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Del I – Politikkens iscenesettelse

2.1 Diskursanalyse

O trabalho desenvolvido pelo Lume tem um caráter científico, de pesquisa sobre a técnica do ator, sobre a “arte de ator”. Busca a sistematização de técnicas que possam delimitar o material e os procedimentos com os quais o ator precisa aprender a lidar para criar a sua arte. É, portanto, um trabalho que busca a técnica, que inclui o mergulho interno nas energias do ator, e que também exige uma dedicação integral e constante dos atores-pesquisadores. A influência de Grotowski e de Barba, assim como as circunstâncias nas quais eles conseguem desenvolver o seu trabalho, que possibilitam um aprofundamento, vai aproximando o trabalho de aspectos rituais, e de conexão com o transcendente, sem que haja, no entanto, nenhum aspecto ou crença em uma realidade maior, pelo menos não como ponto de partida, ou de referência, como na visão de Artaud.

Da busca das energias adormecidas e desse resgate sempre orgânico das corporeidades descobertas, acaba por surgir o que Grotowski chama de verticalidade. O contato com seu universo interior, um desvendar profundo de suas possibilidades energéticas, conduz o ator a um estado dilatado de energia, também em termos de consciência ampliada, no qual ele alcança uma conexão com algo maior que ele. Simioni descreve:

Eu parava de avançar, por exemplo, me centrava, me segurava dentro daquele estado, e percebia que estava bem mais além daquilo que eu era. Eu estava conectado... Com a sala... Puramente conectado. Bem ligado com a energia da sala. Mais ainda, como se eu fosse, como se eu fizesse parte do passarinho que estava cantando lá fora, você entende? Ao mesmo tempo uma conexão com o todo. Com o todo... Aí eu pensei: mas então é impossível. É impossível. Não tem jeito. O trabalho do ator leva a isto. Porque eu não busquei isto. Mas eu estou chegando a isto... (SIMIONI, anexo 1 deste trabalho, p.131)

Assim como Grotowski mergulha cada vez mais nessa verticalidade, neste encontro do ator consigo mesmo, num ritual individual, de integração, o trabalho do Lume também parece ir nessa direção. Não no sentido de abdicar do público, mas de, num primeiro momento, estar mais ocupado em codificar técnicas, assim como o trabalho da Antropologia Teatral, e aos poucos, através desta técnica, encontrar um aspecto transcendente.

A dedicação e respeito pelo trabalho também criam uma atitude ritualística. O respeito total ao ambiente de trabalho, aos horários, de não deixar nenhuma outra energia interferir nos processos criativos. Conseguir deixar de lado todo e qualquer conteúdo cotidiano no momento do trabalho cria um espaço e tempo alterado, diferenciado, e sagrado. É nesse espaço e nesse tempo que eles procuram se aprofundar no seu trabalho, e criam, superam limites, se transformam, em uma atitude ritual.

Burnier comenta que o teatro é uma vivência a ser compartilhada, afinando-se com a visão de Grotowski. É um encontro que visa tocar o espectador, transformar, contagiar. Portanto, as montagens carregam também esta procura ritual no contato com o espectador:

E com certeza, o espectador sente. Às vezes, algum sente até dormindo, outros sentindo algo forte no estômago, ou no peito. Outros recebem pela pele, arrepios. Outros nem percebem, mas se transformam. (SIMIONI, anexo 1 deste trabalho, p. 132)

É curioso observar a nomenclatura utilizada nas oficinas de ação vocal. A associação a imagens como fantasma, como santo, dadas aos corpos alcançados e dinamizados, não pretende, no entanto, nenhum sentido de transcendência. Assim também os potes, perfeitos cálices, e os ressonadores, identificáveis com os chacras, porque se constituem nestes pontos de concentração de energia. Essas associações são, no entanto, evitadas. Simioni ressalta que estas imagens não são estímulos anteriores, são nomes dados a estruturas, já construídas e percebidas, no corpo do ator. Estas imagens, no entanto, carregam uma simbologia. Os impulsos que se projetam nas diferentes partes do corpo, definindo os ressonadores, são ainda nomeados: na cabeça, a coroa; no peito, temos o farol, os braços de cristo e as asas; no quadril, a saia ou fonte, cachoeira. Estas imagens, mesmo sem esta intenção, reforçam a ligação com o invisível, com esta energia sutil, que nos liga ao transcendente, pois são imagens simbólicas.

O santo é um corpo que projeta energia em todos os ressonadores, mesmo antes de colocar a voz, ele está totalmente aberto e emitindo pura energia. E o estado do ator, concentrado nesta emissão, é de total integração consigo próprio, com o espaço e com os outros. A voz, sobreposta a este corpo do santo, participa da relação criada com o público, ela é também uma forma de energia que estará sendo emitida pelo ator. Segundo Simioni, a voz é uma poderosa forma de chegar no espectador:

Para mim, a voz é a mais poderosa de todas as energias do ator, ela pode realmente perfurar o espectador completamente. Eu te dou um exemplo A Iben faz uma demonstração técnica - chamada Branca como Jasmim, que é o percurso dela, com a voz, durante estes anos todos de Odin Teatret. E ela vai falando, mostrando as vozes de seus personagens, suas qualidades. E de repente você, como espectador, sente que a voz dela entrou em você e, como uma bruxa, ela começa a te limpar. E você começa a chorar. Uns começam a chorar, outros se sentem aliviados. Cada um tem a sua experiência, depende do seu momento, mas é a voz que tem mais chance de entrar no espectador, chance de entrar no espectador e de limpá-lo. (SIMIONI, anexo 1 deste trabalho, p. 134)

Não podemos deixar de lembrar Artaud quando Simioni fala em atingir o espectador assim de forma tão direta e concreta, que ele saia transformado. A voz com sua vibração, junto da vibração total do ator, chega ao espectador, a sua sensibilidade, e algo acontece. Nas oficinas, este acontecimento é experimentado pelos alunos, a surpresa com a vibração da voz, com a qualidade da vibração no corpo, provoca emoções, ou estas são realmente limpas, acionadas e

canalizadas através desta vibração intensa da voz no corpo. O canto em grupo é também um momento muito intenso, a vibração que se sintoniza com a dos outros, as vozes que criam um só corpo vibracional no grupo todo.

Nas demonstrações técnicas, mesmo não sendo centradas na voz, Simioni chega a este estado dilatado e integrado que atinge o espectador. Este se tornou o seu mais recente foco de pesquisa, do qual surgiu o espetáculo Sopro (2005). É uma energia cada vez mais sutil que é alcançada. Como todo foco de pesquisa, este trabalho é aprofundado até ser sistematizado através de uma técnica que permite resgatá-lo.

Em 2004, Simioni formou um grupo de atores em Porto Alegre, no momento em que estava estruturando esta técnica, de conseguir chegar sempre novamente a este estado. Simioni relata que o ator realmente tem uma técnica estruturada no momento em que consegue passá-la aos outros. Isso foi alcançado nestes encontros. O processo de dilatação energética, trabalhado nas oficinas de ação vocal, foi ultrapassado, criando o que ele chamou primeiramente de a técnica da árvore, e depois a técnica do sopro, pois assim ficou associada ao espetáculo criado a partir dela.

Nos encontros em que ele sistematizava a técnica foi alcançado um estado em que o corpo é percebido como não tendo fronteiras. Eram assim os depoimentos: “tudo é fluído”, “não há divisões internas”, “o corpo todo é energia”, “sou só espírito”, etc... Neste estado, a interação entre dois atores é um encontro muito revelador, como que um encontro de essências. O simples contemplar de uma árvore é sintonizar-se com sua energia, respondendo internamente aos seus movimentos. É um estado de integração com o todo, de receptividade total, expansão no tempo e no espaço. Podemos identificá-lo com a verticalidade almejada por Grotowski. Momento de contato também com tua memória mais remota. Passado e futuro reunidos no presente, com “se nesse momento fosse construída toda uma vida”.33

Podemos identificar aí elementos do Butoh, com o qual o Lume tem feito experiências de intercâmbio, com diretores e bailarinos. Arte que também propõe ao ator, ou bailarino, a ser este receptáculo vazio que irá receber determinadas energias, trabalhando também com o desfazer os limites entre a vida e a morte.

33 É uma das descrições, usadas por Simioni, para a sinopse do espetáculo Sopro (2005): “O que seria do ser? Se nesse momento fosse construída toda uma vida, todas as ações de uma vida, sem ruídos e sem interferências, sem mácula, somente através do estado puro da existência?”

Quanto ao uso da voz, Simioni constatou durante seu processo de pesquisas, e junto com o grupo, que a voz não cabe nesse estado, ela é densa demais. Passa-se pelo santo, no qual é retomado o canto, vibrando no corpo todo. Segue-se refinando mais e mais a energia até chegar no estado da árvore, ou do sopro, e aí a voz não tem espaço, ela quebraria algo que é mais sutil. No espetáculo Sopro, Simioni não usa texto algum. Há um só som, um som muito agudo, que é emitido logo no início, e as pessoas dizem que aquele som parece já colocá-las no prumo, como que as preparando para receber, centrando-as.

A constatação dessa direção que o trabalho do ator toma, de refinar cada vez mais a energia, conectando-se com isto que parece ser algo maior, transcendente, além desta dimensão, segundo Simioni, enfatiza que o teatro é uma forma de pensar e de criar o ser humano. Para ele, o ser humano “não está acabado, não pode ser só isto”:

Acredito que, mesmo sem encarar como algo ritual, o teatro é ritual e é sagrado. Nós temos esta oportunidade de vasculhar, de desenvolver as qualidades do ser humano, suas novas potencialidades. Isso também é função do ator. Não só descobrir novas técnicas, para o teatro, mas entender que o ser humano não é final. Não está pronto. Está evoluindo. (SIMIONI, anexo 1 deste trabalho, p. 132)