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3. EN MODELL FOR RATIFIKASJONSPROSEDYRER

3.2 M ODELL : P ROSEDYREALTERNATIVENE FOR RATIFIKASJONEN

3.2.3 Folkeavstemning

O enredo se passa na França do século XVIII e conta a estória de Jean-Baptiste Grenouille, que nasceu com um olfato altamente desenvolvido e, ironicamente, com um corpo que não emite odor algum, não sendo percebido pelos cidadãos da fétida Paris daquela época – e aqui tomamos a palavra “fétida” tanto no seu sentido literal quanto no seu sentido metafórico, representando a mesquinhez, a falta de solidariedade e a satisfação dos interesses próprios em detrimento dos interesses alheios das pessoas representadas no livro (com quem Grenouille continuamente se depara e a quem lhes são reservados destinos trágicos).

A trama gira em torno na busca de como Grenouille se aperfeiçoa em seus métodos de apropriação de cheiros (enquanto técnica perfumística) e na obtenção da matéria-prima desses cheiros que, no caso, vêem de 25 belas donzelas que ele tem que assassinar para obter seus aromas e, assim, construir o melhor perfume de todos os tempos (Süskind, 2010).

Participaram deste encontro cinco integrantes do Clube (Sueli, Bárbara, Fabiana, Raquel e Samara), a assistente de aluno do campus Brasília e o autor/facilitador da pesquisa, compondo assim um grupo de sete pessoas. A recepção geral da obra não foi tão animada, bem como a participação e envolvimento do grupo, quanto o foram em Orgulho e

preconceito.

Fabiana começou a discussão ressaltando como a obra trata do aspecto olfativo do ser humano, o que lhe causou certa dificuldade, pois ela não tem um bom olfato e, com a leitura da obra, tentou sentir mais o cheiro das pessoas; contou um episódio em que sentiu um cheiro muito forte na sala de dança e não conseguia saber de onde vinha, até que descobriu que vinha do pulso de sua colega ao seu lado, e terminou dizendo que a obra lhe serviu para prestar mais atenção a esse tipo de detalhe. Sueli disse que a obra foi bem diferente do que ela esperava e que não se envolveu. Samara ainda está no começo do livro, mas disse que se sentiu intrigada com a estória. Bárbara também não se mostrou animada com o livro, mas explicou suas três impressões sobre ele: primeiro é um pensamento da parte moral pura e simples que Grenouille é um assassino, “pronto, acabou”; em segundo é a parte da percepção que ele tem das coisas e, tomando as coisas para si, Bárbara deu-se em conta de como “a gente deixa de perceber as

coisas pequenas, por exemplo, uma flor no caminho, o céu bonito, as estrelas no céu (...) ele [Grenouille] faz a gente perceber que não dá valor para as pequenas coisas; e terceiro é a

necessidade de Grenouille de querer ser notado e de chamar a atenção.

Parte do encontro ocorreu com alguns questionamentos que o grupo não gostou ou não entendeu e a explicação do facilitador a respeito da fina ironia implícita nesses trechos: as partes em que supostamente o autor perde tempo descrevendo pessoas que não mais aparecerão na história (o que foi confrontado com a compreensão de que todos que lucraram com ele acabaram deixando a história com fins trágicos); uma crítica irônica à academia como um todo e à sociedade intelectual de Montpellier; a criação artificial de cheiros para ele ora parecer “normal”, ora passar despercebido.

Indagadas sobre alguma identificação pessoal com a obra, Fabiana disse que se viu muito parecida com Baldini, por ser tão metódica quanto ele (Baldini era rígido nas técnicas de elaborar um perfume). Raquel destacou o seguinte trecho: “a infelicidade do ser humano

provém do fato de ele não querer ficar quieto em seu quarto, onde é o seu lugar” o qual foi,

curiosamente, lembrado por Fabiana e Sueli (que encontrou a frase exata no livro). Fabiana fez sua desleitura dessa parte como o ser humano está sempre insatisfeito, querendo mais “por

que tem que ser tudo rápido (...) por que tem que ter a inovação, e novos celulares”.

Uma parte interessante da discussão foi uma instigação que não surgiu espontaneamente pelo grupo e sim pela desleitura do facilitador a respeito do isolamento voluntário de Grenouille, que passa sete anos muito felizes degustando de sua memória olfativa, no ponto mais isolado do planeta, em uma caverna, saindo dela apenas para uma rápida satisfação das necessidades fisiológicas, revelando uma extrema autossuficiência. Fabiana disse que sentiu angústia por ele ter decidido seu isolamento, pois “todo mundo é um

ser social (...) quem é você [Grenouille] para não precisar de ninguém”. Samara entendeu

essa parte como algo útil para pessoa se autodescobrir. A reflexão girou no comportamento contemporâneo de que quase ninguém quer ficar só consigo mesmo, precisando estar na mídia, estar no lazer coletivo ou de escutar elogios, pois o “eu mesmo” já não basta para a pessoa, ao contrário de Grenouille na montanha, que se bastava a si mesmo.

Em seguida, fizemos uma revisão do final do livro, quando Grenouille consegue construir seu poderoso perfume, com o melhor cheiro do mundo, e deixa toda a população – que antes estava furiosa com ele e sedenta por sua morte – apaixonada por ele como se vissem a um anjo e de como foi humilhante, conforme disse Sueli, alguém que mais lhe odeia se ajoelhar a ele sendo enganado pela sua aura aromática.

Terminamos o encontro com opiniões não formadas do grupo a respeito se gostava ou não de Grenouille, sintetizadas num pensamento de Bárbara elogiado pelo grupo: “Somos tão

diferentes... igual ele!”. Em seguida, escrevemos nossa versão de sentido.

Continuando a redução fenomenológica com o distanciamento reflexivo (saindo do envolvimento existencial) desta sessão literária, percebemos que não houve um engajamento pessoal dessa obra similar ao engajamento que houve na sessão anterior, tendo a discussão ido, muitas vezes, a comentários intelectualizados sobre a obra. Todavia, destacamos algumas unidades de significados, como a conscientização maior do sentido olfativo (uma awareness

sensorial) e a capacidade de autossuficiência do ser humano, que serão examinadas na investigação fenomenológica no próximo item.