• No results found

3 Metodologiske problemstillinger

3.1 Det kvalitative

3.2.2 Det private i det offentlige

Eu tive um sonho uma vez, muito bom. Bom demais! Eu fui até uma parede e eu botei a mão, sem querer. E aí eu vi que a mão passou. Gente, mas eu senti a parede na mão. Foi muito bom. Aí, eu botei a mão e disse: “não, se a mão passa, o corpo também passa.” E aí eu passava na parede. Era muito bom, porque eu sentia a parede... Aí eu disse que se eu passo a parede é porque eu sou eu sou quase leve. Uma coisa meio como uma nuvem... E aí eu dei um salto e voei. Voei alto, mas eu conseguia ficar no chão, também. Eu não flutuava. Eu saltava. [...] Aí, era um prédio com vários andares. Eu tinha entrado no prédio e pensei: “bom, não vou pegar elevador, porque ele está demorando. Não vou subir escada. Vou dar um salto”. Aí eu dei um salto e fui parar lá aonde eu queria. Foi uma coisa muito engraçada. Mas o mais interessante foi a sensação das paredes, das coisas. Isso foi mais interessante. De poder voar, de saltar. De poder passar por uma parede. Aí, eu acordei e disse assim: “Nossa, mas foi uma vida muito boa essa que eu tive.” Porque a sensação foi muito real.

Associações dos participantes: Chegar no banheiro do vizinho, superar obstáculo, transpor barreiras, superar limites, o sonho possibilita fazer coisas que normalmente não se pode fazer, sensação de expansão, sem limites, atravessar paredes, respirar debaixo d’água, sentimento bom trazido pelo sonho, sair da tridimensionalidade, superar limites no dia a dia, os desejos motivam a superação, limites intransponíveis (vida, morte), limites transponíveis pelas condições, capacidades, esforço, os atletas, os desejos, mobilização no dia a dia, luta para superar limites e deficiências, limite, características pessoais, proporcionar prazer, proporcionar prazer às pessoas, cada qual ao seu modo; frustração ao terminar um projeto, necessidade de começar algo novo. [Miriam associa com o sonho de Dario, “Atravessando Paredes”: sonho que parece realidade; Xandra lembra-se de um sonho: “A Águia” ]

Comentário 5: Este sonho representa um salto na quantidade de associações apresentadas em relação aos anteriores. Cinco dos sete participantes manifestaram-se; o tema recorrente é o de

Matriz do sonhar social 118

“superação de limites”. O sonho mobiliza fortemente o grupo; é possível que por se tratar do quarto sonho o grupo tenha se sentido mais confortável e disponível para o processo associativo. A série associativa é finalizada por Xandra que lembra do sonho “A Águia”.

Sonho 5 – A Águia (Xandra)

Mas, eu tive um sonho com um apartamento em construção. Eu visitava essa obra e a obra não estava pronta. Eu, impaciente... “Puxa, esse apartamento não está pronto ainda?” Aí, naquela parte que seria o elevador, na construção, fica um buraco, não é? Eu me lembro que eu chegava e olhava aquele buraco, eu via aquele buraco. “Mas não está pronto ainda? Isso aqui não está pronto?” E aí, vinha a águia, subindo lá de baixo. Eu ficava, assim parada, dizendo: “Isso é uma resposta. Então, é isso?” Aí, eu olhava e chamava alguém para ver a águia. Quando eu me voltava, não era mais essa águia, enorme, voando. Era um filhote de águia, num canto. Lembro que acordei com a sensação de que esse meu projeto ainda não estava pronto. “Esse meu sonho de mudança não é agora”. Então, é um filhote. Ainda está no começo, mas vai acontecer. E me lembro que esse foi um sonho que me deu essa tranqüilidade. O tempo vai chegar, não é? Fiquei muito com essa sensação. Não é agora. Está embrionário. Aquele filhote, mas isso ainda vai abrir as asas. Ainda vou conseguir realizar.

Associações dos participantes: Águia = visão sistêmica, ampla, destemida, destreza, a águia aparece muito no sonho e isso é bom, águia = poder = Estados Unidos, mobilização da quarta frota, policiamento da América do Sul; desculpa das drogas, invasão de um país para combater o terrorismo, autonomia dos países; os Estados Unidos fazem isso há muito tempo, desde a ditadura; América Latina, Colômbia, cartel das drogas, intromissão dos Estados Unidos; Eduardo Galeano, veias abertas da América Latina, Gabriel Garcia Marques; Portela, Carnaval no Rio, sentimento gostoso, alegria, sem medo, sem perigo, sentimentos associados ao Rio; incidente ocorrido recentemente, polícia mata garoto, sentimento de absurdo, “área nobre da Tijuca!” (Beatriz), mulher com duas crianças em um carro [Mário identifica-se com o pai do garoto morto], carro suspeito, policiais atiram, “foi um rio que passou em minha vida!” (Oswaldo), “não consigo conceber um negócio desse!” (Mário). Beatriz compara o sonho com a realidade: “o sonho faz sentido para quem sonha, às vezes dá resposta que não se tem quando acordado; sonhar é importante para que as coisas se arrumem, o sonho tranquiliza; a realidade às vezes é um pesadelo, mundo ilógico, maluco, sem sentido, mundo

real”, pesadelo sem controle, como no sonho, onde não se tem controle; ilusão de controle na vida real; sensação de desamparo; sonhos agradáveis como compensação para uma realidade ruim. Dario narra um novo sonho – “O Padeiro”.

Comentário 6: Este sonho apresenta o maior número de associações do encontro, realizadas por seis participantes. Elas aparecem relacionadas a aspectos sociais mais amplos: “águia” como representação do poder político-militar (referência aos EEUU), intervenção da potência americana em países do hemisfério sul, ofensiva contra drogas. Em contrapartida, surgem associações com prazer e alegria (“águia” como representação da escola de samba da Portela), a possibilidade de alegria, sem medo e perigo, normalmente associados ao Rio de Janeiro, para retornar, em seguida, e até o final do processo associativo, ao tema da violência, inclusive a violência do poder constituído (polícia) contra o cidadão.

Surge a comparação do sonho com a realidade: para Beatriz o sonho faz sentido para quem sonha, às vezes dá respostas para o que não se tem explicação no estado de vigília; sonhar é importante para “que as coisas se arrumem”, o sonho tranquiliza; a realidade às vezes é um pesadelo, o mundo é ilógico, maluco, sem sentido. O coordenador resume parte da fala de Beatriz: “o pesadelo é real!” Beatriz acrescenta: (a vida real) é um pesadelo sem controle, como no sonho, onde não se tem controle. Enfatiza a ilusão do controle na vida real e a sensação de desamparo. Segundo a lógica que emerge, os sonhos agradáveis seriam uma compensação para uma realidade brutal. Dario apresenta a seguir um sonho que expressaria esse caráter “compensatório” (“O Padeiro”).

Novamente, o grupo parece encontrar-se muito à vontade para o processo associativo, que resulta no aumento do número de associações apresentadas. A temática emergente também parece estimular o processo associativo: brutalidade da realidade social e política planetária, violência, inclusive dos poderes constituídos que teriam por missão proteger o cidadão, o sonho com uma função compensatória à angústia e insegurança da vida de vigília, indicando a necessidade de sonhar com um mundo melhor.

Sonho 6 – O Padeiro (Dario)

Eu fui a uma padaria. Gente, estava cheio de pão saindo. Aquele pãozinho fresco, gostoso. Aí você pegava, assim, aquele pão. A menina pegava com uma garra, ela meio que amassava, assim. E eu sentia aquela vontade. Aí eu dizia: “não, aquele lá você amassou demais.” Aí, ela pegou.... “Não, aquele ali está escuro”... queimado em cima. Não quero

Matriz do sonhar social 120

assim branquinho, mas que ele seja douradinho. Pegou um saco de pão. Parece que quando eu pegava aquele saco de pão, fazia assim com a casquinha. Aí eu olhei assim, “ai, que pão bonito!”... “Ah, isso eu faço na máquina lá de casa”.

Associações: Dia do padeiro [Dario, o sonhador, admira-se com a coincidência da associação feita por Beatriz], cheiro de pão, quentinho, “sonho bom” x “realidade ruim” (Dario), 11 de setembro, a queda das torres gêmeas, a realidade que parece filme, sensação de terror, constatação de que coisas ruins acontecem no mundo real, o filme é realidade [Miriam, reportando-se ao que Beatriz havia dito anteriormente sobre “sonho”e “realidade”], “o piloto estava cego?” [Xandra, referindo-se a 11 de setembro e como ela minimizou a “realidade” do fato], “estava comprando peixe para um jantar e tudo parou... tudo perdeu a graça” [Mário, que passa a narrar o sonho “Cortando a Unha do Pé”].

Comentário 7: O sonho “O Padeiro”, sonhado na noite anterior e narrado por Dario, foi assim intitulado em virtude da “coincidência” com o Dia do Padeiro, lembrado por Xandra, informação desconhecida pelo sonhador. O universo associativo do sonho, oferecido por seis dos participantes gira em torno de aspectos agradáveis, tais como “cheiro de pão quentinho”. O sonhador retoma a ideia de “sonho bom” vs “realidade ruim”. Miriam reporta-se ao que Beatriz havia dito anteriormente sobre “sonho” e “realidade”. Lembra de “11 de setembro”, a queda das torres gêmeas em Nova Iorque, a realidade que parece filme, a sensação de terror, constatando que coisas ruins acontecem no mundo real, o filme é realidade. Xandra e Mário também se recordam da ocasião que lhes pareceu surreal. As associações dos participantes deste sonho dão prosseguimento à temática surgida no anterior; o sonho como compensação para uma realidade angustiante, quase inacreditável.