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10.3 H 2 w/CC at GEA

10.3.3 CO 2 -Emission reduction

O trabalho de campo da tese é de recorte qualitativo e combina estudo de caso, observação simples, pesquisa documental/bibliográfica e entrevistas não-estruturadas e focalizadas, estas últimas submetidas à técnica de análise de discurso. Optei pela pesquisa qualitativa pelo fato de o objeto se conformar em torno da percepção de atores sociais, as quais muitas vezes se manifestam de forma velada, sendo, portanto, de difícil apreensão por intermédio de surveys. Estes, embora nos possibilitem trabalhar com uma amostra e um universo mais amplos, conduzem as respostas rumo a suposições definidas a priori pelo entrevistador. Isso, a meu ver, prejudicaria a perspectiva compreensiva adotada na tese, justificada pelo fato de o trabalho ter como foco regiões de ocupação relativamente recente, nas quais a sociedade que se conforma em torno do agronegócio é ainda pouco abordada nos estudos acadêmicos.

A escolha de uma única cidade para realização da pesquisa de campo deve-se às limitações em relação às exigências financeiras, de tempo e de recursos humanos imprescindíveis à pretensão de estendê-la a outros municípios. Lembro, porém, que, ao justificar a sua opção por New Haven para a pesquisa que acabaria por se transformar em um

clássico dos estudos sobre poder local, Dahl (1961) argumentou que nenhuma cidade poderia representar a totalidade dos municípios norte-americanos. Toda cidade é sempre um caso particular. Fosse a pesquisa realizada em um, dois ou três municípios, não seria possível considerar seus resultado como um espelho da realidade nacional.

Parecem-me bastante claras as desvantagens e limitações do uso do estudo de caso quando se avalia o potencial de generalização da pesquisa. Porém, conforme observado por Bobbio (2000:391), “toda teoria, descendo do céu das abstrações para a terra da pesquisa de campo, é forçada a perder alguma coisa da sua rigidez e da sua pretensão de valer universalmente”. É preciso não perder de vista, ainda, estudos como os conduzidos por Elias e Scotson na fictícia cidade inglesa de Winston Parva, entre o fim da década de 1950 e o início da de 1960. Empenhados em estudar como pequenos grupos conseguiam monopolizar as oportunidades locais de poder e usar essas oportunidades para marginalizar e estigmatizar outros grupos, conseguiram esclarecer uma série de processos de alcance geral na sociedade, produzindo um clássico da Sociologia. Como salientam os autores:

Os problemas em pequena escala do desenvolvimento de uma comunidade e os problemas em larga escala do desenvolvimento de um país são inseparáveis... (Assim) não faz muito sentido estudar fenômenos comunitários como se eles ocorressem em vazios sociológicos (...) Enquanto a realizávamos (a pesquisa), nós mesmos nos surpreendemos ao ver com que freqüência as figurações e regularidades que desvendávamos no microcosmo de Winston Parva sugeriam hipóteses que poderiam servir de guia até mesmo para levantamentos macrossociológicos. Grosso modo, a pesquisa indicou que os problemas em pequena escala do desenvolvimento de uma comunidade e os problemas em larga escala do desenvolvimento de um país são inseparáveis (ELIAS E SCOTSON, 2000: 16 e17).

A escolha do Mato Grosso para realização da pesquisa de campo deve-se à sua centralidade no agronegócio nacional e ao fato de, neste estado, a produção agrícola consolidar-se na grande propriedade agrária, situação refletida na concentração da sua estrutura fundiária. Entre janeiro e agosto de 2009, o estado posicionou-se como a 3ª maior unidade da federação quanto às exportações do setor, subindo uma posição em relação ao mesmo período do ano anterior (TABELA 9). Como nos informa Iglécias, entre 1989 e 2004, o Mato Grosso manteve-se sempre na 6ª posição entre os maiores exportadores do País em produtos agropecuários, precedido, em ordem correta de colocação no ranking, por São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais. Porém, ao longo do período, sua receita com esse tipo de atividade multiplicou-se em 17 vezes, contra 8 em Minas Gerais; 4 no Paraná e 3 em Santa Catarina, apresentando o salto mais expressivo dentre todas as unidades da federação (IGLÉCIAS, 2006). Adicionalmente, o estado é hoje o maior produtor de soja do País, cultura que desempenha papel central na recente expansão da fronteira agrícola brasileira. Além disso, das três regiões aqui consideradas como de fronteira, o Centro-Oeste, e

particularmente o Mato Grosso, foi o primeiro a ter suas terras ocupadas pela produção agropecuária inserida no agronegócio globalizado. Assim, neste estado, já se encontra mais consolidado o processo de incremento da economia urbana desencadeado pela chegada dos diferentes elos da cadeia produtiva associada ao campo. Por fim, o Mato Grosso é hoje governado por Blairo Maggi, grande produtor de soja e um dos maiores porta-vozes dos interesses do agronegócio em âmbito nacional.

TABELA 9

Exportação do agronegócio brasileiro – Total Ranking por valores dos 10 maiores estados

(2009)

Janeiro - Agosto 2009 Janeiro - Agosto 2008 UF

Exportadora

Valor (US$)

- (a) Posição Part. % - (b)Valor (US$) Posição Part. % São Paulo 9.396.991.704 1 21,53% 10.258.630.887 1 21,15% Rio Grande do Sul 6.268.412.530 2 14,36% 7.389.373.064 3 15,24% Mato Grosso 6.231.339.636 3 14,27% 5.356.753.378 4 11,05% Paraná 5.932.387.372 4 13,59% 7.405.785.932 2 15,27% Minas Gerais 3.508.076.302 5 8,04% 3.568.730.151 6 7,36% Santa Catarina 2.904.747.132 6 6,65% 3.615.582.704 5 7,45% Bahia 1.998.276.374 7 4,58% 1.984.350.482 8 4,09% Goiás 1.972.407.450 8 4,52% 2.303.519.365 7 4,75% Mato Grosso do Sul 1.129.480.729 9 2,59% 1.206.346.856 10 2,49% Espírito Santo 898.942.082 10 2,06% 1.231.465.058 9 2,54%

Fonte: AgroStat Brasil a partir de dados da Secex/MDIC Elaboração:CGOE/DPI/SRI/MAPA

Disponível em: http://www.agricultura.gov.br, acesso em 10/10/2009

Já a escolha de Sorriso, localizada no norte do Mato Grosso, a 412 Km de Cuiabá, deve-se ao fato de a cidade reunir diversas das particularidades consideradas importantes para o objeto de estudo da tese, apresentando-se como caso emblemático das cidades do agronegócio existentes na região de fronteira agrícola. Primeiramente, é uma das principais produtoras brasileiras de grãos, liderando no País o cultivo de soja (SILVA E ALMEIDA, 2008). Em 2006, ocupava a 8ª posição dentre os maiores municípios brasileiros em Valor Adicionado da Agropecuária e a 3ª dentre as cidades do Mato Grosso (TABELA 10). Vale observar que, em 2004, no mesmo levantamento, o município encontrava-se no topo do ranking nacional, mas perdeu posições em função da queda do preço da soja no mercado externo. Embora mudanças conjunturais possam afetar a sua posição comparativa, Sorriso

está, certamente, entre as principais cidades do agronegócio do Brasil. Em 2005, o PIB total de R$ 1,25 bilhão também conferia à cidade a condição de segundo município mais rico do Mato Grosso, atrás apenas de Rondonópolis. Isso indica alguma diversificação da economia local, dado que apenas 33,79% do PIB total eram diretamente oriundos da agropecuária (TABELA 11), embora parte significativa da riqueza como um todo se encontre associada a atividades correlatas ao agronegócio.

TABELA 10

Municípios do Mato Grosso melhor posicionados dentre os 100 maiores municípios brasileiros em relação ao valor adicionado da agropecuária e

participação percentual relativa no total nacional (2006)

Municípios e respectivas

Unidades da Federação Posição ocupada no ranking dos 100 maiores

municípios brasileiros

Valor adicionado bruto da

agropecuária (1000 R$) Participação Relativa no total nacional (%)

Campo Verde 2º 437.171 0,39

Sapezal 6º 344.278 0,31

Sorriso/MT 8º 284.560 0,26

Campo Novo do Parecis 10º 269.783 0,24

Diamantino 12º 240.268 0,22

Primavera do Leste 17º 219.395 0,20

Nova Mutum 20º 214.002 0,19

Lucas do Rio Verde 34º 174.466 0,16

Campos de Júlio 42º 166.071 0,15

Pedra Preta 46º 158.004 0,14

Rondonópolis 47º 156.916 0,14

Tangará da Serra 60º 134.840 0,12

Cáceres 71º 124.027 0,11

Fonte: IBGE (2008) – Contas Nacionais Nº 26 – 2003/2006

TABELA 11

Principais Cidades do agronegócio do Mato Grosso em PIB Agropecuário, PIB total e população

(2005 e 2007)

Município PIB Agropecuário (2005) Em R$ Mil PIB Total (2005) Em R$ Mil (%) do PIB Agropecuário no PIB total (2005) População (2007) Campo Verde 735.118 1.210.032 60,75 25.924 Sapezal 558.529 1.021.579 54,67 14.254 Primavera do Leste 466.430 1.303.335 35,78 44.729 Dimantino 445.634 793.318 56,17 18.428

Campo Novo do Parecis 374.340 1.107.792 28,46 22.322

Sorriso 356.676 1.253.357 33,79 55.134

Nova Mutum 341.770 760.290 44,95 24.368

Itiquira 320.805 510.341 62,86 12.159

Lucas do Rio Verde 261.815 886.847 29,52 30.741

Rondonópolis 250.062 2.310.470 10,82 172.783

Campos de Julho 206.533 376.896 54,74 4.770

Fonte: Cidades@, banco de dados IBGE, disponível em http://www.ibge.gov.br, acesso em 12/08/2008.

Sorriso também é emblemática das cidades do agronegócio da fronteira agrícola porque seu surgimento se deu a partir de um projeto privado de colonização, cujo nome transferiu-se depois para o próprio município. A partir desse projeto, cujo ponto de partida foi o início da década de 1970, mudaram-se para a região os primeiros agricultores gaúchos, paranaenses e catarinenses encarregados de desbravar o que era então um “cerradão”, sem qualquer tipo de infra-estrutura. Outras famílias, particularmente de sulistas, acorreram depois ao local e muitas delas, como relatado no Capítulo III, acabaram por se firmar como a elite econômica e social local, passando também a ocupar importantes cargos políticos no município (SILVA, 2007). Nesse sentido, sua história apresenta os mesmos elementos de diversas outras cidades do agronegócio da região, como Lucas do Rio Verde, Sapezal e Nova Mutum.