4.3 Hvordan opplever særforbund, idrettskretser og idrettslag implementeringen
4.3.6 Brukervurdering av de digitale løsningene
As crenças milenaristas sempre estiveram presentes nas teologias do pentecostalismo brasileiro. Reconhecemos que a sistematização dessas crenças nas Assembleias de Deus do Brasil é herança de tradições teológicas europeias e estadunidenses. Encontramos discursos escatológicos no hinário, na mídia impressa e eletrônica, nas pregações dos pastores e em livros publicados pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). Entretanto, esse milenarismo das ADs no Brasil é uma herança apenas das teologias europeias e estadunidenses? O milenarismo assembleiano não teria influência dos milenarismos que acabamos de descrever? Acreditamos que sim. Além disso, pensamos que esse assembleianismo das primeiras décadas estabeleceu uma relação dialógica com a cultura e a religiosidade popular brasileira.
Reconhecemos que os movimentos que ocorreram na Rua Azusa e em Chicago foram marcantes para o Pentecostalismo. Todavia, a influência norte-americana no assembleianismo brasileiro inicial é mínima se comparada com as influências da religiosidade popular e da eclesiologia sueca. Não temos a pretensão de comparar os milerarismos populares do Brasil com o milenarismo pentecostal, tendo em vista que um método comparativo como esse pode esconder algumas armadilhas. Entretanto, iremos apontar alguns elementos comuns entre eles. Interessa-nos aqui não apenas descrever as crenças escatológicas das Assembleias de Deus, mas sua relação com a posição e ação política. Além disso, identificar em que medida a mentalidade ou as mentalidades milenaristas se articulam com o interesse ou não na participação política de assembleianos. Defenderemos a tese de que desde o primeiro período que estudamos - 1930-1945 - as Assembleias de Deus têm posicionamentos políticos. Além disso, a crença escatológica não foi e ainda não é o elemento mais importante que determina o referido posicionamento.
Questionamos a tese de uma alienação política dos assembleianos nas primeiras décadas pelo fato de adotarem uma mentalidade milenarista e escatológica. Quase sempre se diz que os pentecostais se afastavam das questões político-sociais em razão de suas crenças escatológicas e milenaristas. Gostaríamos de pensar de maneira inversa: eles eram excluídos das questões político-sociais e por isso tinham uma mentalidade escatológica e milenarista. O discurso
escatológico sobre a céu é concebido a partir de realidades da vida concreta, pois “quem fala sobre o céu fala, em termos celestes, sobre a terra” (HINKELAMMERT, 2012, p. 5).
Entre 1930 e 1945 foram escritos 206 artigos no jornal Mensageiro da Paz, relacionados com a temática da escatologia, sociedade/mundo e política. Abaixo, os resultados numéricos da tabulação que fizemos:
Quadro 1 - Artigos analisados na fonte primária
Temáticas Quantidade %
Retorno de Cristo 75 artigos 36,00%
Sociedade/Mundo 129 artigos 62,63%
Política/Políticos/Eleições 2 artigos 0,97%
Total 206 artigos 100%
Fonte: Jornal Mensageiro da Paz. Órgão Oficial das Assembleias de Deus que teve periodicidade mensal entre 1930 e 1945.
Regina Novais em sua pesquisa sobre religião e política na década de 70 lembra que “enquanto as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) politizavam categorias religiosas, pentecostais religiogizavam categorias políticas e entravam em lutas sociais em nome de Jesus” (NOVAIS, 2002, p. 78). A conversão ao pentecostalismo significava certas rupturas, muito embora tais rupturas preservem dimensões “daquilo que se deixou para trás”; ruptura pessoal - a experiência pessoal de aceitar a Cristo como salvador faz com que o convertido sinta-se diferente dos outros “pela capacidade de experimentar a temporalidade da salvação hoje” (PASSOS, 2005a, p. 37); ruptura social - o grupo pentecostal se considera escolhido por Deus, ao passo que é preciso ser diferente do “mundo” (PASSOS, 2005a, p. 67). Esse ser diferente do mundo nem sempre quer dizer desprezar o mundo, mas sim rejeitar certos valores sociais e culturais; há ainda a ruptura com a religião católica - entretanto, ao mesmo tempo em que se abandona e rejeita essa religião se preserva alguns de seus elementos, principalmente os relacionados com o catolicismo popular.
Gedeon de Alencar (2013) destaca que as ADs, nesse primeiro período, são um movimento, tendo em vista não possuírem personalidade jurídica entre outras características de uma instituição burocrática. A igreja crescerá pelo trabalho de suecos e, sobretudo, pela atuação de migrantes nordestinos. Com efeito, as ADs têm em sua constituição essas duas principais influências: sueca e nordestina. O Brasil, nesse primeiro período é rural, logo se configurou um
assembleianismo de mentalidade rural (ALENCAR, 2013). Nas décadas posteriores o país passará por rápidos processos de urbanização e industrialização, de modo que a transição do Brasil rural para o Brasil urbano será um dos fatores primordiais para o crescimento das ADs. No contexto da implantação do pentecostalismo no Brasil, a religião católica predominava de maneira absoluta e sua vertente popular estabeleceu afinidades com a religiosidade pentecostal. Para Décio Passos foi “uma afinidade involuntária, dada no encontro efetivo e gradual das duas configurações religiosas que se escolhem ativamente e se articulam, criando uma figura nova” (PASSOS, 2005a, p. 58). Essa afinidade também diz respeito a aspectos do milenarismo católico-popular? Vejamos algumas semelhanças entre o pentecostalismo e os movimentos de catolicismo popular nas primeiras décadas do século XX.
O aspecto popular. Tanto a religiosidade católica popular como o assembleianismo se
desenvolveram a partir das práticas populares; cresceram a partir de classes subalternas e ambas tiveram expressiva adesão de nordestinos-sertanejos e caboclos. Os movimentos messiânico- milenaristas no Brasil não estiveram distantes no tempo e no espaço em relação ao pentecostalismo, principalmente no Nordeste brasileiro, onde em 1914 as ADs já haviam chegado.
Movimento. Muito embora as ADs tenham adotado, nesse primeiro período, o modelo
da Suécia de igrejas livres sem muita preocupação com questões burocráticas e institucionais, o caráter de ser um movimento com lideranças carismáticas é semelhante aos movimentos milenaristas de matriz católico-popular.
Experiências religiosas extáticas e crenças populares. As experiências extáticas como
profecias, sonhos e revelações estão presentes em ambos os movimentos, bem como crenças populares relacionadas a curas e na resolução de outros problemas do cotidiano.
Mentalidade Rural. Como já dito anteriormente, o Brasil quando da implantação das
ADs é um país rural. É também no Brasil rural que as religiosidades católicas populares encontraram terreno fértil. Décio Passos (2005b) já falou dos “resquícios” da religiosidade popular católica no pentecostalismo. Entre esses resquícios não haveria também dimensões do milenarismo? Há indícios para que possamos responder de maneira afirmativa essa pergunta.
Mentalidade Milenarista. Os movimentos messiânico-milenaristas do Brasil têm
mentalidades milenaristas de descontentamento popular e de crítica social. Se partirmos do pressuposto de que há “resquícios” dessas crenças escatológicas no pentecostalismo, que tipo de mentalidade milenarista foi adotado pelo assembleianismo no primeiro período? De início, questionamos a ideia de fuga do mundo. Por outro lado, poderíamos afirmar então que esse assembleianismo teve um milenarismo de descontentamento popular? Essa análise será
realizada no próximo capítulo. Mesmo assim, vejamos alguns aspectos teológicos do milenarismo das ADs.
Há certo padrão nos grupos sociorreligiosos no que diz respeito às crenças escatológicas. Descreveremos as características do milenarismo assembleiano brasileiro a partir das categorias de Norman Cohn (COHN, 1996, p. 11) as quais são: coletiva, terrena, iminente, total e miraculosa.
Coletiva. No sentido de que o novo mundo, o paraíso terrestre será destinado às pessoas
que juntas usufruirão das benesses da igualdade, justiça e paz. Esse é um traço comum dos movimentos milenaristas, a ideia de comunitarismo, onde aqueles que sofreram ou foram oprimidos terão sua dignidade restaurada dentro de uma comunidade.
A mensagem a todas as igrejas (Ap 3.21,22) indica que os crentes provenientes da Era da Igreja que permanecem fiéis, sendo vencedores. Além dos vencedores provenientes da Era da Igreja, João viu almas, ou seja pessoas que teriam sido martirizadas. Esses dois grupos ficaram juntos e reinarem com Cristo durante os mil anos. Será um período de paz e bênçãos, durante o qual prevalecerá a justiça (HORTON, 1997, p. 639).
Terrena. No sentido de que o período de plena paz e justiça será vivido dentro do mundo
e não no céu. A doutrina escatológica das ADs diz isso. É no paraíso terrestre que os crentes viverão. A Nova Jerusalém descerá do céu e será implantada neste mundo. Mais uma vez vemos aqui uma fala mítica e dialética da destruição e recriação.
Essa cidade, o lar eterno dos redimidos e a habitação de Deus, é a Nova Jerusalém que João viu, numa visão descendo do céu para a nova terra. A morada e o trono de Deus estarão com o seu povo na terra (Ap 22.3). Isso significa que sempre haverá uma terra, embora a atual venha a ser substituída por uma nova (HORTON, 1997, p. 644).
Iminente. Assim como faziam no cristianismo primitivo as comunidades de crentes
esperam que a chegada do paraíso terrestre chegue em breve; parece haver certa urgência em determinados momentos. Em situações de cataclismas, de mortes em massa, de guerras e outros desastres, emerge do subsolo um imaginário de grupos sociorreligiosos milenaristas a ideia de que o fim de um tipo de mundo está ainda mais próximo.
Total. Tudo será restaurado a um estado de plena perfeição. Os ecossistemas e toda a
O alvo e expectativa finais da fé do NT é um novo mundo, transformado e redimindo, onde Cristo permanece com seu povo e a justiça reina em santa perfeição. Para apagar todos os sinais do pecado, haverá a destruição da terra, das estrelas e galáxias. O céu e a terra serão abalados. A terra renovada se tornará a habitação dos homens e de Deus (BIBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, 1995, p. 2010).
Miraculosa. Essa implantação do paraíso terrestre se dará por intermédio de uma força
sobrenatural, pois “o Reino milenar não virá através de esforços humanos” (HORTON, 1997, p. 627). Portanto, desde o início, o milenarismo assembleiano brasileiro não leva em consideração os processos revolucionários ou a luta armada para a efetivação do paraíso terrestre.
Ao analisar o milenarismo pentecostal André Corten (CORTEN, 1995, p. 110) chamou a atenção para o caráter violento dessa crença, pois fala de destruição e morte. Entretanto, a violência parece ser um componente dos grupos sociorreligiosos de mentalidade milenarista. Mas não seria um tipo de violência como reação a uma ordem opressiva e injusta? Nessas narrativas escatológicas pentecostais parece sempre haver uma inversão de papéis sociais: quando os grandes e opressores serão condenados, enquanto os crentes serão recompensados.