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Felt IIIb

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4. De enkelte figurene. Særpreg og tilstand

4.6 Felt IIIb

Evidentemente todo conceito tem uma história Deleuze e Guattari

O sentido histórico de um conceito é, às vezes, mais profundo que a sua definição e, outras vezes, mais superficial que a sua adoção pelo senso comum. A palavra guerra carrega justamente esta ambigüidade. Todos sabem o que uma guerra significa – mesmo aqueles que jamais vivenciaram uma –, mas apenas alguns se propuseram a pensá-la, criando sistemas de explicação de sua natureza, inventando teorias filosóficas, antropológicas e psicológicas. Entre os teóricos da guerra, destaca-se Carl von Clausewitz.

Este, como foi apresentado no capítulo I, não viu as guerras de longe ou fora um observador capaz de analisar as piores coisas que um homem pode fazer. Esteve mais próximo do que isso. Foi um dos atores da guerra. Lutou contra um dos maiores expoentes militares da História, Napoleão Bonaparte, e aprendeu o que é a guerra moderna. A partir daí escreveu sua teoria.

Seu esforço rendeu a obra Vom Krieg (Da guerra) – provavelmente escrita entre os anos de 1816 e 183033. Esta, dividida em oito livros, apresenta uma série de reflexões, tratando a guerra em seu conceito, em sua história, em suas formas táticas e estratégicas e, por fim, em sua realidade34.

A guerra está definida – pelo menos em conceito – no primeiro capítulo do primeiro livro de Da guerra, avaliada por Aron como “... a obra-prima do escritor” (ARON, 1986a: 71), um dos últimos textos redigidos, entre 1829 e 1830. Assim, nos interessaremos por este trecho da obra, mais especificamente por duas proposições nevrálgicas na definição do conceito de “guerra35”:

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“[Talvez] o Traité [como Aron chama Da guerra] tivesse sido redigido em diversos momentos, entre 1816 e 1830.” (ARON, 1986a: 91).

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Segundo o conceito de “guerra real” do próprio Clausewitz. 35

Em princípio, podemos aparentar certa letargia ao não nos ocuparmos de outras questões que surgem não apenas ao longo de todos os oito livros da obra de Clausewitz, mas no próprio capítulo I do Livro I. No entanto, por acreditarmos que tratar deste tema não é tarefa que se faz rapidamente – nem mesmo a leitura da obra de Clausewitz o é, dado o profundo estilo prolixo de sua escrita –, optamos pela análise histórica única e exclusivamente destas proposições, sendo a própria obra de

“A guerra nada mais é que um duelo em uma escala mais vasta” (CLAUSEWITZ, 1996: 7);

“A guerra é uma simples continuação da política por outros meios” (CLAUSEWITZ, 1996: 27).

A história de um conceito36 não deve ser apenas o exercício etimológico ou filológico de explicação de um termo qualquer, no nosso caso a explicação do vocábulo guerra, ou em alemão, Krieg. Não que este trabalho seja pequeno, mas o desafio desta dissertação não está propriamente no desvendamento da palavra guerra37

, mas na discussão histórica acerca da produção da guerra como conceito. Isto significa, de um lado, entender o referencial teórico e, de outro lado, a cultura de Clausewitz.

Segundo Anatole Rapoport, o referencial teórico e experimental de Clausewitz era próprio da Europa, no período de transição do sistema internacional:

“A estrutura intelectual de Clausewitz manifesta-se com lucidez com que viu este período como uma transição entre duas eras históricas. De um lado encontrava-se o sistema internacional europeu de 1648-1789, que Clausewitz olhou sob uma elucidativa perspectiva histórica. Do outro, o sistema internacional de 1815-1914, do qual Clausewitz se tornou o profeta. Usando conceitos fundamentais do século XVIII, lançou alicerces do edifício conceitual que dominou o XIX”.

Clausewitz a fonte de nossas pesquisas. Além disso, para Raymond Aron, este trecho da obra de Clausewitz é o de maior propriedade do escritor: “Se, conforme penso, Clausewitz só dominou seu próprio sistema no momento em que escrevia a versão atual do capítulo I, [do livro] 1…” (ARON, 1986a: 29).

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Como o cuidado com os termos e conceitos, tanto de nossa língua vernácula quanta da Língua Alemã, é matéria fundamental desta pesquisa, adotamos dois textos como fonte de nossas análises da obra de Clausewitz, um é a tradução em português, feita pela tradutora Maria Teresa Ramos, para a Editora brasileira Martins Fontes; o outro é a edição do século XIX, com a redação original, publicada em suas obras completas Hinterlassene Werke.

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O rigor teórico exige que tomemos cuidado com as palavras. O fato de não nos preocuparmos primordialmente com a explicação etimológica da palavra “guerra” e seus correlatos, não significa que não abordaremos algumas explicações dos vocábulos. Estas ainda assim servirão como base reflexiva de algumas análises do próprio conceito de “guerra” de Clausewitz, como será visto adiante.

“Os agentes, no paradigma clausewitziano, das relações internacionais são… Estados soberanos que, para todos os efeitos práticos, podem ser considerados como pessoas” (Prefácio de Anatole Rapoport. CLAUSEWITZ, 1996: XVIII).

A conjunção entre a produção conceitual acerca da guerra e a experiência vivida de guerras – de um autor como Clausewitz, que teve como fonte para seu trabalho sua própria biografia militar – é a chave para a compreensão da guerra no contexto da produção de Da guerra, em uma perspectiva histórica. A produção histórica do conceito permite questionar os sentidos da guerra para o mundo moderno, inferindo a própria noção que esta tem para a modernidade, além de alimentar os debates teóricos que buscam a essência da guerra.

Para Clausewitz e seus contemporâneos aristocratas, o mundo que conheciam estava desabando e sendo substituído de uma maneira tão rápida que precisariam de muita atenção para perceber suas mudanças. O general prussiano parece ter absorvido o momento histórico e a necessidade de se pensar a guerra em termos diferentes daqueles que a tradição nobre prussiana sustentava38. A noção da virtude guerreira se alterara, não cabia mais apenas aos nobres. Era necessário que alguém perspicaz pudesse apontar para os novos tempos:

“A guerra é uma carreira precisa. E por mais gerais que sejam suas interferências, até mesmo se todos os homens de uma nação aptos para o serviço abraçassem essa carreira ela não deixaria de ser menos diversa e distinta das outras atividades humanas. Ser atingido pelo espírito e pela essência dessa carreira, despertar, exercer e absorver

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Clausewitz apontava criticamente para a obra de Heinrich Dietrich von Bülow, Lehrsätze des

neueren Krieges oder reine und angewandte Strategie aus dem Geist des neueren Kriegssystems, hergeleited vom dem Verfasser des neueren Kriegssystems und des Feldzuges von 1800 [Teoremas da guerra moderna ou estratégia pura e aplicada, tirados do Espírito da guerra moderna, pelo autor do Sistema da guerra moderna e da Campanha de 1800]. “Bülow é o teórico que não apenas deduz as

regras da conduta das operações a partir das novas exigências de abastecimentos suscitadas pelo armamento (descoberta da pólvora, donde os fuzis, os canhões, a necessidade não mais somente de pão, mas de balas etc.). É também o homem que fundamenta sobre os progressos técnicos do armamento uma teoria dos fatores do poder, uma perspectiva diplomática e, em última análise, uma antecipação da paz perpétua segundo o sonho dos filósofos – sonho ao qual ele mesmo deixou de acreditar após tê-lo transfigurado numa pretensa ciência. Contra todos aqueles – e que ainda subsitem – que contam com o progresso técnico para conduzir a humanidade à paz, Clausewitz encarna a sabedoria implacável ou a recusa da esperança do pensador sem ilusão: a guerra toma diversas formas através do tempo sem mudar de natureza ou de essência. Os instrumentos, da lança às armas nucleares, modificam os fenômenos guerreiros sem eliminar a própria guerra” (ARON 1986a: 76).

em si as forças chamadas a nela se manifestarem, aplicar nela toda a sua inteligência, adquirir por seu intermédio a segurança e a facilidade devidas ao treino, desabrochar todas as suas faculdades entregando-se a ela, passar da função de ser humano para a de maquinismo, que nos é destinada, tais são no indivíduo as virtudes guerreiras do exército.

Por mais que nos dediquemos a imaginar a existência do guerreiro e do soldado no mesmo indivíduo, a nacionalizar cada vez mais as guerras, a fazer delas uma idéia tão perfeita quanto se gostaria no sentido oposto ao das condições de outrora, jamais aboliremos as características próprias à rotina. E, visto que é impossível, aqueles que se consagram à guerra considerar-se-ão sempre, enquanto a ela se dedicarem, como uma espécie de guia eminentemente apto a exprimir as ordens, as leis e os hábitos da guerra. É com efeito o que acontece. Por mais decididos que estejamos a considerar a guerra do mais elevado ponto de vista, cometeríamos um enorme erro em desprezar este ‘espírito de unidade’ que pode e deve existir em maior ou menor grau em qualquer exército. Este espírito de unidade forma de certo modo o cimento das forças naturais que abrem caminho naquilo a que chamamos a virtude guerreira do exército. Graças ao espírito de unidade as virtudes guerreiras cristalizam-se mais facilmente” (CLAUSEWITZ, 1996: 189-190).

E é nessa apreensão do que se tornava a guerra, que Clausewitz escreveu sua tese: A guerra possui uma essência? Para o general, sim, e os tempos modernos a manifestavam de um modo que apenas um filósofo empirista amparado em métodos de observação experimental e em generalizações conceituais poderia estabelecer um conhecimento teórico universal.

Mas, ao tentar entender o conceito de Clausewitz, tenderíamos a aceitá-lo como verdadeiro?

O estudo das essências sempre foi um trabalho dos metafísicos. A análise de um estudo desta perspectiva, também, pois a busca do conhecimento da origem ou do ser das coisas é, em qualquer circunstância, um exercício sem fim. Umberto Eco, em Kant e o ornitorrinco, ironizou esta tarefa inglória de filósofos e de historiadores da filosofia:

“Fazer perguntas sobre o fundamento do ser é como fazer perguntas sobre o fundamento do fundamento, e depois sobre o fundamento do fundamento do fundamento, numa regressão infinita: quando, extenuados, paramos, estamos de novo e já no próprio fundamento da nossa pergunta” (ECO, 1998: 25). 39

Os pesquisadores deste campo procuram, antes de tudo, entender o autor dentro de sua própria obra e chegar à tautológica constatação de que a partir do texto analisado não há contradições e, por isso mesmo, as idéias ali expostas, logicamente relacionadas, nos levam a uma verdade incontestável. Assim, pesquisador e objeto pesquisado produzem uma mesma verdade.

O trabalho do historiador – e não nos referimos aos historiadores da filosofia – está para além da constatação. O texto, ou melhor, a fonte pesquisada não é um limite, mas um universo de meios para a discussão e a desconstrução do objeto pesquisado. Segundo Deleuze e Guattari, os filósofos preocuparam-se pouco com o conceito daquilo que produziram como noções, idéias ou fatos. “Eles preferiram considerá-lo como um conhecimento ou uma representação dados, que se explicam por faculdades capazes de formá-lo… ou de utilizá-los. Mas o conceito não é dado, é criado…” (DELEUZE, 1992: 20).

A definição do ser, da coisa em si mesma, não é para o historiador uma verdade universal. Um conceito é histórico e culturalmente produzido e, portanto,

“… é… ao mesmo tempo absoluto e relativo: relativo a seus próprios componentes, aos outros conceitos, ao plano a partir do qual se delimita, aos problemas que se supõe deva resolver, mas absoluto pela condensação que opera, pelo lugar que ocupa sobre o plano, pelas condições que impõe ao problema” (DELEUZE, 1992: 33-34).

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“Em O que é a metafísica?, Heidegger nos lembra que perceber a totalidade do ente em si é diferente de sentir-se no meio do ente em sua totalidade. O primeiro é impossível, o segundo acontece com freqüência. E, como prova de que isto ocorre, cita os estados de tédio (que se aplicam ao ente na sua totalidade)…” (ECO, 1998: 375)

O sentido de um conceito está em sua análise histórica e no valor que adquire em determinados ciclos sociais, de forma a estar sempre comprometido com certo universo de significados culturais, mesmo que este não seja homogêneo. Nietzsche, em Genealogia da moral, ao tratar o conceito de “bom”, nos orienta para termos cautela ao estudarmos a construção dos conceitos que nos propomos a analisar, procurando observar que um vocábulo nem sempre tem o mesmo significado, ou seja, pode sofrer diversas valorações em diversos contextos histórico-culturais:

“Todo o respeito, portanto, aos bons espíritos que acaso habitem esses historiadores da moral! Mas infelizmente é certo que lhes falta o próprio espírito histórico, que foram abandonados precisamente pelos bons espíritos da história! Todos eles pensam, como é velho costume entre filósofos, de maneira essencialmente a- histórica; quanto a isso não há dúvida. O caráter tosco da sua genealogia da moral se evidencia já no início, quando se trata de investigar a origem do conceito e do juízo ‘bom’” (NIETZSCHE, 1998: 18).

De um lado, a história conceitual exige rigor ao abordar um conceito. Sempre há contexto, este não pode ser desprezado jamais. De outro, a mesma história obriga- nos a abdicar de qualquer juízo conceitual prévio.

A suspensão de toda e qualquer noção tida como verdade, como forma de evitar este possível problema e ser julgado mais pelas conclusões do que propriamente pelo desenvolvimento de reflexões e, ainda sim, perceber seu sentido e validade dentro de um determinado universo cultural, é um expediente seguro para todo e qualquer pesquisador que opte pela história conceitual. Destarte, discutiremos o conceito40 de “guerra”, sem nos imaginarmos toscos ao discorrer sobre o assunto.

Para Reinhart Koselleck, há três grupos de compreensão conceitual: um que abarca os conceitos tradicionais da doutrina aristotélica, em que se percebe a

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“Não há conceito simples. Todo conceito tem componentes, e se define por eles. Tem, portanto, uma cifra. É uma multiplicidade, embora nem toda multiplicidade seja conceitual. Não há conceito de um só componente: mesmo o primeiro conceito, aquele pelo qual uma filosofia ‘começa’, possui vários componentes, já que não é evidente que a filosofia deva ter um começo e que, se ela determina um, deve acrescentar-lhe um ponto de vista ou uma razão” (DELEUZE, 1992: 27).

permanência de seus significados; outro que, ao longo do tempo, tem os conteúdos dos conceitos que reúne alterados. “Pense-se na diversidade de sentido do conceito de ‘história’… ou então, pense-se ainda em ‘classe’” (KOSELLECK, 2006: 106- 107), e há ainda um terceiro grupo de conceitos: o dos neologismos.

Koselleck entende ser possível estabelecer articulações, rupturas e transições, dado que um conceito pode se deslocar conceitualmente e, não necessariamente, fazê-lo socialmente41. Utiliza como exemplo a história do conceito de “democracia”, mas poderíamos fazer (e tentaremos fazer), analogamente, com o conceito de “guerra”, objeto desta dissertação:

“Assim, a história do conceito “democracia” pode ser considerada sob os três aspectos. A antiga democracia como forma de constitucional e possível da polis: ela conhece determinações, procedimentos ou regularidades que são encontradas ainda hoje na democracia. No século XVIII, o conceito de democracia foi utilizado para designar novas formas de organização dos grandes Estados Modernos. No que diz respeito ao governo das leis ou ao princípio de igualdade, os velhos significados são retomados e modificados… Finalmente, ‘democracia’ se torna um arquilexema, um conceito generalizante…, tomando o lugar de ‘república’ (politeia)…” (KOSELLECK, 2006: 107).

Ao produzir um conceito, o autor está comprometido com o seu contexto, mas isto não implica estar determinado por ele, ainda que as experiências de vida sejam o fundamento do pensamento de Clausewitz, não só pelos exemplos históricos que ilustram suas idéias, mas a sua própria causa. Sua teoria avança conceitualmente para além da conjuntura empírica de sua época. A definição de guerra é, para Clausewitz, atemporal. Nosso trabalho é pesquisar seu significado, que é historicamente construído, ainda que as máximas de Da guerra nos levem a pensar diferente:

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“A história conceitual põe em evidencia, portanto, a estratificação dos significados de um mesmo conceito em épocas diferentes. Com isso ela ultrapassa a alternativa estreita entre diacronia ou sincronia, passando a remeter à possibilidade de simultaneidade e não simultaneidade que pode estar contida em um conceito. Dito de outra maneira, ela problematiza algo que faz parte das premissas teóricas da história social, ao avaliar as diferenças de curto, médio ou longo prazos, ao sopesar as diferenças entre acontecimentos e estruturas. A profundidade histórica de um conceito, que não é idêntica à seqüência cronológica de seus significados, ganha com isso uma exigência sistemática, a qual toda investigação de cunho social e histórico deve ter em conta.” (KOSELLECK, 2006: 115).

“Não comecemos por uma definição da guerra, difícil e pedante; limitemo-nos à sua essência, ao duelo. A guerra nada mais que um duelo em uma escala mais vasta” (CLAUSEWITZ, 1996: 7). 42

De forma simples, Clausewitz nos mostra a essência da guerra. Isto é, a guerra é um duelo.

Duelo em Alemão é Zweikampf. Esta palavra, como muitas da Língua Germânica, vem da aglutinação de duas outras palavras, Zwei e Kampf, que significam respectivamente dois e luta. Numa definição simples, em nossa Língua Portuguesa, a palavra luta vem do latim lucta e significa combate corpo a corpo, sem

armas, entre dois atletas que, limitados por regras, procuram derrubar um ao outro, e

não, necessariamente, destruí-lo. Para enfatizar o combate entre dois contendores, e chegarmos à idéia de duelo, a Língua Alemã utiliza como prefixo a Kampf a palavra Zwei. O próprio termo duelo da Língua Portuguesa – levando em conta seu radical duo – indica o confronto entre dois sujeitos. Ou seja, o termo luta, estritamente falando, pode ser entendido também como algo individual; por exemplo, a luta interna de um homem contra suas paixões e desejos moralmente prejudiciais, segundo o juízo de sua razão. Mesmo os termos duelo ou Zweikampf não indicam decisivamente que o confronto entre dois indivíduos deve resultar na aniquilação total de um e a vitória triunfante do outro.

Segundo Norbert Elias, ao abordar os valores da sociedade alemã, a prática do duelo era comum entre os jovens aristocratas prussianos do século XVIII e XIX, como elemento fundamental do código social dessa cultura43, ou seja, dentro do

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“Wir wollen hier erst in eine schwerfällige publizistische Definition des Krieges hineinsteigen, sondern uns an das Element desselben halten, an den Zweikampf. Der Krieg ist nichts als ein ermeiterter Zweikampf42” (CLAUSEWITZ, 1832: 3). Pretendemos aqui pesquisar o conceito de “guerra” na obra de Clausewitz e, como havíamos dito, sua definição ontológica encontra-se no Livro I – a definição em questão reaparece em outros momentos de toda a obra, como nos livros II e VIII. Contudo, O Livro I é o texto per excellence de Clausewitz no que consiste a sua definição do conceito de “guerra”.

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Segundo Elias, o próprio pensamento de Nietzsche trata deste universo cultural do duelo; para ele a obra de Nietzsche dialoga diretamente com a prática nobre e “boa” do ser guerreiro dos duelos: “Acredito poder interpretar o latim bônus como ‘o guerreiro’, desde que esteja certo ao derivar bônus

contexto histórico do próprio Clausewitz, a noção de duelo estava para além da guerra como atividade. O duelo servia como experiência social, dando significados e valores para determinados segmentos sociais alemães:

“Aí, sobretudo na Prússia e na Áustria, o código de honra dos guerreiros – a obrigação de arriscar a vida em um duelo para provar que se é digno de pertencer à elite social, àquela que possui ‘honra’ – manteve seu papel crucial até as primeiras décadas do século XX” (ELIAS, 1997: 57).

Nesse sentido, não seria estranho pensar a guerra exclusivamente como um ritual cultural, mesmo para Clausewitz, segundo o que vimos sobre o termo duelo, e o significado semântico e social que esse pode ter.

Isso, se tomarmos cultura por sua definição mais simples: um conjunto de hábitos, rituais e costumes de um determinado grupo étnico homogêneo (e sabemos que Elias não entende cultura desta maneira simplória). John Keegan, crítico de Clausewitz, entende a guerra como uma expressão cultural e, talvez, até tenha razão. Todavia, se lermos o conceito de “guerra” de Clausewitz apenas por esta abordagem, é possível que não alcancemos seu significado histórico.

Keegan, ao mesmo tempo em que definia o conceito de “guerra”, fazia a seguinte crítica ao conceito de Clausewitz:

“Para nos afastarmos da pregação de Clausewitz [de que a guerra é a continuação política por outros meios] não precisamos acreditar, como Margaret Mead, que a guerra é uma ‘invenção’. Nem precisamos estudar os meios de alterarmos nossa

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