CHAPTER 2 : LITERATURE REVIEW
2.4 E XPERIMENTAL M ETHODS U SED TO C HARACTERIZE M ICROBIAL P ROPERTIES
A cooperação, na esfera das relações institucionais, portanto protagonizada por entidades jurídicas, pode ter eventuais equívocos minimizados ou controlados por aparatos legais; no limite, os envolvidos na cooperação podem “entrar no jogo de olhos fechados” e, também no limite, podem cooperar com “qualquer um”. Na esfera pessoal, a intencionalidade como um propósito sustentado por um processo cognitivo superior permitiu ao homem fazer a “hipótese morrer antes”:
O condicionamento skinneriano é uma coisa boa desde que você não seja morto por um dos seus erros anteriores. Um sistema melhor envolve a pré-seleção entre todos os comportamentos possíveis ou ações, de modo que os movimentos verdadeiramente estúpidos são descartados antes de serem arriscados na “vida real”... como o filosofo Sir Karl Popper uma vez refinadamente colocou, [isso] “permite que nossas hipóteses morram em nosso lugar”. (DENNETT, 1997, p. 83).
Isso significa que se, nos primórdios da evolução, o indivíduo testava a hipótese enfrentando a realidade, e, portanto, sujeito à morte, pois a hipótese favorável poderia não se confirmar, nos estágios mais avançados da análise reflexiva, ele pode supor, imaginar, inferir e abrir mão de hipóteses “perigosas” – que morra a hipótese antes. Assim, no início das relações pessoais de cooperação, o indivíduo provavelmente também testa hipóteses com aproximações sucessivas para que tenha a oportunidade de um caminho de volta.
Na esfera institucional, analisando as teorias que explicam a cooperação entre empresas, observa-se que, em geral, destacam o interesse por cooperar relacionando-o a busca de vantagens competitivas, ou seja, uma perspectiva estratégica egoísta de busca de resultados econômicos – embora “egoísticos”, não deixam de ser interesses legítimos. Na esfera individual, entretanto, “tipos cada vez mais sofisticados de intencionalidade” (DENNETT, 1997, p.78), como sofisticada é a intenção da cooperação social, requerem processos de aproximações sucessivas.
Já na perspectiva antropológica podemos reconhecer esse processo. Estratégias relacionais fizeram – ou fazem parte dos mecanismos de evolução tecnológica, social, psicológica, mostrando que, ao longo e nos primórdios da história humana, aproximações sucessivas nas interações proporcionaram cooperações, deliberadas ou não, para o desenvolvimento humano. Como se, ao longo da evolução humana, tenha se tornado tácito o processo de evoluir no processo de cooperação, a partir da evolução do processo de confiança.
Gribaudi (1998), ao se referir a estudos de Giovanni Levi16, realça o esforço de se deslocar o olhar dos comportamentos para os quadros mentais dos indivíduos, citando:
Essa sociedade, como todas as outras sociedades, é composta de indivíduos conscientes da zona de imprevisibilidade dentro da qual deve se organizar todo comportamento; e a incerteza não provém apenas da dificuldade de prever o futuro, mas também da consciência permanente de dispor de informações limitadas sobre as forças em ação no meio social no qual se deve agir. Não é uma sociedade paralisada pela insegurança, hostil a qualquer risco, passiva, aferrada a valores imóveis de autoproteção. Melhorar a previsibilidade para aumentar a segurança é um possante motor de inovação técnica, psicológica e social e as estratégias relacionais [...] fazem parte das técnicas de controle do meio. (LEVI, 1989, p.71 apud REVEL, 1998, p. 131)
Não é, portanto, razoável esperar que alguém se disponha a estabelecer uma relação, se casar, por exemplo, a partir de um contato à primeira vista – e casamento está sendo entendido aqui como um propósito específico de cooperação de longo alcance e está excluindo escolhas a partir do equívoco da “paixão à primeira vista”. Sendo assim, o processo de estabelecer, de forma deliberada, intencional, um propósito ontológico de cooperação de longo alcance, parece passar por “experimentações” que vão da ”curiosidade” por algo novo, passando pela “atração” por uma possibilidade de ganho egoístico, até chegar a níveis mais complexos e sofisticados de confiança, que sustentam envolvimento mais radical.
Num olhar retrospectivo em relação ao desenvolvimento do Programa Cooperar para Competir, podemos reconhecer três grandes marcos de transições, explicados a seguir.
Primeiro, o momento das sondagens: nos primeiros encontros do Programa, aparecia um grande número de participantes – na verdade, um grande número de curiosos; afinal, “o que é isso de cooperar para competir?”. Tivemos situações de empresários que “apareciam” a qualquer hora do dia, ficavam um pouco e iam embora; outros apareciam no primeiro dia e retornavam em “algum momento” do segundo encontro. Num determinado momento, foi necessário que um dos professores “chamasse
16 LEVI, G. Le pouvoir au village: histoire d’un exorciste dans le Piémont du XVII* siècle. Traduit de
a atenção” desses “esporádicos”: “Este programa não é uma seqüência de palestras; é um processo contínuo de trabalho”. A partir disso, o número de participantes caiu praticamente pela metade.
Depois, o momento egoístico: até o meio do programa, mais ou menos, tínhamos uma massa crítica de participantes ainda significativa. Até então, havia um núcleo visível de expectativas: “será que cooperar para competir pode me ser útil ou interessante?”. Isso ficava claro quando da explicitação dessas expectativas, como mostra a tabulação abaixo, extraída de levantamento feito para se avaliar a evolução do programa.
Pergunta: Quais resultados práticos o APL está trazendo para você como empresário? Consolidação das respostas: Conhecimento, assumir a identidade (quem sou eu, qual meu negócio, qual meu potencial), troca de experiências e interação com outras empresas, a me organizar melhor, importância de estratégias, incentivo (motivação), abertura da visão do mercado e busca de oportunidades, visão sistêmica do negócio e das dificuldades compartilhadas.
P: Quais resultados práticos o APL está trazendo para sua empresa?
C: Através dos treinamentos, a empresa está melhorando os resultados, assessoria técnica, melhoria da organização, controles, visão a longo prazo, participação em feiras importantes, acesso a experiência de outras empresas, desenvolvimento da equipe de trabalho, trabalhar em equipe.
P: Quais resultados práticos o APL está trazendo para o Pólo Calçadista de Birigui? C: Fortalecimento do pólo, oportunidade para discutir ameaças em conjunto, integração entre as empresas, comprometimento, desafios, maior oportunidade para competir e inovar, conhecimentos, maior visibilidade, treinamentos, união do grupo, um novo conceito de equipe, importância da cooperação para a sobrevivência das empresas,
discussão em grupo dos problemas em comum. P: Qual tem sido a sua contribuição para o APL?
C: Participação nos eventos, levantar assuntos de dificuldades vividas no dia-a-dia da empresa, exposição do ponto de vista – contribuindo com pensamentos, colocar a empresa à disposição para realização da ações, divulgação do projeto para não participantes, disposição e entusiasmo pelo projeto.
P: Quais as dificuldades/barreiras você tem encontrado para participar mais intensamente da APL?
C: Nenhuma dificuldade em colocar em prática todas as lições apreendidas, organização do tempo, falta de tempo, falta de dedicação, prática daquilo que aprendemos (cooperar para competir).
P: Em sua opinião, quais dificuldades/barreiras estão “impedindo” que a APL traga mais resultados práticos para as empresas do Pólo?
C: A falta de participação dos empresários, união, questão cultural, falta de interesse dos empresários, comprometimento e disponibilidade dos empresários, falta de confiança entre o grupo, falta de tempo, impregnação da essência dos objetivos do APL em todos os participantes, individualismo, não aplicação dos conhecimentos apreendidos, economia local (hotéis, restaurantes), o empresário saber quais são suas necessidades e dificuldades. Em terceiro lugar, o momento da confiança: por fim, aí já nas etapas finais do programa, níveis complexos de confiança estavam estabelecidos. Nesses momentos, quando chamados a verbalizar o porquê da participação tão contínua e intensa, “porque isso faz sentido” era a resposta padrão, literal ou não.
Em termos da dinâmica interna dos encontros, tivemos claramente micro marcos de transições. Inicialmente, quando chamados a se manifestar, em geral recebíamos respostas monossilábicas. Posteriormente, as respostas ou manifestações tratavam de assuntos genéricos, procurando refletir problemas ou preocupações comuns em termos institucionais/empresariais do tipo “problemas de falta ou qualificação de mão-de-obra”, “legislação trabalhista ou previdenciária dificultadoras”. Mais adiante, começaram a surgir discussões mais concretas de cooperação, ainda institucionais, emblematicamente do tipo “compras conjuntas”.
Em um exercício de identificação e escolhas de possíveis áreas de concentração para um trabalho conjunto posterior, tivemos o seguinte resultado em termos de áreas ou temas e freqüência de escolhas:
Agenda – escolhas
Ter marca única – 5 escolhas
Cooperativa de Compras – 7 escolhas Articulação institucional – 0 escolha
Economia local (fortalecimento) – 4 escolhas Novos conhecimentos – 1 escolha
Garantia de mão-de-obra – 3 escolhas Distribuição – 0 escolha
Abrir novos mercados – 7 escolhas
Mais adiante, começam a surgir as primeiras manifestações de cooperação sustentada por confiança, quando começam a produzir trabalhos conjuntos em sala de aula para escolher a ênfase do “trabalho final”. É interessante registrar que este momento esteve associado a uma análise do porquê de muitas associações cooperativas não avançarem e os “dedos” sempre estiveram apontados para fora, conforme pontos fracos identificados num exercício SWOT realizado na ocasião: “guerra de preços”, “infra- estrutura de hospedagem e entretenimento”, “falta apoio político”, “falta de vagas nas creches”, “falta indústria de matérias primas básicas”, “pouco intercâmbio entre empresas”, “ações individuais”, “pouco intercâmbio entre empresas”, “participação mais ativa”, “não compartilhar conhecimentos”, “pequena união”.
Esse apontar para fora trás uma conseqüência básica em termos de dinâmica dos grupos: começa a se criar um estreitamento dos laços e da força de “atração” ou coesão entre os membros do grupo. Contudo, percebeu-se também um profundo hiato nas manifestações entre “fazer trabalhos em grupo” de natureza estritamente acadêmico- funcional (exercícios sobre SWOT de uma empresa hipotética, identificação de estratégias de algum caso, etc.) e trabalhos em grupos para a escolha do trabalho conjunto a ser desenvolvido como trabalho final: naqueles, o envolvimento se restringia aos limites de cada grupo, com baixo “aproveitamento” em termos de relação com o cotidiano empresarial e também baixo envolvimento em termos de compartilhamento com todo o grupo. Em contrapartida, quando da atividade em pequenos grupos para se decidir o trabalho final rapidamente as fronteiras desses grupos eram “derrubadas” e quando menos se esperava “todo mundo estava discutindo tudo” – todos queriam participar de tudo do todo.
Então, começa a emergir um olhar para dentro, quando, nesses mesmos tipos de exercícios, busca-se a explicitação das ameaças, com direcionamento em ações que dependem do grupo: “falta de continuidade do grupo”, “participação pequena”, “trabalhar contra individualismo”, “falta de interesse”, “desistência”. Os dedos começam a apontar- se para cada um individualmente. Nesse momento, como decorrência da percepção acima, quando se discutem os valores nesses exercícios emerge uma dimensão axiológica surpreendente - o olhar agora se volta para o “nós”, como mostram as palavras relacionadas em um dos exercícios em sala:
Transparência
União (objetivos comuns) Dedicação (ao projeto APL) Iniciativa / liderança
Visão de futuro (ousadia) Fidelidade (compromisso)
Perenização (permanecer e fortificar) Consistência (pensamento e visões)
Humildade (passar e receber conhecimentos) Honestidade (perante o APL)
União (poder, cooperar) Comunicação (divulgação)
Conhecimentos compartilhados (sinergia) Planejamento
Vontade para competir
Assim, passa a ser possível falar em propósitos específicos de longo alcance, pois a dimensão institucional estava assumida pelo ontológico, por cada um dos indivíduos enquanto tal.