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4. EMPIRI

4.1.1 Formål

Tomemos, primeiramente, os casos de preservação na esfera urbana, fazendo, assim, um contraponto à preocupação dos profissionais do patrimônio de aliá-lo à questão social e cultural.

O Plano de Ouro Preto (ou Plano Vianna de Lima), iniciado em 1968, com a ajuda do arquiteto de mesmo nome, era, segundo Lia Motta (1987), caracterizado pela divisão física entre o novo e o velho, a qual ficou evidente de duas maneiras.

Numa delas, a proposta de zoneamento da cidade e do seu entorno criaria áreas de expansão separadas do núcleo histórico por um cinturão verde. Na outra, pretendia- se manter a população da cidade antiga e suas funções mediante o estabelecimento de um equilíbrio na distribuição de equipamentos culturais e de lazer nas duas áreas.

Mesmo havendo uma compreensão da necessidade da preservação envolvendo as esferas econômica, social e cultural e uma tentativa de buscar novas alternativas a partir do conjunto urbano mutante, percebemos que o núcleo histórico continuava sendo visto como um objeto idealizado, na medida em que não se considerou o crescimento interno espacial e populacional e a evolução das suas funções.

Ainda na visão da mesma autora e focando na ação de preservação intervencionista do nosso estudo, outras questões apresentaram-se também conflitantes nas propostas de Vianna de Lima. Numa dessas questões, o arquiteto propunha

[...] a retirada de frontões e platibandas e até mesmo a demolição de edificações que considerava, à maneira do Patrimônio, de arquitetura "sem qualidade", e defendia o preenchimento de áreas vagas como forma de obter "um melhor enquadramento na composição urbana", visando nos dois casos a uma ação corretiva, de restauração restitutiva, do conjunto setecentista. (MOTTA, 1987, p.118).

De modo paradoxal, para a arquitetura de preenchimento de falhas, surpreendentemente, foi proposto "um controle apenas através dos gabaritos, dos materiais e das cores. Não houve preocupação de um controle estético-estilístico maior, envolvendo, por exemplo, elementos característicos, ritmo, estilo de cobertura, etc, que estaria, assim, coerente com a proposta geral inicial. Também para a arquitetura na área de expansão – não visível do centro histórico, por ser separada deste por um cinturão verde – o mesmo controle foi imposto. (MOTTA, 1987).

Quer dizer que, para o centro histórico, ao mesmo tempo que se propunha uma abordagem restitutiva, sugeria-se um "afrouxamento" dos critérios de intervenção para o preenchimento de falhas, o qual receberia um controle apenas "através dos gabaritos, dos materiais e das cores." (MOTTA, 1987, p.118). Já quanto à arquitetura que surgiria na área de expansão atrás dos morros, nova mancha urbana que deveria marcar seu próprio tempo, esta também seria controlada para que fosse semelhante e harmônica ao preexistente.

Em adição às incoerências e à falta de clareza ao lidar com os procedimentos de preservação, quando havia exigência de características estilísticas – "volume

semelhante ao tradicional, implantação no alinhamento da rua, telhado de duas águas, vãos predominantemente verticais, cores buscando os claros e os escuros –, associada ao tipo de profissional que atuava na grande maioria dos centros urbanos, não conduziu a uma interpretação contemporânea dessas informações, resultando numa arquitetura de imitação." (MOTTA, 1987, p.118-119).

Observamos, nas palavras de Vanessa Brasileiro, a mesma opinião do arquiteto Jorge Taier – que trabalhou em São João del Rei de 1976 a 1981 – em relação à falta de coerência das ações do IPHAN. Na tentativa de não se cometerem erros, como o da construção do Ed. São João del Rei44, de 1955, no centro histórico da cidade, e visando à integração da conservação do bem arquitetônico com a demanda contemporânea, o IPHAN exigia

[...] apenas um controle de altimetria das fachadas predominantes no conjunto, a simplificação nas fachadas e a manutenção dos ritmos da composição colonial nas novas edificações. A questão do volume e dos telhados não era uma norma e exigia-se que somente as três primeiras fileiras do beiral tivessem as características das telhas de barro. O restante, que não fosse visto da rua, podia ser de qualquer tipo de material de cobertura, o que demonstra a inexistência de qualquer política de visadas." (TAIER apud BRASILEIRO, 2007, p.11).

Isso quer dizer que as medidas para a inserção de nova arquitetura eram baseadas na lógica do gabarito, sendo as demais somente "ajustamentos" que eram variados, dependendo do caso de cada construção.

O modo como eram estabelecidos os critérios no tratamento do patrimônio, parecendo-nos até "experimental", chegava a situações extremas, empobrecendo a herança e a cultura brasileira. Havia situações em que

44 A construção do Ed. São João del Rei no centro histórico da cidade de mesmo nome, em 1955,

também pode ser considerada fruto de uma interpretação errônea do pensamento de Lucio Costa, que defendia a contribuição de caráter verdadeiro, trazida pela nova arquitetura moderna nas interferências no preexistente. Não bastava munir-se dos elementos, métodos construtivos, linguagem modernos, mas era(é) necessária a utilização de um juízo crítico, ou seja, do nosso bom- senso, lição sempre lembrada pelo mestre modernista.

[...] a substituição dos imóveis originais que, muitas vezes, apenas pelo fato do mau estado de conservação, eram substituídos por pastiche deles mesmos [...] ou por arquitetura nova das mais variadas correntes integradas ou não ao contexto ou conjunto original, desde que mantivessem mais ou menos a proporção do volume primitivo. (TAIER apud BRASILEIRO, 2007, p.11).

Um desses eventos foi a derrubada da Igreja de Matozinhos, também em São João del Rei. A igreja antiga, de construção datada de 1774, foi destruída em 1970, devido ao seu mau estado de conservação e reconstruída, segundo o gerenciamento do órgão federal, mantendo-se, mais ou menos, a volumetria da construção original.

FIGURA 30 – [Fachada da antiga Igreja de Matozinhos em São João Del Rei, construída em 1774] Fonte: FAMÍLIA GONÇALVES, [200-].

FIGURA 31 – [Demolição da Igreja de Matozinhos em São João del Rei, em 1970]

Fonte:UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Escola de Arquitetura. Laboratório de Foto- documentação Sylvio Vasconcellos,1970.

FIGURA 32 – [Nova Igreja de Matozinhos em São João del Rei, construída em 1975] Nota: O novo edifício "mantém mais ou menos a volumetria da antiga igreja".

Fonte: PANORAMIO, [2008].

Registrados alguns casos que ilustram, na escala urbana, a forma paradoxal com que se fazia o exercício do cuidado com o patrimônio, passemos, então, aos eventos com foco no objeto arquitetônico.