Os dados desta tese foram analisados à luz da vertente francesa de análise de discurso. Tal vertente consiste em um conjunto de instrumentos metodológicos auxiliam na compreensão de um discurso (SARAIVA; CARRIERE, 2012) e consideram que qualquer discurso, seja ele enunciado na forma escrita ou falada, traz aspectos explícitos, implícitos e silenciados (FIORIN, 2003), manifestos por meio de estratégias discursivas do enunciador, que de acordo com Saraiva e Carriere (2012) são constituídas por:
- Análise léxica;
- Temas e figuras (explícitos e implícitos) dos discursos, inclusive personagens; - Percursos semânticos estruturados a partir de temas e figuras;
- Aspectos interdiscursivos; - Aspectos da sintaxe discursiva;
- Aspectos refletidos e refratados nos discursos; - Os discursos presentes no texto;
- Os aspectos ideológicos defendidos nestes discursos; - Os aspectos ideológicos combatidos nestes discursos; e
- A posição do texto em relação ao discurso hegemônico na sociedade em que se situa.
Estas categorias de uma forma ou de outra estão inseridas em dois níveis integrados e complementares: o intradiscurso e o interdiscurso. Segundo Faria (2001), o intradiscurso diz respeito a uma trajetória de sentidos que se desenvolve ao longo do texto, enquanto o
interdiscurso é formado da contradição e oposição a outros discursos. Desta forma, o discurso sempre se apresentaria sob a interface intra e interdiscursiva, simultaneamente.
Os aspectos interdiscursivos envolvem o universo discursivo, o campo discursivo e os espaços discursivos. Segundo Maingueneau (1997), o universo discursivo trata de formações discursivas de todos os tipos que interagem umas com as outras e tem grande amplitude, sendo delimitado através do campo discursivo, que por sua vez, diz respeito às formações discursivas concorrentes e cuja delimitação estabelece espaços discursivos como categoria de análise, nos quais ocorre a identificação dos percursos semânticos portadores da ideologia presente no discurso.
Quanto aos aspectos interdiscursivos desta tese, podemos dizer que o universo discursivo das entrevistas realizadas e documentos obtidos durante a pesquisa corresponde ao relacionamento com fornecedores, enquanto o campo discursivo diz respeito a várias questões, por vezes, antagônicas, tais como, por exemplo, a qualidade da prestação dos serviços executados por terceiros ou a contratação de terceiros com base no menor preço. Por fim, no que tange aos espaços discursivos, podemos citar no campo discursivo da qualidade na prestação de serviços executados por terceiros, os discursos que defendem a fiscalização em oposição aos que defendem a parceria, por exemplo. Ao mesmo tempo no campo discursivo do menor preço, podemos citar os discursos que defendem a contração com base em menor preço versus o discurso da contratação com base na avaliação financeira da empresa a ser contratada. Como se observa, são muitos os aspectos interdiscursivas que foram levados em conta durante a identificação e análise dos discursos apresentados nesta tese.
Outro ponto importante que salientado aqui é que o discurso define-se em relação a outro(s) discurso(s) (FARIA, 1999), que, por sua vez, se materializam no intradiscurso (CARRIERI et al, 2006). O conceito de intradiscurso está relacionado, segundo Faria (2001, pg.32) à visão de mundo que o discurso defende e que pode ser descrita a partir dos percursos semânticos encontrados no intradiscurso, ou seja, nos textos que materializam o discurso dado”. Assim, o intradiscurso está ligado ao conjunto de conteúdos pertinentes ao discurso.
Os percursos semânticos encontrados no intradiscurso podem ser temáticos ou figurativos. Para Fiorin (2003), tema é o elemento semântico que designa um elemento não presente no mundo natural, enquanto figura é o elemento semântico que remete a um elemento do mundo
natural. Assim, segundo Fiorin (2011, pg. 90), “a tematização e figurativização são dois níveis de concretização do sentido”. Daí surgem procedimentos que operam no componente semântico do discurso, tais como a metáfora e a metonímia e procedimentos de combinação de figuras e temas, tais como a antítese, o oxímoro e a prosopopéia.
Nesta tese podemos classificar como temas a parceria, a qualidade, a confiança, a qualificação e o desenvolvimento de fornecedores, que são assuntos diversas vezes enunciados nas entrevistas realizadas e identificados como discursos nesta tese. Já como figuras, podemos identificar diversos elementos nos quais os enunciadores se baseiam para a enunciação destes discursos, tais como, check-list das operações que são fiscalizadas, documentos fiscais e trabalhistas, manuais com as normas a serem seguidas pelas áreas operacionais da empresa pesquisada, código de ética da empresa pesquisada, relatórios de avaliação de fornecedores, indicadores financeiros e operacionais dos fornecedores, dentre outras figuras que compõem o intradiscurso.
Os temas e figuras presentes nos discursos são evidenciados, segundo Carrieri et al (2006), nas estratégias de persuasão, dentre as quais, podemos citar as quatro principais (já citadas anteriormente entre as estratégias discursivas): a construção de personagens no discurso e sua relação com as personagens efetivamente existentes; a seleção lexical, as relações entre conteúdos explícitos e implícitos e o silêncio sobre determinados temas.
Quanto aos personagens identificados nos discursos, são observados tantos os personagens criados quanto os existentes. Ao longo das entrevistas realizadas são vários os personagens citados, desde personagens reais como os fornecedores contratados, os fiscais e coordenadores dos serviços executados pelas empresas terceirizadas, a diretoria, os gestores e gerentes de áreas operacionais da empresa pesquisada, até personagens criados, a quem os entrevistados atribuíam falas e responsabilidades, como o governo, funcionários que já haviam saído da empresa, clientes, a comunidade, a mídia, que embora possam existir, foram criados pelos entrevistados no intuito de dar credibilidade ou importância às suas falas.
Além dos personagens, é importante analisar, segundo Fiorin (2011, pg. 57), a sintaxe do discurso, que “abrange dois aspectos: as projeções da enunciação no enunciado e as relações entre enunciador e enunciatário, ou seja, a argumentação”. Tal autor afirma ainda que há confusão entre estas duas faces da sintaxe do discurso, tendo em vista que a primeira busca,
em última instância, que o enunciatário aceite o que está sendo enunciado. Na sintaxe do discurso são avaliadas diversas oposições categóricas (tais como a antífrase ou ironia, as lítotes, a preterição e a reticência), bem como oposições graduais (tais como o eufemismo e a hipérbole).
Para Mingueneau (1997) um dos principais benefícios da análise do discurso consiste na possibilidade de interpretar não apenas o que é falado, explicitado, como também a ideologia na qual se baseiam os discursos, que ajuda a entender o que está implícito ou silenciado.
Ao tratar dos aspectos ideológicos, quer os defendidos, quer os combatidos nos discursos analisados, é necessário entender o contexto e o histórico da empresa pesquisada. Privatizada em 2002, a empresa passou aproximadamente 40 anos de sua existência sendo estatal. Isso fez com que, de um lado, a empresa tenha procedimentos e formas de atuação similares às da época em que a empresa era estatal e que se baseiam em ideologias arraigadas, institucionalizadas na empresa, dificultando, em muitos aspectos, a melhoria de sistemas operacionais e do relacionamento com empresas terceirizadas. Como exemplo disso, encontram-se nos discursos falas que denotam a importância de leis que vigoravam na época em que a empresa era estatal, bem como o uso de indicadores e normas freqüentemente utilizados na gestão de empresas estatais.
De outro lado, porém, a substituição do papel do Estado contribuiu para a introdução de uma perspectiva empresarial particular, ressaltando o papel social da organização e ao mesmo tempo tentando aperfeiçoar o gerenciamento de contratos e procedimentos relativos à execução de obras e serviços e incluir novas ferramentas e sistemas adotados por empresas competitivas. Um exemplo disso são falas extraídas dos discursos identificados que ressaltam questões como “a universalização da energia”, “o menor custo de tarifas para a população carente”, “a prestação de um serviço essencial à comunidade”, “a qualidade do serviço prestado”, dentre outras.
Por fim, com relação à posição dos discursos identificados em relação ao discurso hegemônico na sociedade em que se situa a empresa pesquisada, pode-se dizer que todos os discursos identificados – exceto o da contratação de fornecedores com base no menor preço – são discursos que atuam em harmonia com o discurso da comunidade de que o serviço de energia elétrica deve ser prestado de acordo com padrões de qualidade e eficiência elevados,
tendo em vista que é um serviço essencial à população. O discurso da contratação com base no menor preço, além de ser um discurso em dissonância com o discurso da população de que a qualidade deve ter prioridade na contratação do serviço, também é um discurso que vem acompanhado de outros discursos não falados (e, portanto, não apresentados no capítulo 7 desta tese), isto é, discursos que são silenciados durante as entrevistas e que, como afirma Carrieri (2006, pg.10) consistem na “tentativa de apagar pontos obscuros, fatos omissos ou possíveis inconsistências do discurso do enunciador”.
Como exemplo de discursos silenciados nesta tese, temos o discurso bastante proclamado pela comunidade e pelo governo de que a terceirização é um processo danoso para os funcionários das empresas terceirizadas, que teriam seus direitos trabalhistas prejudicados, através de menores salários e menores benefícios, o que tem acarretado diversos processos judiciais contra a empresa pesquisada.
Com base no exposto, foram identificados quatorze discursos presentes nas entrevistas realizadas e nos documentos avaliados no decorrer desta pesquisa. No capítulo 7 são apresentados estes discursos, bem como os aspectos refletidos e refratados nos mesmos.
4 O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO
Este capítulo encontra-se dividido em quatro subitens, quais sejam: (1) Características do Setor Elétrico e das Distribuidoras de Energia Elétrica – onde é feito um breve histórico do setor elétrico e da reestruturação que foi feita no setor e também onde são apresentadas características dos tipos de empresas que operam no setor elétrico e das principais áreas que compõem o setor de distribuição de energia elétrica; (2) Terceirização no Setor Elétrico, item que trata das vantagens e desvantagens da terceirização, bem como do contexto em que se é utilizada a terceirização no setor elétrico, mostrando algumas legislações pertinentes a este tema no setor em questão; (3) As principais razões que levaram a escolha desta empresa e (4) Relevância da empresa estudada nesta tese, onde é feita uma breve descrição da empresa escolhida como objeto do estudo de caso desta tese, suas principais características, bem como alguns dados históricos e contábeis.
4.1 Características do setor elétrico e das empresas distribuidoras de energia