: frases curtas, períodos simples, justapostos, um “mas” introduzindo uma adversativa, só identificável pelo contexto, uma estrutura double bind, em que um elemento central pode ligar-se à direita ou à esquerda da frase; frases mínimas interrompidas, abandonadas e retomadas posteriormente pela repetição.
Característica comum da expressividade oral são os sufixos ora representados pelo grau aumentativo, ora pelos diminutivos. Segundo Preti (2006), o grau diminutivo pode indicar tanto valor de apreciação, elogio, ternura ou humildade, quanto pode conotar ironia, desdém ou irritação. Trata-se de uma particularidade mais comum (mas não única) da modalidade oral, por estar vinculada à espontaneidade, já que na escrita se pode ter com mais frequência por meta a objetividade. Acrescido à palavra, o sufixo tem um tom neológico, por agregar possíveis novos significados.
Corresponde ao tratamento mais frequente do uso coloquial da língua tanto sejam os sujeitos que usam dessa forma (sufixos) de expressão linguística. Pode-se especular, por exemplo, que tanto o aumentativo quanto o diminutivo são recursos mais comuns do universo juvenil, no sentido de afetividade ou ternura, pois nos adultos o uso desses elementos tende mais frequentemente – salvo exceções – a representar desdém ou ironia.
Quanto aos níveis de tratamento da língua, por muito tempo houve diferença dicotômica entre oral e escrito, em que a fala era considerada o lugar da recorrência coloquial e a escrita o do culto.
Segundo Koch (1992, p. 68), a relação entre fala e escrita é mais acentuada por diferenciações do tipo que se observa no Quadro 1, a seguir.
Quadro 1 – Diferenciações entre fala e escrita
Fala Escrita
Não-planejada Planejada
Menor densidade lexical Maior densidade lexical
Pouco elaborada Elaborada
Predominância de frases curtas, simples ou coordenadas Completa Fonte: KOCH (1992)
Quanto a questão da modalidade oral (ou oralidade – termo usado, como vimos, por alguns autores), portanto, vários fatores devem ser observados em sua execução. Se de um lado o oral está vinculado às situações comunicativas, do outro os sujeitos se utilizam de elementos que enriquecem a qualidade comunicativa ao escolher essa modalidade linguística. É o caso, por exemplo, do uso de gestos corporais ou de tonalidades vocais de que se vale o interlocutor ao expressar ideias ou argumentar com o outro. Fatos que pouco ou quase não seriam possíveis
na modalidade escrita. Obviamente, há características da escrita que também não seriam possíveis na fala. Nesse intuito, o que se torna notável é que as características peculiares da modalidade oral aqui propriamente discutidas estão intrinsecamente interligadas à interação e aos sujeitos e à escolha linguística apropriada para que a interação ocorra efetivamente. A manutenção do conhecimento humano veiculado pelo uso da língua permite que a sociedade se desenvolva ao longo do tempo.