2 Methods and Concepts
4.4 Conclusion
Depois do enquadramento teórico que anteriormente descerrámos e que naturalmente assiste à problemática que almejamos analisar no estudo, importa compreender de que modo o exercício da liderança é interpretado e cumprido pelos coordenadores ou coordenadoras dos departamentos curriculares – aqui presentes como estrutura de orientação educativa nas escolas – e se podem, ou não, ser indutores de práticas educativas edificadoras de uma cultura moral promotora do clima moral de escola.
Para a consecução dos objetivos propostos desenvolvemos um estudo, baseado no paradigma qualitativo, de uma instituição escolar de ensino público, tendo esse estudo decorrido no ano letivo de 2012/2013. As técnicas de recolha de dados selecionadas foram a entrevista e o grupo focal. As entrevistas foram destinadas aos professores ou professoras que ocupam cargos de liderança intermédia (particularmente o de coordenador/a de departamento curricular), com a finalidade de se perceber o entendimento que têm sobre a liderança e como a colocam em prática. Pretendemos ainda perceber as opiniões que manifestam sobre a comunidade educativa da escola, os valores que a norteiam, e de que modo planeiam e executam as práticas educativas, enquanto componentes do sistema de práticas exclusivas da escola à qual pertencem. A realização do grupo focal foi efetivada com alguns docentes da escola-alvo e teve como objetivo auxiliar a caracterizar o clima (moral) da escola.
Neste capítulo passamos a expor a fundamentação metodológica da investigação que realizámos. Na sua fase embrionária desenvolvemos uma etapa exploratória que nos levou à apropriação do quadro teórico e normativo subjacente à temática que queríamos investigar. Seguidamente, e atendendo ao domínio subjetivo e interpretativo inerente à temática do estudo idealizado, optámos pela seleção de uma metodologia qualitativa. Por considerarmos ser esta a metodologia que melhor se molda ao nosso propósito. Prosseguimos com a apresentação e justificação da natureza do estudo, de seguida expomos os objetivos e as questões de investigação, procedemos à caraterização dos sujeitos e dos procedimentos adotados na investigação e, finalmente, expomos as técnicas de recolha de dados que utilizámos e a sua respetiva fundamentação, bem como os resultados recolhidos.
2.1.1. Natureza do estudo e a sua justificação.
No processo de conceptualização da investigação é importante dedicarmos alguma atenção à opção metodológica, a sua seleção pode ser um fator determinante para que se atinjam com sucesso os objetivos propostos. Pensamos que a análise do clima moral da escola e o papel
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que os/as coordenadores/as têm como lideres na construção da cultura moral da escola, e no respetivo clima, não pode ser feita somente a partir de dados de natureza estatística, necessita também, na nossa opinião, de uma análise que enfatize o aspeto mais arbitrário das relações dos docentes com a própria instituição escolar ondem exercem funções. Como refere Coutinho (2008) pretende-se através da compreensão e dos significados “penetrar no mundo pessoal dos sujeitos” (p.7). O mesmo autor alude a Latorre et al. (1996, p.42) quando cita que o investigador pretende “(…) saber como interpretam as diversas situações e que significado têm para eles” (Coutinho, 2008, p.7). Sendo a investigação em educação o universo no qual se situa o sistema que pretendemos investigar, nomeadamente o papel desempenhado pelos/as coordenadores/as de departamento curricular e o clima moral da escola, ponderámos que seria mais adequado desenvolver o estudo baseado no paradigma qualitativo. Urge ainda clarificar que neste estudo consideramos a nossa unidade de análise a coordenação de departamento curricular, particularmente o exercício das práticas de liderança na gestão do grupo de docentes, enquanto promotora de disposições, práticas e valores construtores de um clima moral de escola. Entendemos que, devido à extrema complexidade da realidade escolar, essa metodologia nos permite um ganho de alguns créditos, uma vez que possibilita a descrição, a interpretação, e análise de fatos que podem ser estudados de uma forma mais contextualizada. No dizer de Afonso (1994) a abordagem qualitativa permite que a recolha de dados se realize em contextos reais, constituindo uma aproximação das situações naturais às fontes diretas de dados, admite também a valorização da descrição, e permite ainda a interpretação de situações e de processos.
No prosseguimento da justificação do enquadramento do nosso estudo numa abordagem qualitativa convém ainda referir que, neste caso, a investigadora está especialmente interessada na interpretação dos significados atribuídos pelos sujeitos à sua ação numa realidade socialmente construída. De acordo com Zanelli (2002) a realidade de cada organização emerge de um fenómeno social, e é partindo deste pressuposto que como investigadores pretendemos traduzir a interpretação do que fomos observando e auscultando, tentando compreender nas pessoas o sentido e ação que se imputam no seu próprio contexto de trabalho. Dessa maneira procurámos uma compreensão sobre as intenções, os significados, os valores, as crenças, e as opiniões que os sujeitos, num determinado contexto específico, atribuem às suas ações, bem como as inter-relações que estabelecem no contacto com os outros. Consideramos ser fundamental analisar o modo como os sujeitos atuam e como explicam a realidade circundante. Pretende-se, a partir dos testemunhos que os próprios sujeitos expressam, conceptualizar um quadro explicativo que nos oriente para uma conclusão da situação problemática em estudo. Perante o que fomos expondo podemos considerar que se trata de um estudo básico ou genérico (Merrian, 2002, Godoy, 2005). Segundo estes autores, os estudos básicos qualitativos possuem as características essenciais da metodologia qualitativa, mas podem não ter todos os requisitos para se enquadrarem como um estudo de caso (Godoy, 2005, p.81). Têm como finalidade “descobrir e compreender um
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fenómeno, um processo, ou as perspetivas e visão do mundo das pessoas envolvidas”(Merrian, 2002, p.6) e também citado por (Godoy, 2005). Assim sendo, podemos enquadrar esta investigação numa abordagem interpretativa. Reforçando o que se expôs anteriormente, a investigação interpretativa surge a partir do interesse pela vida e pelas perspetivas das pessoas sobre um determinado assunto, tal como mencionado por Canas (2011) e referindo-se a Erickson (1989), dado que a partir dos dados recolhidos, interpretamos as suas vozes, atribuindo-lhes significados.
Cientes da importância que tem a objetividade do investigador neste tipo de estudos, de cariz qualitativo, foi nossa preocupação assumir uma conduta que interferisse o menos possível na apreciação dos dados que nos foram sendo relatados e registados, pois que de acordo com Chizzotti (2003) o investigador nem sempre consegue alhear-se da realidade, e do conhecimento que detém sobre o contexto sobre o qual incide a investigação, parafraseando este autor “o pesquisador está marcado pela realidade social (…) a objetividade está delimitada pelo comprometimento do sujeito com a sua realidade envolvente” (p.230).
2.1.2. Objetivos e questões de investigação.
O Decreto-Lei n.º 115-A/98 de 4 de Maio estabelece no contexto organizacional da escola a criação de estruturas de orientação educativa5, e estas passaram a ser superintendidas pelos denominados gestores intermédios, de entre os quais destacamos a figura do coordenador de departamento curricular. Na última década muitas foram as alterações que foram sendo instituídas na escola, nomeadamente a alteração ao Regime de Autonomia e Gestão das Escolas (Decreto-Lei n.º 75/2008), no qual se viu acrescer a valorização das funções e competências desses gestores intermédios6, nomeadamente com a atribuição de poderes de decisão e de liderança. Assim, a nossa atenção recaiu sobre os intervenientes que se situam numa posição intermédia na hierarquia organizacional da escola. O interesse pelo estudo desta temática suscitou a curiosidade de alguns investigadores que nos últimos anos têm apresentado trabalhos, principalmente de âmbito académico, sobre a relevância deste cargo. Todavia parece-nos serem ainda escassos os estudos, sobretudo no contexto português, que pretendem compreender as relações que se podem estabelecer entre o exercício deste cargo, em particular as mais relacionadas com as suas práticas de liderança, e o clima moral das escolas.
Foi através da análise teórica e conceptual que realizámos, e também do escrutínio que fizemos a partir de outros estudos investigativos realizados na área da educação, que
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O Artigo 34.º, ponto 1, define estas estruturas como colaborantes na consecução das finalidades, metas e objetivos constantes nos respetivos PE.
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O Artigo 42.º, ponto 1, onde se pode constatar que além das funções inicialmente estabelecidas pelo DL n.º115-A/98, ainda fica responsável pela supervisão, promoção do trabalho colaborativo e avaliação de desempenho do pessoal docente.
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conseguimos identificar com melhor clarividência a problemática que desejávamos investigar. Transposto esse dilema inicial ficou relativamente clara qual seria a questão de partida para o nosso estudo. A questão geral que norteia a presente investigação é a seguinte:
De que modo os gestores intermédios presentes na estrutura organizacional das escolas, especialmente os/as coordenadores/as de departamento curricular, podem contribuir para a construção de um clima moral na escola.
Dado tratar-se de um estudo de matriz qualitativa não iremos formular hipóteses, mas em sua substituição definiremos os objetivos que pretendemos atingir. Neste âmbito, consideramos como objetivos principais do nosso estudo, os subsequentes:
1. Compreender em que medida os/as coordenadores/as de departamento curricular se retratam relativamente ao exercício da liderança no cumprimento do exercício do cargo.
2. Identificar os valores educacionais, ou morais, mais significativos para a comunidade educativa da escola em estudo, através das perceções de alguns dos docentes.
3. Conhecer a opinião de alguns docentes sobre o sistema de práticas presente na escola em estudo – apreciação da cultura (moral) de escola
4. Interpretar os indícios/evidências de efeitos, e influências, da liderança dos/as coordenadores/as de departamento curricular na cultura e no clima moral da escola.
Pretende-se, com este estudo empírico, compreender de que modo os coordenadores e as coordenadoras de departamento curricular contribuem para a construção do clima moral na escola. O clima moral da escola resulta da perceção coletiva das condutas que são vividas na escola, assim sendo, a perceção advém da cultura moral da escola, isto é, do conjunto de práticas desenvolvidas e que se fundamentam em valores que supostamente são partilhados pela comunidade educativa. Da análise teórica, que serve de enquadramento a este estudo, transparece que o clima moral é amplamente influenciado pelos seguintes vetores: o tipo de comunidade educativa presente na escola; os valores de educação e morais que são grupalmente aceites e valorizados por essa comunidade, e as práticas educativas que são realizadas na escola. Assume-se que será no seio da própria comunidade educativa que são gerados todos os processos que, posteriormente, se desenvolvem na escola, esses procedimentos estão alicerçados nos valores partilhados, também no sentido tácito que dão à
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educação, e na valorização da escola como um meio específico para a disseminação e apropriação de valores morais. Partindo desse pressuposto posicionamo-la como uma “peça nuclear” no seio da organização escolar, por ser ela – comunidade educativa - a “mãe” de todas as práticas educativas que ocorrem na escola.
Serrano (2012) argumenta que a cultura moral permite aprofundar a ideia de que os significados compartilhados pelos membros de uma instituição são incorporados nas práticas que realizam, naturalmente a sua concretização permite a difusão de valores, de crenças e de significados. Consequentemente, a cultura e os valores compartilhados pelos membros da comunidade educativa influenciam as perceções e vivências dos seus membros - o clima- (Serrano, 2012).
Somos assim conduzidos a pensar que as interpretações que os distintos atores sociais fazem da escola resultam daquilo que lá se concretiza. Uma elevada percentagem dos “obreiros”, feitores “da riqueza”, da escola poderá, provavelmente, ser atribuída aos professores e às professoras que nela trabalham. Foi centrado nessa premissa, visando compreender de que modo os docentes podem ou não ser condicionados pela liderança exercida pelas pessoas designadas para a gestão intermédia das escolas, que conceptualizámos esta investigação.
Se o sistema de práticas que se realizam e se vivem na escola é relevante para a construção do seu clima moral, então é para nós essencial entender de que modo os/as coordenadores/as de departamento curricular, considerados/as gestores/as na estrutura organizacional da escola, assumem a liderança intermédia na organização escolar e promovem, ou não, práticas que são fomentadoras da cultura e do clima moral da escola.
Para realizar este estudo, e com o intuito de delimitar o seu campo de investigação, consideramos relevante atender a três dimensões: a liderança, os valores partilhados na comunidade educativa e as práticas educativas realizadas na escola. A escola como organização é composta por pessoas que agem conjuntamente, com a finalidade de se atingirem determinados objetivos. Arreigada a essa condição é ainda hierarquicamente estruturada, é regida por normativos estatuídos em valores que lhe são intrínsecos, é dependente do conjunto de pessoas (comunidade) que a compõem, e é procedente dos processos (práticas) que nela ocorrem.
Para cada uma destas dimensões estabelecemos algumas questões estruturantes que expomos no quadro 2.
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Quadro 2.
As dimensões e as respetivas questões estruturantes consideradas na investigação
Dimensões Questões estruturantes