O rio Curiaú, afluente do rio Amazonas14 na sua margem esquerda, corre numa extensão de aproximadamente 584,47 km2 dentro da APA do rio Curiaú, enriquecido pelas águas com sedimentos que contém matéria orgânica trazida pelo grande rio15. A influência do rio Curiaú e do Amazonas16 no território quilombola do Curiaú contribui para uma localização privilegiada e favorável acesso ao uso dos recursos naturais bióticos e abióticos pelas famílias.
No período que corresponde à estiagem (verão) ocorre uma redução significativa da área drenada, principalmente pela seca dos lagos temporários e de pequenos tributários. Por outro lado, no período das chuvas (inverno) ocorre um grande acréscimo do referido sistema, notadamente por as áreas campestres permanecerem parte do ano inundadas (FACUNDES; GIBSON, 2000), favorecendo o uso de embarcações pelas famílias que vivem no entorno da bacia para transportar pessoas e produtos das áreas de várzea e terra firme distantes dos núcleos familiares alterando o dia-a-dia das famílias de acordo com o fluxo das águas.
O rio Curiaú corta as áreas de campos inundáveis dentro da floresta de várzea até desembocar no rio Amazonas, o que favorece além da diversidade florestal uma complexa e rica diversidade de espécies de peixes como acará, tamuatá, traíra, pirapitinga, jiju, matrixão, tucunaré, cará, surubim, tambaqui e roedores como tatu, paca, cutia, guariba, porco do mato,
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A fisiografia desse município destaca a participação das bacias hidrográficas dos rios: Matapi, Curiaú, Pedreira, Ipixuna, Macacoari, Gurijuba, Araguari e das Ilhas da Pedreira e Arquipélago do Bailique, além da presença de três domínios naturais: domínio das áreas inundáveis, domínio das áreas savaníticas e domínio da floresta de terra firme com uma área aproximada de 3.322,28 km2.
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Tal característica pertencente ao ecossistema do Amapá foi responsável por nos séculos XVII e XVIII incentivar por parte dos colonizadores portugueses estratégias de ocupação através da dedicação à lavoura e à cultura das terras para plantações de algodão, arroz, mandioca, milho e feijão e ainda a criação do gado bovino para o aproveitamento das campinas. As terras do Cabo Norte distinguiam-se dos outros ambientes da bacia amazônica por ser banhada por quartoze rios, todos delimitados dentro dos domínios portugueses, assim como, está formada por ilhas de aluvião e pelo sistema de drenagem alimentado por rios, igarapés e vários lagos (FERREIRA apud MARIN, 1998).
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Segundo Marin (1997), a geografia contemporânea incorpora os fluxos de água na descrição dos elementos mais importantes desta costa setentrional. Uma área de drenagem continental, ademais da subordinação à massa oceânica. Pois, a planície litorânea mostra continuidade com a planície continental e, ambas, são atingidas pelo regime semidiurno das mares oceânicas de forte amplitude. Esse espaço é constituído por dois elementos da mesma origem: a várzea alta e a várzea baixa, que recebem os sedimentos do rio Amazonas.
catitu, todos importantes na composição alimentar das famílias do Curiaú através dos sistemas de trocas não-monetárias.
Fotografia 1: Canal de drenagem do rio Curiaú durante período de estiagem. No entanto, mesmo com a estiagem e um menor fluxo das águas do rio Amazonas, este permanece com um volume de água razoável durante todo o ano cortando a vegetação de cerrado que se destaca no período das secas
Fonte: Queiroz (2006)
Tais aspectos são possíveis em função da vegetação variada e relacionada com o relevo, com a natureza do solo e com o regime de inundação das águas que favorece a predominância da paisagem pela “floresta de várzea de altos cursos” e pela “floresta de várzea de baixo curso” sendo este um dos elementos importantes para compreender a dinâmica das famílias do quilombo e suas estratégias de sobrevivência.
Segundo Marin (1997), nos contornos das áreas inundáveis ou nas linhas de drenagem dos campos, localizam-se solos denominados de “ilhas de mata” ou “bracinhos” que seriam terrenos com melhores condições para a agricultura pela deposição dos sedimentos transportados pelos rios e mares, os quais contrabalançam o problema da lixiviação por efeito da alta pluviosidade.
O rio Curiaú possui para as famílias, outras funções, que apenas o banho ou o lazer, pois, contribui para prover o alimento necessário encontrado principalmente na formação de lagos e poços (Fotografia 2). Este sistema garante a pesca em todas as fases do ano no que diz respeito ao ciclo das águas, inclusive no período de estiagem e diminuição do volume de água do rio e do lago quando ocorre a seca e conseqüentemente a escassez de alguns recursos disponíveis neste sistema ecológico.
Fotografia 2: Vegetação de cerrado e o Tapera, um dos 19 poços do Curiaú que armazena peixes durante o período da estiagem e contribui para garantir a alimentação das famílias durante a escassez de recursos, pois neste mesmo período o açaí, como já foi mencionado se torna rarefeito (agosto/dezembro)
Fonte: Queiroz (2006)
O lago do Curiaú contempla parte da paisagem do lugar em que as famílias nasceram, se criaram e aprenderam a pescar e nadar no “tempo das águas cheias” (TRINDADE, 1999). A paisagem do Curiaú de Dentro é dominada pelo lago na estação de chuva e enche e ocupa uma grande superfície. No tempo de inverno os moradores atravessam o lago em pequenas canoas para atingirem a várzea e as matas onde abrem roças e caçam (MARIN, 1997), e o percurso a cavalo também ainda é realizado no “tempo das águas cheias”.
Os poços durante o período de seca servem de reservatório e viveiros para várias espécies de peixes contribuindo para a atividade da pesca durante todo o ano, e recebem os nomes de Buritizal, Caju, Tapera, Manoel Felipe, Jacaré, Malhada, Lantejão, Maré, Inferno. A pesca é realizada artesanalmente, ou seja, com o uso da zagaia (lança curta de arremesso), a linha de mão, o anzol e a malhadeira, instrumentos mais comuns nesta atividade. Os peixes mais consumidos são traíra, piranha, cará, mafirá, surubim, e um réptil, o jacaré (TRINDADE, 1999).