4. I NNHOLDET I SAMARBEIDET
4.3 Formål med samarbeidet
Com a informação a um toque de distância, a população mundial consome de forma decrescente os veículos de comunicação tradicionais, principalmente os impressos, como jornais e revistas. No Brasil, segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia de 2015, 42% dos entrevistados apontou a internet como o meio de comunicação mais utilizado. Esse acesso só fica atrás da televisão, que ainda lidera como meio de comunicação, com 93% de indicação dos respondentes da pesquisa.
E não é só a liderança do ranking de meios de comunicação que esses dois têm em comum. Quando a televisão surgiu, muitos meios de comunicação impressos, que eram os dominantes do mercado jornalístico até então, juntamente com o rádio, sentiram-se ameaçados pela nova mídia. Esse momento, no entanto, não representou o fim do jornalismo impresso. Nos anos 70, quando a televisão estava no auge, os jornais também viviam sua era de ouro.
O que se observa então é que toda mudança tecnológica nos meios de comunicação age como gatilho para mudanças de rotina, de produção, de valores, entre outros fatores que configuram um período de crise, após um estado virtuoso, em que os meios viviam com tranquilidade e sem percalços financeiros. De acordo com Russi, Moser e Oliveira (2015), “é importante a ressalva de que a transição causada pela evolução tecnológica não ocorre de forma abrupta. Há sempre um período de adaptação e consolidação” (2015, p.19). E é nessa fase de adaptação que surgem as dificuldades.
Uma diferença que deve ser ressaltada, apesar desse conhecimento de que as crises no jornalismo acontecem ciclicamente a cada nova tecnologia, é que a internet é uma mídia abrangente, que reúne nela mesma todas as outras mídias, enquanto rádio, TV e impresso aprenderam a tornar-se complementares. Assim, como afirmam Bolter e Grusin (2000), a
internet e as mídias tradicionais tornam-se concorrentes diretas, ainda mais quando a internet abarca características das outras:
O que pode parecer à primeira vista inusitado é tão comum que podemos identificar diferentes maneiras em que a mídia digital remedia as mídias antecessoras, um sinal visível a depender do grau de concorrência ou rivalidade entre os novos meios de comunicação e os velhos. (BOLTER. GRUSIN. 2000, p.45, tradução nossa)4
Nesse ponto, a atual crise parece assumir caráter apocalíptico que prevê o fim dos meios mais tradicionais. Esse caminho, que é repleto de experimentações e incertezas, já está sendo trilhado por inúmeros veículos de comunicação. É o caso da revista Capricho, que resolveu apostar totalmente em uma versão digital para atingir suas leitoras conectadas em diferentes plataformas e redes sociais; ou as publicações que produzem conteúdo para o online e o impresso que se complementam, como Veja, Elle, Claudia (FIGURA 2), Cosmopolitan, entre outras que apostam na tecnologia digital como aliada do impresso, seja por meio do site, das redes sociais ou de aplicativos específicos para disponibilizar conteúdo extra.
Muito ainda está sendo desenvolvido para atravessar esse momento vivido pela profissão, até pelo fato de as tecnologias renovarem-se a cada dia. Para os autores de Jornalismo Pós-Industrial: Adaptação aos Novos Tempos, o que está deixando de existir não é o jornalismo, e sim a indústria jornalística tradicional, em que grupos dominavam a comunicação dos locais (ANDERSON, BELL, SHIRKY, 2013).
Inicialmente baseado nas empresas jornalísticas norte americanas, o relatório desenvolvido por Anderson, Bell e Shirky apontou algumas dificuldades encontradas por essas instituições. A primeira delas é o próprio enfraquecimento da tradicional indústria jornalística, como afirmam:
Antigamente, havia uma. Era uma indústria que se mantinha em pé por coisas que em geral mantêm um setor em pé: a similitude de métodos entre um grupo relativamente pequeno e uniforme de empresas e a incapacidade de alguém de fora desse grupo de criar um produto competitivo. Essas condições não se cumprem mais. (ANDERSON; BELL; SHIRKY; 2013, p.32)
4“What might seem at first to be an esoteric practice is so widespread that we can identify a spectrum of different ways in which digital media remediate their predecessors, a spectrum depending on the degree of perceived
Figura 2 - Modelo de Mobile View da revista Claudia, da Editora Abril
Fonte: Revista Claudia/Trunck Archive. Exemplo de conteúdo ampliado da seção de Beleza da revista para um vídeo no celular, através do Mobile View.5
Essas empresas que já estavam firmadas no ramo, após anos de experiência, agora encontram inúmeros concorrentes de diferentes setores, não só da produção de notícias. A disputa atual é por atenção, e elas não conseguem manter totalmente o poder de sua instituição, perdendo, aos poucos, espaço no mercado. Hoje, os consumidores não utilizam apenas jornais e revistas para obter informação, pelo contrário, procuram-na no meio virtual, por estar mais acessível e por ter o menor custo. Podemos comprovar isso através da Pesquisa Brasileira de Mídia 2015, que aponta que 76% dos brasileiros não lê jornal e 85% não lê revistas, índice bem maior que aqueles 58% que não usam a internet como principal meio de acesso à informação (BRASIL, 2014).
Um relatório do Instituto Reuters, sobre o jornalismo digital para 2016, aponta ainda que não só os veículos de comunicação digitais brasileiros têm muitos acessos, apesar de ainda esbarrar em algumas dificuldades financeiras, mas que a plataforma Facebook bate o número de acessos desses portais:
5 Disponível em: <http://origin.amp.mdemulher.abril.com.br/estilo-de-vida/claudia/mobile-view-aprenda-a-usar- a-realidade-aumentada-em-claudia>.
As audiências mensais para alguns dos principais sites de notícias - como G1 e UOL - foram mais de 30 milhões visitantes em 2015. No entanto, em termos de sites de notícias populares, no Brasil, nenhum bate o Facebook. Desde 2011, quando a empresa abriu um escritório no país, o número de brasileiros usando Facebook aumentou quase seis vezes, mais que 83 milhões. (REUTERS INSTITUTE, 2016, p.82, tradução nossa)6.
Isso acontece tanto pelo grande crescimento tecnológico em comunicação, quanto porque a velha ordem de construção da informação perdeu seu sentido. Nos últimos dez anos, segundo Anderson, Bell e Shirky, as novas tecnologias surgidas permitiram que todos tivessem liberdade para se comunicar, ampliando as fontes informativas, sem as velhas limitações dos veículos de radiodifusão e imprensa escrita que por muitos anos dominaram o mercado de notícias.
Assim, não há mais como acreditar que só grandes empresas podem produzir comunicação, e só jornalismo pode levar informações. Exemplos como a Primavera Árabe e a cobertura alternativa dos protestos nacionais brasileiros de 2013 provam que a comunicação está vindo de todos os lados. “A adaptação a um mundo no qual o povo até então chamado de ‘audiência’ já não é mero leitor e telespectador, mas sim usuário e editor, vai exigir mudanças não só em táticas, mas também na concepção que o jornalismo tem de si.” (ANDERSON; BELL; SHIRKY; 2013, p.33).
Similarmente, para Fígaro (2013), a internet tem afetado o jornalismo e o modo como a população se relaciona com a informação:
As novas mídias trouxeram maior agilidade ao jornalismo. Alargaram a noção de notícia em tempo real que o rádio inaugurou e a tevê se esforça por desempenhar. A informação em tempo real do Twitter, do blog, do Facebook, do celular tem especificidade e conta com um novo protagonista, o cidadão comum, testemunha do fato, alerta com sua mensagem de texto, imagem, som, a comunidade e os meios de comunicação sobre o acontecimento. (FÍGARO, 2013, p.125)
O atual ciclo de mudanças envolve, então: primeiro, o fato de que qualquer um pode produzir informação de qualidade e em primeira mão; e segundo, que o acesso ao conteúdo online torna-se maior, se comparado ao conteúdo impresso, levando algumas empresas a deixar essa última plataforma de comunicação de lado.
6“Monthly audiences for some of the top news brands online – such as G1 and UOL – were over 30 million unique visitors in 2015. However, in terms of popularity news sites in Brazil are no match for Facebook. Since 2011, when the company opened an office in the country, the number of Brazilians using Facebook has increased nearly six-fold to more than 83 million.”
A situação ainda se agrava quando a publicidade, que subsidiava o jornalismo junto com a audiência, passou a apostar nas estratégias online. Como afirmam os autores, “o poder de meios de comunicação sobre anunciantes está evaporando; desde a chegada da web, houve uma grande migração, de meios para anunciantes, do valor líquido de cada dólar investido em publicidade.” (ANDERSON; BELL; SHIRKY; 2013, p.37).
No final do século XIX e no século XX, os veículos tinham maior poder de barganha e conseguiam atrair investimento publicitário (TRAQUINA, 2005, p.37), “Em finais desse mesmo século XIX, o jornal tornou-se cada vez mais importante como veículo para a publicidade, principalmente a partir do momento em que a publicidade em si se tornou mais central numa economia em expansão”. Hoje, no entanto, não é tão fácil captar esse recurso financeiro para o jornalismo,
Embora tenha começado para valer com a chegada da internet comercial na década de 1990, a ruptura foi camuflada durante uma década pelo aumento da receita publicitária de veículos de comunicação tradicionais e pelo estouro da bolha pontocom, o que levou muitos veículos a crerem que a ameaça da internet fora superestimada. (ANDERSON; BELL; SHIRKY; 2013, p.35).
Ainda de acordo com os três autores, as receitas do jornalismo tradicional começaram a cair em 2006, mas nesse momento até a publicidade já sofria mudanças em sua forma. Essa mesma situação foi apontada ainda em 2008, por Salaverría e Negredo, que visualizavam em países da Europa e nos Estados Unidos a crise na imprensa.
O momento se referia ao fato de o jornalismo tradicional estar perdendo espaço para as novas formas de comunicação na internet. Como afirmam Salaverría e Negredo (2008, p.21, tradução nossa), “as empresas jornalísticas vivem tempos de mudanças. O jornalismo do século
XX está morto. O do século XXI apenas balbucia”7. Nessa realidade, os fatores parecem ir
contra o jornalismo tradicional,
Neste novo contexto do mercado, dificultado ainda pelo ambiente econômico recessivo, os meios tradicionais se enfrentam no que poderia ser descrito como a tormenta perfeita: aumento dos custos de produção, estancamento ou queda da radiodifusão, menor investimento publicitário, desaparecimento dos pontos de venda e aumento da concorrência. Tudo ao mesmo tempo. (SALAVERRÍA e NEGREDO, 2008, p.21, tradução nossa)8.
7 "Las empresas periodísticas viven tiempos de cambio. El periodismo del siglo XX ha muerto. El del siglo XXI apenas balbucea”
8 "En este nuevo contexto del mercado, dificultado además por un entorno económico recesivo, los medios tradicionales se enfrentan a lo que podría describirse como la tormenta perfecta: aumento de los costes de producción, estancamiento o caída de la difusión, menor inversión publicitaria, desaparición de puntos de venta y aumento de la competencia. Todo al mismo tiempo."
Ainda segundo os autores, graças à credibilidade informativa conquistada pelas empresas tradicionais, a sobrevivência dessas instituições na internet tem algumas garantias. No entanto, elas continuam atrás de um segundo objetivo: rejuvenescer a audiência - o que perpassa por conquistar um público jovem, já que esses são os que mais acessam o conteúdo.
Mesmo assim, o simples ato de estar na internet ainda não está gerando renda suficiente para as instituições, diferente do que acontece com empresas de outros ramos que trabalham com dados e comunicação - aqui podemos citar Google9 e Facebook10 -, em parte porque ainda não foi delineado um modelo de negócio para os meios de comunicação digitais.
Deduzimos então que o jornalismo tradicional só se manterá vivo caso ele seja repensado e isso perpassa pelo modelo de negócios até então utilizado, assunto que será abordado no próximo tópico.