5. DEN SVENSKE DEBATTEN
5.5 P ROSEDYRER SOM REFLEKTERER EN VERDIBASERT LEGITIMITET
Neste capítulo, dedico-me a expor alguns elementos da cultura Xavante em relação aos ritos, crenças e valores envolvidos no ciclo gestação-parto-puerpério. Com esta exposição, tenho o intuito de traçar, em linhas gerais, um paralelo entre a vivência da mulher Xavante, e aquela da mulher burguesa urbana no período pós-parto, tema que será desenvolvido no capítulo seguinte. Saliento, no entanto, que o paralelo a ser traçado tem como principal objetivo ampliar minha capacidade crítica, bem como aumentar minhas possibilidades de relativização dos valores da sociedade burguesa moderna, na qual estou inserida, quanto à vivência da maternidade.
Baseando-me nas informações colhidas no meu contato com os Xavante e nas obras do padre Bartolomeo Giaccaria (1984 e 2000), estruturo este capítulo em três subitens. Inicialmente, descrevo os ritos de passagem que preparam os Xavante para a maternidade e a paternidade, à medida que constroem a transição da fase adolescente para a fase jovem, quando poderão se casar e ter filhos. Em seguida, apresento os rituais e as crenças dos Xavante relacionados à gravidez, ao evento do parto e ao pós-parto imediato. Por fim, discorro sobre a participação da família e da comunidade na experiência da gestação, do parto e dos cuidados em relação à mulher e seu bebê.
5.1 - Os ritos que preparam para o ingresso na fase reprodutiva
A cultura Xavante reconhece e divide seus membros em oito grupos etários. São
eles: AI’UTÉ (recém-nascido); ‘WATÉBRÉMI (criança); AIREPUDU (pré- adolescente); WAPTÉ (adolescente); ‘RITÉIWA (jovem); DANHOUHUI’WA (padrinho); IPRÉDU (adulto) e IHIRE (velho). Cada grupo na aldeia é constituído pelos membros que nasceram em um mesmo período, em um intervalo aproximado de cinco
anos. Os indivíduos não são promovidos de uma fase para outra isoladamente, pelo contrário, são promovidos em grupo, sendo esta passagem celebrada com ritos especiais, cantos, danças e ornamentos.
Os Xavante possuem dois conjuntos de ritos concomitantes, paralelos e complementares, que têm a finalidade primária de preparar e levar, tanto o rapaz, quanto a moça, para o casamento e a procriação, ou seja, para a multiplicação do grupo. São eles: o DANHONO (a grande iniciação da puberdade), e o DANHO’REBDZU’WA (conjunto de ritos que estabelece um Xavante na função de “padrinho”, sendo este nome utilizado também para nominar o padrinho).
Na sociedade Xavante, a maior parte do peso e responsabilidade da vida familiar recai sobre as mulheres, portanto, elas têm como principal rito “a iniciação familiar” que é o DANHO’REBDZU’WA, e só marginalmente acompanham o DANHONO. Em contrapartida, como a vida social é quase que exclusivamente dos homens, o rito que possui maior significado para eles é o DANHONO (a grande iniciação da puberdade), tendo o DANHO’REBDZU’WA um significado secundário.
Reveste-se de grande importância a época em que o rapaz Xavante deixa a meninice para entrar na adolescência. Neste momento, ele abandona o lar paterno e vai habitar a casa dos solteiros (uma oca construída exclusivamente com este objetivo, em um local diferenciado na aldeia), onde irá conviver por cerca de cinco anos com outros membros da aldeia que fazem parte de uma determinada faixa etária, na qual ele está incluído. No momento em que o filho sai de casa, os pais choram como se ele tivesse morrido (simbolicamente morrerá o menino para nascer o rapaz). Diariamente, os familiares de cada rapaz levam comida para ele. Os membros da casa de solteiros devem evitar o contato com as moças.
O rito de passagem que marca a transição do Xavante da condição de WAPTÉ para ‘RITÉIWA é constituído por várias cerimônias: a) o banho ritual, que dura o dia todo e tem o objetivo de educar a vontade e a responsabilidade, além de treinar a força física; b) a perfuração da orelha que educa para a coragem (a perfuração é feita com o osso da canela da onça parda); c) a corrida do NONI, que desperta o espírito de competição e de lealdade (os rapazes correm de um ponto a outro da aldeia); d) os WAMNHORÕ, TÉBE E PAHÖRI’WA que marcam a divisão e também a união entre os clãs por meio da troca de presentes; a TSA’URI’WA, na qual os rapazes devem mostrar que estão maduros e aptos para enfrentar as dificuldades da vida.
A preparação para a iniciação dos jovens é longa e mobiliza os pais, padrinhos, parentes e toda a comunidade. O conjunto de exercícios, cerimônias e ritos que acompanham a iniciação, devido à grande carga simbólica que trazem em si, levam a um rápido amadurecimento do rapaz, implicando em sua transformação física e comportamental. O homem, porém, é considerado formado apenas quando é um IPRÉDU (adulto), o que ocorre somente após vários anos de casamento e até mesmo após já ter tido filhos. (Giaccaria, 2000).
Abaixo, a descrição do ritual de iniciação feita pelo Xavante Trovão, 24 anos:
“Fiquei dos 14 anos aos 19 na casa dos adolescentes, lá eu aprendi a falar baixo, a me relacionar com os outros, a respeitar os outros, tive contato direto com os outros meninos, enquanto a gente ta lá, a gente não tem muito contato com as meninas, não é porque é proibido, é porque a gente sente mesmo que deve ser assim.”
“A gente passa o dia todo no rio, no frio, quando vai furar não dói porque tá dormente. Não dói, não. Você sabe que, depois que eu furei a orelha, atraiu mais mulher, o brinco chama mulher, é pra isso mesmo.O tamanho do brinco depende da
fase de maturidade, se for mais maduro, fase mais avançada, o brinco é maior. Mas tem gente que não respeita isso e usa maior porque quer mesmo.” (Falando do ritual da
furação de orelha).
Para a menina Xavante, o ritual do DANHO’REBDZU’WA, no qual ela ganha um padrinho, representa a sua separação do grupo familiar, uma vez que ela sai do poder paterno e passa para a autoridade do padrinho que sempre pertencerá ao clã da mãe da menina. Esta passagem é simbolicamente representada pela ida da afilhada à casa do padrinho que irá pintá-la (o tronco de vermelho e as pernas de preto) e ornamentá-la com colares e cordas (que serão amarrados nos tornozelos e pulsos) feitos por ele.
Esta separação torna-se pública para a família e para a comunidade por meio do ritual de divisão do grande bolo, preparado pela esposa do padrinho, que o entrega à mãe da afilhada, quando esta vai à casa do padrinho buscar a filha para levá-la de volta para a casa dos pais. Ao chegar em casa com a filha, a mãe entrega o bolo para o pai, que o divide em duas partes: uma fica com a família e a outra é distribuída para os demais membros da aldeia. Comendo deste bolo, o grupo e a família tomam ciência do “apadrinhamento”, bem como o aprovam e o convalidam.
Deste momento em diante, até o casamento, a menina vive num estado marginal com relação aos meninos da mesma faixa etária que a dela, já que é considerada perigosa por eles, pois tem o poder de lhes roubar a força por intermédio da relação sexual. Ela também se encontra num estado marginal com relação ao grupo das mulheres e à família, marginalidade expressa pelas restrições sexuais, alimentares e de moradia (muitas vezes, as meninas vão morar na casa da avó para receber as suas orientações). A mulher somente se reintegrará plenamente ao grupo familiar quando tiver filhos.
O casamento Xavante consiste em um ritual constituído de várias cerimônias que demoram aproximadamente 18 anos para se completarem e geram obrigações do noivo em relação à família da noiva e em relação à comunidade. A aldeia Xavante é dividida em dois clãs, o Clã Girino (POD’REDZA’ÕNO) e o Clã Grande Rio (ÖWAWE). Como os Xavante são enxogâmicos, um membro de um clã deve casar com o membro do clã oposto, respeitando as normas estabelecidas no sistema de parentesco.
A cerimônia mais importante deste ritual é o ADABATSA ou “comida da noiva”, descritas a seguir pelo Pe. Giaccaria.
“Quando chega a idade do casamento tá tudo marcado, aí os pais da noiva e do noivo falam que tá na hora de fazer o adabatsa (casamento ritual dos Xavante) que significa “a comida da noiva”, adaba é noiva, tsa é comida. Aí vai o pai e os parentes do noivo saem para caçar, o noivo acompanha mas não pode caçar. Aí eles tem que pegar pelo menos uma anta e muitos outros animais. Quando chegam a uma determinada distância da aldeia eles gritam para avisar que estão chegando. Então o noivo se pinta fora da aldeia. Aí quando eles chegam no centro da aldeia, eles colocam toda a caça num cesto bem grande e o noivo tem que carregar o cesto sozinho do centro da aldeia até a casa da noiva. O cesto pesa uns cem, cento e cinqüenta quilos. Ele põe a alça na cabeça, e carrega nas costas (parecido com a forma como as mães carregam os bebês, sustentando a alça pela cabeça e o cesto sustentado pelas costas). Quando ele chega na casa da noiva, ele despeja a caça no chão, na frente da casa, e vai para a sua casa. Aí o padrinho do casamento, que é o defensor do casal, que irá acompanhá-los por toda a vida, que é o segundo pai, pega a caça leva para a casa dele e distribui para a aldeia. Aí, ele volta para a casa da noiva, enfeita a noiva com colares especiais, pinta ela. Então a mãe da noiva coloca uma esteira a quatro, cinco metros na frente da casa, a noiva sai, ajoelha lá. Aí vem uma outra moça, que tem alguma relação
de proximidade com a moça, correndo e tira os colares e leva para ela. A partir daí os noivos já podem se encontrar. Esse casamento eles continuam fazendo. Por isso que eu não faço casamento religioso para Xavante, nós fazemos batizado, se eles pedem, mas casamento não, porque eu descobri que muitos deles pediam o casamento no religioso para se livrarem dos deveres que tinham com o casamento Xavante, porque este casamento importa em muitos deveres para com o sogro e a sogra. E também casamento é um só, se já estão casados, eu não vou casar quem já está casado. Eles já pediram e eu falei não. Eles fazem o casamento religioso e logo estão se separando. Agora eles se separam muito, antes não, eles só tinham uma separação ritual, que o padrinho juntava eles de novo.”
Os Xavante, em sua maioria, são monogâmicos. No entanto, existe a possibilidade de um homem Xavante casar-se com duas ou mais irmãs. Isto ocorre quando os pais das moças oferecem ao futuro genro mais de uma de suas filhas, e ele as aceita como esposa. Para cada moça é feito, então, um ADABATSA.
Mano, casado há mais de dez anos com duas irmãs, relata como funciona a bigamia em sua cultura:
“Eu tenho duas mulheres, sou casado com duas irmãs, com a primeira eu tenho quatro filhos com a segunda eu tenho dois.”
“Eu casei com uma em 93 e depois casei com a outra em 95. Hoje eu vivo com as duas mulheres na mesma oca e durmo no meio das duas. Nunca deu problema, não.”
“A minha sogra quer que eu pegue mais uma (a sogra quer que ele despose mais
uma de suas filhas), meus cunhados também, porque eles também decidem. Ela é
criança ainda, querem separar ela pra mim. Mas eu acho que não vai dar certo. Já perguntei pra as duas elas estão estudando a idéia, ainda não dei a resposta, tô
estudando também, mas acho que não vai dar certo, já tem muito tempo que tô casado só com as duas.”
Quando perguntei para Mano se um Xavante pode casar com duas mulheres de famílias diferentes, ele respondeu: “Já aconteceu, mas não dá certo, dá confusão.”
No casamento Xavante, o noivo é escolhido pelos pais da noiva, entretanto, para que o casamento efetivamente ocorra, faz-se necessário que os noivos estejam de acordo.
“Foi o pai da minha ex-mulher que me escolheu, eu aceitei porque era uma família muito próxima da nossa.” (Trovão, de 24 anos)
5.2 - Os rituais e crenças relacionados com o ciclo gestação-parto-puerpério
Na cultura Xavante, existem diversas regras e crenças a respeito do que os pais devem fazer para que a gestação e o parto de seus filhos sejam saudáveis. Uma destas regras refere-se a restrições de alimentos e de certas atividades, às quais tanto o pai quanto a mãe devem se submeter, durante a gravidez e o pós-parto.
As mulheres e os homens Xavante, enquanto se preparam para entrar em idade reprodutiva (infância e puberdade), ou quando já estão maduros para procriarem (não só do ponto de vista fisiológico, mas também de acordo com as regras sociais que definem o momento certo para eles se casarem e terem filhos), devem seguir uma dieta alimentar apropriada para cada fase do desenvolvimento, com o objetivo de se prepararem para conceber filhos saudáveis (Rênhêre, 2006).
Desta forma, os Xavante, tradicionalmente, apenas são liberados para comer qualquer alimento e na quantidade que desejarem quando atingirem uma idade na qual se tornam inférteis. Um bom exemplo de alimento proibido durante toda a vida reprodutiva é a carne de capivara. Este animal, no plano simbólico, representa a
gravidez e, portanto, sua carne não deve ser consumida enquanto a pessoa estiver em fase reprodutiva.
Para os Xavante, a saúde do bebê, durante a gestação e nos primeiros meses de vida, depende da disciplina alimentar do pai e da mãe, que devem seguir a dieta própria para cada período. Alguns exemplos: durante a gestação, a mulher não pode comer carne de nhambu, mutum, perdiz, porque estas caças fazem mal para o bebê, podendo causar a sua morte intra-útero. Se a mulher comer carne de tripa de tamanduá, anta, veado, cervo, queixada “enche a barriga do bebê de gás”.
Quando o casal come carne de alguma ave durante a gestação, o bebê, ao nascer, demora cinco minutos para chorar, podendo até desmaiar. No pós-parto, se o casal comer carne de capivara, caititu, couro de tamanduá, “o bebê fica pretinho e demora
para dormir”. O peixe “faz mal para o bebê que fica empachado, chora a noite inteira e não dorme de tanta dor” (Rênhêre, 2006).
Seguem algumas citações colhidas nas entrevistas que fazem referência às crenças do povo Xavante a respeito das necessidades de cumprir as restrições alimentares e as conseqüências advindas do rompimento das regras:
“Não adianta nada levar a mulher para ter filho no melhor hospital da cidade, porque se eles não seguirem a dieta, durante a gestação, o bebê não vai nascer bem.”
“Depois do parto a mulher tem que comer batata, cará, abóbora tudo assado na panela com água, se colocar para assar na brasa, o neném vai ficar pretinho.”
“O bebê novinho só come milho branco, isso é para ficar branquinho, devemos acreditar na nossa crença, seguir os nossos costumes e tradição.” (Paulo).
“São coisas delicadas, pois é da competência do pai e da mãe para levar a vida do bebê sadio até a maturidade.” (Benta, parteira , 70 anos).
“Eu fiz a dieta (quando a esposa estava grávida) porque eu sempre escutei muito o meu avô e a minha avó e eles sempre disseram que é para respeitar a dieta e é verdade, acontece mesmo. Quando eu furei a orelha, que eu tava na casa dos adolescentes não podia comer milho, eu experimentei e comi um pouquinho, nasceu um caroço na minha orelha, branquinho, nas duas, eu fiquei tampando com o meu cabelo que era grande na época, pra ninguém ver e nunca mais comi nada que não podia. Acontece mesmo.”
(Trovão).
Na cultura Xavante, a participação ativa do pai durante a gestação não se restringe à dieta alimentar. Ele também realiza rituais para definir o sexo da criança, que será concebida, bem como para escolher o seu nome. Para os Xavante, o sexo das crianças pode ser induzido por intermédio da posição adotada pelo casal durante o ato sexual, pelo uso do brinco apropriado pelo pai da criança, pelos pedidos feitos aos espíritos (Dahimile) e pelo uso de algumas ervas do cerrado.
Quando um homem Xavante deseja escolher o sexo do filho, ele realiza, com a ajuda do seu pai, um ritual para confeccionar um “pauzinho” especial, que será utilizado, como brinco, no momento da relação sexual. Pai e filho, então, saem de casa meia-noite, o filho volta-se para o oriente, retira o pauzinho da orelha direita, levanta-o e abaixa-o enquanto reza para pedir que DANHIMITE (entidade que se aproxima do Deus cristão) forme no útero da mulher, o corpo do filho. Durante a confecção do brinco, o futuro avô assume uma posição corporal específica e ornamenta o “pauzinho” com uma pintura feita de urucum, que varia de acordo com o sexo pretendido para o futuro bebê. Se menina, o pauzinho será pintado com apenas uma listra vermelha, se menino, receberá quatro listras vermelhas.
No momento do coito, o homem adota uma posição sexual específica, previamente orientada pelo pai. Após o coito, ele retira o pauzinho da orelha e o coloca sobre o ventre da esposa “para que DANHIMITE faça com que ele sonhe com o filho que nascerá”. No entanto, caso a prece não seja escutada e um bebê de sexo oposto ao desejado venha a nascer, não há conseqüências, nem desilusão por parte dos pais (Giaccaria & Heide, 1984).
Alguns homens Xavante que entrevistei fizeram referência à escolha do sexo de seus filhos, conforme transcrevo a seguir:
“Chamei meu pai, pai tá vivo, ele saiu à noite, fez pauzinho bem, ele sabe, para acertar, pedi pra Deus, veio! Fiz no primeiro, veio menino.” (Paulo, pai de oito filhos,
cinco homens e três mulheres).
“No segundo filho, da primeira mulher, eu fiz, porque o primeiro foi uma menina, aí eu pensei, tenho que fazer alguma coisa, se continuar assim vai dar problema, vai dar trabalho para mim. Vim procurar o cacique daqui, ele já morreu, pedi pra ele que ele me ajudasse a fazer o pauzinho para por na orelha. Ele saiu comigo, fez o pauzinho comigo, me disse para fazer sexo assim, colocando as pernas da mulher aqui (mostra os ombros dele), depois mandou eu colocar o pauzinho em cima da barriga dela. Eu não pedi explicação, eu fiz e deu certo, não pedi explicação.” (Mano, pai de seis filhos.)
5.3 - A participação da família e da comunidade na gestação, no parto e nos cuidados com a mãe e o bebê
5.3.1 - A participação do pai
Na cultura Xavante, a figura do pai é muito importante. O homem procura o pai para aconselhar-se e obter seu consentimento sempre que vai tomar uma decisão
importante no âmbito familiar, social ou cultural. Desde o nascimento até a morte, o Xavante fica sujeito à autoridade paterna, que é exercida pelo pai legítimo e pelos pais eletivos, não havendo grande distinção entre eles.
Cada Xavante (seja homem ou mulher) tem um pai e dois padrinhos (membros do clã oposto ao do pai, ou seja pertencentes ao clã da mãe), o DANHOHUI’WA, que introduz e acompanha o afilhado/afilhada na vida social, tendo as suas atribuições ligadas essencialmente ao grupo de idade e aos ritos de iniciação, portanto sendo mais importante para os meninos; e o DANHO’REBDZU’WA que introduz o afilhado/afilhada na vida familiar, cujas funções são ligadas a cerimônias do casamento, sendo, portanto, mais importante para as meninas. Os padrinhos são responsáveis por preparar os enfeites para os meninos, a serem utilizados enquanto forem WAPTÉ, e para as meninas, que os utilizarão no dia do casamento.
Conforme o Pe. Giaccaria, na sociedade Xavante não existe uma pessoa que não tenha “pai”. Assim, se uma mulher solteira engravida e ninguém assume a paternidade, a criança deve ser morta. Caso algum homem assuma a paternidade desta criança, independentemente de ser ou não seu pai biológico, ela será, contudo, aceita pela comunidade como qualquer outra criança.
Quando perguntei ao padre Giaccaria, se a criança “sem pai” era de fato morta, e por que, ele respondeu:
“(...) se não tem ninguém que assuma a paternidade, a criança deve ser eliminada porque não pode ter ninguém sem pai nesta sociedade. Não, sem pai não pode, é uma ameaça terrível à sociedade. Alguém sem pai não pode ser. Uma pessoa de 100 anos tem que ter seu pai (...)Eu tenho pai Xavante, quando tem cerimônia, ele me pinta.”
“(...) eu só vi um caso (em que mataram a criança) e já faz 45 anos, foi na Terra Indígena São Marcos. Geralmente alguém assume a paternidade, mesmo sabendo que
não é o pai, para a criança não ser sacrificada. E aí assume mesmo.Eu já vi um homem bom, que nunca tinha feito mal nenhum , que não tinha nada a ver com aquilo, que nunca tinha abusado de ninguém, mas ele disse que o filho era dele e todo mundo aceitou e ele cria o filho como dele. O pai biológico é o que menos conta, porque tem os padrinhos, o padrinho de casamento, que é um pai. Isto equilibra a autoridade do pai biológico.
Tradicionalmente, o pai não participa do parto e fica fora da casa, uma vez que parto “é assunto de mulher”, conforme as respostas dadas às perguntas: “Os pais ajudam no parto?” e “Seu marido ajudou no parto?”
“Geralmente não, cada um tem as suas funções. Quem mais ajuda é a avó, ela está sempre aí. O genro muitas vezes vai morar com a sogra.” (Padre Giaccaria)
“Não! Marido não fica junto, tenho vergonha, é proibido.” (Alma).
“Hum, hum (e balança a cabeça negativamente). Não dá, é homem, não pode.”
(Dona Íris).
“O homem em casa? Não! Ele vai lá pra fora (faz sinal um sinal com a mão para