5. Analyse og drøftinger
5.4. Faglig identitet
5.4.3. Mote
Ser índio pra mim é saber dançar o Torém, é sentir o som de cada canto, e saber a sua história. Sentir a terra firme, saber viver nela carinhosamente. Por isso que eu sou índia Tremembé - Raimundinha /Junho de 97. (CEARÁ, 2007b, p. 15).
Ser indígena, ou melhor, estar sendo indígena Tremembé em Almofala reflete a vivência de um cotidiano específico e de experiências compartilhadas que demonstram
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integração com a natureza. Implica um processo de reinvenção e reelaboração dos saberes tradicionais destes povos.
As tradições unem o povo indígena de um jeito único. No entanto, “não se trata de manter a qualquer custo práticas tradicionais, mas de reinventá-las, também, em função do projeto político dos Tremembé.” (FONTELES FILHO, 2003, p. 137).
Estes saberes são conhecimentos corporificados e experienciados decorrentes de uma longa trajetória histórica associada à cultura deste povo. Para os indígenas Tremembé, a cultura é o:
[...] modo de ser de um grupo indígena vai tecendo a sua diferença. A identidade indígena é essa diferença, esse modo de ser de um grupo de humanos que acontece em um espaço cultural. O espaço cultural é formado de um grupo de gente, com suas coisas materiais e sua espiritualidade. (CEARÁ, 2007b, p. 52).
Geertz (1989/2012) concebe a cultura como teias de significado produzidas pelo ser humano, ou seja, pode ser tecida por significados presentes num conjunto de símbolos compartilhados (construções simbólicas), traçando, assim, interpretações e percepções conflitantes de diversos elementos da realidade (como, por exemplo, religião, educação, entre outros) orientadores da existência humana.
[...] o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significados. (GEERTZ, 1989/2012, p. 4).
Os saberes são reflexos da construção coletiva de vida vívida, transmitidos e reelaborados por cada geração através dos exemplos e da vivência coletiva, comunitária, familiar e grupal, não sendo assim apenas um repositório de conhecimentos provenientes do passado. Estes saberes apresentam-se nas dimensões espirituais, sociais, políticas, educativas do povo Tremembé.
A dimensão política e espiritual são formas de afirmação dos Tremembé frente às outras etnias e outros povos. A politicidade e a espiritualidade são fundamentais no processo educativo diferenciado Tremembé e na garantia dos direitos fundamentais desses indígenas, pois permite a construção da identidade dos atores e autores sociais em relação aos saberes ancestrais, por meio do diálogo entre educando(a) e educador(a) sobre os ensinamentos ambientais mediados pelo mundo.
O ser Tremembé, na atualidade, recebe influências colonializantes que retratam a tentativa de imposição de formas de ser, pensar, sentir e agir, distintas das que ocorrem
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habitualmente em seu contexto social. Podemos exemplificar com as músicas, os lugares frequentados, os interesses, o uso de eletrônicos e de tecnologias, os comportamentos, as religiões alienígenas, os desejos, que estão mudando por força das intromissões externas e do interesse dos próprios indígenas.
Os Tremembé de Almofala são seres humanos com uma multiplicidade de histórias de vida e modos próprios de se relacionar com a natureza a partir dos encantados e dos saberes da natureza. São sujeitos históricos, sociais, étnicos, ambientais e culturais, povos que se constituem na luta política e na resistência.
Sobre a especificidade dos(as) Tremembé de Almofala:
Todos nós sabemos que Tremembé é um povo único. Por isso alguém pode criar vaidade em cima disso, e pode ter... Alguém pode ter inveja disso e começar a botar a gente pra baixo é nós não pode perder de vista porque é um espaço muito sagrado. (Cacique João Venâncio, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
Outro trecho que reflete a particularidade e a fortaleza da etnia Tremembé:
Por que chamar índio não povo Tremembé? Índio cada um faz o índio do jeito que quer. E povo é diferente, existem muitos povos, os povos são diferentes. Porque não nos chamar de povo? Índio desenho da escola, quem faz mais feio, eles dizem que aquele está bom, esse é o índio. Nós somos um povo. Somo índios vivo. Como podem dizer que não parecemos com índio, as pessoas nã o vêem índio, elas vêem o povo Tremenbé, guarani, xavante, ianomâmi, tupiniquim, tudo é povo, o nome não índios. Índio é uma máscara que colocaram na cara de cada um. (Cacique João Venâncio, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
Por isso, optamos por utilizar na pesquisa o termo indígena e povo Tremembé, evitando chamá-los de índios, já que os próprios indígenas reconhecem que esta vertente remete ao preconceito e traduz também a romantização. Há a construção de uma imagem que é padronizada e estática, reproduzida pela história (tradicional) e por mecanismos midiáticos que constituem o ser indígena com uma única forma de caracterização. Ao longo do tempo, o indígena transforma a sua maneira de ser no mundo com os outros.
Nesta localidade, como já mencionamos, há a igreja Nossa Senhora da Conceição de Almofala, que foi soterrada por uma duna móvel, ainda no século XIX.
Quarenta e cinco anos depois, quando o vento passou a deslocar a duna outra vez, a igreja voltou a aparecer. O local do povoado passou a representar um espaço de resistência e de afirmação étnica, pois à medida que o povoado ia sendo descoberto
pelas dunas, posseiros “brancos” também ocupavam o lugar, disputando, assim, o
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Os Tremembé representam este acontecimento fazendo uma relação com a exploração, a resistência e a dominação sofrida por este povo pelos colonizadores:
A duna enterrando a Igreja parece que queria dizer que o branco vinha. Para querer enterrar a gente Tremembé [...]. A gente construiu a igreja, mas era o branco que mandava na gente. Foi a gente que construiu... Chegou uma hora que a duna cobriu a igreja todinha. A duna entupiu a Igreja de areia. A gente pegava cuia, uma cuia de xambucá de cabaça e puxava a terra para descobrir a santa. A gente botava a terra que cobria a Igreja para baixa, pra pracinha do Santo Cruzeiro, dia e noite. Foi assim que desenterramos a igreja todinha. E teve aí a festa mais bonita que eu já vi: a festa de Nossa Senhora de Almofala – Estevão. (CEARÁ, 2007b, p. 59).
Figura 3 – Igreja Nossa Senhora da Conceição de Almofala na Marcha Indígena no dia 07 de setembro de 2013
Fonte: fotos da autora.
O soterramento da Igreja e a reação dos Tremembé para desenterrá-la, como já nos referimos, é um acontecimento que ressalta a sua mobilização e a sua união, podem lutar por seus objetivos, principalmente no que se refere à manutenção de sua memória coletiva e à demarcação da terra. Para Nascimento (2001, p. 30),
A memória coletiva retoma relações sociais e noções compartilhadas a partir de uma relação de pertença a um grupo; já a memória individual é um ponto de vista sobre essa memória coletiva. A nossa história de vida é uma colcha de retalhos, feita com o tecido das nossas experiências, costurada com o fio colorido do nosso sentimento de pertença às comunidades afetivas, com as quais compartilhamos um modo de pensar e estar no mundo. Isso nos possibilita continuarmos ligados com aqueles que escolhemos como companhias que reafirmam essas experiências significativas compartilhadas, mesmo que estejamos afastadas, no tempo e no espaço, de suas presenças físicas.
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Isso reflete na identidade deste povo, que demonstra características próprias, inerentes a sua realidade na construção dos seus saberes ancestrais, como no caso do Torém, que é uma dança sagrada específica desta etnia, um ritual que expressa a sua espiritualidade.
O Torém é um dos instrumentos mais políticos na luta pela demarcação da terra. Torém é a dança dos velhos. O povo Tremembé resistiu até hoje por conta da espiritualidade. Espiritualidade é a vivência ha rmônica, isso também é política [...] .
(Cacique João Venâncio, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
O Torém é uma dança sagrada, própria dos Tremembé, pois se vincula diretamente com sua identidade indígena, envolve a luta política pela demarcação das terras indígenas e possibilita entrar em contato com os antepassados (os encantados) por meio da espiritualidade. É um ritual que retrata a realidade Tremembé e resgata a linguagem de origem, demonstrando fortaleza, sabedoria ancestral e saberes ambientais do povo. Estes elementos que se apresentam no processo educativo diferenciado desta etnia têm a finalidade de proteger e cuidar de sua cultura. Sobre o Torém, na realidade dos Tremembé de Almofala: “Olha, o que a gente faz é o que a gente faz no dia a dia. O professor conversa com a criançada, bota a criançada pra dançar o ritual.” (Cacique João Venâncio, 2013).
Leite (2009, p. 406) afirma que “o Torém, pode-se dizer, é a grande força de resistência entre os Tremembé – mesmo entre jovens, filhos dos que são contra a demarcação de terra, não resistem quando as lideranças, com o maracá, anunciam e convocam para a sua realização.” É um sinal que demarca as questões culturais deste povo e garante a afirmação dos seus direitos, além de gerar o estabelecimento de contato entre os encantados e propiciar o fortalecimento da etnia.
Sobre a especificidade do Torém, a dança sagrada Tremembé é a celebração da vida, estabelecendo uma corrente poderosa que fortalece o povo, ou seja, é uma dança circular em que todos estão unidos com suas mãos para que o mal não entre na roda. Um exemplo da música do Torém que retrata a pesca da garoupa:
Pegaropê, pegaropê, Vei xegaca da merunga
Da merunga sarecê Xegaca da merunga Da merunga sarecê Pegaropê, pegaropê, Pegaropê, pegaropê, Vei xegaca da merunga
Da merunga sarecê Xegaca da merunga
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Da merunga sarecê Pegaropê, pegaropê, Pegaropê, pegaropê, Vei xegaca da merunga
Da merunga sarecê Xegaca da merunga Da merunga sarecê Pegaropê, pegaropê
O Torém garante o contato com pessoas de várias gerações. Em seus cantos, apresentam palavras que mesclam o português e a linguagem de origem indígena ao som do maracá e dos passos que têm ligação com os animais. “Dança todo mundo junto. [...] Todo mundo junto. Não tem diferença, é homem, é mulher, é criança, é idoso, todo mundo igual” (Cacique João Venâncio, entrevista, 2012).
Sobre os rituais dos povos indígenas, retrata uma dança que demonstra a alegria do povo Tremembé, que não precisa necessariamente ter um motivo específico para a celebração da vida, da comunidade, da cooperação, da solidariedade e da cultura.
Na visita de alguns estudantes da Escola Estadual de Granja à Escola Maria Venância, percebemos uma grande curiosidade em relação aos rituais indígenas:
Aluno da Escola Estadual de Educação Profissional Guilherme Teles Gouveia: Como vocês fazem os rituais?
João Filho: A gente faz ritual quando tá feliz, quando tá triste, às vezes porque está com vontade de dançar, com vontade de juntar o pessoal e dançar mesmo. Principalmente, no período do caju, porque a gente faz pedido aos encantados, toma Mocororó, então nesse período a gente dança muito. Não precisa ter motivo não, é só vontade de dançar mesmo. (Visita da Escola Estadual de Educação Profissional Guilherme Teles Gouveia – Granja/CE à realidade escolar Tremembé, 2013).
Oliveira Júnior (1998, p. 10) investigou o Torém como elemento diacrítico que reinventa a etnicidade do povo Tremembé, uma “[...] brincadeira, da época do caju, período em que os ‘índios velhos’ dançavam nas ‘noites de lua’ e eram aquecidos pelo calor de uma fogueira e a ingestão do mocororó”.
Aluno da Escola Estadual de Educação Profissional Guilherme Teles Gouveia: Vocês têm algum intuito com o Mocororó, alguma coisa como entrar em transe ou ter contato com alguma coisa através dela?
João Filho: Tem. Ele tem três passagens. Numa semana até as duas é o vinho. De três semanas pra frente é o Mocororó e de três pra frente é o Lisão. Então, isso tem uma ciência pra isso. (Visita da Escola Estadual de Educação Profissional Guilherme Teles Gouveia – Granja/CE à realidade escolar Tremembé, 2013).
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Durante o Torém, o Mocororó é distribuído para todos os participantes da dança, bebida que faz parte das tradições indígenas, sinalizando o sagrado e a partilha entre os participantes:
Mocororó é uma bebida que a gente faz do caju pra hora do ritual. Vocês sabem que quando o padre está dizendo a missa, pra purificar o que ele está dizendo, pega lá o cálice, levanta e a hóstia né? Só que é pra ele, não compartilha com ninguém. Nós temos uma purificação fora do nosso ritual, chama para o cuiambá, quem está na roda ali é obrigatório beber daquele vinho. Pra nós, nós estamos purificando a presença dos nossos encantados no nosso meio. Pra nós é a mesma coisa que o padre está fazendo quando está celebrando a missa dele. (Cacique João Venâncio, Entrevista, 2012).
Sobre a história do caju, Cacique João Venâncio verbaliza:
Era uma vez um povo chamado Tremembé. Eles estavam querendo descobrir uma bebida diferente para matar a sua sede. Foi o tempo que resolveram andar pela mata todos juntos procurando. Andaram, andaram, e já tinham chegado bem dentro da mata quando resolveram voltar. Na volta do passeio dos Tremembé, o povo viu um fruto que antes era verde e na volta já estava maduro. Era um fruto amarelo e cheio de suco, muito suco. O caju – João Venâncio. (CEARÁ, 2007b, p.19).
Uma música que retrata a história do caju e o seu processo de amadurecimento, cantada e dançada no Torém, é a “Canhungá”:
Canhungá Canhungá madurecê É aqui madureça Dimadura ecerecê Canhungá Canhungá madurecê Canhungá Canhungá madurece
Por causa da intervenção dos antropólogos, missionários e historiadores na região, o sentido do Torém foi se modificando ao longo do tempo, sendo também considerado “um momento de encontro com a ancestralidade indígena. Os ‘encantados’, os ‘índio véi’ são aqueles que vêm ao encontro dos Tremembé para lembrá-los dessa ancestralidade, lhes protegerem e lhes darem força.” (FERNANDES, 2013, p. 116). Desta maneira, segundo o Pajé, “o Torém é um dos instrumentos mais políticos na luta pela demarcação da terra” (Luís Cabloco, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
Notamos a presença de diversos significados para o Torém, como a diversão e a brincadeira, a afirmação étnica, as lutas políticas em referência à terra e por ser um ritual
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sagrado de comunicação com os encantados, que estão integrados e conectados na realidade destes povos. Assim, pode ser um motivo de festejo e brincadeira na noite cultural, na colação de grau dos(as) educadores(as) indígenas ou na festa de formatura, como também um ato político realizado pelas lideranças locais na Escola Maria Venância ou, ainda, um ritual sagrado envolvendo a cura pelo Pajé. Exemplificamos com um canto do Torém, denominado “Quem deu esse nó?”:
Quem deu esse nó Não soube dar Esse nó tá dado
Eu desato já Ô desenrola essa corrente
Deixa os índios trabaiá.
Esta canção retrata o sofrimento dos povos indígenas que devem se libertar das correntes que trazem marcas representativas de exploração e de opressão. Há diversos “nós” que precisam ser desatados, principalmente, no que se refere à demarcação territorial e à discriminação com os povos indígenas. Este canto evoca a superação das dificuldades destes povos e revela a importância da dança sagrada para a conquista de suas lutas políticas a partir do contato com os encantados.
O preconceito com os rituais sagrados são estratégias colonializantes de impor um modelo de religiosidade e de espiritualidade, que advém da lógica unívoca e soberana.
Torém e toré são rituais diferentes. Mas é igual aos inúmeros outros rituais da igreja evangélico. Porque esses recebem nomes respeitosos e o nosso não. É preconceito e violência em cima dos povos indígenas. Essas são cores negativas atraindo as coisas principais. (Cacique João Venâncio, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
É marcante a discriminação dos povos indígenas por causa de sua espiritualidade:
Espiritualidade pra sociedade, macumbeiro, feiticeiro, visão preconceituosa... Cada um somos espíritos, as aves têm espírito, a água tem espírito. Alimento mandioca seu espírito e um dos mais fortes. Manipueira é o espírito. A medicina tradicional se insere nessa parte. Rapa um pau faz um lambedor e fica bom. Exemplo conhecidos pela comunidade, espírito combate o câncer, qualquer coisa. A doença também é espírito, e ela teme o outro lado. (Pajé Luiz Cabloco, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
Torna-se ainda mais preocupante quando este preconceito parte dos próprios indígenas, como forma de desvalorizar a sua realidade.
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Muita gente acha que espiritualidade é besteira, não vale nada, até mesmo muito dos alunos do MIT. Muita coisa em cima da terra tem envolvimento com as outras. As coisas se fortalecem em outras coisas. Uma vai ajudando a outra, vai fortalecendo, alimentando a outra, umas mais e outras menos. Se separar não funciona. (Pajé Luís Cabloco, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
Esta espiritualidade, como já mencionamos, demonstra uma ligação com os encantados, que facilitam o processo de cura e algumas decisões da comunidade. Esta se foca nas conexões da vida em seus variados aspectos, ou seja, demonstra a integração entre a questão ambiental, afetiva, cognitiva, saberes populares e tradicionais.
Enfatizamos que a espiritualidade representa a luta pela demarcação da terra, a vivência do cotidiano (a prática da vida), os momentos de resistência, a luta em prol de sua cultura, a mensagem que se recebe de entidades (a forma de comunicação com os encantados) e os ensinamentos dos indígenas mais velhos. Significa a reafirmação da identidade Tremembé, bem como a reformulação da escola como um espaço de construção de identidades com um enfoque na tradição, na amorosidade e na resistência.
Olha, a gente não tem muito religião, são várias né? Mas nós temos a nossa, nós confiamos, eu acredito, entre nosso povo fortalece. Agora, não é porque sou índio que não posso participar de outra religião. Eu posso participar. Sou Tremembé, sou cacique do aldeamento, mas eu vou ao forró se eu quiser, vou ao culto, vou à missa, mas estou ali como Tremembé. E tenho meus momentos, meu ritual sagrado, que jamais eu vou trocar por qualquer outra seita, por qualquer outra coisa . (Cacique João Venâncio, Disciplina Torém, Ciência, Filosofia e Espiritualidade Tremembé do MITS, em dezembro de 2011).
A espiritualidade para o povo Tremembé é a própria vida e processa-se no cotidiano por meio do conhecimento interior, ou seja, construção da sabedoria a partir do saber que vem de dentro. Ressaltamos que este conhecimento interior pode ser escutado a partir do silêncio e por meio dos ensinamentos dos mais velhos. Desta maneira, a importância do silêncio é caracterizada por:
Nós os índios, conhecemos o silêncio. Não temos medo dele. Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras. Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio e eles nos transmitiram esse conhecimento.
"Observa, escuta, e logo atua", nos diziam. Esta é a maneira correta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam se seus filhotes. Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos, e então aprenderás.
Quanto tiveres observado o suficiente, então poderás atuar. Com vocês, brancos, é o contrário. Vocês aprendem falando. Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
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No trabalho estão sempre tendo reuniões nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes. E chamam isso de "resolver um problema".
Quando estão numa habitação e há silêncio, ficam nervosos. Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer. Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase. Sempre interrompem.
Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive. Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estás dizendo. Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante. Do contrário, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber. Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveríamos pensar nas suas palavras como se fossem sementes. Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra está sempre nos falando e que devemos ficar em silêncio para escutá -la.
Existem muitas vozes além das nossas. Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio.8 (SABEDORIA... 2011, p. 1).
Além do Torém, o silêncio também é analisado como instrumento de descoberta e de vinculação com a natureza. É uma forma de comunicação com os encantados, aplicando os conhecimentos dos mais velhos. Há a ideia de que a terra está sempre nos falando algo, que só