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O debate de 1953, que envolvia a localização da capital, seja no planalto central ou Triângulo Mineiro, não parece ter tido repercussão n’A Tribuna de Paracatu. Nas páginas do jornal, a única localização da capital era aquela assinalada por José Bonifacio na comarca de Paracatu. Logo não foi encontrado no jornal relação direta com o Decreto nº 1.803/1953, assim como referência à comissão de estudo da localização da nova capital do Brasil, a qual foi presidida pelo engenheiro geógrafo militar Djalma Poli Coelho.

218 VIDAL, Laurent. De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (séculos XIX-XX). Tradução Florence Marie Dravet. Brasília: UnB, 2009.

A missão Poli Coelho foi estudada por Ernesto Silva220. De acordo com ele,

a missão gerou um relatório perfeito sobre a mudança da capital, no qual foram abordados todos os assuntos pertinentes como o clima, a geologia, os solos para a agricultura, as fontes de energia elétrica, o suprimento de água, a flora e a fauna, as vias de comunicações, tudo amplamente estudado; um relatório com enormes volumes e mapas. Entre os sítios assinalados por Poli Coelho, deu-se preferência ao demarcado pela Missão Cruls, estabelecida no final do século XIX: o planalto central.

Após a demarcação definitiva do terreno, coube ao marechal José pessoa presidir o estudo definitivo para a implantação da nova capital no planalto central221. Os limites do Distrito Federal foram apresentados ao Brasil por um decreto do governador do Goiás, José Ludovico de Almeida, datado de 30 de abril de 1955.222

Fig. 23: Local escolhido pela comissão marechal José Pessoa e a superfície desapropriada pelo governo de Goiás (1955).

Fonte: VIDAL, Laurent. De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (século XIX-XX). Trad. Florence Marie Dravet. Brasília, ed. Universidade de Brasília, 2009, p.173.

Em 22 maio de 1955, A Tribuna de Paracatu publicou o artigo “Em Planaltina

a capital federal,” no qual foi identificada a localização da futura capital e seus limites,

afirmando-se que seria nas redondezas de Planaltina, Formosa e Luziânia223. E informou-se que o local escolhido foi anunciado por Marechal José Pessoa na capital do

220 SILVA, Ernesto. História de Brasília. Brasília. Editora de Brasília/INL, 1971. 221 VIDAL, Laurent. Op.cit., p. 171.

222 SILVA, Ernesto. Op.cit., p. 80.

223 EM PLANALTINA A CAPITAL FEDERAL, A Tribuna de Paracatu. Paracatu, Minas Gerais, ano 3, n. 111, 22 de maio de 1955, p.1.

estado de Goiás, ocasião na qual foi informado que o projeto da nova cidade já estava em fase de conclusão, com transporte exclusivamente subterrâneo e com o traçado mais moderno possível.224

A Tribuna de Paracatu também publicou, em maio de 1955, o artigo “Uma era de progresso e bem estar”, com palavras de otimismo e acreditando nas melhorias propostas pela capital.

Com o advento da mudança da Capital Federal para o Planalto Goiano, Paracatu conhecerá uma nova era de progresso econômico e industrial. As iniciativas particulares não se farão esperar e os capitais de outros estados, por certo se transferirão para a nossa cidade, fatores que marcam uma era de progresso e bem estar.225

Portanto, em alguns momentos, A Tribuna de Paracatu demonstrava euforia com as notícias. Afinal, conforme mencionava o referido jornal, o progresso se aproximava. E, nessa ocasião, o progresso era representado pela proposta de melhorias na economia e indústria. O jornal defendeu a ideia de que recursos financeiros de outros estados fossem direcionados para Paracatu. Ainda na mesma reportagem observou-se a expectativa de que todas as reivindicações feitas ao longo dos anos – referentes a estradas, aeroporto, agência bancária, hospital, praça de esporte, ginásio, indústria, proteção a lavoura e pecuária – seriam sanadas. “É o progresso que se aproxima rápido e com ele a esperança de melhores dias [...] para Paracatu a velha ‘Atenas Mineira’ que sairá da ‘inépcia escuridão’ que viveu por muitos anos, mas agora entrará para a história”226. E a Tribuna mantinha um discurso voltado

para um suposto futuro glorioso: “o Brasil do futuro passará a concretizar-se com o verdadeiro país do presente [...] Paracatu conhecerá uma nova era de progresso econômico e industrial”227. A Tribuna de Paracatu afirmou na reportagem que as obras de desapropriação das terras já haviam se iniciado228. De acordo com os correspondentes no Rio de Janeiro, já estava autorizada a instalação do futuro aeroporto no planalto central para facilitar a ligação do Rio com a nova capital.

A reportagem referente ao discurso de progresso foi publicada em maio de 1955, no mesmo ano em que ocorreriam as eleições para presidente da República. O

224 Ibidem.

225 UMA ERA DE PROGRESSO E BEM ESTAR. A Tribuna de Paracatu. Paracatu, Minas Gerais, ano 3, n. 111, 22 de maio de 1955, p.1.

226 Ibidem. 227 Ibidem. 228 Ibidem.

entusiasmo presente n’A Tribuna de Paracatu com a nova capital parecia não depender do candidato à Presidência. Assim, a construção de Brasília demonstrava ser um fato consolidado sem retrocesso, independentemente do candidato eleito.

Quais eram os discursos ou promessas dos candidatos a presidência, conforme A Tribuna de Paracatu? Far-se-á uma breve análise das reportagens e das propagadas eleitorais que antecederam as eleições de outubro de 1955, sabendo que um dos discursos fundamentais, nesse período, para a composição da história da nova capital não foi identificado no jornal de Paracatu: o pronunciamento em Jataí-GO. Ressalte-se também que as reportagens dedicadas à campanha eleitoral foram poucas, e que o candidato Juscelino Kubitschek teve uma imagem negativa em Paracatu devido às promessas feitas na cidade quando era governador do estado, bem como devido ao fato de ter deixado o mandato sem cumpri-las.

Na campanha eleitoral para a Presidência, em 04 de abril de 1955, Juscelino Kubitschek prometeu, em Jataí (GO), seguir a Constituição e construir a capital229. Entretanto, n’A Tribuna de Paracatu não foi encontrada nenhuma reportagem que fizesse ligação entre JK e Brasília durante o período eleitoral. Para as eleições de 03 de outubro de 1955, o candidato mais influente na construção da capital, conforme os anúncios d’A Tribuna de Paracatu, foi Juarez Távora, que tinha a sua imagem vinculada diretamente à transferência. Vale ressaltar que foi o ex-tenente Juarez Távora que levou o Marechal Pessoa para a Comissão de Localização da Nova Capital.230

229 OLIVEIRA, Juscelino Kubitschek. Porque construir Brasília? Rio de Janeiro, ed. Bloch, 1975, p. 6. 230 SILVA, Luiz Sérgio Duarte da. A construção de Brasília: modernidade e periferia. Goiânia. Ed. da UFG, 1997, p. 58.

Fig. 24: Candidato Juarez Távora Fig. 25: Candidato Juscelino Kubitschek Fonte: A TRIBUNA DE PARACATU, Paracatu, Minas Gerais, ano 4, n. 125, 28 de agosto de 1955, p.1.

No anúncio, o candidato Juarez Távora, da UDN (União Democrática Nacional), convidou os eleitores para votar, e sua chamada de campanha era “Juarez Távora será o único presidente a mudar de fato o Distrito Federal para o Planalto Goiano, porque como militar sabe mais que nenhum outro a necessidade premente desta mudança”.

A propaganda eleitoral foi apresentada nas páginas d’A Tribuna de Paracatu nos últimos meses que antecederam as eleições. O mesmo ocorreu com Juscelino Kubitschek do partido PSD (Partido Social Democrático) – ambos apareciam na primeira ou na última página do jornal –, que prometia erguer o Brasil: “com seu voto, Juscelino dará energia, transporte e alimentação ao Brasil”. Em outros anúncios eram feitas referências às benfeitorias realizadas em Minas Gerais, quando governador. Foram elas: 5 usinas, 52 novos campos de viação, 251 pontes, 187 prédios escolares,

120 postos de saúde, 37 praças de esporte e uma faculdade de Direito, duas de Medicina e uma de Odontologia.231

Maria Victoria de Mesquita Benevides232 expôs em seu livro as propostas de Juscelino Kubitschek para o Programa de Metas, que tinha como objetivo melhorar e ampliar as atividades produtoras e elevar o nível de vida da população com novas oportunidades de emprego. Para isso, propôs 31 metas distribuídas em 6 grandes grupos.233

- Energia (metas de 1 a 5 – energia elétrica, nuclear, carvão, produção de petróleo e refinação de petróleo);

- Transporte (metas de 6 a 12 – reequipamento de estrada de ferro, construção de estrada de ferro, pavimentação de estrada de rodagem, construção de estradas de rodagem, portos e barragens, ampliação da frota marinha mercante e melhorias no transporte aéreo);

- Alimentação (metas de 13 a 18 – aumento da produção de trigo, construção de armazéns e silos, assim com armazém frigoríficos e matadouros industriais, mecanização da agricultura e produção de fertilizantes);

- Indústria de Base (metas de 19 a 20 – expansão da produção do aço, alumínio e metais não ferrosos, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha, exportação de ferro, desenvolvimento da indústria automobilística e de construção naval, maquinária pesada e equipamento elétrico);

- Educação (meta 30);

- Construção de Brasília (meta 31 – meta síntese).

O Programa de Metas de JK não foi apresentado n’A Tribuna de Paracatu, seja como propaganda política ou reportagens. No jornal, entre junho e outubro de 1955, a construção de Brasília apareceu tão somente nas promessas de campanha eleitoral de Juarez Távora.

Nas palavras d’A Tribuna de Paracatu observou-se um alerta à população para tomar cuidado em quem votar, pois as promessas que Juscelino Kubitschek fez para Paracatu quando era governador não teriam sido cumpridas, tais como a praça de

231 A TRIBUNA DE PARACATU, Paracatu, Minas Gerais, ano 4, n. 123, 14 de agosto de 1955, p.1 232 BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. O Governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

esporte e o ginásio234. Em abril do ano eleitoral, o editor-chefe publicou um

questionamento referente aos candidatos à presidência: “Onde está o homem ideal?”235. E fez acusação ao ex-governador que tanto prometeu e pouco cumpriu para os paracatuenses. O repórter reconheceu as benfeitorias em Minas Gerais, mas alegou que, para Paracatu, JK somente fez promessas.236

Pela ausência de informações sobre a eleição particular em Paracatu para o ano de 1955, não se sabe se a campanha eleitoral d’A Tribuna de Paracatu com imagem negativa referente a Juscelino Kubitschek surtiu efeito. O que se sabe é que o resultado das eleições do dia 03 de outubro de 1955 teve JK como presidente eleito do Brasil.