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No início do século XX, nasceu um movimento intelectual destinado a difundir a doutrina democrático-burguesa e o feminismo ocidental entrou na China.

Ma Junwu (马君武, mǎ jūnwǔ) (1881 – 1940) traduziu para chinês alguns escritos feministas, como Os Direitos das Mulheres de Herbert Spencer42, A Sujeição das Mulheres [The Subjection of Women, 1869], escrito por John Stuart Mill43 e a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (1791) de Olympe de Gouges44. Os

livros acima foram publicados pela primeira vez na China em 1902 e 1903. A introdução das doutrinas feministas ocidentais teve, indubitavelmente, um significado orientador para a conscientização sobre os direitos das mulheres no país.

No contexto das grandes mudanças políticas, económicas e sociais registadas desde o início do século XX, as mulheres chinesas começaram a receber maior atenção, e a ascensão dos movimentos de libertação das mulheres despertou a autoconsciência

42 Herbert Spencer foi um escritor e biólogo inglês do século XIX. No seu livro Social Statics (1850) dedica um

subcapítulo aos Direitos das Mulheres.

43 John Stuart Mill foi um famoso filósofo e economista britânico do século XIX.

44 Olympe de Gouges, feminista, dramaturga e ativista política francesa, sentindo que as mulheres haviam sido

excluídas da Déclaration du droits de l’homme et du citoyen, escreveu um texto paralelo com ênfase nos direitos

coletiva, alterando a relação tradicional entre os sexos. As mulheres gradualmente libertaram-se da tradição dos pés-de-lótus e conquistaram alguns direitos sociais. Este tipo dos direitos refere-se principalmente aos exercidos como cidadãs de acordo com a lei, incluindo o direito à igualdade de oportunidades na educação, direito de herança, direitos trabalhistas, parte do direito de voto, um certo grau de autonomia matrimonial e direitos civis, bem como direito de associação e liberdade de comunicação. Embora os reformadores e os revolucionários burgueses tenham feito esforços para defender os direitos políticos e económicos das mulheres, a consciência feminina devia ser descoberta pelas próprias mulheres (Huang, 2012, p. 18). A consciência feminista surgiu inicialmente durante o movimento do Reino Celestial Taiping, um Estado revolucionário de unidade política e religiosa no final da dinastia Qing, governado por um místico cristão, Hong Xiuquan (洪秀全, hóng xiùquán) (1814

– 1864). Influenciados pelo lema cristão “todos são iguais perante Deus”, os seguidores de Hong defenderam a igualdade entre homens e mulheres, desafiando a autoridade masculina pela primeira vez na sociedade patriarcal. Contudo, o estatuto das mulheres não foi substancialmente alterado. Nas áreas controladas pelo Reino Celestial de Taiping, “igualdade entre homens e mulheres” foi apenas um slogan e uma medida paliativa. As mulheres continuaram sem direitos substantivos, nomeadamente o direito à liberdade e à propriedade e os direitos políticos (Cui & Hu, 1994).

Em meados do século XIX, um grande número de missionários estava a pregar na China, lançando campanhas anti-pés-de-lótus em pequena escala. Originalmente, os missionários exigiam que os crentes chineses e as suas filhas não seguissem a prática, e um grande número de panfletos foi lançado para promover a "igualdade entre homens e mulheres" na fraternidade de Deus. Eles anunciavam que Deus fixou a estrutura física de homens e mulheres quando criou a humanidade, os pés-de-lótus constituíam uma mudança desse corpo, sendo um desrespeito a Deus, pelo que devia ser proibido. Os missionários intervieram nesta prática em nome da religião, pelo menos no sentido físico, a ideia de igualdade de géneros começou a ter impacto.

No início da década de 1870, muitos jornais e revistas começaram a divulgar ideias anti-pés-de-lótus, criticaram, numa perspetiva religiosa, o dano e o sofrimento que estes traziam ao corpo feminino. Em 1874, a Sociedade do Pé Natural foi formada

em Xiamen por um missionário escocês, John MacGowan. Foi a primeira organização na China que proibiu as mulheres de amarrarem os pés. Ao longo da década seguinte, desenvolveram-se sociedades anti-pés-de-lótus apoiadas por igrejas católicas em vários lugares (Wang, 2015).

Devido às limitações religiosas e à falta de familiaridade do povo chinês em relação ao cristianismo, desde 1880 que alguns autores substituíram o conceito de "Deus" por “lei natural”; usando-o como uma base para a igualdade física entre homens e mulheres. Isso fez com que os chineses pensassem que os pés-de-lótus eram uma violação da ordem natural.

Em 1895, Mrs. Archibald Little 45 fundou a Sociedade do Pé Natural.

Independente dos ensinamentos da Igreja Católica, esta organização criou filiais em Wuxi, Suzhou, Yangzhou, Nanjing e outros lugares, publicou livros e revistas para combater os pés-de-lótus e teve uma grande influência nas campanhas posteriores (Marshall, 2007, p. 103). A infiltração de ideias ocidentais tornou-se uma oportunidade, as pessoas começaram a discutir o impacto dos pés-de-lótus na ordem moral.

45 Alicia Little (1845-1926) foi uma escritora britânica, ativista pelos direitos das mulheres e contra os pés-de-lótus

Figura 9 - Algumas mulheres com pés naturais no final da dinastia Qing46

Em 1897, Liang Qichao e Kang Guangren47 também fundaram a Sociedade Anti-pés-de-lótus em Shangai, cujos membros não se podiam casar com mulheres que

seguissem essa prática. Isso resolveu as preocupações das mulheres com pés naturais. A ascensão da educação feminina foi praticamente simultânea às campanhas anti-pés- de-lótus. No artigo Na educação das mulheres (1897), Liang Qichao apontou: “Se não se acabar com a prática dos pés-de-lótus, não se pode estipular uma educação feminina”48 (Liang & He, 2002). O Gabinete de Jornais Oficiais de Beiyang compilou a

“A História Evolutiva da Educação Feminina Mundial”, na qual a reclusão e os pés-de- lótus são listados como costumes femininos que deviam ser banidos no mundo oriental. Os britânicos usaram cera para recriarem os pés-de-lótus das mulheres chinesas, para serem colocados em exposição no Museu de Londres (Fan, 1998, p. 53). A tradição dos pés-de-lótus também foi criticada por estrangeiros, era motivo para os países ocidentais pensarem que a China era um país extremamente atrasado. Embora os missionários comparassem os pés-de-lótus da China ao espartilho, os seus

46 http://www.sohu.com/a/256489642_100178530, consultado em 21 de abril de 2019.

47 Kang Guangren (康广仁, kāng guǎngrén) (1867 - 1898) foi irmão mais novo de Kang Youwei e participou a

Reforma dos Cem Dias.

pontos de vista eram obviamente tendenciosos: “Este uso (pés-de-lótus) supera qualquer coisa que encontramos no Ocidente como exemplo da tirania de um gosto pervertido, incluindo a paixão por uma cintura de vespa, ou por um crânio liso. Um é esporádico ou tribal, o outro é nacional” (Martin, 1900, p. 25, tradução livre). Isso reflete a parcialidade dos missionários — eles não conseguiam tratar o sofrimento das mulheres na China e no Ocidente da mesma maneira. Mas é inegável que a sua crítica aos pés-de-lótus realmente ajudou as mulheres chinesas a livrarem-se dessa transformação corporal. No final da dinastia Qing, quando a civilização ideológica ocidental se infiltrou na China, a classe intelectual e até mesmo as pessoas comuns perceberam que os pés-de-lótus eram um mau costume, um símbolo do atraso da civilização chinesa. A autoconfiança nacional começou a vacilar, a popularidade interna dos pés-de-lótus perdeu-se.

Figura 10 - Mulheres com pés naturais na década de 187049

Desde o Reino Celestial Taiping que a cultura ocidental foi bem recebida pelo povo chinês; os "direitos civis" e os "direitos humanos" passaram a ser discutidos frequentemente, o entusiasmo do público em participar da discussão aumentou

gradualmente. Depois da independência física, da liberdade feminina e da igualdade de direitos, o termo “direitos femininos” apareceu oficialmente na China. De acordo com o testemunho de Mizuyo Sudo, a palavra “Nvquan” (女权, nǚquán) [direitos femininos] apareceu, pela primeira vez, no artigo “Comunicação entre Homens e Mulheres”, publicado no jornal Qingyibao (清议报, qīngyìbào), em 1900 (Sudo, 2007). Além dos direitos mencionados acima, o termo também incluía o direito das mulheres à educação, direitos de propriedade, bem como a prática da monogamia, proibindo a venda de servas. O significado de “igualdade entre homens e mulheres” estendeu-se da igualdade corporal à igualdade de direitos, o seu uso também passou a traduzir “direitos iguais”. O direito das mulheres à educação e à independência física contida nos “direitos femininos” passou a ser reconhecido e promovido por todos. No entanto, continuou a ser difícil reconhecer os direitos políticos das mulheres, sendo apenas clamados por alguns radicais e mulheres que aceitavam a cultura ocidental.

Essencialmente, as campanhas anti-pés-de-lótus despoletaram o aparecimento do feminismo na China, antes do conceito de “direitos femininos”. Pode-se dizer que as campanhas anti-pés-de-lótus promoveram a germinação do feminismo chinês e plantaram as bases do rápido reconhecimento dos direitos das mulheres.