2. Economic Growth and TRIPS
2.2. How can Strong IPRs lead to Growth?
2.2.2. Development of New Technology
Uma das funções dos ritos seria a de “manter e transmitir de uma geração à outra as disposições emocionais de que depende a própria existência da sociedade”.46
Ao escrever sobre a vida em uma sociedade pós-tradicional, Giddens (1995 em Beck, Giddens & Lash, 1995/1997) menciona como em uma ordem pós-tradicional os hábitos pessoais, tão importantes para a segurança ontológica do indivíduo, são constantemente incutidos por informações extraídas de sistemas abstratos, com que tendem frequentemente a entrar em conflito.
Além disso, os sistemas abstratos e sistemas especialistas impactam os sujeitos subtraindo habilidades que estes detinham em contextos “tradicionais”, assim como incidem sobre “[...] a capacidade de controle local típica daqueles contextos, que implodem e passam a ser conformados por influências distantes, introduzindo com isso sentimentos de alienação nas vidas das pessoas” (Domingues, 2002, p. 61).
Parece que a experiência da modernidade na era informacional global colocou por terra as certezas: surpresas e riscos estão sempre à espreita e o futuro, se pensado enquanto construção histórica a partir do passado e do presente, parece uma impossibilidade. Não se assemelharia a modernidade globalizada a uma grande e arriscada aventura, à qual, independente da nossa vontade ou escolhas, estamos todos presos e instados, em nosso mais íntimo, a participar? Para Giddens (1991):
“A experiência global da modernidade está interligada – e influencia, sendo por ela influenciada – à penetração das instituições modernas nos acontecimentos da vida cotidiana. Não apenas a comunidade local, mas as características íntimas da vida pessoal e do eu tornam-se interligadas a relações de indefinida extensão no tempo e no espaço.
Estamos todos presos às experiências do cotidiano, cujos resultados, em um sentido genérico, são tão abertos quanto aqueles que afetam a humanidade como um todo. As experiências do cotidiano refletem o papel da tradição – em constante mutação – e, como também ocorre no plano global, devem ser consideradas no contexto do deslocamento e da reapropriação de especialidades, sob o impacto da invasão dos sistemas abstratos. A tecnologia, no significado geral da “técnica”, desempenha aqui o papel principal, tanto na forma de tecnologia material da especializada expertise social” (Giddens, 1991, p. 77)
Sob muitos aspectos, o trabalho de atendimento clínico guarda analogias a um rito de
passagem, na medida em que, mediante a formação de um vínculo terapêutico e sob condições
de respeito, acolhimento e disposição mútua em se avaliar as conseqüências do que um indivíduo faz, como faz e para que o faz, se possa promover o ambiente, a motivação e o reconhecimento mais adequados ao aprendizado e exercício do repertório necessário para se aproveitarem as oportunidades de aprendizagem e enfrentamento aos riscos e as incertezas existenciais modernas. E isso de tal forma que o papel de um psicólogo clínico que tenha um enfoque e repertório mais generalista de suas condições de participação, responsabilidade e intervenção, possa ser contemplado como o de um adulto, ou em analogia à visão clássica dos rituais de passagem, a de um iniciador que, dentre tantas possibilidades, há de avaliar como melhor instrumentalizar um determinado paciente que já esteja deliberadamente se expondo, ou venha inevitavelmente se expor, a determinadas contingências de incertezas e riscos.
Houvesse Murilo nascido e vivido em uma das muitas sociedades ditas “tradicionais” e mais “primitivas”, nas quais os rituais de iniciação/transição transcorrem ao longo de períodos que podem se estender de dias a anos, os ritos de passagem para os quais muito certamente ele seria então preparado e exposto, serviriam de meio e recurso para que, enquanto membro do corpo social, da coletividade comunitária, pudesse vir a assimilar uma transformação ao
mesmo tempo individual e social – e quiçá o mais importante: uma transição reconhecida e legitimada, para não dizer “significada” e “revertida” pela, e para, a cultura de sua sociedade.
Através desses rituais a comunidade social se encarregaria de dar um sentido a uma grande parte das tensões e desafios dessa transição de etapas de vida. Murilo adquiriria, assim, novos direitos e deveres; e de tal forma que, através desses rituais não apenas estaria tendo acesso e consolidando todo um aprendizado e experimentação, mas essa ritualização exerceria uma função capacitadora e acolhedora da passagem e transição – condição necessária para se ter acesso a um novo saber, a toda uma nova práxis, status social e condição de existência.
Contudo, tudo indica que na atual sociedade moderna em que Murilo nasceu e se desenvolveu, e conforme as possibilidades de sua condição sócio-econômica, espera-se que ele desempenhe o seu papel de jovem que terá acesso a uma boa educação e formação, as quais o colocarão em condições de competir por uma vaga numa boa universidade que forneça, então, uma formação profissional e títulos, com vista a que possa disputar e triunfar no concorrido mercado de trabalho. Quem sabe assim, a partir do recebimento de um bom salário e já próximo, quiçá, de uma terceira década de vida, Murilo possa, enfim, encontrar um lugar ao sol da materialista sociedade de consumo, podendo finalmente deixar o lar familiar e seguir construindo a sua própria história e futuro de vida.
Foi um privilegio haver podido conhecer, compartilhar e acolher Murilo na medida do que era possível, com o trabalho clínico dentro do consultório se dando como preparatório para o ambiente maior de exposição e manifestação de muitos aspectos do risco: a existência como um todo. Afinal, nada é mais incerto e arriscado que existir, já disseram tantos filósofos. Parece que os existencialistas estavam certos ao salientar como simplesmente não temos a escolha de viver sem escolher, sem nos arriscar.
Em consultório compartilhei com Murilo de outras possibilidades de enfrentamento e amadurecimento ante suas escolhas, ante muitas possibilidades e recursos apropriados para a exposição a determinadas circunstâncias e ambientes. Avaliamos juntos a função de muitos de seus comportamentos de risco, conversamos sobre seu despreparo, sobre tantas possibilidades de mudança, mesmo em havendo Murilo continuado a beber. Vimos como ele poderia, mediante o desenvolvimento de capacidades e exercícios de auto-observação, autocontrole e de um processo de promoção, reconhecimento e exercício de maior independência e autonomia pessoal, continuar a se expor ao risco e às incertezas de uma forma mais consciente, mais responsável e madura.
Contemplo e testemunho o processo psicoterápico conjuntamente empreendido, como em havendo sido, ele próprio, também permeado por riscos e incertezas. O desfecho de nosso trabalho conjunto certamente poderia haver sido outro, tanto para melhor quanto para pior. Permanecer pelo tempo que lhe foi possível em terapia também foi uma escolha de Murilo, uma escolha minha, uma escolha de seus pais. Assim como tivemos de interromper o trabalho não por uma escolha nossa, mas por uma decisão destes quando questões como a independência, a autonomia e as escolhas de Murilo os parecia estar inquietando. Mudar sempre tem seu custo.
Simplesmente proibir Murilo de beber seria, a meu ver, uma insensatez e também uma irresponsabilidade, afinal, as contingências as quais Murilo se expunha, apontavam para uma inevitável realidade: o fato do grupo de pares com o qual ele se relacionava transmitir a ele um senso de coesão social, de segurança ontológica – para usar o conceito de Giddens (1990/1991; 1999/2002) – e de modelos e papéis que lhe eram muito importantes. Dito numa linguagem comportamental: o grupo lhe era muito reforçador, o grupo o nutria em boas