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Paracatu foi uma cidade fundada no período aurífero pelos bandeirantes em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII, com certa importância econômica durante o período para o referido estado. Mas, ao final do século XIX, já demonstrava decadência, coincidindo com os anos finais do período colonial130. Nesse período, antes

126 VIDAL, Laurent. De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (séculos XIX-XX). Tradução Florence Marie Dravet. Brasília: UnB, 2009.

127 BARBOSA, Daniel Henrique Diniz. Tecnoburocracia e pensamento desenvolvimentista em Minas

Gerais (1903 – 1969). Tese (Doutorado em História) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

128 BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. O governo Kubitschek: a esperança como fator de desenvolvimento. In. O Brasil de JK. GOMES, Ângela de Castro. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. 1991.

129 CEBALLOS, Viviane Gomes de. “E a história se fez cidade...”: construção histórica e historiográfica de Brasília. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.

130 MELLO, Antônio de Oliveira. As Minas Reveladas (Paracatu no Tempo); 2. ed. Paracatu: Prefeitura Municipal de Paracatu, 2002, p. 248.

da decadência, a cidade era referência na cultura de Minas Gerais, o que permitiu que fosse conhecida posteriormente como Atenas Mineira. Foi ainda no século XVIII que Paracatu recebeu o Decreto para a criação das “cadeiras de Retórica e Filosofia”, em 17 de maio de 1821, na então Vila de Paracatu do Príncipe.131

A decadência econômica de Paracatu, ou, pelo menos, a transição para outro ciclo econômico baseado na agropecuária, foi interpretada, mais tarde, como sinal de uma cidade “adormecida” que um dia deveria voltar ao período de glória. Uma poesia de Beatriz Botelho Vasconcelos, publicada ainda em 1945, transmitia certo entender sobre o que se passava na cidade.

A cidadezinha dorme

Encolhida num cantinho do mundo. Enquanto pelas ruas tortas

As horas, esquecidas se estiram Lentas e empoeiradas,

Até se perderem nos becos escuros.132

O discurso de que a cidade “dorme”, assim como se encontra “encolhida num cantinho do mundo” após o ciclo do ouro, mostrou-se frequente nas páginas do jornal, seja por entrevistados ou por reportagens do cotidiano da cidade. Entretanto, a imprensa de Paracatu também demonstrava uma necessidade de romper com um passado “estagnado” no tempo.

[...] A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar.133

A Tribuna de Paracatu buscou elaborar um discurso de modernidade para seus leitores. E, para isso, foi necessário introduzir elementos que tenderiam a provocar mudanças. Os elementos utilizados pela imprensa no início da década se mostraram pouco expressivos para um termo carregado de significados que, ao longo da história, envolveram transformações, mudanças, rupturas.

131 Ibidem, p. 249.

132 Ibidem, p. 131.

133 BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. A aventura da Modernidade. São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p. 15.

Nos primeiros anos do jornal, A Tribuna de Paracatu buscou mostrar que a modernidade se aproximava da cidade com a instalação da gráfica da própria imprensa e novas construções que surgiram na cidade. O discurso de modernidade envolvia o “progresso” de Paracatu e a esperança de dias melhores e mudanças. A seguir encontra-se a poesia que acompanhou a primeira edição d’A Tribuna de Paracatu:

Paracatú

Lá no fim do sertão, muito além da chapada. Formosa e senhoril, altiva e donairosa, a cidade nasceu da terra conquistada pela audácia tenaz da raça corajosa Vóvózinha gentil das cidades mineiras, em plena floração da beleza outonal, ela se reloucou com o ouro das bandeiras e viveu o esplendor da era imperial, Fidalga e jovial, cheia de graça amável, estendendo ao viajante a sua mão amiga, conservando, porém, intacta, imutável, a bravura que herdou da sua gente antiga É assim Paracatú. Uma rara mistura de arrôjo, destemor e de delicadezas. Sertanejos que são heróis sem armadura e fidalgos gentis sem brasões de nobreza. Velhos sons a rolar do sinos protetores marcam dias de festas e noites de novenas. A terra exuberante é um poema de côres. Velhas águas murmuram velhas cantilenas. Lá no fim do sertão, muito além da chapada, definitivamente instalada na história,

sustentando, orgulhosa, a grandeza passada, Paracatú revive o seu sonho de glória.134

Na poesia há um resgate da história de Paracatu do período aurífero e do esplendor da era imperial. Nas palavras do poeta, era uma cidade acolhedora aos viajantes. Na poesia, observa-se ainda o orgulho do passado, de uma memória que se mostrou muito ativa também nas páginas do jornal, assim como a sua localização “lá no fim do sertão, muito além da chapada”, dando a entender que naquele período Paracatu estava “escondida”, mas tinha um sonho de glória.

No discurso do jornal, algo de novo acontecia em Paracatu, o que provocou o sentimento de “despertar”. A Tribuna de Paracatu se colocava como portadora do progresso, sugerindo que a imprensa contribuísse com o novo “período de glória” retratado na poesia. Entretanto, essa situação vai além da visão do poeta e encontra ecos na visão do jornal.

Em 1953, o jornal publicou o artigo “Paracatu de nossos dias”135, no qual foram utilizadas expressões como “surto de progresso”136 e abandono da “velha cidade”137. Eram termos que evocavam mudanças: “Paracatu sacode-se do pó, dos velhos tempos coloniais e ergue-se das ruínas do desânimo e do desinteresse em que viveram tantos anos, para ressurgir mais bela, mais moça, mais progressista”138. A representação do moderno referia-se a duas casas com características distintas das construções coloniais e de dois novos edifícios que foram erguidos na Rua Goiás: um cinema e um hotel.

Fig. 12: Residência do Sr. Claudio Brochado.

Fonte: PARACATU DE NOSSOS DIAS. A Tribuna de Paracatu. Paracatu, Minas Gerais. Ano 1, n. 28, 07 de jun. 1953, p.1.

135 PARACATU DE NOSSOS DIAS. A Tribuna de Paracatu. Paracatu, Minas Gerais. Ano 1, n. 28, 07 de jun. 1953, p.1.

136 Ibidem. 137 Ibidem. 138 Ibidem.

Fig. 13: Residência do Sr. Gastão Lepesqueur

Fonte: PARACATU DE NOSSOS DIAS. A Tribuna de Paracatu. Paracatu, Minas Gerais. Ano 1, n. 28, 07 de jun. 1953, p.1.

Fig. 14: Cine Paracatu

Fonte: Acervo particular, João Lopes Figueira (antigo morador da cidade).

É interessante observar que o suposto surto de progresso alardeado pel’A Tribuna de Paracatu era baseado em quatro construções erguidas em Paracatu, cuja arquitetura foi considerada “moderna” se comparada às edificações do período. Nas casas é possível observar que a linguagem arquitetônica diferenciava das casas geminadas que predominavam nas cidades coloniais. Sugerindo Portanto, que as

edificações foram instaladas nas fazendas devido ao porte da casa e por estarem isoladas das demais. O cinema, além de mostrar uma arquitetura que se sobressaísse das demais, tinha o seu valor cultural que instigava mudanças. Assim, as edificações se destacaram porque, ainda segundo a imprensa a cidade, deveria renascer mais “bela”139, mais “moça”140 mais “progressista”141, e, para isso, foram eleitos símbolos que inspirassem a população.

O discurso reiterado pelo jornal era de que Paracatu passou por um período de abandono e decadência após o ciclo do ouro e, por longos anos, viveu as “sombras” do período, na expectativa de um dia voltar a ter projeção nacional. Logo, A Tribuna de Paracatu explorou esse passado para instigar a população a deixar para trás a decadência e caminhar para um futuro melhor. Em especial, consideravam-se mudanças no estado mineiro e novas expectativas para o país. A Tribuna de Paracatu demonstrou querer resgatar a história e dar novos significados.

A partir do levantamento dos primeiros anos do jornal, procurar-se-á, a seguir, reforçar a relação d’A Tribuna de Paracatu com o discurso de “progresso”, destacando o seu envolvimento com a cidade e com agentes políticos.