Em Setem bro de 1959, o professor de A ritm ética e G eom etria da Escola de A prendizes do Entroncam ento, Raul de M atos Torres, endereçou ao chefe do 2°Grupo O ficinal um ofício onde tecia considerações pouco abonatórias em relação à preparação com que os aprendizes ingressavam na escola. Referia, concretam ente, a falta de organização e de hábitos de estudo e, sobretudo, as deficiências ortográficas que im possibilitavam a escorreita com preensão das m atérias leccionadas. Para obviar a essa falta de preparação sugere o professor que os aprendizes sejam subm etidos, antes do início das aulas, a um exam e de adm issão de português e aritm ética, "equivalente ao dos liceus ou escolas técnicas" - quando o não tivessem - e que fossem logo excluídos da frequência os "alunos que, com provadam ente, não dessem provas de capacidade para acom panhar com aproveitam ento essas disciplinas." Concluía o professor que assim se evitaria o prejuízo dos salários desses aprendizes e se obviava tam bém a que nas adm issões eles preterissem outros com mais capacid ad es.237
O alvitre foi considerado. Em ofício da Divisão de M aterial e O ficinas datado de 20 de Fevereiro de 1960, foi o 2o G rupo Oficinal informado da constituição do júri, do local de realização das provas, das provas a realizar e do calendário respectivo. O júri
D e a p re n d iz a cida d ã o
era constituído pelos engenheiros chefes dos três grupos oficinais, as provas eram efectuadas na sede de cada grupo oficinal e constavam , no caso para a classe B, de provas de D itado, Redacção, Á lgebra, D esenho e Tecnologia e eram distribuídas por dois dias de realização, 18 e 19 de M arço seguintes. Constata-se um cuidado m eticuloso quanto às indicações referentes ao sigilo e aos prazos para classificação e com unicação dos resultados. Juntava-se a lista dos candidatos da classse B, quatro candidatos, e referia-se que oportunam ente se enviariam indicações relativas às classes C e D.
Os candidatos da classe B eram portadores de habilitações ao nível do curso industrial com pleto ou equivalentes e, em caso de aproveitam ento no exam e de adm issão, ingressavam directam ente no terceiro ano do curso de aprendizes. Os candidatos da classe C deviam ter habilitações iguais ou superiores ao ciclo preparatório do ensino técnico e, em caso de aprovação no exame de adm issão à Escola de A prendizes, ingressavam no segundo ano da aprendizagem .238 Os candidatos cujas habilitações não fossem além da 4a classe ou que, candidatando-se, tivessem reprovado nas classes anteriores, habilitavam -se ao ingresso no Io ano da escola através do exam e de adm issão na classe D.
A cabou por não haver candidatos na classe B, pelo m enos nesse ano. Em novo ofício datado de 2 de M arço de 1960, era o 2o G rupo Oficinal inform ado que, após a verificação e rectificação das habilitações declaradas pelos interessados nos seus pedidos de adm issão, deveriam os candidatos ser considerados na classe C. Tal facto perm ite-nos confirm ar a exiguidade da oferta de ensino técnico na região de influência da Escola de A prendizes donde resultava, por um lado, a falta de diplom ados e, por outro, que os poucos diplom ados eventualm ente existentes não se sentissem atraídos pelos baixos salários de que sem pre se queixaram os ferroviários. E o que tam bém se pode concluir de um ofício enviado pelo 2°GO aos Serviços Centrais em 6 de Setembro de 1960, dando conta que dois candidatos aprovados na adm issão não se tinham
238 idêntica circunstância ocorria, por exem plo, no R eino U nido onde o tem p o de apren d izag em podia se r encurtado se o aprendiz tiv esse frequentado um curso de pré-aprendizagem ou um cu rso num a escola técnica {E scolas T écnicas, n°!6, 1954, p.295)
A E scola d e A p ren d izes d a CP
apresentado: o prim eiro, por sinal filho de um "operário destas oficinas a quem se perguntou o m otivo da falta de com parência do filho, tendo respondido que ao filho nào interessa a sua adm issão por ser pouco rem uneradora em relação às habilitações que possui - frequência do 4o ano da Escola Industrial"; do outro constou que já estava em pregado noutra em presa e não lhe interessava a sua adm issão na CP.
Não deviam ser m uito acessíveis os exam es da classe C - D itado, Redacção, A ritm ética, D esenho G eom étrico e G eom etria -, realizados pela prim eira vez nos dias 18 e 19 de M arço de 1960. A presentaram -se na sede do 2o G rupo O ficinal no Entroncam ento catorze candidatos tendo sido logo excluídos quatro por as habilitações declaradas no requerim ento não corresponderem às que efectivam ente possuíam e, dos dez restantes, nenhum logrou obter aprovação no exame de adm issão. Pode parecer paradoxal que os quatro candidatos que se apresentaram à classe B e quatro dos catorze que se apresentaram à classe C o tivessem feito sem as habilitações escolares necessárias para o efeito. A explicação só pode ser encontrada, ou na falta de inform ação adequada ou, no "atirar do barro à parede", isto é, sendo conhecedores da exiguidade de candidatos habilitados, terão tentado, através do exam e de adm issão, o ingresso na escola em patam ares mais elevados ou simplesmente o ingresso na escola, considerada a preferência dada a quem possuísse habilitações m ais elevadas. Contudo, uma vez m ais é posta a nu a dificuldade em recrutar aprendizes m unidos de uma escolaridade m ais prolongada.
N os dias sete, oito e nove de Abril foram realizadas as provas da classe D. A presentaram -se sessenta e sete candidatos aos quais se juntaram os dez reprovados na classe C. A s provas realizadas foram uma vez m ais Ditado, R edacção, A ritm ética e G eom etria e D esenho. Destas provas resultou a adm issão de trinta e quatro aprendizes no dia 1 de O utubro de 1960, um pouco m enos de 50% em relação ao núm ero total de candidatos, m uito longe da m édia nacional de m ais de 80% dos alunos que na década de cinquenta obtiveram aprovação no exam e de adm issão às escolas técnicas.239
D e ap ren d iz a cidadão
Tal discrepância pode indiciar m aior rigor nos exames de adm issão à Escola de A prendizes ou dever-se à oportunidade de realização do exame: nas escolas técnicas era realizado por norm a logo a seguir ao exam e da 4a classe ao passo que na Escola de A prendizes apenas quatro ou cinco anos depois. Por outro lado, pode considerar-se que o perfil académ ico dos alunos que procuravam aceder a um e a outro ensino era qualitativam ente diferente, com vantagem para os que procuravam continuar estudos nas escolas técnicas. A plicando uma categorização construída p or Sérgio G rácio, podem os considerar que estes últimos se integravam num a "classe m édia", já partidária de uma educação escolar e aqueles numa "classe popular" a sofrer os efeitos escolarizantes resultantes da m o dern ização.240
Daí em diante, as adm issões foram sem pre condicionadas à realização de um exam e de adm issão. O jú ri m anteve-se uniform e e às provas realizadas, ditas literárias, foram acrescentados, m ais tarde, exam es psicotécnicos. Em 1973/74 foram realizados apenas exam es m édicos e psicotécnicos.
Foram raros os candidatos que obtiveram aprovação nas provas da classe C. Aliás, houve alguns aprendizes que, tendo concluído habilitações após a entrada na Escola de A prendizes, requereram a passagem ao segundo ano, o que em regra lhes foi deferido. H ouve até um antigo aprendiz a confidenciar-m e que, face ao m aior rigor dos exam es da classe C, houve candidatos a entrar na escola pela classe D e a requerer posteriorm ente, face às habilitações entretanto declaradas, a passagem ao segundo ano do curso. Da classe B nunca mais houve notícia. Quanto à classe D, apesar da inform ação relativa ao núm ero de candidatos para todos os anos ser incom pleta, considero poderem ser alinhadas algum as conclusões.