Sunflower Lemma
8.5 Domination in K i,j -free graphs
Vale a pena notar que, no início, não havia diferenças na educação das mulheres na China e no Ocidente, facto confirmado pela análise histórica. Na Europa, o poder da educação manteve-se nas mãos da igreja por longo tempo, ora as mulheres também eram restringidas pela religião, acreditava-se que só precisavam obedecer aos homens e não adquirir conhecimento. Os seus direitos económicos e à educação verdadeira eram negados: a vida das mulheres era quase inteiramente limitada ao escopo de responsabilidade de mãe e esposa. A educação escolar era um privilégio dos homens.
Na classe alta, houve algumas instituições relacionadas com a educação feminina, dando às meninas uma certa educação primária, sobretudo conhecimentos básicos de leitura, escrita, cálculo, música, pintura, etc. Algumas destas escolas forneceram inspiração e formação para as realizações artísticas e literárias das alunas, mas havia muito poucas escolas desse tipo. A maioria das mulheres de classe média e baixa não recebiam qualquer educação formal, as oportunidades educativas eram desiguais para os dois géneros (Bell & Offen, 1983, pp .73-79).
Em Émile, ou de l’éducation, Rousseau explica que naquela época, as mulheres da sociedade, especialmente da classe alta, passavam a maior parte do tempo em atividades de entretenimento, ignorando a família e o marido. No sentido de melhorar os costumes sociais, Rousseau propôs que as mulheres também recebessem alguma educação (Bell & Offen, 1983, p. 71). Percebe-se que a educação feminina ocidental tradicional diferia da masculina, o propósito seria formar boas esposas e mães.
Uma situação idêntica ocorreu na China. Por um longo tempo, uma minoria de pessoas defendeu a educação feminina, algumas mulheres de famílias intelectuais ou ricas alfabetizaram-se, mas o número era muito pequeno e todas estudavam em casa. As mulheres chinesas do passado não tinham os mesmos direitos educacionais do sexo oposto, mas isso não quer dizer que a sua educação fosse ignorada. Muito pelo contrário, a China atribuiu grande importância à educação feminina, não como um objetivo de obterem conhecimento e desenvolverem a inteligência, mas para aprenderem etiqueta e ética, e tornarem-se esposas que atendessem às exigências da sociedade patriarcal.
Não havia escolas femininas integradas no sistema nacional de educação, na sociedade chinesa antiga, e as mulheres não tinham direito à educação, mas existiu uma longa tradição de ensino doméstico. Podemos ler acerca do contexto educativo de mulheres chinesas antigas na dissertação de Wang, Kaiyu. A sua pesquisa confirma a não existência de instituições de ensino, como escolas, as mulheres eram educadas em casa, sendo os conteúdos baseados na ética feudal e nas “Três Obediências e Quatro Virtudes28” confucionistas. As mulheres aprendiam, desde tenra idade, a servir
os pais, sogros, maridos e a cuidar dos filhos. O objetivo seria apenas treiná-las para serem escravas de uma família feudal, e capacitá-las para serem esposas e mães. As mulheres seriam meros acessórios dos homens e estariam firmemente limitadas pela família (Wang, 2017, pp. 5-7). A educação tradicional feminina continuou da dinastia Qin até o final da dinastia Qing, e a sua influência na China foi muito abrangente. No fim da dinastia Qing, o sistema feudal declinou gradualmente e a educação tradicional das mulheres não foi capaz de se adaptar ao desenvolvimento da sociedade. É nesse contexto histórico que surgem as escolas para meninas.
Como vimos anteriormente, na segunda metade do século XIX, o Cristianismo começou a espalhar-se pela China e os missionários fundaram uma variedade de escolas da igreja enquanto pregavam, incluindo escolas femininas. Para além disso, subsidiaram algumas mulheres para que pudessem estudar no exterior. As primeiras escolas para meninas na história chinesa foram organizadas junto dos portos abertos ao comércio com o Ocidente. Mais tarde, alargaram-se a algumas cidades da China continental, como Pequim, chocando com o modelo tradicional de educação feudal e lançando as bases para a transformação educativa. Indubitavelmente, durante esse período, muitos missionários envolveram-se em atividades de ensino na China, como forma de expressarem a sua fraternidade cristã. Eles foram para a China com crenças religiosas profundas e as suas atividades conquistaram o entendimento e a aquiescência da sociedade moderna chinesa (He & Shi, 1996).
28 As “Três Obediências e Quatro Virtudes” (三从四德, sāncóngsìdé) são um o conjunto de princípios morais
Os missionários defenderam ativamente a educação para as meninas na China. Num artigo publicado em A Review of the Times29, o missionário Lin Lezhi30 defendeu
que: “a razão pela qual a educação chinesa não pode competir com a educação ocidental é que não presta atenção à educação feminina" ; “Se uma mulher não recebe educação, o país não pode realmente florescer” (Li, 1987). Para muitas pessoas, a educação dos homens ainda não era uma ideia muito popular, quanto mais a educação das mulheres. A resposta do missionário foi: "Homens e mulheres são iguais e a sua educação não está em nenhuma ordem particular. As mulheres ocidentais, envolvidas na agricultura, indústria, negócios, estudos, tornam-se jornalistas, professoras, médicas, trabalham na Cruz Vermelha, cuidam dos soldados feridos por balas, quem pode dizer que a sua contribuição é menor do que a dos homens?" O autor afirmou ainda que se o país quisesse popularizar a educação masculina, devia primeiro "estabelecer a educação feminina" (Li, 1987). A problemática despertara a atenção de muita gente naquela época, o que pode ser verificado na extensa discussão sobre educação feminina publicada em A Review of the Times, e através de um grande número de relatórios sobre o estabelecimento de escolas para meninas. A divulgação dos missionários sobre a questão da educação feminina chinesa forneceu forte apoio para o nascimento e desenvolvimento da educação moderna das mulheres.
Nos registos dos missionários, podemos encontrar a sua defesa ao direito à educação das mulheres chinesas. Mas, quando registaram a vida quotidiana, eles concentraram-se na descrição do sofrimento das mulheres, criticando a tradição costumes bárbaros e um testemunho do baixo nível de civilização da China. Por exemplo, Lin Lezhi também disse: “O grau de civilização dos países ocidentais é alto, porque valorizam a educação das mulheres” (Li, 1987). Com esta afirmação quis mostrar que o estatuto das mulheres deveria ser usado como uma medida do grau de desenvolvimento civilizacional de um país. A civilização ocidental seria superior à o oriental para ser próspera e forte, a China precisava converter-se ao cristianismo para promover o estatuto das mulheres e desenvolver escolas femininas. Os missionários
29 A Review of the Times (万国公报, wànguógōngbào) foi uma publicação mensal publicada na China entre 1868
e 1907. Foi fundada e editada pelo missionário Young John Allen.
30 Lin Lezhi (林乐知, línlèzhī). O seu nome original era Young John Allen (1836-1907) e foi um missionário
estabeleceram uma imagem ocidental "civilizada" por oposição a uma imagem oriental "selvagem".
Os estudiosos reformistas chineses acreditam que não havia diferenças essenciais entre a situação das mulheres chinesas e ocidentais, porque o sofrimento feminino é um fenómeno comum no mundo. Embora a situação das mulheres na Europa e na América fosse um pouco melhor, estas ainda eram encaradas como pertences dos homens (Kang, 2009, pp. 55-58). A este propósito, o pensador francês Charles Fourier31 afirmou: “O aviltamento do sexo feminino é um traço essencial quer
da civilização, quer da barbárie, com a única diferença de que a ordem civilizada eleva os vícios, que a barbárie pratica num modo simples, a um modo de existência composta, de duplo sentido, ambíguo e hipócrita... Ninguém paga mais caro do que o homem o facto de a mulher ser mantida em escravidão” (Fourier), mencionado no trabalho de Marx (Marx & Engels, 1976, pp. 299-300).