Os dados anteriores corroboram que, ainda hoje, se mantém a inserção dos países periféricos na divisão internacional, conformada pela produção de produtos de menor valor agregado e menor conteúdo tecnológico e importação de produtos com de maior valor agregado e maior conteúdo tecnológico.
Essa estrutura não pode ser compensada por outra forma se não pela superexploração típica dos países dependentes37. Esse processo, conforme indica Osorio (2012b), é sustentado pela transferência de valores para os centros imperialistas e pelo uso de recursos como a superexploração da força de trabalho, portanto, como mecanismo de compensação de tais transferências e de suporte para o capital - que opera nos grupos de países com características de dependência - enfrentar a concorrência nos mercados internacionais.
Ao mesmo tempo em que é causa e consequência, amplia-se a necessidade da inserção externa para que os produtos produzidos sejam então consumidos. O problema é maior, pois, como vimos, na sua maioria, essa inserção é pautada pela detenção de produtos sem inovações radicais, portanto, são exportações de baixo valor agregado, ampliando ainda mais a necessidade de compensação dessa desigualdade pela via da superexploração.
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Além disso, a massa da população nacional assalariada não é responsável pela dinamização da realização da mais-valia38. Isso implica tendências profundas que, independentemente dos governos em questão, não conseguem resolver com políticas compensatórias - apesar da grande dinamização que elas possam produzir - ou pequenos acréscimos dos gastos sociais, o desastre social dessas nações.
Aqui, apresentamos uma realidade singular, em que, nos marcos do capitalismo maduro, mantém-se nessa dinâmica a produção de padrões de reprodução e, conforme identificam Ouriques e Paiva (2006), regulações nos grupos de países caracterizados pela dependência, bastante distintas dos países centrais. Distinção esta que é reposta a todo momento em escala ampliada.
Assim, a disparidade do desenvolvimento capitalista nos diferentes países, nos termos de Marx (2008), pode ser percebida pelos dados econômicos e sociais das últimas seções, porém essas diferenças são integrantes de uma totalidade complexa, que é o modo de produção capitalista. O modo de produção capitalista, por sua vez, tende a reproduzir essas disparidades, já que ele só existe, porque existem essas diferenças, mas não só elas. Isso sugere que essas desigualdades não são conjunturais, ainda que, em determinadas conjunturas, possam ser menos evidentes. Elas são próprias do modo de ser da totalidade do desenvolvimento capitalista.
De tal modo, é próprio da dinâmica dos países dependentes, inserida em uma totalidade maior, que haja a má distribuição de renda, a superexploração da força de trabalho e a não incorporação da classe trabalhadora na dinâmica de realização produtiva.
No que diz respeito à economia chinesa, mesmo que ela possua, evidentemente, um grande fluxo de exportações de alta tecnologia39, sua estrutura produtiva não é dinamizada fundamentalmente pela população trabalhadora, uma vez que atua de forma mais significante na produção e não na realização. O resultado disso é a propagação de condições sociais desastrosas e piores do que o Brasil, sendo, portanto, questionável qualquer tese que pressuponha uma ascensão dessa economia de forma que se aproxime da dinâmica da economia norte-americana. Países como a Polônia e a Rússia, que possuem, em parte, condições sociais superiores aos países incorporados no grupo Economias Dependentes,
38No terceiro capítulo, faremos um tratamento teórico mais ampliado que corrobora essa posição. 39
ainda possuem resquícios de uma estrutura social construída no período socialista, apesar de suas exportações serem dinamizadas, em especial, por produtos primários.
Toda essa dinâmica dificulta a sustentação de elevados níveis de crescimento do PIB, o que, por sua vez, inviabiliza uma atuação compensatória mais ampla do Estado, para além de suas limitações intrínsecas, em políticas sociais de melhoria das condições de vida da grande população ou até mesmo em auxílios ao setor privado, em razão da sua capacidade inferior de competir no mercado internacional. Torna-se inviável, por muito tempo, a dissociação dos indicadores econômicos e sociais.
Portanto, as diferenças estruturais na dinâmica global do modo de produção capitalista não se refletem apenas em diferenças econômicas, mas também sociais pelos motivos apontados. A desigualdade do desenvolvimento capitalista, nos diferentes grupos de países, em especial, entre aqueles considerados imperialistas e os constituídos por um capitalismo dependente, antes de tudo, são estruturais.
Assim, o conteúdo ideológico das proposições apresentadas pelas agências multilaterais de que o desenvolvimento capitalista é um processo aberto, podendo todas as economias chegarem a um nível comum, desde que sigam em sua trajetória as “políticas econômicas adequadas”, parece justificar e convencer o sacrifício realizado pelos países periféricos em seguir as proposições de política econômica restritivas.
Segundo Carcanholo (2008), os países são ligados não só por um antagonismo, mas também por uma complementariedade, ou seja, apesar de serem situações antagônicas, os dois fenômenos pertencem à mesma lei de acumulação de capital em escala mundial. Essa é a dialética do desenvolvimento, em que a precariedade do desenvolvimento de algumas economias resulta, fundamentalmente, do que determina o desenvolvimento dos demais. E é essa lógica que a TMD tenta desvendar e que buscaremos entender melhor nos próximos capítulos.
Assim sendo, nos próximos capítulos, aproximar-nos-emos das particularidades impostas à dinâmica interna dos países caracterizados pela dependência, mais precisamente, a dos países latino-americanos e do Brasil, em que pesem as suas particularidades históricas, políticas, sociais, culturais e econômicas.