5. Analyse og drøftinger
5.2. Levebrød
5.2.3. Et ”skikkelig” arbeid
Neste estudo, os Tremembé são autores populares que dialogam com os autores científicos, em que cada um tem a sua importância na construção de conhecimentos em um processo de autoria coletiva. Além disto, são atores que agem na sua realidade, recriando-a historicamente no contexto indígena cearense e brasileiro.
O povo Tremembé apareceu nos registros históricos brasileiros desde o século XVII, ocupando a região litorânea entre os estados do Pará e do Rio Grande do Norte. No Ceará, estão localizados nos municípios de Itapipoca, Acaraú e Itarema (FONTELES FILHO, 2003).
Em sua historicidade, segundo Borges (2010), foram denominados nômades, pois a mobilidade territorial é justificada por elementos políticos, econômicos e espirituais (fenômeno cultural), bem como a partir de sua relação com a natureza (período de coleta de determinadas plantações e o aparecimento de certos animais).
Atualmente, a etnia Tremembé habita a região de Itarema, Itapipoca e Acaraú, no Ceará. Neste estudo, a ênfase foi nos indígenas advindos do município de Itarema, do distrito de Almofala, na região do Vale do Acaraú no estado do Ceará, situa-se no litoral oeste, entre os rios Aracati Mirim e Aracati Açu. As suas terras foram “doadas” pela Carta Régia do Governo Português, que visava à diminuição e à fixação do território indígena (GOMES; VIEIRA; MUNIZ, 2007).
Estes utilizam no seu cotidiano de atividades a pesca, ainda hoje um dos principais meios de sobrevivência da aldeia. Para complementar as rendas familiares, realizam artesanatos com materiais provenientes do mar. Um dos registros da memória tradicional remete à origem do nome Tremembé, como advindo de tere-membé, que significa “o brejo
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que treme”, ou “tremedal”, ou “lugar encharcado (embrejado)”, proveniente da língua tupi (BORGES, 2010). Podemos enfatizar que
O nome Tremembé vem dos Tremedáu, que é uma espécie de córrego de lama movediça, coberto por água escassa. Quando os índios eram perseguidos, entravam nos tremedáu, e como sabiam afundar na lama, conseguiam sair em outra localidade. Os soldados ou capangas que os perseguiam, porém, não possuindo a mesma destreza, afundavam e morriam. (PEREIRA, 2010, p. 20).
Outra versão sobre a origem do nome Tremembé foi designada por Borges (2010), refletindo no discurso deste povo na atualidade, que tem o sentido de se esconder dos inimigos e de extrair a subsistência dos manguezais, atrelando, assim, o seu nome a objetivos sociais e políticos que mobilizam a constituição do povo.
Segundo depoimento recente, realizado pelo senhor Estevão Henrique, no ano de 2005 [...], índio Tremembé habitante da localidade da Tapera, no município de Itarema, no Ceará, o nome do seu povo vem de Tremedal, que significa mangue, por que segundo ele, os tremembés freqüentavam os mangues das praias, em busca de
peixes, mariscos e crustáceos e, de forma estratégica, neles se “atocaiavam” e
armavam emboscadas para os inimigos. (BORGES, 2010, p. 72-73).
Desta maneira, o povo Tremembé convive com vários grupos sociais, entretanto mantém a cultura pela resistência política e valorização de sua cultura, que se estende na defesa do seu território e de sua identidade sociocultural, especificada com o Torém (dança e ritual sagrado), a produção de mocororó (bebida fermentada feita com caju) e confecção de artesanatos (MESSEDER, 1995).
A singularidade e a fortaleza da etnia Tremembé é vivenciada no Torém, dança específica deste povo, que reflete a sua espiritualidade e o seu processo de luta política (FONTELES FILHO, 2003). Nos rituais dos Tremembé de Almofala, a música “Aninhá Vaguretê”, geralmente, é cantada para iniciar o Torém, que reflete em um pedido para realizar o momento de interação e diversão deste povo:
Ô senhô dono da casa Licença quero pedir Meia-hora de relógio
Para nós se divertir Mas ô vevê tem manibóia
Aninhá vaguretê Aninhá vaguretê Quando eu aqui cheguei
Nesta casa de alegria Se abriu as portas da frente
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Meu coração bem me disse Que aqui tem moça formosa
Mas ô vevê tem manibóia Aninhá vaguretê Aninhá vaguretê Vamos todos se juntar E vamos entrar nesta roda
Vamos enfeitar o salão Aninha vaguretê Aninha vaguretê Mas ô vevê tem manibóia Aninha vaguretê Aninha vaguretê
O Torém é dança sagrada que ocorre nos rituais e na cotidianidade da vida Tremembé, que propicia conversar com os encantados. É a maneira de celebrar e brindar a vida, que reflete a cura, a força, o amor, a energia que fortalece e protege o povo, viabiliza o contato com os saberes ancestrais, ambientais e espirituais.
É povo de grande luta política pela demarcação do território e admirável por outras etnias indígenas por sua força e poder de reivindicação social, além da busca constante pela divulgação de sua cultura e da sabedoria ancestral Tremembé.
O povo Tremembé de Almofala, no interior do Ceará, é um povo guerreiro, reconhecido e valorizado por outras etnias indígenas pelas especificidades de sua cultura que se fortalece por sua espiritualidade, seu modelo educativo diferenciado e seu movimento político presente na sua indianidade. Ressaltamos a construção da Educação Diferenciada Indígena como uma estratégia de manutenção da cultura indígena e de divulgação da realidade Tremembé, que fortalece a luta pela formação dos(as) educadores(as) de maneira a propiciar a convivência amorosa com o ambiente, que ameniza as situações de exploração e dominação que são vivenciadas pelos indígenas.
A idealizadora da Educação Diferenciada Tremembé foi Raimunda Marques do Nascimento, filha do Cacique João Venâncio. Ela estudou até a 4ª série do atual Ensino Fundamental e, em seguida, foi à Fortaleza para trabalhar. Quando voltou para Almofala, começou a ensinar as crianças indígenas sobre a sua cultura, como a espiritualidade, o Torém, os saberes ambientais e as tradições da etnia. Depois, Raimunda sentiu a necessidade de estudar e fez o Curso de Magistério Indígena Superior Tremembé no nível médio e começou a graduação, que não pode concluir, por causa do seu falecimento em 15 de maio de 2009, aos 37 anos (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2011).
Em 2006, foi consolidada a parceria entre os indígenas e a Universidade Federal do Ceará (UFC) para a criação do Magistério Indígena Superior Tremembé (MITS),
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Licenciatura Intercultural Específica, que tem como objetivo formar educadores indígenas em um modelo diferenciado e intercultural, que lute por seus direitos sociais e fortaleça a sua cultura com ênfase nos preceitos da formação libertadora docente. A primeira turma foi o “Magistério Pé no Chão”, que começou em 2006, quando houve investimento do Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind). Constitui-se como a Licenciatura Intercultural de referência no estado do Ceará e no nordeste brasileiro.
Figura 1 – Sala de aula dos(as) educadores(as) indígenas, na disciplina “Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé”, do Magistério Indígena Superior Tremembé (MITS), em Dezembro de 2011, na Escola Maria Venância
Fonte: fotos da autora.
Em abril de 2013, graduaram-se 36 educadores indígenas Tremembé na Concha Acústica da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), em processo de reconhecimento pelo Ministério da Educação (MEC). Este curso foi coordenado pelo Professor Dr. José Mendes Fonteles Filho (Babi Fonteles). Nele, consideraram-se a cultura indígena e as temáticas fundamentais para a construção de conhecimento na realidade Tremembé.
Nesta pesquisa, a escolha por crianças indígenas Tremembé de Almofala ocorreu pela minha identificação com os trabalhos e estudos referentes à infância e pelo interesse em realizar intervenções, concebendo-as como atores/autores sociais no processo educativo diferenciado em referência ao contexto social, à vida familiar e comunitária.
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A opção pelos indígenas Tremembé foca-se nos trabalhos relacionados à formação de educadores indígenas no Magistério Superior Indígena Tremembé (MITS) e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental Dialógica, Educação Intercultural e Descolonialidade, Educação e Cultura Popular (GEAD) da Universidade Federal do Ceará (UFC), com uma proposta de realizar parcerias e construir novos conhecimentos a respeito dos saberes ambientais indígenas e da descolonialidade.
Esta pesquisa foi realizada na Escola Diferenciada Indígena Tremembé de Ensino Fundamental e Médio Maria Venância, na localidade da praia, em Almofala, no Município de Itarema, no estado do Ceará. A escolha foi efetuada pela identificação com a escola e seus educadores durante os meus contatos iniciais com a realidade indígena, além de ressaltar sua importância política na construção da escola diferenciada indígena no Ceará.
No Ceará, a Escola Indígena Diferenciada (EID) é um fenômeno muito recente, o que justifica somente agora é que estão sendo desenvolvidos estudos iniciais. Os Tremembéforam os primeiros a implantarem uma escola indígena na Comunidade da Praia, em 1991, sem qualquer apoio por parte da SEDUC ou da Secretaria de Educação do Município de Itarema, onde estão localizados, tendo conquistado somente em 1997 o reconhecimento e apoio oficial às suas lutas pela escola diferenciada. (FONTELES FILHO, 2003, p. 16-17).
Percebemos a importância histórica e política da Escola Maria Venância para os povos indígenas de forma geral e, especialmente, para a etnia Tremembé, por representar bem a articulação social e o fortalecimento de sua autonomia nas relações estabelecidas. Sobre a escola, atualmente,
[...] é um prédio que tem uma arquitetura rústica, preservando os traços indígenas, misturando materiais como a alvenaria, madeira e cobertas de palha. Possuem grandes espaços e ilhas digitais, o que dá um grande destaque à boa parte das escolas da rede pública no Ceará [...] (ÍNDIOS..., 2009, p. 1).
Destaco a identificação com a arquitetura da escola, semelhante a uma Oca, demonstrando que a educação diferenciada deve ser pautada na cultura dos Tremembé e na horizontalidade das relações presentes na circularidade da apreensão de conhecimentos com o ambiente que priorize a amorosidade. Sobre as questões políticas deste âmbito:
A escola Maria Venança é também lugar de articulação, reuniões e grandes eventos do movimento indígena, de dança do Torém enquanto atividade curricular cotidiana e de diversão coletiva [...]. Tem o sentido de ser o centro da Aldeia da Praia, no qual os projetos de futuro são construídos no presente. No currículo da escola tem lugar de destaque a história dos próprios tremembés e seus conhecimentos tradicionais, a memória sobre os acontecimentos acerca da igreja de Almofala e da Terra da Santa. (OLIVEIRA JÚNIOR, 2006, p. 152-153).
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A escolha da comunidade da Praia ocorreu pela proximidade do Cacique neste lugar, o qual simboliza resistência e afirmação étnica para o povo Tremembé, sendo essencial para a construção da pesquisa essa movimentação em busca dos direitos sociais indígenas, como a educação diferenciada, a moradia, a terra e a saúde.
A Praia de Almofala se configurou como o centro político local, desde o início do
Aldeamento, em 1706. Nela, se revelam aspectos fundamentais da “cultura”
tradicional Tremembé, profundamente vinculada ao mar. Revelam-se, também, de modo dramático, o processo de invasão de posseiros e as lutas de retomada das terras indígenas. (FONTELES FILHO, 2003, p. 4).