4.4 Kvantitativ dokumentanalyse
4.4.2 Einingar, variablar og variabelverdiar
Nesta seção da tese, teço considerações sobre a perspectiva arrogante de currículo, principalmente baseada em Lugones (1978). Embora eu saiba que a autora não aborda a questão da arrogância pensando em currículo, nesta tese eu optei por trazer a concepção dela
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sobre a arrogância no contexto de currículo. Ressalto que o sentido de arrogância aqui utilizado não está baseado no senso comum, mas sim em assumir uma perspectiva etnocêntrica. Para contextualizar minha abordagem, compartilho uma experiência pessoal que penso ser útil para exemplificar essa perspectiva de arrogância:
Certo dia, não tenho lembrança exata da data, eu conversava informalmente, em minha casa,com uma amiga que já havia tido experiências com alunos e colegas surdos. Falávamos sobre nossos contextos de trabalho e, em um dado momento, afirmei que tinha muita vontade de trabalhar com alunos surdos! Minha amiga logo disse que surdo era muito complicado, que se conversássemos com alguém perto deles, eles logo queriam brigar por pensarem que estávamos falando mal deles. Ela ainda acrescentou que surdo é muito problemático, que já havia convivido com eles e sabia bem como era... Naquele momento, fiquei preocupada e confesso que voltei a pensar sobre isso algumas vezes, de forma negativa. A vontade de trabalhar com surdo foi diminuindo e somente criou forças novamente cerca de quatro anos mais tarde. (Minha reconstrução de memória, 2014).
Entendo que essa experiência possa exemplificar a perspectiva arrogante a que me refiro, tendo como base a pesquisa de Lugones (1987), a qual afirma que, como frutos da percepção arrogante, aprendemos desde muito cedo, a perceber o outro com tamanha arrogância que nos impede de nos identificarmos com esse outro, que conforme essa perspectiva é muito diferente de nós. Por esse motivo, segundo Lugones (1987), deixamos de amar o outro de modo particular e profundo. A autora ainda acrescenta que construímos uma ideia de independência que nos impede a compreensão de que somos incompletos sem o outro, pois, conforme Lugones (1987), somos dependentes, mesmo que não sejamos subordinados, servos ou escravos.
Lugones (1987) ressalta a necessidade de conhecermos o mundo do outro a fim de nos livrarmos dessa perspectiva arrogante e adotarmos a percepção amorosa, que de acordo com Freire (1997, 2011) implica compreensão e respeito em relação ao outro. Para tanto, Lugones (1987) utiliza a metáfora da viagem, pois viajar ao mundo do outro permite observamos como nos constituímos nesse mundo, nós e o outro. Somente assim, podemos nos identificar com o outro e deixar de ignorá-lo, excluí-lo e, ao mesmo tempo, de sermos separado dele.
Lugones (1987) esclarece, ainda,que um mundo pode ser real ou imaginário, mas, para ser um mundo possível, precisa de ser pensado com pessoas de carne e osso. A autora acrescenta que ele não precisa ser uma construção de toda uma sociedade. Pode ser uma
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construção de uma pequena porção de uma determinada sociedade, podendo ser habitado por algumas pessoas apenas.
Observar o currículo a partir de uma perspectiva arrogante pode ser o equivalente a tomar todas as decisões sobre o processo de aprendizagem sem considerar o desejo, as ansiedades, as crenças e as histórias de vidas dos alunos. Além disso, significa, considerando o meu saber de professora superior, ignorar o saber do outro.
A metáfora da viagem proposta por Lugones (1987) foi, para mim, bastante útil, no sentido de eu, ouvinte, tentar compreender a experiência de construir currículos entre dois mundos: o mundo dos ouvintes e o mundo dos surdos. Para a autora, quando eu descrevo meu sentimento em relação a um mundo, estou oferecendo a minha visão da experiência, marcada pela subjetividade. Mas, ao mesmo tempo, eu também ofereço espaço para que outras pessoas se imaginem vivendo a mesma experiência que eu vivi.
Estar temporariamente no mundo do surdo permite-me, de acordo com Lugones (1987), perceber o que é ser surdo aos olhos deles e não somente dizer o que é ser surdo a partir do meu ponto de vista e, também, que eles observem o ser ouvinte no mundo deles.
Essa aventura de viajar para o mundo dos surdos possibilitou-me também abandonar a percepção arrogante que me foi anteriormente apresentada, e perceber que o surdo não é como a história dominante afirma que ele é, um ser complicado. Ele, muitas vezes, é vítima da percepção equivocada e, principalmente, arrogante, que geralmente constroi uma imagem negativa sobre o surdo e o seu mundo. Fez-me, também, refletir sobre a postura arrogante de algumas pessoas que tentam conquistar o mundo do outro, apagá-lo a fim, talvez, de mostrar uma competência que acaba por prendê-lo a um mundo particular e o impede de encontrar possibilidades criativas quando se assume incertezas.
Em oposição à perspectiva arrogante de conceber o currículo baseada na concepção de arrogância apresentada por Lugones (1987), considero também interessante a proposta humanizadora e dialógica de Freire (1981), baseada no amor, na humildade e na Educação libertadora. O autor destaca que essa concepção requer inquietação acerca do currículo que não pode ser doação ou imposição do professor para o aluno, mas, nos dizeres de Freire (1981), o currículo precisa ser construído a partir das aspirações dos alunos, considerando seus anseios, suas esperanças e temores, e necessita, ainda, ser voltado para a ação. A comunicação, nesse processo, conforme Freire (1981), é fundamental, principalmente no sentido de saber ouvir. Considero relevante destacar o pensamento de Rubem Alves sobre
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saber ouvir: [...] ―para se ouvir de verdade, isto é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parênteses, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões‖ (RUBEM ALVES, 2008, p. 47).
Nesse sentido, parecem interessantes as considerações de Freire (1997, 2011) sobre ―[...] sairmos da posição superior de quem ensina um grupo de ignorantes e nos colocarmos na posição humilde daquele que comunica um saber relativo a outro que apresenta outro saber relativo.‖ (FREIRE, 1997, 2011, pp. 35-36). E, ainda, reconhecer que, por vezes, os alunos podem saber mais.
Abordarei na próxima seção, o tema ―Sequências Didáticas‖, pois foi a maneira que escolhi organizar meu trabalho com a Língua Portuguesa por meio de gêneros, para a vivência das aulas com meus alunos.