6. Agriculture
6.4. Emissions from enteric fermentation in domestic livestock
mitologia e origem humana
Ao lado do conceito de desconstrução, encontram-se aqueles ligados à leveza, à
fluidez com que se movimenta o pensamento e se processam as mudanças na pós- -modernidade. Zygmunt Bauman aborda a fluidez, a mobilidade e a leveza contemporâneas
por meio da metáfora dos líquidos. Como quer o autor, “chegou o momento da liquefação dos padrões de dependência e interação. Eles são agora maleáveis a um ponto que as gerações passadas não experimentaram e nem poderiam imaginar” (BAUMAN, 2001, p. 14).
O interesse de Bauman pelos líquidos se encontra nas múltiplas possibilidades de mutação e adaptação que esses apresentam nas mais variadas circunstâncias.
[...] os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas ‘por um momento’. Em certo sentido, os sólidos suprimem o tempo; para os líquidos, ao contrário, o tempo é o que importa. Ao descrever os sólidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o tempo de fora seria um grave erro (BAUMAN, 2001, p. 08).
A ligação dos líquidos e dos sólidos às perspectivas do tempo e do espaço, respectivamente, leva a perceber esses dois como possibilitadores de várias experiências no campo da poesia digital. Na verdade, embora os fluidos possam ocupar, apenas por átimos de tempo, o espaço, esse último parece ser decisivo na construção da epistemologia do fazer poético em meio digital, o que não significa abrir mão das reflexões em torno do fator tempo.
Na moderna luta entre tempo e espaço, o espaço era o lado sólido e impassível, pesado e inerte, capaz apenas de uma guerra defensiva, de trincheiras – um obstáculo aos avanços do tempo. O tempo era o lado dinâmico e ativo na batalha, o lado sempre na ofensiva: a força invasora, conquistadora, colonizadora. A velocidade do movimento e o acesso a meios mais rápidos de mobilidade chegaram nos tempos modernos à posição de principal ferramenta do poder e da dominação (BAUMAN, 2001, p. 16).
Realmente, a modernidade ainda é marcada pelo tempo, pela aceleração trazida pela série de descobertas e invenções que se sucederam (aceleração essa presente até os dias atuais). Perceber a inscrição do tempo é importante para analisar os experimentos em questão no presente estudo, como, por exemplo, aqueles norteados pelo cinetismo e aqueles que dependem de uma duração de execução específica para construir sentido. Em muitos casos, o texto é uma aparição. Os poemas de Alckmar Luiz dos Santos e Gilberto Prado, Augusto de Campos, Melo e Castro, Arnaldo Antunes dentre outros, exemplificam isso.
Porém, atualmente, mais que pensar em rapidez, em passagem de tempo, torna-se necessário pensar questões ligadas ao espaço, sobretudo quando se enfocam aspectos ligados à virtualidade, ao mundo transbordante que forma a cibercultura e o ciberespaço. Uma das principais marcas do homem contemporâneo é o enfrentamento do espaço não como sólido, mas como passagem, como elemento fluido e, por vezes, indeterminado. É o tempo utilizado para a conquista do espaço e não o contrário.
Nesse sentido, embora as ideias de Bauman sejam muito propícias para falar da pós-modernidade e do momento atual, a imagem das espumas parece mais abrangente e mais convincente para abordar as relações entre o dentro e o fora, o fluido, o incerto, o instável, o heterogêneo numa abordagem mais profunda das relações no espaço e para além de dicotomias.
“Casi nada, y sin embargo no nada”, diz Sloterdijk (2006, p. 27), abrindo um discurso corajoso para tratar do incerto com a tranquilidade impossível para o senso comum e para aquelas linhas filosóficas norteadoras do pensamento até o século XX presas ainda a
As espumas são compostas por reverberações múltiplas e multifocais. As pequenas bolhas que as formam, de “espaços vazios e paredes sutis”, vão se movendo, se friccionando e mudando ao menor gesto sobre elas. No seu movimento de constante transformação, essas fricções contribuem para a plurissignificação (a poliesferologia). União a curto prazo de gases e líquidos é o conceito de espumas do qual o autor parte para sua linha de pensamento.
Diferentemente da noção de corporeidade do uno ou na massa atômica, a espuma é multifocal, polimorfa e heterarquicamente material. É parte de uma concepção não metafísica e não-holística de formas de vida e não pode mais ser pensada por meio da simplificação ontológica da esfera-todo. São entornos invisíveis e frágeis, no interior de entornos maiores, que agem de forma simultânea, ligados uns aos outros, que produzem seu espaço no que é e que é nela, manifestando a res publica (Bairon, 2007, colóquio, citado por SANTAELLA, 2007, 19).
Essa imagem foi negada ou mesmo evitada por muitos séculos em função da necessidade de se buscarem elementos que fizessem transparecer estabilidade, solidez, sempre baseados em conceitos preconcebidos. De acordo com o raciocínio tradicional, o mais sério e responsável deveria ter como primeira marca o desdém pela espuma, signo da incerteza incômoda e estigmatizada. Como recorda o autor, Aristóteles julgava a melancolia (estados voláteis) como causadora das enfermidades de espírito.
Entretanto, também na Grécia Antiga já se pode notar o enfoque positivo desse elemento. Hesíodo narra o nascimento de Afrodite baseando-se no movimento das espumas. A deusa, fruto da espuma formada pelos testículos de Urano e as águas do mar em movimento, personifica a fertilidade, a sensualidade e o amor cuja busca pelos humanos configura um dos modos de ser das esferas. De acordo com o fenômeno da aphrogenia, as espumas são portadoras de fecundidade, o que destitui o pensamento que as considera inférteis. Espumas significam geração do belo e do perfeito, sedução – espumas que dão origem. É interessante ainda pensar, como conta Sloterdijk, que a constituição dos deuses como tais (imortais) deve-se também à aphrogenia – o elixir que os tornaria imortais surge do intenso bater de espumas do mar (2006, p. 39).
É interessante também pensar que, já no nascimento de Afrodite, as espumas eram consideradas leves e flexíveis, tanto é que a deusa ligada ao afeto, ao amor, é gerada da mistura das genitálias de Urano com as águas do oceano e os seres vingativos (as Erínias, por exemplo) são gerados por meio da fusão do sangue de Urano com a terra onde suas gotas caem. Portanto, nessa passagem mitológica, é no fluido que se encontra a origem de
elementos positivos e, ao contrário do que se acredita, o sólido também pode originar a negatividade.
Jean-Pierre Vernant lembra que o elemento líquido – as águas – (que, diga-se de passagem, dá origem às espumas) aparece no duplo sentido de fluidez e ausência de forma (VERNANT, 2001, p. 244). Isso é intrínseco ao que Sloterdijk discute. Entenda-se ausência de forma para além de questões assépticas. Na verdade, trata-se, muito mais, de uma espécie fluida no espaço e que, por isso mesmo, gravita por várias amplitudes, que propriamente um elemento submerso na condição de constante adequação ao meio apenas.
É interessante ainda perceber que, na teogonia de Hesíodo, a cosmogonia está pautada numa situação da constituição do ser em sincronia com a construção do espaço. Não é sem motivos que ele, primeiro, põe em cena Caos. Conforme Vernant, esse Caos de Hesíodo é o espaço (VERNANT, 2001, p. 243). Com o surgimento de Gaia e Urano, há um espaço único sendo esses deuses formadores da primeira mônada dentro do Caos. É apenas com a ruptura dessa microesfera, no gesto violento de Cronos, apoiado por Gaia, que os demais seres são criados e podem dar sequência à reprodução da espécie.52
Se se observar bem, no texto de Hesíodo, é o espaço que dá origem ao tempo, pois a divisão entre céu e terra só acontece quando Urano é afastado de Gaia para sempre e, assim, há a instauração do dia e da noite.
No final de um processo cosmogônico, o ato de violência que afastou Urano abriu espaço entre céu e terra, desbloqueou o curso do tempo, equilibrou os contrários na procriação, é também o ato no qual convergem e como que se confundem a obscura potência primordial de Caos e as jovens divindades cujo nascimento marca o advento de uma nova ordem do mundo (VERNANT, 2001, p. 253).
Uma outra questão a se destacar é que, já na narrativa de Hesíodo, percebem-se forças opostas se alimentando e funcionando como propulsores do mundo para além de questões dicotômicas.
Gaia é uma base sólida para andar, uma base em que se apoiar; tem formas cheias e densas, uma altura de montanha, uma profundidade subterrânea; [...] Caos não é simplesmente o negativo de Gaia. Ele produz a luz sem a qual nenhuma forma seria visível. Inversamente (VERNANT, 2001, p. 244, 246).
Dia e noite são indissociáveis assim como terra e céu. Mesmo quando não mais estão unidos pelo abraço insistente e libidinoso de Urano sobre Gaia, terra e céu permanecem
unidos. Por outro lado, o espaço conclama a consideração do tempo como um elemento intrínseco a si desde quando Gaia influencia Cronos, no gesto violento, por meio de uma fenda entre céu e terra, a abrir espaço para a temporalidade.
Voltando à ideia de fertilidade, é curioso lembrar que a biologia também trabalha com a origem humana por meio da ideia das espumas – basta lembrar-se do surgimento do ser em meio a uma imensidão de líquido caudaloso de nutrientes que possibilitaram as mutações de mônadas. As próprias teorias do universo atualmente são enfocadas como um inflacionado de bolhas (SOLTERDIJK, 2006, p. 45-47).
As espumas formam uma imagem adequada para entender a contemporaneidade que, abrindo mão de certezas absolutas, constrói uma nova apreciação acerca do conceito de instabilidade tão temido durante séculos. É, de certo modo, angustiante abrir mão de velhas certezas, mas, sem isso, não parece ser possível entender a situação atual. Fazendo uma apropriação das ideias de Sloterdijk, é necessário romper com antigas esferas para a constituição de outras novas e mais condizentes com a atualidade, pois as poéticas pós- -modernas se encontram construídas sobre um tecido de limites tênues que se atravessam, se interpenetram, se desfazem e se refazem constantemente. Assim, também, as linguagens que constituem a natureza do poético digital são fluidas e dificilmente enquadradas em esquemas preconcebidos sem a perda de características importantes.
Como é possível perceber, as postulações do autor não preservam o pessimismo apocalíptico nem se baseiam em questões tecnófilas, mas podem ser entendidas como reprogramação do pensamento por meio da concatenação de ideias já registradas por outros pensadores e por concepções novas. Distante das postulações de Paul Virillio acerca da perda da noção de realidade e de Baudrillard no que diz respeito à reação diante das propostas de mudança do pós-moderno, é necessária uma abertura para um entendimento mais profícuo do momento atual.
As faces da poesia digital são movediças, multiformes, volúveis. Dessa forma, não é possível analisar seus processos com parâmetros tradicionais. Para novas linguagens há que se buscarem novos caminhos de abordagem, e é nesse sentido que o sistema filosófico de Sloterdijk, sobretudo no que diz respeito à imagem das espumas, se torna apropriado e até mesmo necessário, dada a abordagem da espacialidade que aqui se propõe.
Pensando na concepção das fricções que acontecem entre saberes e entre diversas linguagens e sistemas semióticos, é possível tentar entender as novas possibilidades de tessitura da poesia para além da linha crítico-teórico conservadora.