Sunflower Lemma
9.4 FAST revisited
Tal como acontecera no Ocidente, a introdução do conceito feminista influenciou em primeiro lugar as mulheres de classe alta da burguesia, que viajavam para o exterior e tinham ideias mais avançadas. Elas começaram a partilhar os seus pontos de vista sobre as mulheres e a formar os seus próprios pensamentos. A fim de
ajudar mais mulheres a adquirirem conhecimentos e libertarem-se dos grilhões que as limitavam, elas criaram vários jornais e revistas, proporcionando às mulheres um lugar para expressarem as suas opiniões.
O jornal Progresso da Menina Chinesa (女学报, nǚxuébào) foi fundado em 1898 por Qiu Yufang (裘毓芳 , qiú yùfāng) (1871-1904), uma das representantes femininas da revolução democrática. Qiu tinha uma base sólida de estudos chineses e sabia línguas estrangeiras. As suas ideias revolucionárias absorveram elementos progressistas ocidentais, ela defendeu a garantia do direito à educação, liberdade de expressão e participação política; foi a primeira mulher na China dedicada ao jornalismo (Yi, 2003). No entanto, o jornal teve apenas em 12 edições. Em 1902, foi republicado por Chen Xiefen ( 陈 撷 芬 , chén xiéfēn) (1883-1923), promovendo a discussão de vários temas, entre eles:
1. A promoção da igualdade entre homens e mulheres e a liberdade do casamento;
2. A defesa do estabelecimento de escolas femininas e a proteção do direito das mulheres à educação;
3. A defesa do sufrágio feminino.
O jornal contratou mais de 20 redatoras, todas eram mulheres conhecidas, incluindo a filha de Kang Youwei, Kang Tongwei (康同薇, kāng tóngwēi) (1879 – 1974), e a esposa de Liang Qichao, Li Huixian (李蕙仙, lǐ huìxiān). Elas assinavam os seus artigos com o seu próprio nome, abrindo assim a porta à liberdade de expressão das mulheres chinesas.
O preço do jornal Progresso da Menina Chinesa era baixo, acessível a pessoas de todas as classes. O conteúdo era quase totalmente relacionado com a libertação das mulheres, as ideias progressistas defendidas esclareceram as mentes da maioria das mulheres e foram acolhidas por muitas pessoas (Zhu, 2000).
O estabelecimento do jornal Progresso da Menina Chinesa veio alterar o longo isolamento intelectual das mulheres. Mais importante, registou o “discurso” das mulheres na China nos séculos XIX e XX, refletindo a jornada de crescimento de uma nova geração de mulheres.
Figura 11 - Primeira edição de Progresso da Menina Chinesa50
O Jornal de Mulheres Chinesas (中国女报, zhōngguó nǚbào) foi fundado em Shangai em 1905 por Qiu Jin51, para defender a igualdade de género e a educação de
mulheres. Qiu Jin foi uma famosa revolucionária democrática na China moderna, que criticou a ética feudal e defendeu ativamente a ideia da libertação das mulheres (Guo, 1987).
No seu artigo “Carta para as minhas irmãs” pode ler-se: “Meus 200 milhões de compatriotas ainda estão na escuridão... Gostaria de perguntar-vos, em toda a vossa vida, vocês já foram livres e felizes?” Acrescentou ainda, “hoje em dia, há mais escolas para meninas, há alguns empregos adequados para mulheres, contando que as mulheres tenham o conhecimento e as habilidades, podem tornar-se professoras, abrir fábricas e viver independentemente. Não precisam depender dos homens” (Qiu
50 Fonte: https://www.chinesepen.org/blog/archives/100827, consultado em 5 de maio de 2019.
51 Qiu Jin 秋瑾 (qiūjǐn) (1875 - 1907) foi uma revolucionária chinesa, escritora e feminista. Foi executada pelo
& Guo, 2004). Analisando o ensaio “Profissões para mulheres” e outras obras de Virginia Woolf, constata-se que as ideias feministas de Qiu Jin e Woolf têm muitas semelhanças: 1. Enfatizam a importância da educação feminina; 2. Pensam que as mulheres devem ter independência financeira; 3. Ambas defendem o slogan “Igualdade entre homens e mulheres” (Woolf, 1974).
Qiu usou os factos e a esperança para despertar a consciência das mulheres, tal como aconteceu nos discursos feitos pelo feminismo ocidental numa fase inicial. Ainda assim, a consciência feminista de Qiu tinha enormes limitações. Ela adorava heróis masculinos da história, preferia roupas masculinas, gostava de andar a cavalo, fazer bombas e tinha boa pontaria. Tudo isso mostrou que ela estava a imitar e a desafiar os homens, portanto, a consciência feminista de Qiu ainda era baseada num sistema hierárquico em que a superioridade masculina predominava, as mulheres ainda eram passivas e não centrais. Ela participou da revolta contra a dinastia Qing e foi executada após o fracasso, em 1907.
Figura 12 - Primeira edição do Jornal de Mulheres Chinesas52
Chen Zhiqun (陈志群, chén zhìqún) criou o Jornal de Mulheres de Shenzhou53
(神州女报, shénzhōunǚbào) em 1907, para homenagear Qiu Jin. O jornal publicou os
52 http://www.chnmuseum.cn/zp/zpml/201812/t20181218_26420.html, consultado em 5 de maio de 2019.
comentários e artigos de Qiu Jin sobre os direitos das mulheres e criticou a perseguição Qing à feminista. Basicamente, o jornal continuou o propósito das duas publicações acima: defender a libertação das mulheres, a igualdade de género, a liberdade do casamento, o direito à educação etc.. Mas, devido aos pensamentos radicais, ele foi rejeitado pelos governantes da dinastia Qing e forçado a parar em 1908.
Zhang Zhanyun (张展云, zhāng zhǎnyún) organizou o Jornal de Mulheres de
Pequim (北京女报, běijīngnǚbào) em 1905, o primeiro jornal feminista na região norte.
Zhang atribuiu grande importância ao direito das mulheres à educação, sugeriu que o governo ajudasse a desenvolver escolas femininas: “A base do desenvolvimento feminista está na educação das mulheres” (Xia, 2006). Além disso, o jornal também prestou atenção à vida quotidiana, afirmando que as mulheres deviam estar em contacto com o mundo exterior, em vez de ficarem em casa. Sob os esforços dos fundadores, as mulheres da capital puderam sair à rua e participar de alguns eventos públicos(Zhan, 2008).
Estes foram apenas alguns dos jornais dirigidos às mulheres chinesas, nos séculos XIX e XX. As mulheres com conhecimento avançado sempre estiveram à frente da onda revolucionária, liderando as outras mulheres. Entretanto, em comparação com a população feminina total, o número de mulheres envolvidas nestas publicações e o número de leitoras era ainda diminuto. As atividades feministas concentraram-se principalmente em grandes cidades costeiras, como Pequim, Shangai e Cantão; a distribuição de jornais femininos também era muito pequena, já que as mulheres em zonas rurais constituíam a maioria da população feminina do país e eram quase todas analfabetas. Ainda assim, a ascensão dos jornais femininos despertou a consciência das mulheres e pode ser considerada um avanço histórico. Por outro lado, a longa opressão feudal fez com que a maioria das mulheres trabalhadoras permanecesse em estado de dormência, sem autoconsciência, o conceito de direito era-lhes estranho. Em suma, as chamadas novas ideias não foram aceites pela maioria das mulheres chinesas, o feminismo permaneceu apenas um conceito teórico.
A Revolução Xinhai aconteceu em 1911, liderada por Sun Yat-sen54. Esta
primeira revolução chinesa derrubou a dinastia Qing e estabeleceu a República Chinesa em 1912. A revolução estabeleceu um governo central provisório, mas vários conflitos internos persistiram. Em 1916, o país entrou na "Era dos Senhores da Guerra"55, altura em que surgiu um movimento conhecido na história chinesa como o
Movimento Quatro de Maio (1919). Na opinião de Wang Qisheng, professor de História na Universidade de Pequim, o conceito do Movimento Quatro de Maio contém uma combinação de dois movimentos: um movimento político que ocorreu a 4 de maio de 1919 (movimento patriótico organizado pelos estudantes) e um movimento cultural, chamado Movimento da Nova Cultura (Wang, 2007).
Para protestar contra o fracasso da diplomacia chinesa e o Tratado de Versalhes56 na Conferência de Paz de Paris de 1919, especialmente a permissão do
Japão manter o território da província de Shandong devolvido pela Alemanha, os estudantes em Pequim realizaram uma série de manifestações (Ven, 1991, p. 15). Esse movimento foi inesperado, enquanto outro movimento cultural influenciou lentamente a mente das pessoas. De uma maneira geral, a criação da revista Nova
Juventude, fundada por Chen Duxiu57em 1915, foi considerada o início do Movimento
da Nova Cultura. No artigo Aconselhar a juventude publicado na revista, Chen apresentou ideias avançadas de liberdade, progresso e ciência (Chen, Li, Qu, Lu & Hu, 2011). Outros intelectuais famosos também publicaram artigos em revistas para explicarem os seus pontos de vista. Sob a influência do Movimento Quatro de Maio, apareceram muitas escritoras e obras literárias femininas.
55 Era dos Senhores da Guerra (1916 - 1928) foi um período histórico em que a China foi divididasob o domínio
de vários chefes militares.
56 O Tratado de Versalhes foi um tratado de paz assinado pelas potências europeias depois da I Guerra Mundial,
sendo que alguns artigos envolviam os interesses da China.
57 Chen Duxiu (陈独秀, chén dúxiù) (1880 - 1942) foi um intelectual chinês e também um dos principais fundadores
Figura 13 - Jornal Nova Juventude58