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Consolidating Norwegian experience: IRRINI and IRRANA

In document CMI REPORT (sider 79-82)

Quando se credita a autoria de uma obra específica, existe na realidade uma atribuição a um conceito não só de um indivíduo igualmente específico, mas também a um conceito de poder. Existe algo como “o autor desta obra sou eu” ou “quem leva crédito desta obra?”. Em Mahābhārata há essa autoria creditada historicamente, mas pela extensão da narrativa e pela constatação de que o autor/narrador conversava com uma deidade, o Gaṇeśa, prova que ele foi um “autor” e não um autor real. Louis Renou observa que a língua, o estilo, as contradições internas, tudo denuncia uma irregularidade na redação, o que confirma a distância artística entre as partes do texto e o autor (RENOU; FILLIOZAT, 1947, 385). Embora não haja unanimidade na tradição indiana quanto à autoria, existe uma figura mítica popularmente aceita e, portanto, uma cultura pautada no coletivo. Mas ele, enquanto elemento de autenticidade, na realidade é secundário, ou seja, o relevante não é “quem” e sim “o quê”. Jean-Claude Carrière faz uma interessante observação, segundo Georges Dumézil:

Será que é uma obra coletiva, uma coletânea de relatos sucessivos? Há quem sustente esta hipótese. Georges Dumézil, que via o poema como uma transposição de um quinto Veda (hoje desaparecido), acreditava, ao contrário, que era obra de um único autor, uma obra organizada, em que os detalhes apresentados nas primeiras cenas encontram correspondência no final e, sobretudo, porque a evolução de cada um dos personagens é precisa, a escrita poética é coerente e, principalmente, não perde de vista, em nenhum momento, o sentido de conjunto (CARRIÈRE, 2002, 267).

Fig. 18

Gaṇeśa escreve Mahābhārata

Esse “autor”, chamado Vyāsa, de fato é um personagem importante na epopeia. Sem ele não haveria a narrativa. É um autor onisciente e onipresente. Vejamos algumas informações sobre como ele foi concebido: Vyāsa significa vy-āsa “distribuir ou deixar ir (as) em todas as direções (vi)”. Não só é considerado o autor de Mahābhārata, mas também dos dezoito principais Purāṇas (ou mais), e também compilador e organizador dos quatro Veda (CAMPBELL, 1994, 259; RENOU, FILLIOZAT, 1947, 271, 385).

Kṛṣṇa Dvapayana Vyāsa é filho de Parāśara e de Satyavatī. Satyavatī é filha do rei Uparicara Vasu e da apsara (ninfa) Adrika. Mas esta, devido a uma maldição, foi transformada em um peixe. Certo dia, quando um pescador estava navegando sobre o rio Yamuna, pescou Adrika e de dentro de sua barriga tirou um menino e uma menina. O menino se tornou rei da cidade de Matsya, mas a menina, devido a seu mau cheiro de peixe, foi chamada de Matsyagandha (ou “aquela que cheira peixe”), e foi adotada pelo pescador.

Parāśara, durante seu passeio pelo rio, vê Satyavatī. Apaixona-se por ela e promete eliminar o seu odor de peixe em troca da união. Satyavatī concorda com a proposta e em seguida dá luz a um menino. Assim, seu odor de peixe se transforma em um perfume. Ao crescer, esse menino passa a se chamar Vyāsa e por ordem de sua mãe, decide viver na floresta como eremita para se tornar porteriormente, um grande sábio e vidente, um ṛṣi.

Mais tarde, Śāntanu, rei Kuru do reino de Hastināpura, atraído pela fragrância de Satyavatī, pede-a em casamento. Ela aceita sob a condição de que seus filhos herdem o reinado, exigindo-lhe inclusive que o filho mais velho de Śāntanu deixe de obter seus direitos como filho do rei. Este filho não é ninguém senão Bhīṣma, importante aliado dos Kaurava na batalha de Kurukṣetra. Ele é filho de Śāntanu e de sua primeira esposa, a deusa Gaṅgā. Gaṅgā havia afogado os primeiros sete filhos do casal devido a uma maldição, mas Śāntanu consegue impedir que ela matasse o oitavo, o que viria a ser Bhīṣma. Este, ao saber que seu pai Śāntanu encontrava-se em conflito devido a exigência de Satyavatī, decide abdicar o trono e promete

ter vida de celibato para assegurar que nunca tenha filhos que ameacem usurpar o trono dos filhos de Satyavatī.

Fig. 19

Śāntanu tenta impedir que sua esposa, a deusa Gaṅgā afogue seu oitavo filho, futuramente

conhecido como Bhīṣma

Fig. 20

O rei Śāntanu apaixona-se por Satyavatī

Após a morte de Śāntanu, Satyavatī e seus dois filhos (Chitrāngada e Vichitravirya) herdam o reinado. Mas estes morrem ainda jovens. Quando ocorre essa tragédia Vyāsa fica subitamente sem personagem para continuar a sua narrativa. Ele precisa de sucessores nesse reinado. Satyavatī pede a Bhīṣma que tenha herdeiros, mas este lembra-a de sua promessa de voto de castidade. Quem, então, Satyavatī procura pelas florestas para solucionar o problema? Ninguém menos que o seu primogênito, o próprio Vyāsa. Pede-lhe para que tenha herdeiros com as duas viúvas (Ambika e Ambalika). Nascem dessa união Dhṛtarāṣṭra e Pāṇḍu, futuros pais respectivamente dos Kaurava e dos Pāṇḍava. No entanto, Ambika, apavorada com a aparência horrenda de Vyāsa, acaba fechando os olhos quando concebe Dhṛtarāṣṭra, por isso ele é o “filho da escuridão”, o filho cego. Mas Ambalika, apesar de não se intimidar com a presença de Vyāsa, ficou branca e pálida e devido a isso seu filho Pāṇḍu foi considerado o “filho da luz”. Dhṛtarāṣṭra é “aquele que suporta”, “aquele que tem um reino seguro”, dhṛta, “ reino”; Pāṇḍu é o “branco, pálido” (CAMPBELL, 1994, 262). Assim, o autor passa a ser também pai dos seus personagens. “A carne penetra a palavra”, como observa Carrière (CARRIÈRE, 2002, 267) e dessa forma, a castidade de Bhīṣma desencadeou o nascimento dos dois novos personagens.

Vyāsa, ficando mais velho, pede certo dia a Gaṇeśa, filho de Śiva e Parvati, que registre a história sobre seus filhos Dhṛtarāṣṭra ePāṇḍu e seus netos, iniciando-se assim, a narrativa.

Fig. 21

Vyāsa narra ao Gaṇeśa as peripécias de Mahābhārata.

In document CMI REPORT (sider 79-82)