Em geral, faz-se grande confusão entre os conceitos de raça e etnia. Em 1954, Allport, baseado na Psicologia, definiu que raça se referia aos laços hereditários, enquanto que a etnia estaria constituída pelos laços culturais e sociais. Assim, pode-se dizer que raça é determinada pela natureza, enquanto que etnia é adquirida pelo aprendizado. A explicação de Allport (1954) para esta definição era de que o descendente de uma raça carrega consigo algumas características específicas daquela raça, mesmo que sua hereditariedade seja proveniente de uma mistura entre as diferentes raças.
Não é incomum atribuir à raça as peculiaridades de aparência, costumes e valores; no entanto, raça está mais ligada à composição genética responsável, por exemplo, pela pigmentação da pele e outros poucos indicadores físicos. A cor da pele é um indicativo da raça; no entanto, não há qualquer evidência de que o gene que determina a cor da pele esteja ligado ao gene responsável pela capacidade mental ou qualidades morais do indivíduo. Com isso, não é possível afirmar que uma raça seja intelectualmente superior a outra (ALLPORT, 1954). A raça, por si só, não é suficiente para definir todas as características físicas, morais, intelectuais, psicológicas etc. de um indivíduo, isto porque algumas características não fazem parte da herança genética e, sim, do aprendizado.
Para Allport (1954), apesar das definições de raça sofrerem variações, as diferenças raciais de fato existem. Muitos são os problemas decorrentes das características raciais hereditárias e isto pode estar diretamente ligado à percepção das diferenças entre os grupos. As diferenças étnicas também existem e, ainda, notam-se muitas similaridades, pois é possível observar que muitos grupos adotam funcionalidades equivalentes a outros e, portanto, concordam com as mesmas crenças e práticas (ALLPORT, 1954).
As similaridades podem ser observadas em um vasto grupo de elementos que compõe as mais diversas sociedades, tais como: culinária, religião, organização da comunidade, folclore, códigos morais e de etiqueta, jogos, formas de presentear, estilos de cabelo, hospitalidade, higiene e muitos outros.
Ao contrário da perspectiva de Allport, apoiada na Biologia, Winant (2000, p. 170), baseado na Sociologia, afirma que qualquer “teoria sociológica sobre raça requer uma análise detalhada a partir de um comparativo histórico, componentes políticos, algum tipo de sociologia da cultura ou conhecimento e uma explicação micro-sociológica”. Após a Segunda Guerra Mundial, a controvérsia sobre o significado de raça ficou ainda mais evidente, a guerra tomou uma dimensão racial significativa, reforçando o racismo e o genocídio. Os grandes fluxos migratórios, os movimentos dos direitos civis nos Estados Unidos e a mobilização anti-
apartheid na África do Sul motivaram novas discussões sobre a problemática que envolvia o
conceito de raça naquele tempo.
Temas raciais ganharam projeção a partir da necessidade de lidar com problemas sociais como o crime, a pobreza, a doença, a urbanização, a estratificação e o subdesenvolvimento. Com isso, os estudos de raça na Sociologia têm sido estimulados por mudanças políticas, culturais e demográficas. Winant (2000, p. 172) define raça como “um conceito que atribui significado e simboliza os conflitos e interesses sociopolíticos em referência aos diferentes tipos de seres humanos”; ou seja, para o autor, as características para atribuir significância à raça advêm, necessariamente, de um processo histórico e social. Desta forma, o cunho biológico do conceito de raça, assim como descrito por Allport (1954) na Psicologia, começou a ser questionado, e raça passou a ser reinterpretada como um construto socialmente construído (WINANT, 2000).
Ainda na Sociologia, Banton (1998) explica as teorias raciais a partir de três fases. Na primeira, raça foi conceituada como linhagem. Historiadores naturais coletavam, descreviam e classificavam as espécies. A palavra raça somente designava um grupo de pessoas, não havia qualquer valor analítico nesta palavra.
A segunda fase iniciou-se a partir da necessidade de reconsiderar as classificações das espécies, uma vez que novas evidências sobre a evolução da natureza e sobre o desenvolvimento desigual das sociedades humanas exigiam novas explicações. Havia uma preocupação com a influência do ambiente e uma predisposição para entender as mudanças nas sociedades humanas, bem como as causas morais desta mudança, especialmente devido ao sucesso maior de alguns seres humanos em criar instituições sociais que os capacitaram a usar seus talentos de forma produtiva. Estas diferenças entre os seres humanos foram explicadas, inicialmente, a partir de causas físicas e da herança biológica. Assim, parecia que as diferenças entre brancos, negros e amarelos eram pertinentes e perdurariam (BANTON, 1998).
A terceira fase tem sido marcada por discussões mais intensas acerca do conceito de raça, inclusive, sobre se raça é ou não um conceito necessário. A genética tem oferecido respostas sobre os caracteres físicos dos seres humanos, mas não explicam a herança cultural ou as relações sociais entre as pessoas e seus grupos. Desta forma, as diferenças fenotípicas, intelectuais, morais e culturais não podem ser atribuídas às diferenças biológicas: faz-se necessário considerar as construções socioculturais e o ambiente (BANTON, 1998; GUIMARÃES, 1999). Ainda nos estudos de Banton (1998), é possível verificar várias abordagens sobre raça, considerando-a sob a perspectiva de linhagem, como citado anteriormente, tipo, subespécies, status, classe e construto social.
Kabengele Munanga (2003) reforça a teoria de raça como uma construção sociológica ao afirmar que, segundo pesquisas genéticas comparativas, um marcador genético que é característico de uma raça também pode ser encontrado em outra raça e, assim, é possível concluir que “raça não é uma realidade biológica, mas sim apenas um conceito, aliás, cientificamente inoperante para explicar a diversidade humana e para dividi-la em raças estanques, ou seja, biológica e cientificamente, as raças não existem” (MUNANGA, 2003, p. 5).
Nos dias de hoje, o conceito de raça pode estar impregnado de ideologia, mascarando a relação de poder e dominação. Os conceitos atribuídos ao negro e ao branco no Brasil podem apresentar significados diferentes nos Estados Unidos, na África do Sul ou em qualquer outro país e, por isso, o conteúdo das palavras negro e branco é etno-semântico e político-ideológico, não biológico. Ainda que raça no conceito biológico não exista, para as populações contemporâneas a raça é uma representação fictícia construída a partir das diferenças, como cor da pele e outros critérios morfológicos, e, assim, tais diferenças percebidas reproduzem e manteem os racismos (MUNANGA, 2003).
Para Guimarães (2002, p. 50), “não há raças biológicas [...] e o que chamamos de „raça‟ tem existência nominal, efetiva e eficaz apenas no mundo social e, portanto, somente no mundo social pode ter realidade plena”. Assim, no mundo social, o conceito de raça ainda é indispensável e dispensá-lo somente seria possível (a) se não existissem grupos sociais cujas identidades estão relacionadas com marcadores derivados da ideia de raça, (b) se as desigualdades, a discriminação e as hierarquias sociais não correspondessem a estes marcadores ou, ainda, (c) se estas identidades e discriminações fossem, segundo Guimarães (2002), prescindíveis para a afirmação social dos grupos oprimidos.
Ao se referir sobre raça no Brasil, Guimarães (2002) explica que, entre 1930 e 1970, as raças foram abolidas dos discursos eruditos e populares (até por questão de etiqueta), porém cresceram as desigualdades e a discriminação pela cor. A desigualdade e a discriminação não eram reconhecidas como sendo de cunho racial e isto fez com que os negros retomassem a identidade negra e a ideia de raça, buscando o reconhecimento das elites políticas e retomando a luta antirracista. Para Guimarães (2002), raça é uma categoria política necessária, uma vez que contribui para organizar a resistência ao racismo e, também, uma categoria analítica, por revelar que a discriminação e as desigualdades são efetivamente raciais e não apenas de classe.
Quanto à etnia, em Guimarães (1999), verifica-se que o conceito aparece como mais amplo do que o de raça. O autor reforça o conceito de etnicidade defendido por Thomas Eriksen (1993, p. 12), para o qual
[...] etnicidade é um aspecto das relações sociais entre agentes que se consideram distintos dos membros de outros grupos com os quais eles mantêm um mínimo de interação cultural regular. Etnicidade pode, pois, ser também definida como uma identidade social caracterizada por parentesco metafórico ou fictício.
Munanga (2003, p. 12) define etnia como “um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm um ancestral comum, uma língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão e uma mesma cultura”. Com a mistura dos povos, as diferentes etnias dão origem às novas etnias e, assim, pode-se dizer que a etnia não é estática, ela tem uma origem e evolui ao longo do tempo, podendo formar novas etnias ou, até, desaparecer.