As conjuntas de transformações que materializaram até meados da década de 90 o processo de transição da Rússia para uma economia de mercado foram acompanhadas por grandes alterações ao nível da estrutura da produção. De acordo com as estatísticas oficiais a produção russa reduziu-se em cerca de 50% no período 1991//94, o que representou um declínio significativamente maior e mais profundo e rápido do que aquele que ocorreu nos EUA durante a Grande Depressão. No entanto, um estudo do Banco Mundial considerou que, sem pôr em causa a profundidade da crise verificada, as estatísticas oficiais subavaliavam o nível da produção real
Refira-se que nestes se anos iniciais da nova Rússia, se assistiu igualmente a uma emigração em massa para Israel de cientistas de origem judaica, ate então trabalhando para o "complexo militar-industrial" que retirou competências e dinamismo tecnológico a este "complexo", que havia sido dominante na URSS.
176
da economia e isso por várias razões88 e aponta para um declínio acumulado da produção, entre
1990-1994 da ordem dos 33%. Mas tão ou mais importante que esta constatação global era o reconhecimento que, com a reforma económica e a crise se assistiu a uma profunda transformação estrutural na economia russa. Tal transformação, modificando o peso relativo, em termos reais, dos diversos sectores e subsectores da economia, resultou basicamente de quatro factores: a) uma mudança nos preços relativos, com os da agricultura e das indústrias pesadas a reduzir-se e os da energia e dos serviços a crescerem rapidamente, modificações que afectaram receitas e rendibilidade; b) Uma mudança profunda da estrutura da procura interna, com uma quebra dramática do consumo público, nomeadamente para fins militares, acompanhada por uma redução muito pronunciada do investimento público (vd. em infra-estruturas) e do investimento das empresas, em contrapartida dum aumento do consumo privado, que foi em parte satisfeito com recurso à importação, devido à má qualidade e carácter obsoleto de muitos dos bens de consumo fabricados pelas empresas russas; c) uma mudança muito pronunciada da procura externa, em consequência do fim do COMECON, da dissolução da URSS e da perda de laços com Estados clientes no Terceiro Mundo, traduzindo-se em quebras de encomendas militares e de bens de equipamento e, mesmo em reduções dos fornecimentos de energia, em paralelo com um aumento das exportações para o exterior da ex-URSS, estas basicamente centradas nos produtos energéticos, nos minérios e nos produtos da sua transformação (metais, adubos etc.); d) mudanças estruturais nos fluxos relativos aos factores de produção (capital, trabalho e terra) com a conjugação de uma pronunciada redução das transferências e subsídios do Estado para as empresas e da liberalização nos mercados dos factores (basicamente no que respeita ao capital e ao trabalho), a determinar uma deslocação dos fluxos de crédito, afastando-os das indústrias pesadas e da defesa, em favor da produção de bens de consumo, dos serviços e das importações.
Enquanto as empresas existentes na altura da dissolução da URSS sofreram pressões violentas para se redimensionarem, reorientarem a produção, melhorarem a qualidade e orientarem-se para exportação, surgiram novas empresas que procuraram tirar vantagens das mudanças no perfil da procura. Em termos sintéticos pode afirmar -se que os principais traços da referida mudança estrutural na economia russa foram nesses primeiros anos: a)uma redução no valor acrescentado na agricultura (de 10 para 7% do total) e na indústria (de 57 para 41%), em
88 Entre elas o facto de os deflactores usados para transformar os preços correntes em constantes não serem os mais
apropriados; as estimativas do PNB eram feitas recorrendo sobretudo a inquéritos junto das grandes empresas, que foram das mais violentamente tocadas pela depressão; as empresas que respondiam aos inquéritos tinham razões para subavaliar os valores da sua produção (vd. razões fiscais etc.); as estimativas oficiais, que procuravam traduzir a dimensão da “economia informal”, e nomeadamente o comportamento dos serviços, podiam não captar em toda a extensão o dinamismo destes sectores.
177
contrapartida de um forte aumento dos serviços (de 33 para 52%), com destaque para os serviços financeiros, seguros, imobiliário, distribuição, evolução que aproximou mais a Rússia da estrutura das economias dos países desenvolvidos; b) na indústria, onde se verificaram as maiores reduções de produção, não houve um padrão uniforme de comportamento, com as maiores quebras a verificarem-se nas indústrias de bens de consumo, na sidero-metalúrgia, nas químicas, ao mesmo tempo que o sector de bens de equipamento e material militar viu a sua produção reduzida a metade, com quebras maiores nas produções para defesa e aumentos na produção de bens de consumo duradouro (em parte fabricados, no período soviético, no interior do complexo militar industrial); c) o sector da energia verificaram-se também reduções muito significativas de produção, mais no petróleo (cuja produção caiu 46%, em relação ao pico atingido em 1988) do que no gás (com um redução de apenas 6%, desde 1991); no entanto, as exportações de petróleo e gás representam mais de metade do total exportado para fora dos países da Comunidade dos Estados Independentes, constituindo a principal fonte de divisas; tendo sido no sector do petróleo que se assistiu a uma mais rápida e profunda reestruturação empresarial, prévia à privatização, com a constituição de um conjunto de grandes empresas integradas, em vez das empresas sectorializadas, dependentes de diferentes ministérios, como no tempo soviético. Durante estes anos de transição foi muito diferente a sorte de quatro grandes complexos de produção herdados do período soviético, e que sustentavam outros tantos grupos de interesse na nova Rússia, bem como eram distintos os seus interesses quanto ao futuro.
O Complexo Militar-Industrial (CMI) que ocupava a posição central na estrutura produtiva no tempo da URSS, chegando a absorver um quarto do PNB e a concentrar o essencial do potencial científico e tecnológico do país. Combinava a produção de material militar e para as indústrias do espaço, com uma posição destacada na produção de certo tipo de bens de equipamento (incluindo para as indústrias da energia e para as indústrias ligeiras e agro alimentares) e um quase monopólio na produção de bens de consumo duradouro (com exclusão do automóvel); foi duramente atingido pela transição para a economia de mercado, tendo recebido um duro golpe, do qual não se recompôs, com a redução nas aquisições de armamento pelo Ministério da Defesa em 68%, de 1991 a 1993, a que se vieram acrescentar os efeitos da queda no investimento interno, com consequências para as produção de bens de capital, atingidas também, como as de bens de consumo duradouro, pelos efeitos da valorização do rublo e da abertura às importações; a diversidade no interior do complexo militar - industrial e a diferente possibilidade de forjar alianças com empresas estrangeiras (mais fácil nas indústrias do espaço e aeronáutica), tornou difícil um lobbying muito efectivo; o apoio do Estado às exportações, no