A TAR promove, teoricamente, uma nova perspectiva para compreender ciência, tecnologia e sociedade propondo acompanhar os atores, independentemente de serem humanos ou não-humanos. Callon (1986) sugere três princípios que auxiliam o observador/pesquisador a superar a dificuldade teórica presente na discussão entre as ciências naturais e sociais: a) agnosticismo: analisar imparcialmente os atores envolvidos; b) simetria generalizada: o compromisso de analisar pontos de vista conflitantes com a mesma imparcialidade e c) associação livre: exercício de abandonar a distinção entre o social e o natural. Partindo destes princípios, é possível seguir os atores na rede e ‘identificar a maneira que se definem e associam diferentes elementos através dos quais eles constroem e explicam o mundo, sendo ele social ou natural’ (CALLON, 1986, p. 4).
8 ‘Associativo’, para a TAR, relaciona-se com as agregações assimétricas, sendo um dos esforços feitos
para se distanciar de noções clássicas do que é social (formado por humanos). Esta discussão será tratada nas páginas 37 e 38.
Partindo do princípio de agnosticismo, há imparcialidade quanto as agências que os atores humanos e não-humanos têm na construção do mundo social ou natural, ou seja, classificações a prioris quanto ao que são ou deixam de ser não é relevante (CALLON, 1986). Para atingir a imparcialidade a TAR adota o termo actante por compreendê-lo como ‘algo que atua ou aquele que faz o outro fazer (…) sendo qualquer coisa que provê ou é capaz de ser uma fonte de ação’ (LATOUR, 1996, p. 373). O termo opõe-se à noção clássica da sociologia sobre ator social ser um humano, onde ‘a palavra ator se limita a humanos, (por isso) utiliza-se muitas vezes actant (actante), termo tomado da semiótica, para incluir não-humanos na definição’ (LATOUR, 1999, p. 346).
O uso de actante representa um esforço da TAR em justamente eliminar determinismos humanos e incluir os não-humanos na compreensão de social e nas competências de agenciamento, e será utilizado daqui por diante nesta pesquisa para o tratamento do que, até então, tratava-se como atores humanos e não-humanos. É a partir da adoção de actante que, na visão do autor desta pesquisa, muda-se o foco para ações e de onde vem, em simetria, habilitando compreender não-humanos como entidades com competência.
O princípio da simetria trata do esforço de em superar a dualidade dos humanos e não-humanos uma vez que, entendidos como actantes, não se pode apontar empiricamente as diferenças entre agenciamentos de um ou de outro. Analisar actantes como simétricos é uma das principais críticas que a TAR sofre, porém, compreendê-los desta forma, serve como meio de experimentação das diferenças que se manifestam no campo empírico ao invés de uma classificação a priori, permitindo enxergar associações que passam despercebidas quando se parte de olhar antropocêntrico ou determinista-tecnológico - para TAR, enquadrar fenômenos sociais em moldes e observá-los a partir de uma classificação é que não faz sentido (CALLON, 1986).
A compreensão de social também assume outro significado na TAR. Analisando a etimologia da palavra social, Latour (2005, p.6) afirma que seu significado é SEGUIR: ‘o latim socius denota uma companhia, uma associação’. Socius não está relacionado ao humano, mas sim as associações e a movimentação gerada nas dinâmicas sociotécnicas, sendo o social um ‘[...] tipo de associação
momentânea, caracterizada pela maneira como se reúnem as novas formas’ (LATOUR, 2005, p. 65). Torna-se, ao adotar esta compreensão, difícil imaginar que alguma ação aconteça ou algum saber seja executado, quer dizer, alguma competência seja acionada, sem que haja uma mediação9 que inclua os não-
humanos.
À medida que os não-humanos são assumidos como pertencentes ao social, ganha-se uma liberdade de movimento para lidar com a continuidade e a descontinuidade dos modos de ação (LATOUR, 2005), superando classificações a priori, isto é, humanos formam uma rede social não somente porque estabelecem dinâmicas associativas com outros seres humanos, mas também com não-humanos. Nesse sentido, o social não é nada mais do que redes de certos padrões de materiais heterogêneos (LAW, 1992). Máquinas, animais, textos, dinheiro, clientes e o briefing compõem o social expresso em uma rede.
Ao retomar às raízes do conceito de social, a TAR se esforça em superar a visão antropocêntrica, restabelecendo as conexões entre os atores humanos e não- humanos. Como actantes cujos agenciamentos participam de associações em equivalência, sem distinção apriorística, supera limitações de teorias cuja a fraqueza está justamente em assumir não-humanos como entidades exógenas e imutáveis, uma vez que integra os não-humanos tanto quanto os humanos como dotados de competência para modificarem-se mutuamente e em equivalência através de seus agenciamentos e associações (CALLON, 1986, 1995).
Esta associação em equivalência é o que trata o princípio da associação livre, que na TAR representa os movimentos que os actantes, vindos de mundos distintos, geram ao interagirem sem haver distinção entre as agências de um ou de outro. Segundo Latour (1987), tais movimentos são uma rede formadas por actantes que não separam a história social da história da natureza e que não deve distinguir o que é social e do que é técnico.
Uma ‘rede sociotécnica’ se configura, portanto, como uma rede de elementos materiais e imateriais, onde os conhecimentos tecnocientíficos são indissociáveis das
9 O conceito de mediação na TAR representa as modificações dos actantes geradas por suas agências
e ocorridas neles próprios a partir das associações com outros actantes. O conceito será melhor explorado na pág. 40.
associações sociais e técnicas, e são frutos da construção de um coletivo: "somos animais sociotécnicos, e toda interação humana é sociotécnica. Jamais estamos limitados a vínculos sociais. Jamais nos defrontamos unicamente com objetos." (LATOUR, 1987, p. 245).
Para a TAR, a ordem nessa rede sociotécnica associativa é um ‘efeito gerado por significados heterogêneos’ (LAW, 2009, p. 145). Tanto humanos quanto não- humanos geram o caráter social de mudança ou de estabilidade das redes. O social, desse modo, trata de humanos e não-humanos como efeitos interativos, eliminando divisões entre agências e estruturas, o macro e o micros social, e pede que materiais diferentes sejam tratados como efeitos relacionais, além de suas características. (LAW, 2009).
Ainda, de acordo com LAW (1992), qualquer entidade individual ou coletiva que toma parte em negociações e contribui para atingir um acordo é um actante, sendo que cada actante tem interesses distintos e particulares, que podem ser explicitados ou não. Nega-se que pessoas sejam mais especiais que o restante dos actantes – certamente há aspectos éticos levados em conta em relação à agência humana no que envolve direitos, deveres, obrigações e responsabilidade de acordo com o convívio com outros, mas tais questões, em um caráter analítico, não influenciam as associações (LAW, 1992). Para a TAR, o que separa humanos de não-humanos é uma questão de negociação e de mudanças, uma vez que, como actantes no socius são agentes sociais simétricos com competência para gerar associações múltiplas.
Compreender agentes sociais deixa de lado o destaque ao papel humano e enxerga simetricamente as relações estabelecidas: são todos actantes capazes de provocar transformações e associações na rede, a partir de suas competências - não fazem apenas pela sua capacidade de poder fazer, fazem pela rede de relações heterogêneas e os efeitos produzidos na rede em que participam. Ou seja, actante é o que é porque habita em um conjunto de elementos que se expande dentro de uma rede de outros agentes sociais (LAW, 1992).
Para a TAR, um agente social é mais que um ser humano e seu corpo: ‘um ator é uma rede de certos padrões de relações heterogêneas, ou um efeito produzido por tal rede. [...] daí o termo Ator-Rede – um ator é também, e sempre, uma rede. (LAW, 1992, p. 5). Actantes são heterogêneos, gerados na dinâmica associativa, e deixam
traços que, se forem seguidos, permitem compreender as associações. (LAW, 1992). Ou seja, dos rastros visíveis e possíveis de serem percebidos pelos observadores/pesquisadores, é possível compreender a construção da rede sociotécnica em torno de fatos e artefatos, e identificando-os como algo com competências.
De acordo com (FIORIN, 1989), competência relaciona-se com a ação de fazer (é um ‘poder-fazer’). Ao tratar de competência, o autor desta pesquisa trata da actancialidade, ou seja, a que tipo de ação o actante está apto, independentemente de ser humano ou não-humano, em oposição a noção clássica de que competência é algo humano e que não-humanos tem funcionalidades. Em complemento a isto, compreende-se que actantes adquire saber do poder-fazer alguma ação a partir de sua atuação como agente social, isto é, seja pelo que lhe compete, seja de outro, que por meio de uma ação lhe confere uma capacidade para fazer (um ‘poder-fazer’). Neste sentido, competência é uma potencialidade, e só se torna actancialidade depois de ser tornada possível (o ‘fazer’ depende do ‘poder fazer’), não podendo ser algo programado a priori como função: humanos e não-humanos coabitam e geram suas potencialidades e actancialidades das associações geradas entre si.
Nos próximos subcapítulos serão apresentados os conceitos de intermediação, mediação e tradução. Opta-se por tal divisão por facilitar a narrativa, porém o autor entende não haver uma distinção clara (e nem ser interesse da TAR distinções desta natureza) entre tais conceitos.