3. Metode og analyse
3.3 Forskningsdesign
O lugar de onde fala a autora desta tese e o que diz ao escrevê-la? Para responder a essas questões, peço, novamente, licença para escrever na primeira pessoa do singular. Não sei como as demais pessoas conseguem escrever uma dissertação de mestrado, um artigo publicável, ou uma tese de doutorado. Eu só tenho conseguido fazer isso a partir da observação. Fico atenta ao modo como as demais pessoas realizam semelhantes tarefas. Assim, quando fiz o mestrado, li dissertações de outras pessoas que haviam tratado, ou não, de tema semelhante ao meu. Quando escrevo artigos, me esforço para ler o máximo de livros e artigos de outros autores que tratam daquele o tema. Nessa leitura, vou além de me ater ao conteúdo. Observo também a forma. A estrutura de algumas frases que considero bonitas ou de fácil compreensão, mas também daquelas que me deixam uma má impressão. Observo o modo como determinados fenômenos foram nomeados, a metodologia empregada, dentre outros. Nunca fiz isso com a intenção de plagiar, mas de aprender a fazer (ou como não fazer!). E nesse processo de aprendizagem, pode acontecer de discordar do que vi e propor outras maneiras de fazer.
Com esta tese não foi muito diferente: olhei outras teses, apesar de ao final me parecer que, pelo menos na forma, não consegui seguir o padrão: teoria, caso empírico, discussão e conclusão. Não consegui fazer assim pelas razões expostas neste capítulo: estudei o caso, e a leitura que tive dele me orientou na escolha das perguntas de pesquisa e da teoria que me ajudaria a respondê-las. Mas não é disso que quero falar aqui. Quero começar confessando que ao ler algumas teses, fiquei impressionada com a trajetória de seus autores. Uma trajetória de oportunidades. A maioria dos doutorandos cujas teses tive a oportunidade de ler chegou ao doutorado quase pronto. Alguns atribuíram ao fator sorte o sucesso na trajetória, pelo menos no trechinho delas que os levaram a concluir um curso de doutorado. Por sorte, na faculdade puderam participar de um programa de iniciação científica. Por sorte, tiveram contato com programas de pesquisa no mestrado. Por sorte, tiveram a oportunidade de trabalhar com esse ou aquele professor. Por sorte, no mestrado ou no trabalho tiveram contato com o tema que desenvolveram na tese de doutorado. Eu não fui tão sortuda. Na minha vida, nada me conduziu
ao doutorado, só a minha teimosia em seguir por caminhos que pareciam não terem sido reservados para mim.
Cheguei ainda crua. Sou formada em Ciências Contábeis (1994), pela Universidade Federal Fluminense e estudei três semestres de Ciências Sociais (de 1995 a 1997), naquele mesma faculdade. Gostei, sobremodo, mais do último (e infelizmente, não concluído) curso que do primeiro, mas isso não vem ao caso aqui. Fiz mestrado em Administração Geral (2005), no Programa de Mestrado Profissional do Ibmec, no Rio de Janeiro. E iniciei no Programa de Doutorado em Administração de Empresas, na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas em fevereiro de 2009. Nos períodos que separam a conclusão de um curso do início do outro, trabalhei, geralmente em empresas de serviços jurídicos no Rio de Janeiro. Antes do mestrado, a única experiência, de modo mais ou menos sistemático, com pesquisa havia sido em 1991, quando estava no terceiro período do curso de Ciências Contábeis. Fiz uma “pesquisa” para a disciplina de metodologia da pesquisa, ministrada pelo professor Isaac Max Kaplan, que gostou muito trabalho e me disse que eu poderia ser boa pesquisadora. Aquele mesmo trabalho do terceiro período sofreu pequena revisão e virou um trabalho de conclusão de curso, também muito elogiado nas Ciências Contábeis. Depois disso, a necessidade de sobrevivência falou mais alto e por mais que eu quisesse ter me dedicado às ciência sociais, não havia muita opção.
No primeiro semestre de doutorado (fevereiro-julho de 2009), me inscrevi em duas disciplinas do Programa de Administração Pública e Governo, buscando ampliar os horizontes para poder trabalhar na tese com o caso que havia escolhido. O professor Peter Spink, que viria a se tornar meu orientador, lecionava uma das disciplinas (aqui eu fui muito sortuda!). Ali, em suas aulas de “Administração Pública em perspectiva comparada” fui introduzida no universo da Administração Pública e Governo. A visão que ele tem do que vem a ser pesquisa e do como, do por que e para que produzir conhecimento me fascinou. Era aquilo que eu queria e que também acreditava. Era a partir dali que eu queria escrever minha tese sobre o Programa de Promoção da Igualdade de Oportunidade para Todos. Esta convicção me levou não apenas a escolher o meu orientador, mas também a fazer, durante os dois primeiros anos do doutorado, mais cinco disciplinas do Programa de Administração Pública e Governo, extrapolando em muito os créditos necessários para a minha titulação.
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No segundo semestre de 2009, o professor Peter me convidou a participar de um projeto de pesquisa no Centro de Estudos em Administração e Governo da instituição (CEAPG). Uma vez no CEAPG, fui convidada para fazer parte de outros projetos, sempre de pesquisa aplicada na área de políticas públicas. O CEAPG tem me oferecido experiências muito enriquecedoras e me deu a oportunidade de desenvolver muitas das habilidades empregadas para escrever esta tese. Sei, no entanto, que estou longe de ser uma pesquisadora experiente, pois a estrada é muito longa e tenho muito a aprender. Então, é deste ponto que escrevo esta tese de doutorado. Do lugar de quem está, ainda, começando, dando os primeiros passos no mundo das pesquisas aplicadas, na área de políticas públicas. Mas também, do lugar de alguém que quis ser útil. O professor Peter uma vez perguntou: “o que temos a ver com o campo-tema? O que estamos fazendo ali? Qual é a nossa contribuição, a nossa parte nesse processo? Precisamos aprender que ser parte do campo- tema não é um fim de semana de pesquisa participante (...), mas é, antes de mais nada, a convicção moral que (...), estamos nesta questão, no campo-tema, porque pensamos que podemos ser úteis” (2003, p. 27). E é, na verdade, por isso que entrei nesse campo- tema e porque, em que pese o fato de a tese já ter sido escrita, ainda estou nele.
A minha trajetória profissional certamente explica a escolha deliberada pelo caso e o campo no qual está inserido. Nos estágios durante o tempo de faculdade e também depois de formada, sempre trabalhei em organizações privadas. Eu era, invariavelmente, a única ou uma das poucas pessoas negras fora dos postos dos serviços gerais ou dos seguranças. E, apesar de sempre demonstrar interesse e apresentar desempenho considerado acima da média, dificilmente tive oportunidade de ascensão profissional. No escritório jurídico onde trabalhei por mais tempo, conversei com o sócio-gerente sobre a relativa incompatibilidade entre minhas atribuições e meu retorno financeiro, ele me disse que eu ganhava muito bem para uma mulher negra. De fato, o salário (e todo o pacote de recompensas) era bom e um pouco acima do mercado. Mas era sobremaneira injusto, quando comparado aos dos meus colegas brancos (homens e mulheres) que ocupavam posições com graus semelhantes de responsabilidade.
Por essa razão, quando li o projeto do Programa, me identifiquei tanto com ele e torci para que sua implementação fosse bem sucedida, ou seja, para que o MPT conseguisse levar as empresas a adotar uma ação afirmativa em favor da coletividade dos negros do País. Sei, no entanto, que toda essa narrativa demonstra meu grau de comprometimento com o PPIOT, o que evidentemente me levou, durante a pesquisa, a olhar certos aspectos do seu processo de
implantação e não outros. Para alguns, esse grau de parcialidade invalidaria a condução de um estudo que pudesse ser considerado científico. Mas não era assim que pensava Paul Feyerabend” (1977, p. 20 [1975]). Em sua famosa obra, o autor argumentou que uma “análise mais profunda mostra que a ciência não conhece ‘fatos nus’”, pois, continua Feyerabend, “os fatos de que tomamos conhecimento já são vistos sob certo ângulo, sendo, em conseqüencia (sic), essencialmente ideativos”. Para o autor, fazer ciência não era processo isolado da história e das circunstâncias da vida, não exigindo a objetividade, pretendida por alguns. Kabengele Munanga (1996, p. 222-3), vai além ao afirmar que “hoje em dia (...) essa relação sujeito- objeto é uma relação que nós [os antropólogos] não defendemos mais”, uma vez que, “o próprio pesquisado é sujeito do conhecimento” e, assim, “a [sua] emoção e a emotividade são motivos de conhecimento, e não obstáculos”. Diante da constatação de que não existe um lugar neutro de onde se possa falar, foi que, com honestidade, me firmei em meu campo-tema e me propus (e me esforcei) para realizar um trabalho orientado por princípios éticos e seriedade, porque, diferentemente da objetividade, isso é algo que posso buscar.