4. ANALYSIS
4.1 R ECORD DATE SYSTEM
O fazer dicionarístico, no que se refere à língua geral é muito antigo, mas a organização de dicionários do tipo toponímicos é recente.
Observamos que os dicionários onomásticos são geralmente classificados dentro da categoria de dicionários enciclopédicos. Welker (2004, p. 35 a 54), por exemplo, focaliza algumas tipologias de obras, dentre elas a proposta de Scerba (1940), que defende a tese de que os nomes próprios deveriam aparecer tanto em dicionários como em enciclopédias, apesar de trazerem informações diferentes em uma e em outra obra. Uma classificação que não fornece tipos nitidamente separados é a de Malkiel (1962), já mencionada, que aponta para os dicionários de nomes próprios o critério da abrangência, que também abriga dados enciclopédicos e comentários, além das definições propriamente ditas.
Já Haensch (1982) estabelece duas grandes divisões para definir a tipologia das obras: a primeira é pautada no ponto de vista da linguística teórica e abriga os glossários e vocabulários de obras literárias, Atlas lexicais, dicionários de regionalismos, de pronúncia, de construção, de colocações, de dúvidas, de fraseologismos, de neologismos, dicionários inversos, bilíngues, enciclopédicos e onomasiológicos. A segunda, por sua vez, se sustenta em critérios práticos da obra, como o formato e a extensão, o caráter linguístico ou enciclopédico, o número de línguas e as finalidades específicas da obra. Para o autor, os dicionários onomásticos situam-se dentre esses últimos tipos. Já Martinez de Souza (1995) inclui os dicionários onomásticos no item
critério terminológico, onde também estão os dicionários de abreviaturas e os gramaticais.
Os dicionários onomásticos a que tivemos acesso seguem os mesmos métodos de elaboração dos dicionários gerais, no que se refere à superestrutura, ou seja, à forma de organização do dicionário, desde a apresentação/prefácio/introdução, a lista de abreviaturas, o arranjo das entradas em ordem alfabética, a bibliografia.
Todavia, diferem quanto à microestrutura, o conjunto das informações ordenadas de cada verbete após a entrada. A informação contida na microestrutura que melhor caracteriza os dicionários gerais é a definição, elemento que desempenha um papel fundamental no texto do verbete. Concordamos com Krieger e Finatto (2004, p. 160), quando ressaltam que “a importância da definição é proporcional ao número de dificuldades envolvidas em seu estudo, pois diferentes fatores e condições perpassam sua formulação, constituindo um tema de elevada complexidade”. Welker (2004, p. 118), por sua vez, esclarece que, embora se costume distinguir as definições lexicográfica, enciclopédica e terminológica, não há marcas precisas que permitam a distinção entre um e outro tipo. Já Krieger e Finatto (2004, p. 167) diferenciam esses três tipos de definição da seguinte forma:
[...] definições lexicográficas caracterizam-se pela predominância de informações lingüísticas, tratando mais de palavras; definições
enciclopédicas se ocupam mais de referencias e de descrição de coisas; definições terminológicas trazem predominantemente conhecimentos formais sobre ‘coisas’ ou fenômenos. (KRIEGER E FINATTO, 2004, p. 167)
Barros (2004, p. 158), por sua vez, explica que a definição é o enunciado que descreve o conteúdo semântico-conceptual de uma unidade lexical ou terminológica em posição de entrada de um verbete.
Consiste em uma paráfrase sinonímica que exprime o conceito designado pela unidade lexical ou terminológica por meio de outras unidades linguísticas; é um conjunto de informações que são dadas sobre a entrada. (BARROS, 2004, p. 159)
Vale ressaltar que os dicionários onomásticos não incluem na microestrutura a definição, por serem compostos de nomes próprios. Especificamente no caso dos dicionários de topônimos, as entradas configuram-se como signos linguísticos que normalmente já receberam uma definição num dicionário geral de língua, antes de
passar à categoria de topônimo. Nesse particular, não é demais lembrar que um signo, na qualidade de topônimo, é enriquecido pela funcionalidade de seu emprego, adquirindo uma dimensão maior e sendo marcado, no ato do batismo de um lugar, como um signo essencialmente motivado (DICK, 1992, p. 12), e é o registro da possível motivação de um topônimo uma das informações que mais caracteriza e diferencia a microestrutura de um verbete de um dicionário toponímico da de um dicionário geral da língua.
Logo, o público-alvo de um dicionário toponímico deixa de ser o consulente apenas interessado em descobrir o significado das palavras, e passam a ser os pesquisadores de Linguística, de Etnologia, de Antropologia, de História, de Geografia, dada a interdisciplinaridade que caracteriza a Toponímia, pois, por registrar possíveis causas motivadoras de um nome próprio de lugar, um repertório léxico-toponímico aborda itens como a nomenclatura geográfica oficial do IBGE com seus respectivos nomes próprios, sua localização, a etimologia dos termos com especial atenção aos de origem indígena, a classificação taxionômica, além de informações históricas, enciclopédicas e registros escritos nos quais os sintagmas toponímicos estejam inseridos. Baseando-nos na tipologia proposta do Barros (2004, p. 144) citada anteriormente, nomeamos a nossa proposta de dicionário de “dicionário enciclopédico toponímico”, por este conter dados de natureza extralinguística além de informações relacionadas à língua, como etimologia, informação gramatical e taxionomia.
No próximo tópico abordaremos o mapa, principal fonte de pesquisas toponímicas e que, entendido aqui como texto, determina o formato das entradas da macroestrutura e o amparo teórico da Terminografia para constituição do sistema conceptual da nossa proposta de dicionário enciclopédico toponímico.