Ter uma área de pesquisa num espaço amplamente preservado era um projeto antigo do MPEG desde o final do século XIX. Todavia este projeto só foi concretizado apenas no final do século XX, com a criação da ECFPn na FLONA de Caxiuanã. A ECFPn foi construída com recursos da Overseas Development Administration (ODA/Reino Unido), através do Projeto Caxiuanã, que resultou de um acordo de cooperação técnica firmado em 1990, entre Brasil e Reino Unido a nível de chanceleres. A base física tem 1.900m² e a área total de pesquisa compreende um território de 33.000ha (LISBOA, 1997). Mais uma vez verifica-se a intervenção de instituições internacionais na realidade local que reverbera no modo de vida e no uso do território dos ribeirinhos de Caxiuanã. A ODA, do Reino Unido ao financiar a construção da ECFPn, garantiu privilégios para pesquisadores britânicos que viessem desenvolver pesquisas em Caxiuanã.
De acordo com Lisboa (1997), a escolha de Caxiuanã para sediar a ECFPn foi favorecida pela boa conservação dos ambientes naturais, a baixa densidade demográfica e os sinais de alta biodiversidade. Essa afirmação demonstra que as atividades que os remanescentes dos rios Caxiuanã e Curuá praticavam pouco alterava a paisagem local, fato que deveria ter sido considerado em favor desses sujeitos pelos órgãos gestores antes de determinarem qualquer tipo de proibição ao uso do território.
Desse modo, pode-se afirmar que a chegada do MPEG em Caxiuanã provocou mudanças no modo de vida e no território da pequena comunidade que passaria a ser chamada de Comunidade de Caxiuanã pelos pesquisadores do museu que antes mesmo da construção da base física da ECFPn ficar pronta iniciaram as primeiras pesquisas nessa área. Mas de que
93 maneira o MPEG, por meio de sua Estação Científica, provocou mudanças nessas comunidades?
Esse questionamento será respondido por meio da análise do Programa Floresta Modelo de Caxiuanã (PFMC) criado pela ECFPn, com o objetivo de fortalecer determinadas atividades das Comunidades de Caxiuanã juntamente com a educação ambiental e a promoção do desenvolvimento sustentável na FLONA. Mas, antes disso, pode-se afirmar que os 33.000 hectares cedidos pelo IBAMA ao MPEG sobrepuseram o território da população que já existia no local e, isso por si só, já traz alterações no que concerne ao uso do referido território. Haja vista que as territorialidades de ambos passariam a se conflitar dependendo do interesse por determinada área. Com isso, o território de uso dessa Comunidade foi novamente alterado.
É importante ressaltar também que a construção da ECFPn gerou emprego e renda de modo imediato a todos os chefes de família da Comunidade em estudo, fato que levou a esses sujeitos a se tornarem parceiros do MPEG (LISBOA, 2002, BEZERRO, LISBOA & CARDOSO, 2013) e verem nessa parceria a possibilidade de melhorar sua qualidade de vida, haja vista que quase todos ficaram empregados, nos trabalhos de apoio e limpeza da recém inaugurada ECFPn (LISBOA, 2002).
A utilização da mão de obra local contribuiu de certa forma com a melhoria de vida dos moradores, principalmente no que concerne a moradia. Entretanto, tornou-os dependentes desse trabalho, pois como bem observou Farias (2015) e Farias, Silva e Oliveira (2015) o ritmo da vida cotidiana desses sujeitos foi alterado e integrado ao tempo do trabalho controlado com horários e dias predeterminados a se cumprir, bem diferente do ritmo que eles eram acostumados. E isso, consequentemente, levou ao abandono, pela maioria dos moradores da Comunidade de Caxiuanã das atividades inerentes ao modo de vida ribeirinha como a roça e a pesca. Farias (2015) também constatou mudanças nas relações sociais onde os laços de solidariedade foram diminuindo a exemplo do convidado que foi extinto da atividade roceira.
Segundo Lisboa (2002) o PFMC é um programa idealizado com base no relatório CMMAD de 1998, uma vez que seu eixo principal é processo educativo dos sujeitos das comunidades contempladas, contudo, sem perder de vista as especificidades ribeirinhas. A execução do referido programa teve a ECFPn/MPEG como gerenciador, mas também contou com a contribuição de importantes instituições de pesquisa de diversos campos de atividades via convênios e pesquisadores voluntários nacionais e internacionais. As instituições que
94 firmaram convênios foram: UFPA, EMBRAPA, SECTAM, Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (FCAP), SUDAM, IBAMA, Fundação Serra das Andorinhas, Fundação Casa da Cultura e a Prefeitura Municipal de Melgaço (LISBOA, 2002).
Os objetivos principais do PFMC são: a) Contribuir para a conservação e o manejo sustentado da Floresta Nacional de Caxiuanã; b) Contribuir para a formulação de políticas públicas adequadas a Região Amazônica e; c) Criar um modelo de desenvolvimento sustentável para a Floresta Nacional de Caxiuanã, que seja aplicável a outras comunidades da região. Sua área de atuação se concentrou na infraestrutura, educação, saúde, ecoturismo, agricultura, agroindústria e cooperativismo. O aporte financeiro para execução do programa chegou a mais de um milhão de reais captadas de diversas fontes nacionais e internacionais (FERRAZ et al., 2002).
Verificou-se que na área de infraestrutura o PFMC deixou como legado a construção de três escolas através de convênio entre o Ministério da Educação e a Prefeitura Municipal de Melgaço, uma em cada comunidade (Caxiuanã, Laranjal e Pedreira) onde o programa concentrou suas ações. Também, houve a instalação de energia fotovoltaica em todas as casas das referidas comunidades, isto é, a instalação consistiu na doação por meio do Programa do Trópico Úmido/PTU-CNPq para cada morador, de um conjunto de três placas solares, bateria e reversores para controle da voltagem da energia. A instalação foi realizada pelo Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Alternativas Energéticas (GEDAE-UFPA) e teve ainda a construção de um barracão para produção de artesanato e cerâmica, estes como resultado do projeto de ecoturismo para Caxiuanã financiado pelo Banco da Amazônia (BASA) e de uma sede para Coopercaxiuanã atual Associação Agroextrativista de Caxiuanã que resultaram do fomento ao cooperativismo (FERRAZ, et al., 2002).
Na área de desenvolvimento sustentável destacam-se os projetos demonstrativos nas atividades de agricultura familiar, manejo sustentável e agroindústria. Este último focou a produção de cerâmica e os dois primeiros foram respectivamente voltados para a prática de roçado rotativo em áreas de capoeiras com recuperação do solo por meio do plantio de leguminosas e o manejo dos produtos não madeireiros com destaque para a castanha-do-Pará, o açaí e as essências oleaginosas (FERRAZ, et al., 2002).
Com relação à saúde, houve o treinamento das parteiras tradicionais de Caxiuanã para melhorar o serviço de parto nessas comunidades, haja vista que a maioria dos nascimentos nesses locais eram realizados por elas. Além disso, também houve palestras sobre cuidados
95 com a água e descarte correto do lixo como forma de mitigar doenças provenientes da falta desses cuidados básicos (FERRAZ, et al., 2002).
Diante do exposto, verifica-se que os objetivos do PFMC priorizou a melhoria das condições de vida dos moradores das comunidades por ele atendidos, mas também acredita-se que fez parte dos objetivos de conservação da FLONA em especial dos 33 mil hectares da ECFPn. Dessa forma, segundo os moradores, alguns projetos desenvolvidos no âmbito do PFMC não deram certo porque de fato não atenderam as especificidades do modo de vida dessa população. Por exemplo: a produção de cerâmicas que não fazia parte do cotidiano comunitário era prática indígena que uma ou outra pessoa ainda fazia. Mas, somente para suprir alguma necessidade, a produção de artesanato sem o ecoturismo não tinha como dar continuidade, pois não tínhamos mercado, disse o primeiro presidente da ATAC na época.
Por outro lado, o roçado rotativo que seria o projeto que poderia ter maior atrativo por parte dos moradores, não o teve, principalmente na Comunidade de Caxiuanã, em virtude da maioria dos moradores serem funcionários ou diaristas da ECFPn. Com relação as infraestruturas instaladas, as da comunidade em estudo existe apenas a sede da ATAC e poucos conjuntos de placas solares, a escola e o barracão de produção do artesanato e cerâmicas foram consumidos pelo tempo. Segundo os moradores, a arquitetura tanto da escola quanto do barracão, era parecida com a de uma oca e, portanto, os problemas com o telhado eram frequentes, haja vista que a proximidade com a baía a deixava exposta a fortes temporais que faziam molhar por dentro e às vezes tirava as telhas do lugar. Tudo isso atrelado a falta de manutenção por parte do Governo Municipal levou a deterioração e abandono muito rápido por parte dos moradores que se recusaram a mandar seus filhos para uma escola que não oferecia o mínimo de segurança.
Desse modo, destacam-se como mudanças efetivas provocadas pela implantação da ECFPn e de suas ações no âmbito do PFMC no modo de vida e no território da Comunidade de Caxiuanã: a manutenção ao uso de apenas um hectare de terra para produção de roças, uma vez que o território da estação sobrepôs ao da comunidade e limitou o avanço dos moradores em direção as áreas de pesquisa; a mudança nas relações de trabalho onde o trabalho assalariado e/ou em troca de dinheiro em espécie passou a ser priorizado pelos moradores que em sua maioria abandonaram as roças e as relações solidárias que se estabeleciam no seio dessa atividade; a retirada paulatinamente das crianças do processo de produção e seu maior engajamento na escola que tem como resultado os atuais professores do Ensino Fundamental
96 menor que são filhos de Caxiuanã; a mudança na rotina de vida dos moradores que se alterou com a chegada da energia fotovoltaica (FERRAZ, et al., 2002), mas não apenas por isso, pois, de acordo com Farias (2015) essa comunidade é bastante acionada nas programações da ECFPn e isso provocou mudanças na organização diária da vida cotidiana. Mas é importante frisar que de todo modo a ECFPn acaba contribuindo com a melhoria da qualidade de vida dessa comunidade como se pode perceber no tópico a seguir.