O território quilombola do Curiaú já haveria compreendido uma área de aproximadamente 16.000 ha, o que corresponde a um tamanho cinco vezes maior do que seu tamanho atual de 3.321.89 ha. A diferença entre as duas áreas representa 12.679 ha, que teriam sido palco das perdas territoriais que estes sofreram pelo menos nos últimos vinte anos. Existindo até hoje dúvidas a respeito do real tamanho do território.
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Picada fora a abertura de um quilômetro de estrada aberta em direção a Macapá na parte considerada mais alta do Curiaú na “banda do cerrado”, responsável pelo surgimento do Curiaú de fora. Na realidade Curiaú nasce com concentração das casas das famílias no entorno do lago, pois este representa a proximidade das áreas de procura de alimentos, de abertura de roças, do lugar do banho e simbolicamente de parte importante da sua história, beleza e paisagem (MARIN, 1998, p. 48).
O atual Curiaú corresponde restritivamente a uma superfície de 16.000 ha. Familiares do grupo que viviam na casa grande venderam a pequenos e médios fazendeiros seus direitos de posse. No trajeto da denominada Caduforno até São Francisco da Casa Grande observam-se as cercas das fazendas [...] As terras do Curiaú estão rodeadas por conjuntos (Brasil Novo), bairros (Novo Horizonte) e “invasões” como a conhecida Capilândia [...] De outro lado, encontram-se muito próximas as “bonitas fazendas” e residências de luxo de empresários, funcionários e autoridades públicas. Oito fazendeiros algum tempo atrás adquiriram direitos nas extremas do Curiaú, conforme nos informou o presidente da associação dos moradores pelo que esperam receber indenização, no ato de proceder-se à titulação solicitada pelo grupo.[...] as memórias sobre experiências de deslocamento do grupo negro referem-se a um território mais amplo, progressivamente incorporado no mundo das suas relações sociais ao longo do tempo. Recordam Campina Grande, Matapi, Ilha dos Porcos, Igarapé dos Lagos, Pedreira, Lago Novo, Maruanú, Lagoa dos índios, Passo dos bois, Engenho, Matagal, Ilha do Pará, Mazagão ou atravessando o Canal Norte , atingiram lugares da ilha do Marajó (Afua, Anajás, Portel). Todos eles formam pontos de referencia para as trocas econômicas, culturais (festas) e simbólicas (casamentos) dos moradores do Curiaú [...]. (MARIN, 1997, p. 42).
As recorrentes perdas territoriais teriam iniciado efetivamente segundo as próprias famílias do Curiaú na década de 1980, em função, de uma “negociação” realizada entre algumas lideranças locais e o governo municipal34 de Macapá sem que todas as famílias fossem consultadas a respeito. No acordo, seria realizada a pavimentação da atual rodovia do Curiaú. A área dada em troca da negociação de aproximadamente 3.000 ha foi destinada ao loteamento para a construção de casas populares, nos atuais Jardim Felicidade I e II, bairros instituídos como de fronteira no Curiaú.
A área do Curiaú era muito maior, abrangia parte do bairro Capilândia, que hoje se chama Novo Horizonte. Na época, o prefeito João Alberto Rodrigues Capiberibe loteou a área sem o consentimento dos moradores do Curiaú. Quando eles ficaram sabendo o que estava sendo feito, as maquinas estavam limpando, chegando a destruir as roças de mandiocas, naquelas áreas. Os lideres da comunidade e um grupo de pessoas foram até o prefeito para reclamar e tomar satisfação da questão. Segundo eles o prefeito disse que não tinha mais jeito. O mesmo perguntou aos moradores. O que devo fazer para recompensar o acontecido? Os lideres responderam: queremos que o senhor asfalte a rodovia em troca desse pedaço de terra [...] E a comunidade perdeu aquela área que se chamava Bacaba e Mirinzal (SILVA, 2004).
As perdas territoriais ocorridas no Curiaú comprometem os recursos naturais necessários para a sobrevivência das famílias. As áreas de ocupação no entorno do quilombo (Mapa 4) comprometem também o modo de viver das famílias que passam a conviver com a ameaça de perdas matérias e simbólicas no seu território. Além da precariedade dos bairros formados sem a implementação das políticas públicas necessárias.
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Na perspectiva de cumprir compromissos assumidos durante a candidatura voltada para a concessão de lotes de terra negociou junto às lideranças a aquisição dessas em troca do asfaltamento da via principal de acesso ao Curiaú.
Mapa 4: Áreas de ocupação no entorno do Quilombo do Curiaú
Fonte: Elaboração a partir da pesquisa (2007)
As terras nomeadas por Francisco Inácio, como do Curiaú, compunham uma extensão de aproximadamente 6.000,00 ha35, comprometidas com as perdas territoriais. Segundo o que se sabe é que destes 6.000 ha só restariam 3.321.89.31 ha após a titulação das terras como de quilombo, cujo limite seria ao norte com as glebas Matapi, Curiaú e Vila Nova; ao sul com a área urbana da cidade de Macapá; ao leste com a margem direita do rio Curiaú; e a oeste com a comunidade de Curralinho (SILVA, 2004).
Esta dinâmica ocorre no final da década de 1980 conforme mencionado quando o território amapaense passa a ser estado da República Federativa do Brasil. A transformação do Amapá em estado, a partir da Constituição de 1988, provocou mudanças na dinâmica espacial da região com uma significativa migração interna que levariam instituições a fazerem
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Informação prestada na Associação dos Moradores de Curiaú e que constam do roteiro para levantamento e formação de banco de dados sobre Comunidades Remanescentes de Quilombos e suas Manifestações Culturais (MARIN, 1990, p. 40).
imposições concretas e simbólicas sobre o território do quilombo juntamente a uma especulação sobre o solo urbano, que se produz neste caso, segundo Marin (1997), na forma defasada de um plano diretor urbano36. A partir da criação da sua constituição estadual em 1991 foram traçadas linhas para a política urbana37.
A Lei do Livre Comércio de Macapá e Santana (LCMS) criada no mesmo ano da elaboração da proposta para o Plano Diretor dos municípios do estado contribuiu também para as mudanças na dinâmica espacial dos principais núcleos urbanos do Amapá, como Macapá e Santana, em função do impulso dado ao movimento migratório. O Programa de Desenvolvimento Sustentável (PDSA), criado pelo governo de João Alberto Capiberibe também se remete como um dos responsáveis por esses fluxos migratórios principalmente de pessoas oriundas do estado do Pará (BASTOS, 2006).