4. Results and Discussion
4.1 Insights in the startups’ investment industry
4.1.5 Evaluation process and selection criteria at the investment companies
Bruna relata que quando entrou em trabalho de parto passou praticamente um dia inteiro sentindo dores, em casa, antes de procurar pelo serviço, esperava a bolsa ‘estourar’.
Ela havia passado por dois partos. Quando chegou à maternidade estava bem próximo de ter o bebê e sentia muita dor. Conta que ficou impaciente com a burocracia na recepção da unidade, com as perguntas de rotina do setor de enfermagem e com a espera pelo médico que estava no repouso. Depois de quinze minutos da chegada à maternidade sua filha nasceu. Bruna foi parabenizada pelo médico porque teve um parto rápido.
[...] Ainda bem que é perto, porque se fosse longe eu tinha tido ela dentro do carro! Aí quando eu cheguei na maternidade... O homem ainda foi fazer o prontuário! Eu pensei: ‘ai meu Deus do céu!’ Aí eu disse: ‘moço, o senhor cuide que eu tô sentindo muita dor, não tô aguentando não!’ E ele: ‘mas, tenha calma viu!’ Aí o médico lá pra dentro, dormindo ainda... Aí meu marido foi chamar ele, lá pra dentro. E eu tava que não aguentava mais. Aí a ‘enfermeira’ veio: ‘mas, desde que horas que você tá com essa dor?’ Eu disse: ‘mulher, eu quero lá saber desde que horas!’ Eu fiquei tão agoniada que eu não escutava mais era nada [risos]. Ela disse: ‘mulher, você tem que dizer desde que horas!’ Eu disse: ‘mulher, desde de manhã.’ E cadê o médico, e cadê o médico? Lá vem o médico, bem paciente... ‘Suba lá, vou fazer um toque.’ Mas a demora foi só eu me deitar. [...] Quando ele fez o toque, ele disse: ‘vixe, a menina já vem nascendo!’ [BRUNA]
[...] É tanto que o médico disse assim: ‘parabéns, bem ligeirinha pra ter menino!’ [BRUNA]
Laíze conta que foi bem atendida na recepção quando chegou à maternidade. Não
‘enfermeiras’3
durante o trabalho de parto e o parto, ressaltando postura cuidadosa do profissional médico e o apoio recebido.
[...] quando eu cheguei lá [maternidade] fui bem atendida, na entrada, aí já me levaram. Eu esperei bem pouquinho, não esperei nem muito tempo. Aí já fui pra sala de toque, fizeram o toque, olharam direitinho, eu já tava com oito centímetros quando cheguei lá... [LAÍZE]
[...] Aí o médico já chegou, conversou comigo, perguntou quantos filhos eu tinha, e o tempo todo ali comigo. Ele não saiu de perto de mim! [...] Aí tinha mais dois estudantes com ele. Aí ele disse: ‘Laíze, você tem algum problema de meus alunos tá aqui, que eles estão estudando?’. Eu disse: ‘não’. É pra o bem da gente, né? Pelo menos pra ter mais médico por aí. Aí ficou mais dois com ele, fora as outras ‘enfermeiras’ que também ficaram por perto. Quando vinham as contrações ele tava ali [...] [LAÍZE]
Indaguei de Laíze porque tinha demorado em ir à maternidade, já que chegou com oito centímetros de dilatação. Ela conta que não gosta de chegar cedo para não passar por
repetidos exames de toque e só vai para a maternidade ‘nas últimas’. Laíze tem outros quatro
filhos.
[...] Porque eu não gosto de ir pra ficar lá... Aí fica naquele toque, leva toque de hora em hora. Eu já não gosto. Aí eu só vou nas últimas, mesmo. Aí quando eu fui já tava com oito centímetros. [LAÍZE]
A atitude de Laíze demonstra que, embora as práticas hegemônicas nos serviços – que insistem em regulamentar a vida das pessoas submetendo-as a normas e prescrições, decorrentes de processos de medicalização da sociedade – induzam à dependência dos usuários às suas ofertas, estes encontram mecanismos de “fuga” na busca por autonomia no seu cuidado, inclusive para escapar aos sofrimentos e intervenções desnecessárias a que muitas vezes são submetidos, conforme nos alerta Pasche (2010).
Ao chegar à maternidade, após passar pela recepção, Patrícia conta que esperou muito para ser atendida. Contudo, iniciado o atendimento, ela diz ter sido bem tratada pelos
profissionais, médicos e ‘enfermeiras’, tanto durante o trabalho de parto quanto no parto.
Foram ofertados exercícios com bola de fisioterapia (Pilates) para alívio de suas dores e foi
reconfortada na sala de parto, onde sentiu muitas dores na ‘coluna’, durante o período
expulsivo.
3Usamos a palavra ‘enfermeira’ com aspas todas as vezes que ela aparece nas citações de falas das mulheres entrevistadas devido a não ter sido possível distinguir com exatidão quando se tratava de enfermeira graduada ou de auxiliares e técnicos de enfermagem, embora seja possível afirmar que, na maioria das vezes, elas estão se referindo a estes últimos.
[...] fiquei lá sentada, tinha outra menina também lá, fiquei esperando, esperando, esperando. Porque não sei o que é que eles tavam fazendo, eu acho que tavam descansando, almoçando. Aí mãe teve que ir lá na recepção perguntar à menina porque não tavam atendendo. Aí a menina foi lá, falou com eles e eles me atenderam. [PATRÍCIA]
[...] Aí, pronto, me internaram, eu fiquei lá... E sentindo dor, e sentindo dor, dor, dor, dor, direto. [...] Aí eles me botaram numa bola, pra mim ficar pulando, aí até que passava mais, quando chegava a dor eu começava de novo a pular, pular, pular... [PATRÍCIA]
[...] E eu segurando aqui [aponta para as costas]: ‘ai Jesus, eu não tô aguentando mais não!’ Falando com a menina que tava, sabe? A ‘enfermeira’. ‘Eu não tô aguentando mais não, minha coluna tá doendo demais! Ela falou: ‘calma, Patrícia, calma!’. Eu disse: ‘não tô aguentando mais não.’ Aí ela mandava eu levantar, pra aliviar... Aí quando sentia a dor de novo, começava a fazer força, fazia, fazia. Chorei! Aí ele: ‘vamo, Patrícia, força! Ela tá saindo, já!’ [PATRÍCIA]
Glória conta que gostou do atendimento na maternidade Câmara Cascudo. Quando
entendeu estar com nove meses de gestação, mesmo sem sentir dor, procurou a maternidade. Realizado o exame (toque) estava com quatro centímetros de dilatação, mas a médica autorizou sua internação. Também na sala de parto todos a trataram bem. Foi parabenizada pela rapidez do seu parto.
Quando eu cheguei lá fui muito bem atendida. E... Estava com quatro centímetros, mas nem assim ela me mandou vir embora, e eu não estava sentindo dor nenhuma. [GLÓRIA]
[...] E dentro da sala do parto estava a enfermeira, estava a médica... Tinha um médico e uma médica. Todos me trataram bem... Depois, assim, até me deram parabéns, porque foi rápido, foi tudo... Não teve aquela... [GLÓRIA]
Com Fernanda, entretanto, a conduta para internação não foi a mesma. Ela conta que chegou à maternidade com dor e com cinco centímetros de dilatação, mas o médico não autorizou sua internação. Pediu que retornasse quando a frequência das contrações tivesse aumentado. O que ocorreu rapidamente.
Foi num domingo. [...] Aí comecei a sentir as contrações, já. Quando chegou na segunda de manhã eu fui pra maternidade. [...] Quando chegou lá, fez o toque, né... Aí eu tava com cinco centímetros. [...] Aí o médico disse: ‘não. É melhor você ir pra casa. Você marca dez minutos, aí quando você sentir três dores em dez minutos você volta. Aí viemos, né? Só deu tempo de chegar em casa. Eu marquei. Em dez minutos eu tava sentindo uma atrás da outra. Aí fomos de novo. Aí quando chegamos lá, eu fiz o toque de novo. Aí o médico disse: ‘pronto, você vai ficar’. [FERNANDA]
Fernanda relata que gostou do atendimento recebido durante o trabalho de parto e o
parto, que durou cerca de oito horas. Houve troca de equipe durante esse período, e ela gostou do atendimento de ambas. Sentiu muita dor, mas conteve-se, preferiu caminhar de uma sala para outra para aliviar-se. Sua conduta foi elogiada pelo médico. Fernanda diz que a fé ajudou a suportar a dor.
[...] De sete hora mudou [a equipe]. Até a ‘enfermeira’ – que eu gostei dela que só também – ela disse: ‘infelizmente eu não vou poder assistir, mas as outras equipes são especiais também’. Mas o médico que fez o meu parto, também, ele era muito bom. [FERNANDA]
[...] Mas é uma dor, viu, que só quem sabe é quem é mãe mesmo. [...] Mas eu tenho fé em Deus. Graças a Deus Ele me ajudou muito. Nessa hora eu pedi muita força a Ele. E com uma dor e eu nem gritei. Que tinha mulher lá que, ave maria! Mas eu não gritei. Que até o médico deu obrigado, agradeceu por eu não ter gritado. Fui das primeiras que não gritei... Mas foi bom, graças a Deus. [FERNANDA]
Para Sofia, sua experiência ao chegar à maternidade Câmara Cascudo em trabalho de
parto não foi boa. Relata que a equipe de plantão, ‘enfermeiras’ e médico, estava de mau
humor e que presenciou uma mulher tendo seu filho em uma maca no corredor porque os profissionais não consideraram seus apelos de que estava no momento de parir, com evidência de maus tratos (não físicos), por parte de alguns profissionais.
Do meu parto eu não posso reclamar de nada. Mas, o que eu vi ali, minha filha! [...] Assim que eu cheguei, eu acho que era umas cinco e meia [da tarde], se eu não me engano. A menina teve o bebê em cima da mesa. Mesa não, da cama onde ela tava deitada. [...] E ela dizendo que tava sentindo a cabeça, tava sentindo a cabeça... Aí a ‘enfermeira’ dizia que não era nada não. Chamava a ‘enfermeira’, a ‘enfermeira’ não ligava. A ‘enfermeira’ dizia: ‘não é nada não. Esse povo acha que num dói, num sofre, tem que sofrer, mesmo.’ Ah, eu escutei muita coisa ali! Elas de mau humor... [SOFIA]
O marido de Sofia, que ficou por algum tempo na sala onde estava sendo realizada a entrevista, por solicitação dela, também comentou sobre o parto da paciente realizado no corredor da maternidade.
Ela já tava tendo o bebê, já, dizendo que tava sentindo a cabeça, e o médico passou na hora e disse: ‘ah, não tá na hora não, espere um pouquinho.’ Virou a cara e saiu. A ‘enfermeira’ olhou assim, e disse: ‘é, o médico falou que não tá na hora não.’ Aí quando ela olhou, que ela viu, realmente, aí chamou, o
médico veio bem tranquilo, botando a luva... Não lavou nem as mãos, na hora. Que ele tava no corredor, passou, na hora que voltou só fez botar a luva e chegou lá perto, pra fazer o parto. Aí, depois que terminou, foi que ele percebeu que eu tava do lado, as ‘enfermeiras’ perceberam que eu tava do lado, e mandaram eu sair. Ela teve naquele corredor, naquele corredor lateral. Pronto, não tem a sala de parto? Foi naquele corredor, lá. [MARIDO DE SOFIA]
O mau humor das ‘enfermeiras’ Sofia relaciona ao excesso de horas trabalhadas.
Conclui isso após ouvir conversa entre as profissionais horas mais tarde.
[...] Assim, à noite... Só tinha eu [na sala de pré-parto]. Aí elas vieram conversar com a gente. Aí ficou, né, só eu e elas conversando. E elas dizendo que faziam, tipo, hora. Ela trabalhava, tipo, cinco dias seguidos, pra passar um bom tempo sem ir. E isso se torna cansativo, não concorda não? [...] Ela mesma dizia: ‘tô cansada, já!’ Ela passava e falava isso. [...] Que já tava de mau humor, que estava muito cansada já, não sei quantas horas que ela já tinha feito... [SOFIA]
Sofia conta que ficou aliviada após a troca de profissionais de um turno para outro,
pois os mesmos lhe trataram bem, que pode conversar com o médico e teve parto tranquilo, apesar de ter se sentido insegura durante a madrugada quando, ainda em trabalho de parto, ficou sem um profissional por perto. Estava tendo seu primeiro filho.
[...] E também o médico, que faz o parto... [falava do mau humor do médico] [...] No caso o que tava lá. Quando eu fui ter ele [o filho] aí já tinha mudado. [...] Aí eu dei graças a Deus! Porque a turma que tava, naquele horário... Era uma ignorância só. [SOFIA]
[...] Aí foi outra coisa! Eu me senti mais segura. Eu gostei demais do médico. Ele me deu atenção, eu conversei com ele. Porque, assim, o meu parto era tão normal que eu não sentia muitas contrações, muita dor. [...] Eu perguntei se eu ia chegar a passar por aquilo que elas estavam passando. [...] Ele disse que é porque elas não estavam preparadas pra ter os bebês, aí davam escândalo. Mas eu não senti muita dor, não. Assim, não fiquei chamando a ‘enfermeira’, direto. Sei não... Eu tava com tanto medo, só queria que o meu bebê saísse. [SOFIA]
[...] Eu fiquei meio assim, porque elas foram dormir e me deixaram sozinha na sala [no pré-parto]. [...] Mas elas falaram, assim: ‘se sentir alguma coisa pode ir na minha sala me chamar. [...] Só que quando elas saíram eu fiquei mais agoniada. Eu não vou mentir, não. Assim, porque eu não queria ficar só com minha mãe, né? [...] É, porque eu já tava com oito centímetros, eu já tava... [SOFIA]
Quando pedi a Milena que me contasse sobre sua experiência no último parto de pronto ela falou: “Ave Maria! Eu estou com trauma até agora! Às vezes eu ainda sonho com
aquele parto.” O parto atual é o seu terceiro e Milena diz que foi aquele que mais sentiu dor e
por muito mais tempo. Faz algumas suposições tentando explicar/entender a intensidade diferenciada da dor e fala das diferentes atitudes do médico e da ‘enfermeira’ frente à sua dor durante o trabalho de parto.
[...] Porque, assim, dos outros, justamente, eu não senti muito. Mas de M*** foram nove horas e trinta minutos. [...] Até hoje eu quero entender. [...] Não sei se é porque eu era mais nova, se tem alguma coisa a ver... [...] Eu não sei se por que... Se foi pelas complicações [durante a gravidez]. Não sei se é porque M*** foi bem grande, à vista dos outros. [MILENA]
[...] Quando eu cheguei lá eu tive um susto, não imaginava que ia ser bem atendida. Mas eu fui muito bem atendida! [...] Então, essa moça, M*** [técnica em enfermagem], que eu vou até ter uma oportunidade de ir lá, deixar uma lembrancinha pra ela, ela caiu como um anjo, naquele plantão, né? Ela cuidou demais, me ajudou demais! [...] Ela chegou, tirou àquela minha bata, né, fez massagem, ficava conversando comigo, pedindo pra eu ter calma. E eu me chateei com o médico, o médico que estava, não lembro também o nome dele. Porque ele acha... Ele veio dizer que não parecia que eu tinha três... Que eu ia ter o terceiro filho. [...] Eu disse: ‘mas não é igual, não está sendo igual!’ Não foi, nenhum é... Se você sente uma dor de cabeça, às vezes você sente um dia mais, no outro você sente menos. [MILENA]
Passado esse momento, Milena diz que o médico mudou de atitude e a tratou bem. Finalizado o parto, ela se desculpou com o médico por não ter se comportado adequadamente.
[...] Aí depois eu não sei se ele se conscientizou, se ele estava menos estressado. Não sei se ele estava estressado. Depois ele foi ótimo! Na hora mesmo do parto ele foi ótimo. [...] Eu até pedi desculpa. Porque ele disse que eu fiz um escândalo. Eu estava sentindo muita dor! [MILENA]
Por meio dos relatos foi possível identificar que a atenção recebida na chegada à maternidade, tanto por parte do pessoal da recepção quanto da equipe envolvida na admissão foi percebida de diferentes maneiras pelas mulheres entrevistadas. Glória gostou do atendimento porque, mesmo sem dor e com ‘apenas’ quatro centímetros de dilatação, a médica permitiu que ficasse internada. Fernanda, entretanto, chegou à maternidade com dores e com cinco centímetros de dilatação, mas foi solicitada que voltasse para casa e retornasse quando a frequência das contrações aumentasse, o que ocorreu logo que chegou em sua casa.
Patrícia queixou-se do tempo que esperou para ser atendida na sala de admissão. Bruna, que
chegou à maternidade com muita dor e em estágio avançado do trabalho de parto, ficou impaciente com a pessoa da recepção, ao pedi-la que preenchesse a ficha de cadastro; com as perguntas de rotina do setor de enfermagem; e, também, com a espera pelo médico que
demorou a ir examiná-la na sala de admissão. Laíze, por sua vez, disse que foi bem atendida pelas pessoas na recepção e não teve que esperar muito, enquanto Sofia e Milena não fizeram referência específica aos atendimentos de recepção e de admissão.
As diferentes experiências relatadas pelas mulheres e suas percepções acerca do atendimento na chegada à maternidade expressam diferentes necessidades em diferentes estágios do trabalho de parto, e diferentes intensidades da dor sentida quando as mulheres chegaram à maternidade. Por outro lado, evidenciam também diferentes modos de acolhimento dos profissionais, remetendo ao debate sobre a necessidade de rever as práticas de atenção à mulher na chegada à maternidade, de modo a possibilitar uma postura acolhedora e cuidadora, orientada para atender às suas necessidades singulares e não apenas para cumprir normas e protocolos. A adoção de normas, protocolos e rotinas nos serviços é prática racional necessária ao bom funcionamento e adoção de medidas cientificamente comprovadas e tem importância na segurança da vida da usuária, porém, pode também ter o seu reverso, quando não acompanhada da escuta do sofrimento e necessidades da pessoa singular que busca o serviço de saúde, podendo se tornar meros instrumentos burocráticos, incompatíveis com uma atenção integral e humanizada, e até produzir iatrogenia.
Na concepção de Cecílio e Merhy (2003), a atenção integral no hospital “seria o esforço de uma abordagem completa, holística, portanto integral, de cada pessoa portadora de necessidades de saúde que, por um certo período de sua vida, precisasse de cuidados
hospitalares” (p. 197). Concordando com os autores, pode-se inferir que a abordagem a
algumas mulheres na chegada à Maternidade Câmara Cascudo não se constituiu propriamente numa abordagem integral. Uma abordagem completa, na perspectiva da atenção integral, implica considerar que cada encontro trabalhador-usuário se constitui parte da produção do cuidado. Nessa perspectiva, ao se olhar para esses encontros, seja com um recepcionista ou um médico, serão evidenciadas questões que irão dizer sobre como se dá a produção do cuidado. Olhar para o modo como se produz o acolhimento, nesse contexto, permite pensar a micropolítica dos processos de trabalho e suas repercussões para a atenção aos usuários (FRANCO; BUENO; MERHY, 2007).
Nas propostas oficiais de humanização da atenção à saúde, tanto as que se referem à gestão e à atenção no sistema de saúde como um todo, quanto àquelas específicas da atenção obstétrica, o acolhimento é considerado questão fundamental para a organização dos processos de trabalho e de produção do cuidado com vistas à humanização (BRASIL, 2001b; 2002; 2004a; 2004b; 2010b; 2011b; 2014a). No documento intitulado “HumanizaSUS -
Acolhimento com avaliação e classificação de risco: um paradigma ético-estético no fazer em
saúde” (BRASIL, 2004a), o acolhimento é definido como “um modo de operar os processos
de trabalho em saúde de forma a atender a todos que procuram os serviços de saúde, ouvindo seus pedidos e assumindo no serviço uma postura capaz de acolher, escutar e pactuar
respostas mais adequadas aos usuários” (p. 5). Por seu turno, outro documento do MS, o “Manual de acolhimento e classificação de risco em obstetrícia” (BRASIL, 2014), entende que o acolhimento “na porta de entrada dos hospitais e das maternidades assume peculiaridades próprias às necessidades e demandas relacionadas ao processo gravídico” (p.
[9]). Compreende que o acolhimento nas maternidades tem papel fundamental na construção de vínculos de confiança com os profissionais e o serviço, podendo facilitar o protagonismo das mulheres e acompanhantes, particularmente no momento do parto.
Desse modo, o acolhimento na chegada à maternidade, relatado pelas mulheres entrevistadas, parece estar ainda distante das recomendações oficiais e necessita ser repensado no seu modo de fazer para produzir cuidado centrado nas necessidades das usuárias.
As falas das mulheres revelaram também que o acolhimento à dor durante o trabalho de parto e parto na maternidade estudada precisa ser considerado nas mudanças de práticas. Seus relatos evidenciaram diferentes atitudes dos profissionais frente às suas dores, recebendo afeto e compreensão de alguns e tratamento grosseiro e hostil por parte de outros, como veremos nos relatos que se seguem.
Milena relata ter recebido um atendimento acolhedor pela ‘enfermeira’, mas incompreensão com a dor por parte do médico. A ‘enfermeira’ fez massagem, conversou com
ela, procurou tranquilizá-la. O médico ficou irritado e disse que ela não deveria fazer escândalo, pois já estava parindo o terceiro filho. Mas Milena afirma que sua dor neste último parto foi diferente, bem mais intensa que nos anteriores. No seu penúltimo parto, quando chegou à maternidade, conta que foi direto para a sala de parto e sua filha logo nasceu. No último, porém, mesmo tendo esperado bastante tempo em casa, assim como no parto anterior, com dores, antes de procurar pela maternidade, Milena ficou ainda nove horas e meia em trabalho de parto após sua chegada ao serviço.
Fernanda conta que não fez ‘escândalo’. Sentiu muita dor, mas preferiu ficar
caminhando de uma sala para outra e se valer da fé em Deus para ter paciência de suportar a dor. O médico elogiou sua atitude colaborativa.
Patrícia teve melhor sorte e a ela foi ofertada a bola de fisioterapia para alívio da dor. Na sala de parto também teve sua dor reconfortada pela ‘enfermeira’ e foi bem tratada
pelo médico.
Sofia, como relatado anteriormente, presenciou outras mulheres em trabalho de parto,