A emergência da República Popular da China (RPC) como uma das mais dinâmicas economias do mundo e como um pólo cada vez mais relevante do desenvolvimento da Ásia/Pacífico ofuscou um duplo fenómeno da maior importância para a compreensão das características específicas do desenvolvimento desta vasta região da economia mundial: importância económica das comunidades empresariais chinesas, vivendo no exterior da RPC; papel fundamental do seu investimento no conjunto dos fluxos de investimento externo que se foram dirigindo às economias da região, e em especial à própria RPC. Assim, para além de três dos quatro NIC`s da Ásia (Taiwan, Singapura e HongKong) serem territórios/Estados de base étnica chinesa, em quatro das economias do Sudeste Asiático - Indonésia, Malásia, Tailândia e Filipinas, que constituem, com Singapura (e o Bornéo) a ASEAN - as comunidades de origem chinesa, tinham um peso económico incomparavelmente superior aos seu peso demográfico, constituindo, em vários destes países, a parte mais organizada e dinâmica das respectivas economias. Num estudo realizado na Austrália por Michael Backman, e citado no Financial Times de 16 de Agosto de 1995 eram referidos alguns números elucidativos a este respeito. Assim os cerca de 50 milhões de descendentes chineses na Ásia Oriental (vivendo no exterior da R.P.da China), que representam menos de 10% da população dessa região, geravam, já em 1990, o que se poderia contabilizar como um “PNB” de cerca de 480 biliões de dólares, “grosso modo” equivalente ao PNB da R. P. da China, nesse mesmo ano e neles se incluíam 85% dos multimilionários da região. Na Indonésia a comunidade chinesa representava a cerca de 3,5% da população, mas controlava empresas que representavam quase três quartos da capitalização bolsista no país, sendo que dos 300 mais importantes conglomerados 68% eram controlados por empresários de descendência chinesa, sendo que dos 10 maiores grupos económicos e financeiros apenas um não está nessas condições. Na Malásia, em que 29 % da população é de origem chinesa, as
55 vd FÉLIX RIBEIRO,José "Os "Empresários Chineses do Exterior", a economia da Ásia Pacífico e os "modelos
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empresas que controlam representavam cerca de 61% da capitalização bolsista local, ocupando, além disso uma posição dominante nas categorias profissionais superiores associadas á gestão e administração de empresas (cerca de 60% do total). Nas Filipinas a população de origem chinesa representa cerca de 2% do total, mas as empresas que controlam representam entre 50 e 60% da capitalização bolsista do país.
Nesse estudo referem-se duas características importantes do comportamento destas comunidades empresariais: uma visibilidade reduzida do ponto de vista político, para não atrair de forma concentrada a eventual repulsa da maioria da população; e uma grande importância de ligações entre empresários chineses que cruzavam as fronteiras desses países e encontravam a sua razão de ser quer em laços familiares, quer na identidade de dialectos ou das suas regiões de origem na China. Segundo o autor, a maioria das empresas controladas pelas minorias de origem chinesa nos países da ASEAN eram de raiz familiar, predominando, em número, as PME`s, mas delas se destacando grandes conglomerados. Ao procurar encontrar traços comuns que evidenciam um “modelo” típico de gestão e estratégia empresariais, M.Backman apontava os seguintes: poder de decisão altamente centralizado; preferência pelo auto financiamento; opção por estratégias de grandes volumes e margens de lucro baixas, para assegurar rápida e crescente penetração nos mercados; controlo rigoroso de “stocks” para reduzir o investimento necessário e elevada rotação de “stocks”; redução dos custos de operação, por recurso a “redes” de fornecedores e prestadores de serviços de origem chinesa. Em termos de “ contexto cultural” da sua actividade económica três traços se salientariam: a disponibilidade para um ritmo de trabalho muito intenso; uma inclinação pronunciada para a poupança; a consciência da importância central da educação dos jovens. Uma das chaves para o sucesso dos empresários de base étnica chinesa era a predominância de redes ou associações de entreajuda muito abrangentes, que permitiam aos empresários recorrer á informação mais actualizada sobre mercados, mobilizar capital com uma rapidez e uma escala impressionantes e ocupar “nichos” de mercado onde se geravam os lucros mais elevados. Em termos de actividades preferenciais destas comunidades empresariais podiam referir-se as ligadas à propriedade da terra e promoção imobiliária, e actividades associadas, como construção e obras públicas e turismo; para além da banca e serviços financeiros; “shipping” e comércio; exploração e exportação de matérias-primas, entre outras. Os empresários chineses estabelecidos nas economias já mais desenvolvidas e “maduras” de Singapura, Hong-Kong e Taiwan, para manter os elevados ritmos de crescimento dos seus negócios, diversificavam geograficamente as suas actividades em direcção às economias em crescimento rápido da região, nomeadamente a R.P. da China, a Indonésia, a Malásia, as
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Filipinas, o Vietname, reforçando a influência das comunidades chinesas locais nestes últimos quatro países. Basta recordar como ilustração deste processo que, dos 33,8 biliões de dólares de novo investimento estrangeiro canalizado para a RPC em 1994, cerca de 80% tinha a sua origem nas comunidades chinesas “exteriores”, incluindo de Taiwan. Sendo de considerar que cerca de 85% dos “chineses do exterior” de então tinham tido as suas raízes nas províncias meridionais da China (Guangdong, Fukien, Hainan, Guangxi) com maiores tradições históricas mercantis e em que se incluíram as que lideraram o arranque do crescimento económico chinês e atraíram a maior percentagem do investimento estrangeiro (uma excepção é Singapura em que a origem geográfica da maioria chinesa era diferente).
John Naisbitt”56 atribuía grande importância a estes “chineses do exterior” nas economias
asiáticas (quer naquelas em que residem, quer naquelas para onde exportam capitais) e apresentava, entre outras, duas conclusões reveladoras do seu peso na economia asiática e mundial. Assim: 1) Se se contabilizasse a actividade económica dos “chineses do exterior” como se fosse “um país”, a sua dimensão económica só seria ultrapassada pelos EUA e pelo Japão; 2) Os “chineses do exterior” de Hong-Kong, Taiwan e Singapura forneciam mais capital e investimento estrangeiro na Ásia/Pacífico que o Japão, enquanto os “chineses do exterior”, no seu conjunto, eram os maiores investidores estrangeiros na Tailândia, Malásia, Indonésia, Filipinas e Vietname.
SECÇÃO IV - "1985 - O ANO EM QUE TUDO MUDOU"
Três acontecimentos marcaram o ano de 1985, acontecimentos que interagindo entre si determinariam uma mudança radical na " Rede" em que estavam organizadas as relações internacionais: 1) A Arábia Saudita, face à indisciplina no cartel OPEP e à drástica redução da sua quota de mercado daí resultante alteou radicalmente a sua política petrolífera desencadeando um contra choque petrolífero que anulou o aumento do 2º choque petrolífero de 1979 e fê-lo em plena guerra Iraque -Irão, contando com a protecção militar dos EUA; 2) O Japão, com os Acordos Plaza aceitou revalorizar o yen face ao dólar mas como beneficiou da redução do preço do petróleo viu aumentar o seu excedente corrente em dólares e lançou-se numa vaga de exportação de capitais enquanto no interior se gerava uma "bolha" especulativa em torno da "terra"; 3) O Partido Comunista da URSS colocou no poder Gorbachev com um programa de reestruturação da economia, há muito exigida pelo complexo militar, e de abertura política,
56 NAISBITT; John "Mega Trends asia_ the eight asian megatrends that are changing the world” ed Nicholas
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iniciando-se uma curta fase de détente com os EUA; mas o contra choque petrolífero de 1985 acabaria por selar o fim da URSS.
CAPÍTULO 10. A ARÁBIA SAUDITA E O CONTRA CHOQUE PETROLÍFERO DE