Diante do exposto no item anterior, pode-se notar que o estudo de caso é o mais apropriado a esta pesquisa, uma vez que não serão utilizadas outras empresas para fins comparativos – como no estudo de campo – nem tão pouco, serão analisadas variáveis sob condições controladas. Ao invés disso, será realizado um único estudo de caso, onde serão testadas teorias e observados os comportamentos dos diversos agentes e sua interação com o meio ambiente.
A escolha está ligada à crença de que o método escolhido – o estudo de caso – seja eficiente no estudo da contabilidade gerencial em diversos aspectos, tais como: no uso de múltiplos tipos de evidência (documentos, entrevistas, observação, questionários etc.), na descrição detalhada do gerenciamento e processo de controle da contabilidade e de como este processo afeta os participantes na prática, na análise dos pontos fortes e fracos do processo pelas pessoas entrevistadas, na avaliação da situação estudada em seu contexto sócio-econômico, na descoberta de como as experiências, palavras, sentimentos, atitudes e julgamento de valor dos participantes na organização estão implicados nas questões de pesquisa e, por fim, na busca das diferenças individuais ou variações nas percepções sobre a prática real (ADAMS et al., 2006).
Yin (2010) categoriza quatro tipos de estudo de caso: (a) o exploratório, onde o fenômeno estudado não tem resultados claros ou singulares, não sendo, portanto, apto a fornecer respostas conclusivas sobre o fenômeno, mas guia o pesquisador no desenvolvimento de ideias para pesquisas futuras; (b) o descritivo, que descreve um evento em seu contexto real de vida; (c) o ilustrativo, que demonstra um determinado fenômeno de modo descritivo, ou ainda, é aquele que, conforme Scapens (2004), busca por práticas contábeis inovadoras; e (d) o explanatório, que não apenas descreve o fenômeno, mas também explica porque e como o fenômeno estudado está ocorrendo. Scapens (2004) cita ainda uma quinta categoria de estudo de caso: a experimental, que é usada para investigar as dificuldades e crenças sobre a implementação de novas técnicas contábeis.
Pelo conceituado acima, pode-se afirmar que o estudo de caso a ser utilizado nesta tese será do tipo explanatório, na medida em que usa as teorias existentes no intuito de compreender e explicar as razões para as práticas contábeis observadas.
Além das categorias de estudos de caso explanadas anteriormente, há uma metodologia denominada “pesquisa intervencionista” (interventionist research), que, conforme Jonsson e Lukka (2007), deve ser vista como uma forma de estudo de caso. Nos estudos intervencionistas o pesquisador é um ator ativo em tempo real no fluxo de vida no campo e adota a perspectiva emic ao invés da perspectiva etic. Enquanto a primeira perspectiva estuda o comportamento humano de dentro do sistema, a segunda estuda tal comportamento de fora. Na pesquisa intervencionista o pesquisador deve ser tido como um “interno” no sentido de que precisa ser visto como competente e como membro confiável do mundo onde está realizando sua pesquisa de campo, com o objetivo não apenas de compreender o significado e ações dos atores no campo, mas também de torná-lo apto a comunicar e agir em conjunto com eles (JONSSON, LUKKA, 2007).
Quadro 8 - Diferenças e Semelhanças entre as Pesquisas Intervencionistas e Não Intervencionistas.
Intervencionista Não Intervencionista
Adota uma perspectiva emic. Adota uma perspectiva etic. Deve ser significativa para a pesquisa teórica
empírica.
Deve possuir méritos claros e bem documentados.
Também busca o entendimento e explicação de questões contábeis, no entanto o pesquisador intervencionista está diretamente ligado a algo que está acontecendo no caso e não tenta evitar ter um efeito no que está acontecendo.
Foca na formulação, entendimento e explicação de questões contábeis em um nível conceitual.
O pesquisador conduz sua pesquisa empírica predominantemente in vivo.
O estudo de caso é tipicamente do tipo ex post
facto, ou seja, o pesquisador examina o que, como e
porque algo ocorreu no caso no passado. Pode conduzir entrevistas e analisar arquivos, mas
a observação domina a coleta de material empírico para a pesquisa.
Tende a coletar dados primeiramente de entrevistas, apoiados por análise de arquivos históricos e o papel da observação tende a ser pequeno.
Também é importante para o pesquisador ganhar um bom entendimento sobre o que está ocorrendo no caso organizacional, mas isto é apenas um ponto de partida para novas investigações.
É importante para o pesquisador ganhar um bom entendimento sobre o que está ocorrendo no caso organizacional.
A teoria além de baseada em dados, está também “grounded in action”, ou seja, baseada em ação.
A teoria está “grounded in the data”, ou seja, baseada nos dados.
O pesquisador deve ter clara orientação para resolver problemas práticos e é tratado como “um de nós” na organização.
O pesquisador não deve interferir na resolução de problemas e é tido apenas como um observador imparcial.
Variáveis explanatórias não são controláveis e o estudo é praticamente impossível de ser replicado por outro pesquisador, ou mesmo pelo próprio pesquisador.
Idem à pesquisa intervencionista.
O pesquisador obtém se aprofunda no campo organizacional, em função de seu envolvimento direto na vida diária da organização estudada.
O pesquisador apenas observa, sem se envolver na vida diária da organização estudada.
Como a pesquisa intervencionista é um tipo de estudo de caso, algumas das mesmas críticas se aplicam. No entanto, o duplo desafio de combinar ação e pesquisa potencialmente leva a dificuldades no controle do projeto de pesquisa. É óbvio que existem problemas com a
pesquisa na qual o próprio pesquisador possui um papel tão proeminente (JONSSON; LUKKA, 2007).
Nesta tese buscou-se, inicialmente, realizar não apenas um estudo de caso, como também uma pesquisa do tipo intervencionista, em função das contribuições que se acredita que este tipo de pesquisa possa trazer ao estudo da contabilidade. Como tratado no item 4.1, a empresa escolhida tem passado nos últimos anos por profundas mudanças na forma de contratar empresas fornecedoras e prestadoras de serviços e de gerenciar o seu relacionamento com outras empresas e, durante as primeiras entrevistas realizadas durante o processo de escolha e comprometimento da empresa em fazer parte dessa pesquisa, foi solicitado à pesquisadora, como descrito no capítulo 3, não apenas observar, como sugerir e auxiliar na melhoria do gerenciamento do relacionamento entre empresas ante este processo de mudanças.
No entanto, embora os primeiros contatos com a empresa pesquisada tenha deixado claro o
intuito de ambas as partes (empresa pesquisada e pesquisadora)
de realizar uma pesquisa intervencionista, tal intuito foi frustrado, não tendo havido por parte da Eletriklight abertura suficiente para que a pesquisadora pudesse efetuar modificações na forma como os relacionamentos com empresas terceirizadas são gerenciados e avaliados.