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Filmanalyse som bakgrunn

In document Nært på menneske med kameraet (sider 28-0)

3. Metode

3.3 Kort filmanalyse

3.3.1 Filmanalyse som bakgrunn

 Momento I Situação inicial

Sequência Didática – Relato Pessoal (Descobrindo um pouco mais sobre mim) O que é um Relato Pessoal?

O Relato Pessoal – segundo Costa (2008, p.159), pode ser definido como: “narração (v.) não ficcional escrita ou oral sobre um acontecimento ou fato acontecido, feita geralmente usando-se o pretérito perfeito ou o presente histórico”.

É, portanto, um gênero de texto oral ou escrito em que uma pessoa compartilha com o interlocutor uma experiência que viveu. Esse registro pode contribuir para construir uma memória coletiva de certo grupo social, em determinada época ou lugar, pode estimular a reflexão, deixar uma aprendizagem, ou meramente entreter o interlocutor.

Problematização

Discutir sobre a importância do gênero Relato Pessoal enquanto documento de experiências que constitui uma memória individual ou coletiva de certo grupo social, em determinada época ou lugar.

ATIVIDADE 01

Nesta atividade buscamos conhecer um pouco mais sobre o gênero Relato

Pessoal e os recursos da linguagem verbal escrita que caracterizam o gênero.

Para isso, distribuímos cópias de fragmentos de Fanfics, Fizemos também a leitura de fragmentos do livro O diário de Anne Frank <http://odiariodeannefranknaeja.blogspot.com.br/2010/11/fragmentos-do-diario-de- anne-frank.html> e ainda assistimos a um vídeo relatos de viagens <https://www.youtube.com/watch?v=u2xDHprrvY8>. Todos refletindo a maneira pela qual os autores narram suas experiências de vida.

Muitos alunos desconheciam o ‘relato pessoal’. Falavam sobre eles, suas experiências, mas não tinham, até então, atentado para o nome designado ao gênero.

Em seguida, foi solicitado aos alunos que construíssem uma síntese semântica de um dos textos escritos, com base em um roteiro de questões:

 Que ideias o texto apresenta sobre o(a) autor(a)?  Que ideias o texto apresenta sobre o relato pessoal?  Qual a intenção comunicativa do texto?

 Quem, supostamente, seria o público-alvo do texto escolhido? Fanfic: Relatos de um Adolescente

Capítulo : Capítulo 1

“3 de Setembro de 1991”

Primeiro dia de aula é sempre um saco, ainda mais em colégio novo. Mas, por incrível que pareça, eu estava animado, com novas expectativas. Esperava fazer novas amizades É. Eu só “esperava”.

Acordei às 5h30 da manhã pra me arrumar. Fui até o meu armário e peguei aquele uniforme brega listrado vermelho e cinza. Fui logo tomar meu banho pra não perder tempo. Saí de casa às 5h50; Como aquele colégio era grande e assustador. Logo de longe observei que já havia “grupinhos formados” e era basicamente impossível ingressar neles. Fui em direção à secretária. Por onde eu passava,

ficavam me observando de uma maneira ruim. A diretora Helen Darty era uma pessoa legal, pelo menos “aparentava” ser Quando cheguei na secretária, ela estava tendo uma “mini reunião” com os pais de uma aluna. E estava sendo muito simpática, (o que não é de se estranhar) mas como eu falei, ela só aparentava. Esperei uns 30 minutos sentado no primeiro banco ao lado da porta, quando a Sr. Helen veio e me chamou.

(<http://fanfics.com.br/?q=capitulo&fanfic=27523&capitulo=1>- adaptado)

Fanfic: Relatos de Uma Adolescente Apaixonada escrita por Queen M

Notas iniciais do capítulo

Espero que gostem, essa historia é bem parecia com a My Best Friend então quem gostou daquela provavelmente goste dessa!

Oi. Meu nome é Vitória e vou contar para vocês a minha triste história. Ela não é um conto de fadas como muitas delas são. São apenas relatos de uma adolescente com o coração partido...

Tudo começou quando eu estava na 6º série...

AGOSTO, GINCANA DA ESCOLA, 2007...

Foi a primeira vez que o vi. De começo ele nem chamou minha atenção, mas minha amiga havia adorado.

– Ei Vic! Olha como aquele garoto é lindo! Ela me apontou o garoto em quem eu tinha reparado, mas que não havia chamado minha atenção.

– É. Ele até que é bonito...

Mal sabia eu que passaria noites acordadas por aquele mesmo garoto que eu nem havia dado a mínima....

(<http://fanfiction.com.br/historia/90555/Relatos_de_Uma_Adolescente_Apaixonada/ capitulo/1/> adaptado)

Fragmentos do Diário de Anne Frank 20 de junho de 1942

Meu pai já tinha trinta e seis anos quando se casou com minha mãe, a qual tinha vinte e cinco. Minha irmã, Margot, nasceu em 1926, em Frankfurt am Main. E eu em 12 de junho de 1929. Sendo cem por cento judeus, emigramos para a Holanda em 1933, onde meu pai foi nomeado diretor da Travis N. V., firma associada à Kolen & Cia. de Amsterdã. O mesmo edifício albergava as sociedades das quais meu pai era acionista. Desde então, a vida não estava livre de emoções para nós, pois o restante de nossa família ainda encontrava-se defendendo das medidas hitleristas contra os judeus. À raiz das perseguições de 1938, meus dois tios maternos fugiram e chegaram sãos e salvos aos Estados Unidos. Minha avó, então de setenta e três anos, reuniu-se conosco. Depois de 1940, nossa boa época terminaria rapidamente diante de tudo: a guerra, a captura, e a invasão dos alemães, levando-nos à miséria. Disposição atrás de disposição contra os judeus. Os judeus eram obrigados a levar a estrela, a ceder suas bicicletas. Proibição dos judeus de subir num bonde, de dirigir um carro. Obrigação para os judeus de fazerem suas compras exclusivamente nos estabelecimentos marcados com o letreiro: “Comércio Judeu”, e, das 15:00 às 17:00 horas apenas. Proibição para os judeus de saírem depois das 8:00 da noite, nem sequer a seus jardins - ou ainda - de permanecer na casa de seus amigos. Proibição para os judeus de praticarem exercícios em qualquer esporte público: proibido o acesso à piscina, à quadra de tênis e de hóquei ou a outros lugares de treinamento. Proibição para os judeus de visitarem aos cristãos. Obrigação para os judeus de irem a escolas judias, e muitas outras restrições semelhantes.

8 de julho de 1942

Às 3:00 da tarde bateram à nossa porta. Eu não escutei porque estava lendo no terraço, preguiçosamente reclinada ao sol em uma cadeira de balanço. De repente, Margot surgiu na porta da cozinha visivelmente turbada:

– “Papai recebeu uma intimação da SS!” Cochichou. “Mamãe acaba de sair para buscar ao senhor Van Daan.” (Van Daan é um colega do papai, e nosso amigo.)

Eu estava aterrorizada. Todo mundo sabe o que significa uma intimação. Vi surgir na minha imaginação os campos de concentração e as celas solitárias. Deixaríamos papai partir para lá?

– “Naturalmente não se apresentará.” Disse Margot, enquanto que ambas esperávamos no quarto o regresso da mamãe.

– “Mamãe foi à casa dos Van Daan para ver se podemos morar a partir de amanhã em nosso esconderijo. Os Van Daan se esconderão lá conosco. Seremos sete.”

Em nosso dormitório, Margot me confessou que a intimação não era para o papai, mas para ela própria. Assustada de novo, comecei a chorar. “Margot tem dezesseis anos! Querem, pois, deixar que vão sozinhas as garotas de sua idade? Afortunadamente, como disse a mamãe: Não irá!”

9 de outubro de 1942

Hoje não tenho que dar a conhecer a não ser notícias deprimentes. Muitos de nossos amigos judeus são pouco a pouco embarcados pela Gestapo, a qual não anda com contemplações. São transportados em furgões de gado à Westebork, ao grande campo para judeus, em Dentre. Westebork deve ser um pesadelo. Centenas e centenas estão obrigados a se lavarem em um só quarto; e faltam banheiros. Dormem uns em cima dos outros, amontoados em qualquer canto. Homens, mulheres e crianças dormem juntos. Nem falemos dos costumes: muitas das mulheres e garotas estão grávidas. Impossível fugir. A maioria está marcada pela cabeça raspada, e outros, além do mais, por seu tipo judeu. Se isto ocorre na Holanda, como será nas regiões longínquas e bárbaras das que Westebork não é mais que o vestíbulo? Nós não ignoramos que essa pobre gente será massacrada. A rádio inglesa fala de câmaras de gás. Depois de tudo, talvez seja melhor morrer rapidamente. Isso me deixa doente.

(<http://odiariodeannefranknaeja.blogspot.com.br/2010/11/fragmentos-do-diario-de-

Nessa aula, a participação dos alunos foi praticamente unânime. Houve bastante interesse nos textos e uma grande curiosidade sobre as histórias criadas por fãs, baseadas em livros, cartoons, filmes etc, os fanfics. Alguns alunos revelaram que nunca haviam lido textos literários e que as histórias conhecidas, como a história da Chapeuzinho Vermelho, foram contadas pela mãe ou avó. Eles ficaram surpresos com a possibilidade de reescrevê-las.

 Momento II

Em um segundo momento, apresentamos o relato Procura aqui, Indiana

Jones!, escrito por Fábio Zanini. Realizamos a leitura coletiva, reconhecemos

marcas características do gênero presentes na organização do texto, bem como sua intencionalidade comunicativa.

Em seguida, foi realizada uma atividade individual através de um estudo dirigido.

ATIVIDADE 02

17/07/2008

Procura aqui, Indiana Jones!

AKSUM (ETIÓPIA) – Durante milênios a Humanidade procura pela arca que guardou as tábuas com os Dez Mandamentos entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai. Filmes, livros, teses, pesquisas tentam desvendar o mistério. Indiana Jones, obviamente, é o mais famoso dos caçadores da Arca Perdida.

Os etíopes garantem que essa busca é perda de tempo. A Arca está bem aqui, em Aksum.

Ela fica numa capelinha ao lado da igreja de Santa Maria de Zion, que é uma espécie de Vaticano da Igreja Ortodoxa Etíope, construída pela primeira vez no século 4 (e depois refeita no século 17).

Diz a lenda (lenda, não, verdade, para os moradores daqui) que a Arca foi trazida de Jerusalém no século 1 A.C. pelo imperador Menelik, filho da união do rei judeu Salomão com a rainha etíope Sabá. Mas não há confirmação histórica disso.

O que existe com certeza é uma arca parecida com aquela descrita na Bíblia, que fica dentro da capela _e que ninguém, a não ser um monge da igreja etíope, pode ver. Nem o presidente da República, nem o patriarca (equivalente ao papa) da igreja etíope, ninguém. Só o monge misterioso.

E cadê o monge que eu quero uma foto dele, perguntei ao administrador da igreja, um baixinho gente fina chamada Johannes. Afinal, esse cara conseguiu o que nem Indiana Jones conseguiu e merece os parabéns!

O monge, me explicou Johannes num tom também misterioso, quase nunca sai da capela e não gosta de fotos. Dorme ao lado da arca e passa os dias rezando. Só sai para comer no refeitório da igreja e usar o banheiro.

Nem o nome dele eu consegui. Só pude saber que o tal monge tem por volta de 65 anos e é o guardião da Arca há mais ou menos 20. Quando morrer, a cúpula da Igreja Ortodoxa escolherá o novo responsável pela relíquia, como é feito há séculos.

E tem um último detalhe. Simples mortais têm que manter uma distância de pelo menos uns 20 metros da porta da capela, para não sofrer os efeitos da “energia” ali concentrada. Dizem que um homem pode ser queimado vivo só de tocar o objeto (menos o monge, claro). Quando tentei me aproximar mais para uma foto, Johannes me puxou para trás. “A Arca é muito poderosa...”, disse ele.

Escrito por Fábio Zanini às 09h05

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(<http://penaafrica.folha.blog.uol.com.br/arch2008-07-01_2008-07-31.html>)

Escrito pelo jornalista Fábio Zanini, o texto relata uma experiência vivida pelo autor em uma viagem de cinco meses pela África.

Em seu blog, “Pé na África”, há vários posts publicados quase que diariamente. Essas publicações, posteriormente, transformaram-se em um livro impresso.

Estudo dirigido

1. Por meio do post, Fábio Zanini compartilha com o leitor uma de suas experiências. Conte-a de forma resumida.

2. Há no texto algumas marcas do registro coloquial da língua. Identifique-as. 3. Fábio Zanini é jornalista da Folha de São Paulo. Você acredita que se o texto escrito por ele fosse uma reportagem em vez de um relato pessoal sobre sua viagem, os registros coloquiais seriam adequados? Por quê?

4. Com base no post, a quem possivelmente interessa o blog “Pé na África”? 5. Se você estivesse em uma viagem, também gostaria de registrar suas experiências para depois compartilhá-las com outras pessoas? Por quê?

À medida que iam resumindo, com ajuda da professora, as experiências relatadas no texto do jornalista, vimos que os alunos encontraram dificuldades em deixar as ideias apresentadas por eles de acordo com o que o autor do texto havia exposto.

Na sequência desta atividade os alunos também encontraram dificuldades nas perguntas de números três e quatro. Em relação à questão três foi preciso diferenciarmos com mais clareza o gênero reportagem do gênero relato. Para isso, realizamos uma atividade de interpretação presente no livro didático que se apropria do gênero reportagem. Quanto à questão de número quatro, a dificuldade consistiu em entender que os textos são produzidos para um público-alvo específico. No momento da explicação e diante dos que já haviam entendido, alguns alunos, impulsionados pelo calor da discussão, agiram de forma agressiva com um colega,

movendo, com isso, uma desestabilização na aula. Assim, foi preciso pararmos e reavaliarmos a nossa postura em sala de aula. Todavia, a aula foi paralisada e retomada para que continuássemos a atividade.

Dividimos o segundo momento em três módulos. No módulo I, com a intenção de conhecermos um pouco mais sobre os alunos e propormos situações capazes de gerar novos avanços na aprendizagem para saber qual a lógica que eles usam em suas escritas, orientamos para que produzissem um relato pessoal.

Antes da execução da produção do relato, conversamos com os alunos para saber o quanto eles já conheciam sobre o assunto.

Coletamos informações, ideias e procuramos contextualizar o episódio a ser contado.

Em seguida, orientamos para o encadeamento dos fatos narrados em uma sequência cronológica, através de marcadores temporais.

Os textos foram entregues à professora da disciplina, que fez algumas observações individuais em cada produção.

ATIVIDADE 03

Produção de um Relato Pessoal

Como estamos iniciando o ano letivo de 2015, seria interessante poder conhecer um pouco mais sobre cada um de vocês. Mesmo porque todos nós temos histórias pessoais bem interessantes, sejam elas engraçadas, dramáticas e até mesmo curiosas para contar.

Conhecer, por exemplo, seus gostos, suas matérias preferidas, suas manias, quais atitudes lhe agradam, quais os seus sonhos e suas perspectivas para este ano. Saber se este é o primeiro ano em que você estuda nesta escola ou o que você costuma fazer quando está com sua família. Vasculhe em sua memória algum momento que você considera inesquecível e redija, através de um Relato Pessoal, fatos marcantes que aconteceram durante a sua vida.

Nessa proposta, você pode abordar a sua relação com seus amigos, uma experiência que motivou o seu (des)interesse por uma determinada matéria, uma bagunça que aprontou com seus colegas. Enfim, há um amplo leque de possibilidades para se expressar e ficar à vontade para escrever.

Nesta etapa, além de reunimos todo o material produzido em sala de aula como suporte para uma próxima atividade de produção de texto, procuramos, na dimensão semântica:

 Observar as marcas linguísticas de subjetividade que identificam a “voz” do(a) autor(a) do texto, através do uso dos verbos e pronomes na 1ª pessoa .

 Observar palavras, expressões ou outros indícios que revelam as impressões e emoções do(a) autor(a) do texto pela experiência vivida.  Verificar as formas de introdução de novos referentes.

 Verificar como os referentes são retomados.

As produções do relato pessoal nos mostraram um primeiro diagnóstico para avaliarmos as habilidades dos alunos quanto à escrita e ao gênero. Os alunos apresentaram um conhecimento relativo quanto ao gênero relato pessoal, assim como em relação à escrita, de um modo geral. A partir disso, novas atividades foram requeridas e desenvolvidas voltadas para a organização lógica do texto, ortografia e para as estratégias de referenciação. Assim, iniciamos uma avaliação formativa na qual foi possível mapear as dificuldades encontradas na primeira versão do texto. Esta versão será o meio pelo qual chegaremos ao texto “definitivo”, e, para isso, o monitoramento torna-se imprescindível. Nessa etapa, no entanto, não adotamos a mesma estratégia sugerida por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004).

Oferecemos aos alunos, antes de solicitarmos deles uma nova versão, a produção inicial com algumas sugestões de revisão de textos, bem como fichas de avaliação que contribuíram com o monitoramento e com a avaliação. Isso porque acreditamos que essa produção inicial serve como um guia para que o aluno consiga “pôr em prática as noções e os instrumentos elaborados separadamente nos módulos” (DOLZ et al., 2004, p.106). Ou seja, as atividades realizadas na sequência didática apresentam um direcionamento diferentemente de critérios subjetivos de correção em que não há essa aproximação com as deficiências em determinado gênero, tampouco a intenção de desenvolver a capacidade de linguagem desses jovens. Assim, fomos definindo o que era preciso trabalhar durante as aulas. A avaliação, portanto, passou a ser interativa entre a professora, os alunos e os saberes aprendidos e produzidos.

Nas duas aulas seguintes, correspondentes ao módulo II, realizamos uma nova atividade direcionada para as características linguísticas e estruturais do texto analisado. Identificamos as marcas linguísticas de subjetividade que revelam a “voz” do autor do texto, através do uso de verbos e pronomes de 1ª pessoa, bem como de outros elementos que revelam as impressões e emoções do autor.

Para isso, foi feita a leitura do texto Manoel por Manoel, de Manoel de Barros e, em seguida, uma atividade através de um estudo dirigido.

Procuramos verificar como os referentes são retomados e como são introduzidas novas formas de referentes ao texto.

ATIVIDADE 04

No texto a seguir, o poeta Manoel de Barros nos conta por que se tornou escritor de poesias. A partir da leitura individual, procure observar, além do texto como um todo, os elementos destacados para responder às questões logo a seguir.

Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo1 enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua2 das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com

ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003. p. 187

1Ermo: solidão, isolamento. 2Oblíqua: enviesada, tortuosa.

Estudo dirigido

1. Manoel de Barros ao dizer que, quando menino, viveu em “comunhão com as coisas”, quis revelar que não havia diferença entre ele e os elementos da natureza. De que maneira você acredita que isso teria influenciado sua poesia?

2. Em que tempo estão as formas verbais sublinhadas no texto: passado, presente ou futuro?

3. Em seu relato, Manoel de Barros utiliza, além de verbos, outras palavras que marcam o tempo para organizar os acontecimentos. Procure no texto alguma palavra que contribua para essa organização.

4. Registre algumas informações referentes à localização espacial dos fatos relatados no texto.

5. Em sua opinião, a que Manoel de Barros se refere quando afirma que faz “outro tipo de peraltagem”?

6. No trecho “Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que

sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto”. refere-se a

algo que o autor já havia, mesmo que de maneira sutil, mencionado. A que momento do texto esse trecho em destaque está associado? 7. A quem o termo “EU” faz referência?

8. Escreva o que você associa no texto às palavras:

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