Elton Tada, em dissertação de mestrado317, aborda a relação entre teologia e
literatura. A sua opção metodológica é a de aplicar uma teologia determinada à leitura de um texto literário. Mesmo sendo consciente do perigo de subordinar uma à outra, ele parece não ter condições de evitar cair nisso desde o seu marco de referência. Afinal, ele inscreve o seu trabalho como sendo norteado por princípios de uma área de pesquisa específica, a da Teologia e Literatura.318
Aqui não se trata de aplicar nenhuma teologia ao campo da literatura; trata-se de distinguir com certo grau de precisão o tipo de representação veiculada por um texto “teológico” e um texto “literário” sem fazer de tal distinção um marco de referência absoluto para determinar o conteúdo da obra. O que determinará de maneira mais pertinente a diferença entre ambos textos e as suas narrativas, é o tipo de poder (retórica) veiculado por ele e as estratégias com que busca atingir os seus interesses. Enquanto há coisas que os separam, há outras coisas que os unem; enquanto as suas estratégias e retórica podem ser diferentes e podem ser usadas como base para classificar tais textos em caixinhas diferentes, as influências e conexões com o mundo das nações, o seu enraizamento com a realidade social, a sua mundanalidade, é o chão da sua unicidade, e o fundamento para ser ao mesmo tempo objetos de uma crítica secular.
Por que não abordamos dentro da nossa tese a questão sobre a relação entre religião e literatura? A resposta está no fato de que tal relação representa um erro categorial dentro do nosso quadro teórico; a rigor, é uma relação inadequada e mal colocada. Em primeiro lugar, a crítica feita ao conceito de religião torna difícil levar a frente tal relação: procedemos a multiplicar tal ponto as relações entre o religioso e o secular que tal binarismo não mais faz sentido. Em segundo lugar, a literatura, a teologia e a cristologia são convocados, não como áreas separadas de conhecimento, mas como parte da distribuição de uma consciência geopolítica que se insere no mundo a partir da particularidade da sua retórica e que veicula, produz e reproduz determinados interesses, que representa, contesta e/ou apoia as relações sociais que refere.
317 Elton Tada, “A coragem de ser” de Paul Tillich e “A via crucis do corpo” de Clarice Lispector:
Semelhanças e assimetrias em busca de uma leitura teológico-existencial da obra de Lispector (UMESP, São Bernardo do Campo, 2010, Dissertação de Mestrado).
Para uma TCS pouco importa se o material discursivo “fala na língua” da literatura, da arte, da ciência acadêmica ou da espiritualidade; interessa mais é saber como, a partir da particularidade da sua retórica, expressa os seus anseios e desejos de poder. Daí decorre como resultado um terceiro elemento. O horizonte disciplinar que parece estar configurando essa nova “disciplina” não contempla o interesse central e crucial –para nós– da crítica secular. Como disciplina, parece cair nas armadilhas da lógica disciplinar.
Consequentemente, não se trata aqui de fazer teologia da literatura319, ou de realizar aproximações entre religião, teologia e literatura320. Tais abordagens reinscrevem –em lugar de contestar– a dicotomia do religioso/secular321. E vimos que
contestar tal dicotomia é crucial para a crítica. Também se trata menos de perceber como a literatura possui uma “dimensão teológica”; ou postular uma “sacralidade da literatura”, como se ela nos dissesse “coisas que já sabíamos mas de uma forma melhor”322. O nosso foco é outro: queremos determinar a relação entre os diferentes
textos e instâncias culturais (sem importar muito “em qual língua se expressem”) e as estruturas kyriarcais323, as lógicas da dominação, os sistemas de opressão, e as lutas por
transformação.
Por esse motivo parece-me ainda muito mais problemático transformar textos cuja retórica é eminentemente poderosa (como os textos bíblicos) e assumi-los ingenuamente como mera “literatura”324. Não podemos deixar de perceber como a busca
por legitimidade científica está em alguma medida por trás dessas tentativas de teólogos/as e cientistas da religião cuja pesquisa adquire um ar mais “científico” através da inclusão de textos literários como objeto de pesquisa, ou métodos literários para abordagens de textos bíblicos e/ou “religiosos”.
319 Veja Elton Tada, “A coragem de Ser” de Paul Tillich.. op.cit. Sua opção metodológica assume a literatura como objeto da pesquisa teológica, onde o objetivo será o de aplicar uma teologia, como método interpretativo, a uma obra da literatura (pp. 19-20).
320 Veja Claudio Ribeiro e Hugo Fonseca (orgs.), Teologias & Literaturas 2: aproximações entre religião,
teologia e literatura (São Paulo: Fonte Editorial, 2013).
321 Cabe ainda considerar se tal reinscrição da dicotomia religioso/secular pode viabilizar uma crítica ao capitalismo, como vemos com Allan Silva Coelho, em sua tese de doutorado, Capitalismo como religião: uma crítica a seus fundamentos mítico-teológicos (São Bernardo: UMESP, 2014). A sua crítica do conceito de religião difere da nossa, mas os resultados da sua pesquisa parecem convergir em vários aspectos.
322 Cf. Claudio Ribeiro, “A sacralidade da literatura”, em Claudio Ribeiro e Hugo Fonseca, Teologias e
literaturas 2, op. cti., p.14
323 Veja a definição desse termo no capítulo 2, ponto 2.3.3, “Elisabeth Schüssler Fiorenza: ecleticismo metodológico”.
324 Veja Luana Martins Golin, “A Bíblia como texto literário: uma leitura a partir de Northrop Frye”, em Claudio Ribeiro, Hugo Fonseca, Teologias & Literaturas2, op. cit. pp. 49-68
As razões pelas quais recorremos ao conto de García Márquez são, portanto, outras. Tais razões obedeceram mais à estrutura metodológica formulada por Dube de perscrutar literaturas que possuíssem narrativas descolonizadoras. Suspeitamos que tais narrativas estivessem presas na lógica imperial se permanecessem demasiado dentro das estruturas que queríamos focar (cristologia). A ideia de ekklesia das wo/men325 instigou
a nossa imaginação para formular um dispositivo discursivo que pudesse performativizar o tríplice interesse de contestação, alternativa e engajamento crítico; é assim que a “não-cristologia” constrói O afogado como esse contraponto alternativo, contestatório e agonístico que expressa uma transformação em diferentes pontos que convergem com a narrativa cristológica, porém, ao mesmo tempo ultrapassando-a e a transbordando em vários sentidos.
Notem, portanto, que de algum modo, não estamos “recorrendo à literatura” a partir de uma disciplina –teologia e ciências da religião–; se nos servimos da teologia crítica feminista (que estamos aqui chamando de teologia crítica secular, tcs), é por considerarmos possuir as ferramentas mais apropriadas para “desempacotar” (lembrando a expressão de Talal Asad326) textos e estruturas como a narrativa
cristológica. E se recorremos de algum modo à crítica literária, entre outras disciplinas das ciências humanas, é para descobrir e desvendar a função social, política e ideológica, de textos como O afogado, na sua qualidade de “intervenções políticas” (e não simplesmente como “literatura”) no cenário mais amplo da cultura, nesse caso, cultura terceiro-mundista de resistência anti-colonial e anti-imperial.
Quando falamos em crítica literária também não nos referimos propriamente à disciplina dos estudos literários (assim como com teologia também não referimos a disciplina acadêmica, até certo ponto bem caracterizada pelo Compêndio327 como
“ciência normativa”). Ela, como toda disciplina, possui os seus grilhões específicos que bloqueiam e impedem uma investigação do tipo que está sendo levada a frente aqui. O renomado crítico literário canadense Northrop Frye diz, por exemplo, que “é impossível ler a Bíblia desse modo [de forma centrífuga] graças ao predomínio da metáfora e outras formas de figura de linguagem”,328 e provê a justificação adequada para que milhares de
325 Para a definição desses dois termos, veja o capítulo 2, ponto 2.3.3.
326 Genealogies of Religion, op.cit., p. 54. Reveja a discussão no capítulo 2, ponto 2.2.2, “desconstruindo religião”.
327 Referimo-nos ao Compêndio da ciência da religião (São Paulo: Paulos, 2013). Veja a discussão ao respeito no capítulo 2, ponto 2.1.1 “religião”.
estudiosos transformem o estudo da bíblia (texto mundano), no estudo meticuloso e erudito de um artefato cultural exclusivamente acessível à elite de críticos bíblicos.
Enquanto é claro que nenhum texto pode ser usado como uma espécie de janela histórica para compreender realidade social dentro da qual emerge329, a opção desse
crítico chamado Northrop Frye de considerar os textos como tendo caráter centrípeto, como criando universos separados330, uma espécie de insulamento imaginativo separado
do seu ambiente natural331, possui consequências devastadoras para a crítica. Toda a
estrutura teórica que ele (na sua lógica disciplinar) cria parece estar orientada a bloquear, em lugar de promover, toda e qualquer relação entre texto, contexto e leitora.
Isto faz parte da lógica disciplinar, que, como a lógica institucional, tende a fechar-se sobre si mesma, e é contra isso que se posiciona a “crítica secular e profana”. É por isso que podemos afirmar que o intelectual e o estudioso disciplinado faz crescer a sua disciplina e o seu campo de estudos. Já o/a crítico/a secular busca estabelecer conexões; preocupa-se pelos efeitos e influências das produções culturais nas relações sociais e nos eventos históricos. Não podemos mais ser coniventes com essa postura que procura a erudição ad infinitum (como afirma Said) numa espécie de divertimento que beira na lúdica acadêmica, e cuja contrapartida é uma completa irresponsabilidade com o mundo social. Portanto, o que usaremos de crítica literária está na linha teórica que busca compreender a relação entre mundo e literatura, como vimos já, por exemplo, em um Antônio Cândido, ou nos próprios Said, Spivak e Bhabha, e como vemos também em um Mikhail Bakhtin, por exemplo332.
A importância da complexidade do método e do quadro teórico que até aqui foi esboçado, fundamentalmente através da contribuição de sete autores (Said, Spivak, Bhabha, Rieger, Kwok, Schüssler e Dube), está no reconhecimento de que o esforço de uma postura contra-hegemônica em teologia e ciências da religião requer explodir essa lógica disciplinar: tal esforço se contrapõe a um grande sistema de estruturas
329 Veja a complexa articulação que a Elisabeth Schüssler Fiorenza traz em seu In Memory of her, em termos não somente de reconstrução teológica, mas de articulação entre a crítica histórica, arqueológica e hermenêutica, sobre a relação entre textos e a história das origens do cristianismo. O seu método é aplicável, cabe dizer, a qualquer outro contexto que pretenda fazer essa relação entre literatura e mundo social.
330 Lembre-se que essa parece ser a opção de Paulo Nogueira, a respeito da definição da religião (ver cap. II, 2.2.1, “Religião”).
331 Ibid, p. 63
332 Veja Mikhail Bakhtin, Estética da Criação verbal, [trad. Do francês por Maria Ermantina Galvão Perera], (São Paulo: Martins Fontes, 1997) [1ª Ed. 1979], e sobre tudo, para uma postura que mostra a perspectiva transdisciplinar na compreensão do fenômeno literário, Mikhail Bakhtin, Marxismo e filosofia da linguagem (Sem lugar: HUCITEC, 2006)[12ª Ed.].
colonizadoras (V. Y Mudimbe), a um complexo padrão de “organização de ideias” e “mundos de sentimento” (René Maunier), a uma complexa dinâmica da consciência geopolítica dominante multiplamente espalhada nas diversas instâncias da existência humana à qual chamamos também (com Said) de estruturas de atitudes e referências.
Sem o reconhecimento desse complexo sistema imperialista, imperializador e colonizante, o esforço retórico das intervenções que procuram a descolonização ficará extraviado pelas estratégias da dominação e da manutenção da ordem global. Isto é, não nos contrapomos somente a imensa máquina de destruição e aniquilação material que opera através de diversos sistemas –como o sistema financeiro internacional– senão que também reconhecemos a sua contrapartida orgânica e imbricada na produção cultural – dentro da qual funciona a lógica acadêmica de produção de conhecimento. O “conto” está, portanto, inserido nesse emaranhado.
Tais estruturas de atitudes, sentimentos e ideias relacionadas com padrões e estruturas de opressão, dominação e subalternização, por um lado, e referências geográficas, culturais e políticas, pelo outro, são associadas aos textos imperializadores, e de alguma forma cabe perguntar, como fizemos já no capítulo 1, o que poderia ser o equivalente para estruturas descolonizadoras. Isto é, qual seria o tipo de atitudes, sentimentos e ideias relacionadas com padrões e estruturas emancipatórias? Que tipo de referências geográficas, culturais e políticas poderiam representar resistência, alternatividade e oposição?
Dube mencionou três questões para orientar-se ao respeito: (1) o texto nomeia as estruturas imperiais da sua configuração? (2) Quais são os seus métodos retórico literários de descolonização? (3) como se usa o gênero na zona de descolonização?333.
Said, em seu Cultura e Imperialismo termina o livro mencionando uma constelação de princípios, eventos históricos, intervenções, circunstâncias e encruzilhadas que provocam uma série de enquadramentos críticos teóricos dentro dos quais iremos colocar a análise do Afogado. Em outras palavras, é esse emaranhado de forças que irá desvendar o tipo de perspectiva alternativa, opositória e de resistência para o nosso trabalho.