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Del III - Unntaks-Staten

7.3 Avsluttende drøfting

De 1964 a 1985 o Brasil vivenciou um longo período de ditadura militar. Período caracterizado pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que se colocavam contrários ao regime militar, e muita coerção às atividades artísticas que tentavam expor descontentamentos ou enfrentamentos ao regime militar.

A ditadura militar brasileira, similar a tantas outras deste e de outros períodos históricos, tentava reprimir uma manifestação teatral que estava na base da história do teatro brasileiro – teatro pedagógico/didático de José de Anchieta - e na origem do teatro ocidental – festividades dionisíacas na Grécia Clássica -, qual seja, o teatro de rua, a manifestação teatral nos diferentes espaços do urbano. Destaco ainda, mais a título informativo do que argumentativo, que a trajetória histórica do teatro de rua, no Brasil colônia, não se restringe ao período jesuítico, embora este seja o marco fundador desta prática teatral em terras brasilis, tal como aponta André Carreira (2007:104) ao comentar os antecedentes do teatro de rua no Brasil. Enquanto no século XVI a prática teatral estava profundamente ligada com questões religiosas, no século XVII o teatro passou a ser utilizado também em celebrações de caráter civil, tal como ocorreu quando da comemoração da coroação do rei João VI (1641) quando foi organizado um teatro ao ar livre, em uma praça próxima ao palácio do governador no Rio de Janeiro, quando também ocorreu uma grande representação com uma centena de cavaleiros pelas ruas da cidade.

Élio Gaspari resume em quatro fases os 21 anos da ditadura militar: Durante os 21 anos de duração do ciclo militar, sucederam-se períodos de maior e menor racionalidade no trato das questões políticas. Foram duas décadas de avanços e recuos, ou, como se dizia na época, “aberturas” e “endurecimentos”. De 1964 a 1967 o presidente Castelo Branco procurou exercer uma ditadura temporária. De 1967 a 1968 o Marechal Costa e Silva tentou governar dentro de um sistema constitucional, e de 1968 a 1974 o país esteve sob um regime escancaradamente ditatorial. De 1974 a 1979, debaixo da mesma ditadura, dela começou a sair.

Para o teatro de rua e especialmente para um determinado tipo de teatro – político/ engajado e de esquerda – promovido pelo CPC – Centro Popular de Cultura – desde 1961, o início do regime militar, em abril de 1964 significou o fim dessas atividades.4

Silvana Garcia (1999:99) caracteriza o teatro realizado pelo CPC como agitprop comenta que “o agitprop com força de permanência e alcance, só vai surgir no Brasil no início da década de 60, através do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes – o CPC da UNE.”

O CPC desenvolveu “a idéia do teatro – ambulante: peças curtas e esquetes produzidos em mutirão, em tempo mínimo, com os quais saíam as ruas para as apresentações” (GARCIA, 1999:102). Este teatro de rua desenvolvido pelo CPC não primava pela atenção à linguagem estética do espetáculo, seu foco voltava-se para o discurso, “nos moldes ágeis do agitprop, de intervenção” (GARCIA, 1999:110).

Sobre a problemática estética, vale à pena transcrever algumas falas de Carlos Esteves Martins5, por apontarem de forma bastante emblemática para o cerne do problema de um “teatro popular” e de rua.

O problema que havia era o da carreira artística dos que eram mais talentosos. Havia falta de espaço para a criação artística propriamente dita. [...] as pessoas faziam parte do CPC porque eram artistas ou porque queriam fazer uma carreira artística e entravam na aventura do CPC porque achavam que era possível ser artista e, ao mesmo tempo, fazer arte para o povo. [...] não havia exigências em termos de criação estética, e a filosofia dominante no CPC era: a forma não interessava enquanto expressão artística. O que interessava era o conteúdo e a forma enquanto comunicação com o público, como novo público. (MARTINS, 1980:78-79)

Estas falas de Esteves Martins expressam a tensão que percorreu toda a breve história do teatro de agitprop no Brasil, especialmente junto a “ala” mais artística do CPC como Oduvaldo Viana Filho, Chico de Assis e outros.

Mas, este processo não teve possibilidade de encontrar novas proposições no seu próprio desenvolvimento.

4 “O CPC surge em finais de 1961 [agosto de 1961 no Rio de Janeiro] e sua história se inicia com a montagem da peça A mais Valia vai acabar, seu Edgar, de Oduvaldo Viana Filho, direção de Chico de Assis” (GARCIA, 1990:101).

Em 1964 a atuação do CPC é violentamente reprimida e os elementos que continuaram dispostos a fazer teatro engajado viram-se obrigados a reconsiderar sua critica ao circuito comercial, retomando suas atividades nesse nível. (Grupo Opinião, 1979:37)

Questionável em partes, especialmente na problemática estética, foi sem dúvida, uma rica experiência de teatro de rua no Brasil. E esta experiência foi a primeira vítima do novo regime que se implantou no país a partir de abril de 1964.

Carreira (2007:106) ressalta ainda outras experiências que estão na origem do teatro de rua no Brasil, como nos primeiros anos do século XIX, a experiência dos “bonecos de porta”, que recebeu este nome devido ao fato de que os bonequeiros ocupavam geralmente as portas dos bares e outros estabelecimentos comerciais para realizarem seu espetáculo. Festas religiosas e populares também ocupavam neste período o espaço do teatro de rua no Brasil. Além dos exemplos citados, Carreira aponta ainda o mamulengo, do Nordeste brasileiro e o fomento do teatro de rua ocorrido nos grêmios anarquistas das grandes cidades, como em São Paulo, realizado pelos imigrantes europeus, como experiências significativas para o uso dos espaços da cidade para espetáculos teatrais na era moderna.

Já no início do século XX podemos destacar ainda uma experiência histórica do teatro realizado ao ar livre vivenciada no Brasil, intitulada Teatro da Natureza. No livro Teatro da Natureza: Histórias e idéias, de Marta Metzler é possível constatar que este evento, trazido para o Brasil através de um encenador português foi também um dos importantes marcos históricos do teatro de rua no país. Inspirado no teatro grego antigo, para criar seu espaço de representação, a experiência do Teatro da Natureza foi empreendida no Brasil em 1916 na cidade do Rio de Janeiro, onde teve duração de quatro meses ao longo dos quais foram apresentadas seis peças.

Esta prática teatral – o teatro de rua – sufocada e quase assassinada pelos governos militares, se manteve em estado de latência, no Brasil, entre 1964 a 1974. Com o desgaste do regime militar, iniciou-se nos anos de 1974 um lento processo de distensão e abrandamento das imposições totalitárias do

regime, especialmente no governo de Ernesto Geisel – 1973/1979 -, ensaiava- se uma “abertura” política sob controle, abertura que o general Ernesto Geisel denominou de “lenta, gradual e segura”. (FAUSTO, 1999:489). Um caminho repleto de pequenos avanços e muitos recuos. E à medida que o regime vai se esgarçando e não conseguindo mais segurar e reprimir o desejo de liberdade de um povo sufocado por tantos anos de ditadura, o teatro de rua, bem como uma prática teatral mais combativa, começa a ganhar o seu verdadeiro e único palco – as ruas das cidades. E isso se deu em diferentes rincões do território brasileiro, e a cidade de Lages/SC também foi um destes palcos privilegiados de enfrentamento a um regime decadente e que ainda se manteria vigente por mais uma década.

No ano de 1977 a administração de Lages passa por uma mudança significativa com a eleição de Dirceu Carneiro (1977-1982) para o cargo de Prefeito da cidade. É a primeira vez, desde sua fundação, que ocorre em Lages uma proposta de uma experiência democrática com enfoque pioneiro da participação popular na administração pública. Tal experiência tinha como proposta equilibrar as relações de força entre setores populares e a elite econômica e neste sentido, a cidade passa a ser percebida não mais como uma unidade homogênea, mas como um espaço complexo onde interagem indivíduos, grupos, histórias, trabalhos e memórias. A cidade de Lages passa a ser vivenciada como um espaço aberto às alternativas democráticas e de desenvolvimento. O novo projeto administrativo da cidade partiu da idéia básica de que administrar consistia em mobilizar a população deixando que ela mesma encontrasse as soluções que atenderiam às suas necessidades. A eleição do prefeito Dirceu Carneiro, do partido MDB (Movimento Democrático Brasileiro), significou um marco definitivo e uma crise na velha oligarquia política da cidade.

Observo, apoiada em Fausto (1999), que o MDB era um dos pilares da resistência ao regime militar, mesmo com todas as suas contradições internas, o MDB significava avanço contra a longa noite ditatorial imposta ao país. Como afirma Fausto: “O partido se tornara o canal político de expressão de todos os descontentamentos da população, integrando em seus quadros desde liberais até socialistas”. (1999:494).

O governo municipal de Dirceu Carneiro vai conviver com dois momentos do final da ditadura militar brasileira, o final da distensão pretendida e incentivada pelo governo Geisel e a lenta e final dissolução do governo militar na gestão de João Baptista Figueiredo – 1979/1984, e com o final do Ato Institucional N0 5 (AI5), em 1979. Os movimentos sociais renasciam com toda a

força do reprimido, o movimento operário, observa Fausto (1999:499) veio à tona “com um novo ímpeto e novas feições [...] o movimento sindical ressurgiu adotando formas independentes do Estado”. Entre 1978 e 1979 grandes greves dominam o cenário nacional principalmente no ABC paulista, lideradas pelo então metalúrgico Luis Inácio da Silva (Lula).

O regime começava a ser minado de diferentes ângulos. E a atividade artística vai se somar a estas diferentes vozes demolidoras do regime militar. De acordo com Carreira (2007) observa-se neste período o surgimento, em diferentes cidades do país de grupos que utilizaram as ruas como espaço cênico. Significando a reconciliação da população com o espaço urbano, com o seu palco de ação e percepção imaginária da cidade.

A gestão de Dirceu Carneiro foi bastante inovadora para seu tempo e alcançou reconhecimento nacional, tornando-se uma referencia de gestão popular. O material de campanha de Dirceu Carneiro apontava os principais projetos da futura administração com destaque para os seguintes pontos:

 “É na escola que se aprende a trabalhar” - projeto que estimula às crianças ao aprendizado das lidas com a terra, além de vincular os pais nas questões administrativas das escolas;

 “Viva seu distrito e Viva seu bairro, viva Lages” - projetos que visavam estimular a participação popular na relação administrativa dos bairros e da cidade;

 Fortalecimento das Associações de moradores, Cooperativas Agrícolas e Habitação e Educação;

 “Projetos de Arte e Cultura” - que visavam popularizar as artes. Tal processo administrativo já foi objeto de muitas pesquisas, pois se tratou de uma experiência inovadora e que segundo Peixer: permitiu ao indivíduo, além da construção da identidade comunitária, tornar-se um sujeito

no processo de desenvolvimento local (2002:192). Durante o mandato de Dirceu Carneiro a cidade viveu sob o lema: “Lages a força do povo”, que trazia a idéia de que num “país subdesenvolvido” somente a organização da população e a mobilização dos seus recursos e de sua capacidade de trabalho, permitiriam a uma administração municipal, enfrentar problemas como os de habitação, educação e saúde.

Na área urbana foram desenvolvidos alguns projetos especiais e a equipe de Dirceu Carneiro trabalhou em função da inversão do êxodo rural sob o lema: “é para o campo que se deve marchar.” Esta administração chamou a atenção da imprensa nacional, como podemos verificar na matéria de Márcio Moreira Alves, publicada na revista Isto é, de 1980, onde coloca que:

O município de Lages, 200 mil habitantes, em Santa Catarina, só aparece no noticiário nacional durante o inverno. Juntamente com seu vizinho São Joaquim, tem a glória de ser um dos raros lugares onde neva regularmente no Brasil. No entanto, mais regulares que a neve são os pequenos milagres que acontecem na prefeitura local. Chefiada por um arquiteto de 35 anos, Dirceu Carneiro do PMDB. Desde 1977, com uma equipe de antiburocratas, ele tenta implantar uma experiência de democracia participativa, de utilização de recursos locais e de busca de alternativas econômicas independentes do consumo do petróleo. Os resultados dos seus muitos acertos e alguns erros servem para mostrar a possibilidade de se criar um poder local no Brasil, mesmo se a soma dos orçamentos das quase 4 mil prefeituras do país é seis vezes menor que o orçamento da Petrobrás.

Através de pesquisa em jornais e revistas da época, verificou-se que esta administração foi algo exemplar, tal como comenta Márcio Moreira Alves “foi quase um milagre”, com muitos acertos e alguns erros. Mas o interessante desta época para a cidade de Lages é o despontar de um novo modo de vida. A abertura das novas possibilidades de gerenciar uma cidade. A equipe da prefeitura municipal buscou além de reestruturar a cidade, levando em consideração as necessidades reais da maioria de sua população, resgatar a auto-estima do povo, recuperar o passado, as origens e as tradições.

Dentro da nova perspectiva administrativa da cidade, na gestão de Dirceu Carneiro, no ano de 1978, através da Secretaria de Cultura, Esportes e

Turismo, da prefeitura do município, foi elaborado o “Projeto Lageano de Popularização do Teatro”. Este projeto tinha vários objetivos, dentre os quais:

1. Incrementar o teatro local (uma vez que a arte dramática sempre foi algo presente na cidade desde sua estruturação como vila); 2. Organizar outros grupos nos bairros da cidade, fazendo com que

o teatro pudesse ser uma ferramenta em prol do crescimento das pessoas enquanto cidadãos, capazes de contribuir para o desenvolvimento da cidade;

3. Promover o resgate da cultura popular6.

Neste capítulo apresento uma breve pesquisa sobre o teatro realizado em Lages durante a gestão de Dirceu Carneiro e o projeto de popularização do teatro, e simultaneamente a história do grupo Gralha Azul, visto que estes dois projetos – popularização do teatro e o grupo Gralha Azul – estão diretamente vinculados entre si. Observo apenas que a história do Grupo vai além da gestão popular de Dirceu Carneiro na prefeitura de Lages, este grupo vai estar atuante no teatro catarinense e brasileiro ao longo da década de 1980. Este recorte é significativo para o meu objeto final de análise, ou seja, o grupo Menestrel Faze-dô, pois a constituição deste coletivo e seu direcionamento estético tiveram forte influência da prática teatral e do projeto político proposto

pelo grupo Gralha Azul e o governo de Dirceu Carneiro. 1.2 A TRAJETÓRIA DO GRUPO DE TEATRO GRALHA AZUL: PRIMEIRO

GRUPO DE TEATRO A OCUPAR AS RUAS DA CIDADE DE LAGES COMO