O território do Curiaú apresenta-se como um espaço de diferenciações sociais e simbólicas em que as famílias se esforçam para manter a estrutura cultural, social, ecológica e econômica na medida em que ações arbitrárias do poder público são promovidas com ações devastadoras (TRINDADE, 1999) empreendendo no território lutas de poder a partir dos interesses específicos e diferenciados.
As primeiras intervenções no modo de vida das famílias quilombolas do Curiaú em função das medidas adotadas para a integração da economia do território federal do Amapá30
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Desmembrado do Pará, teve sua área organizada a partir dos municípios de Almerim, pelo seu distrito de Arumanduba (31.249 km2), Mazagão (19.558 km2) (a união dessas duas áreas originaram o município de Mazagão), Macapá e Amapá. A partir de então, o Amapá passou por reestruturações territoriais municipais
são percebidas a partir do Primeiro Plano Qüinqüenal da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), em 1955. Segundo Marin (1997), foi especificado para o território federal do Amapá a “Construção do Ramal do Curiaú” que se vinculava ao programa de Melhoramento da rodovia BR-156. No entanto, foi no I Plano de Desenvolvimento do Amapá – Detalhamento do II PND, de 1976, que se definiu seu traçado para o importante asfaltamento do trecho Macapá/Porto Grande.
A estrada que corta o Curiaú de Fora e o Curiaú de dentro segundo o II PND era o único acesso a Usina Hidrelétrica de “Coaracy Nunes” (UHCN). A estrada antiga de chão batido que terminava no lago do Curiaú foi transformada em rodovia do Curiaú. O local fora inserido globalmente nas “áreas prioritárias para projetos agropecuários e pesqueiros”31 desde o I PND para o Amapá (MARIN, 1997, p. 53). Neste mesmo momento, o Governo Central iniciou um período de amplos incentivos financeiros destinados aos planos de valorização econômica da região32. O que para se viabilizar a nova atuação estatal sobre a região, foram colocadas em prática algumas ações, como: a revisão do sistema bancário regional (ao transformar o Banco de Crédito da Borracha em Banco de Crédito da Amazônia) e os investimentos no setor primário regional (PORTO, 1998, p. 19).
Neste particular, o papel institucional do Estado através das políticas desenvolvimentista para a região violaram direitos de uso comum dos recursos naturais de diferentes grupos sociais. No Curiaú tais intervenções contribuíram para a formação de estruturas desiguais de acesso ao uso, à distribuição e ao controle do conjunto de recursos naturais no território quilombola. Ou seja, as regras de uso comum utilizadas pelas famílias são ignoradas e desrespeitadas como afirma Silva (1998), quando diz que “não procuraram ter conhecimento com as coisas da comunidade, da história, meteram e esbandalharam com tudo... pelo menos a estrada sobre o lago foi feita sem tomar conhecimento à comunidade, foi imposto...”
resultantes de: preocupações geopolíticas (Oiapoque), atuação de empresas nas suas áreas (Santana, Laranjal do Jari, Pedra Branca do Amapari, Serra do Navio, Porto Grande e Vitória do Jari), pela exploração aurífera (Calçoene), pela construção da Usina Hidrelétrica de Coaracy Nunes (Ferreira Gomes) e de movimentos políticos locais (Tartarugalzinho, Cutias, Itaubal, e Pracuúba).
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Na década de 1970 os produtores se organizaram para escoar a suas mercadorias e fundaram a SOCEAPE, uma cooperativa que teve pouco tempo de funcionamento (MARIN, 1997).
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No Amapá, este momento coincide com o início da produção mineral da ICOMI, em 1957, empresa brasileira que se encontrava prospectando o manganês desta região, desde o final da década de 1940, quando foi elaborado um contrato para o aproveitamento deste minério e assinado entre esta empresa e o Governo Federal. Com o contrato em execução, organizou-se o investimento infra-estrutural visando a viabilização da produção, tais como a construção de residências para os seus funcionários, de prédios administrativos, ampliação das ruas da capital, ampliação do porto de Santana, a implantação de uma ferrovia ligando a jazida de manganês (localizada na Serra do Navio) ao porto de Santana e o início das obras da Usina Hidrelétrica de Coaracy Nunes (UHCN).
Ocorrem diversas mudanças políticas e econômicas no entorno de Curiaú e nas relações dos moradores com os governantes do território e a cidade. Em função principalmente da diminuição das distâncias em vários sentidos, a ida a cidade nesse momento foi intensificada, pois, dificilmente nas suas relações comerciais os comerciantes de Macapá se aproximavam do Curiaú.
No governo de Janary Nunes na década de 1940, no recém criado território federal do Amapá foram instituídas ações que afetaram diretamente os povoados negros, como a criação de Mazagão Novo, a desapropriação de áreas ocupadas por negros no Largo São João – suas casas e quintais – para a construção de prédios públicos. Estes por sua vez passaram a ocupar o Laguinho. No Curiaú a intervenção representou o alargamento da picada33 que passava a adquirir forma de estrada para rodagem de autos e caminhões, com uma extensão de aproximadamente 16 km, unindo Macapá e Curiaú de Dentro.
A construção da estrada sobre o lago, segundo Trindade (1999), foi o divisor de águas na história do Curiaú, pois foi responsável por causar problemas de ordem ecológica e econômica e social quando o aterramento para passar a estrada ocasionou a dificuldade da descida das águas com o desaparecimento das “ilhas de mata” e poços. Além da proximidade cada vez maior do território quilombola da cidade de Macapá, causando o medo da invasão e da desterritorialização. Tais sentimentos são identificados também no que as famílias do quilombo chamam de “invasão da cidade” “que transforma Curiaú em lazer dos habitantes de Macapá, seu balneário, o lugar cobiçado para especulação imobiliária da cidade e de concretização de uma política oficial de marketing” (MARIN, 1998, p. 39).