6 World Gas Model scenarios for development of the global gas market
6.5 Case: U.S. LNG Exports
Será apresentada, neste tópico, uma síntese da teoria de ideologia proposta por Jonh B. Thompson (2009), em seu livro Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. A partir da reconstrução da trajetória dos sentidos atribuídos ao conceito ideologia por diversos autores, Thompson (2009) propõe uma definição crítica do termo, que sustenta estudos que procuram apreender se e como a produção, circulação e recepção de formas simbólicas produzem e sustentam relações de dominação. A definição crítica de ideologia apresentada por Thompson (2009) tem sido adotada como um dos arcabouços teóricos em pesquisas do NEGRI.
Ao percorrer os diversos significados do termo ideologia no Ocidente, Thompson (2009) apreendeu duas concepções: as neutras e as críticas. As concepções neutras referem-se a um conjunto de ideias, valores, crenças que permitiria certa coesão na sociedade, como um “cimento social”, podendo, na
29 língua portuguesa, o termo ideologia ser facilmente substituído pela palavra ideário. Por outro lado, as concepções críticas atribuem um sentido negativo ao conceito de ideologia.
Diferentemente das concepções neutras, as concepções críticas implicam que o fenômeno caracterizado como ideologia – ou como ideológico é enganador, ilusório ou parcial. E a própria caracterização desses fenômenos como ideologia carrega consigo um criticismo implícito ou a própria condenação desses fenômenos (THOMPSON, 2009, p.73).
Conforme o percurso de Thompson (2009) em torno da trajetória do conceito, o termo ideologia foi usado, pela primeira vez, pelo filósofo francês Destutt de Tracy, em 1796, com o sentido de ciência das ideias”, que serviria para descrever o projeto de uma nova ciência interessada na análise sistemática das ideias e sensações. A ideologia, para de Tracy, seria a base da gramática, educação, da lógica, da moralidade e da compreensão da natureza, possibilitando a reestruturação da ordem social e política, de acordo com os interesses humanos (THOMPSON, 2009). Trata-se, pois, de uma concepção neutra do termo.
Concepções neutras de ideologia ainda são apreendidas por Thompson (2009) em textos de Lukács, Lênin e em parte do legado de Mannheim, em seu conceito de “concepção total”.
Na continuação da retomada histórica em torno do termo ideologia, Thompson (2009) identifica alteração no conceito introduzida por Napoleão Bonaparte, o qual atribuiu conotação pejorativa quando, em contexto político de embate, associou, ao termo ideologia, ideias abstratas e ilusórias.
A ideologia como ciência positiva e eminente, digna do mais alto respeito, gradualmente deu lugar a uma ideologia como ideias abstratas e ilusórias, digna apenas de ridicularização e desprezo. Uma das oposições básicas que caracterizam a história do conceito de ideologia – aquela entre um sentido positivo e neutro de um lado, e de um sentido negativo e crítico de outro – já estava presente na primeira década de sua vida, embora a forma e o conteúdo dessa oposição iria mudar, consideravelmente, nas décadas que se seguiram (THOMPSON, 2009, p.48).
Dentre os pensadores que adotaram o sentido crítico da palavra, Thompson (2009) destaca Marx, cujas contribuições são fundamentais na
30 história do conceito de ideologia. Estudiosos, incluindo Thompson (2009), identificam, na obra marxiana, concepções que se sobrepõem umas às outras e que se relacionam de formas distintas com os diferentes movimentos do pensamento do autor. Para facilitar o estudo e a identificação dessas concepções em Marx, Thompson (2009) distinguiu e nomeou três delas.
A primeira delas foi denominada por Thompson (2009) de “concepção polêmica”, seria aquela conceituação marxiana que identifica, na ideologia, uma doutrina teórica equivocada, que olha as ideias abstratas como autônomas e isoladas do contexto sócio-histórico.
Na “concepção epifenomênica” marxiana, a ideologia seria um arranjo de ideias que expressariam os interesses da classe dominante, envoltos, porém, em representação ilusória das relações de classe (THOMPSON, 2009). A terceira concepção captada por Thompson (2009), e menos evidente que as demais nos escritos marxianos, é denominada como “concepção latente”, visto que Marx nunca empregou a expressão ideologia para se referir a ela:
(...) um sistema de representações que servem para sustentar relações existentes de dominação de classes através da orientação das pessoas para o passado em vez de para o futuro, ou para imagens e ideais que escondem as relações de classe e desviam da busca coletiva de mudança social (THOMPSON, 2009, p. 58).
As concepções identificadas na produção de Marx foram classificadas como negativas, sendo que, particularmente, a “concepção latente” constitui o arcabouço da conceituação de ideologia proposta por Thompson (2009), que mantém o caráter crítico e cujo enfoque é orientado para a análise concreta dos fenômenos históricos.
Thompson (2009) define, então, ideologia como as maneiras pelas quais:
(...) o sentido, mobilizado pelas formas simbólicas, serve para estabelecer e sustentar relações de dominação: estabelecer, querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação; sustentar, querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação através de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas (p.79).
31 As formas simbólicas referem-se ao conjunto amplo de ações, falas, imagens, textos, expressões, produzidos e reconhecidos em contextos e processos socialmente estruturados. Diferente de Marx, na concepção de Thompson (2009), as formas simbólicas, para serem ideológicas, não precisam ser necessariamente falsas ou ilusórias.
Outra divergência entre os dois autores refere-se à proposta marxiana sobre as relações de dominação serem sustentadas exclusivamente por relações de classe. Para Thompson (2009), as relações de classe constituem apenas um dos eixos da desigualdade social e menciona, entre outras, as relações de idade, nosso foco de estudo nesta dissertação, como um dos eixos possíveis em torno do qual a desigualdade social pode se estruturar.
(...) parece-me fundamental reconhecer que existem relações de poder sistematicamente assimétricas que estão baseadas em fatores diferentes dos de classe – que estão baseadas, por exemplo, em fatores de sexo, idade, origem étnica – e parece- me essencial ampliar o marco referencial para a análise da ideologia para dar conta desses fatores (THOMPSON, 2009, p.127, grifo nosso).
A última diferença entre ambas conceituações, destacada por Thompson (2009), é de que Marx desconsidera “o quanto as formas simbólicas e o sentido assim mobilizado são constitutivos da realidade social e estão envolvidos tanto em criar como em manter as relações entre pessoas e grupos” (p.78).
De acordo com o autor, as formas simbólicas se caracterizam através de cinco aspectos (THOMPSON, 2009):
- intencional: formas simbólicas são sempre intencionais, o que não significa que o objeto transmitido seja idêntico à sua intenção;
- convencional: adotam às regras e convenções envolvidas nos processos de produção, uso e interpretação das formas simbólicas;
- estrutural: as formas simbólicas exibem uma estrutura articulada; - referencial: as formas simbólicas representam algo;
- contextual: as formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas em contexto sócio-histórico.
32 A conceituação de Thompson (2009) destaca a importância do contexto, pois as formas simbólicas não são ideológicas em si. Este qualificativo lhes é atribuído apenas quando servem para produzir e sustentar relações de dominação. Portanto, para análise da ideologia, é imprescindível a contextualização sócio-histórica dos fenômenos simbólicos estudados.
Thompson (2009) sugere certos modos gerais de operação da ideologia e indica algumas maneiras como eles podem estar ligados, em circunstâncias específicas, a estratégias de construção simbólica. Apesar de não serem os únicos, o autor identifica cinco modos principais de operação da ideologia, que podem se sobrepor e se reforçar mutuamente, e suas estratégias de construção simbólica.
Apresentaremos, a seguir, uma breve descrição de cada modo e suas estratégias de construção simbólica de operação da ideologia.
1. A legitimação é um modo de apresentar as relações de dominação como justas e defensáveis. Ela se expressa via estratégias como:
a. racionalização: construção de uma cadeia de raciocínios para defender ou justificar um conjunto de relações assimétricas, entre pessoas ou instituições sociais, induzindo, por fim, ao apoio;
b. universalização: acordos institucionais de interesse de alguns são apresentado como extensivos a todos;
c. narrativização: o tratamento do presente pela forma simbólica como tradicional, eterno e aceitável.
2. A dissimulação se dá pelo obscurecimento, ocultamento ou negação das relações de dominação, na(s) forma(s) simbólica(s), de maneira a desviar a atenção do receptor. Suas estratégias, apresentadas pelo autor, são:
a. deslocamento: a transposição de um termo, e suas características positivas ou negativas, de um objeto (ou pessoa) para outro;
b. eufemização: descrição ou redescrição de ações, instituições ou relações sociais de modo que transmitam uma valoração positiva;
c. tropo: uso de figuras de linguagem que podem dissimular a relações de dominação, com destaque para a metonímia, a metáfora e a sinédoque. 3. A unificação é o modo de operação da ideologia que, por meio da criação de unidade entre sujeitos como uma identidade coletiva,
33 desconsiderando idiossincrasias, pode estabelecer e sustentar relações de dominação. As estratégias sugeridas por Thompson (2009) são: a. estandardização ou padronização: adaptação das formas simbólicas a
um referencial padrão a ser partilhado e aceito pelo coletivo;
b. simbolização da unidade: construção de um emblema de unidade, identidade e identificação coletiva, difundidos por uma ou mais instâncias grupais.
4. A fragmentação ocorre quando se segmentam indivíduos e grupos que, se unificados numa coletividade, poderiam representar uma ameaça ao grupo dominante. Ela se dá via estratégias, tais como:
a. diferenciação: ênfase dada pelas formas simbólicas nas diferenças e divisões entre pessoas e grupos, fortalecendo a desunião entre eles; b. expurgo do outro: construção de um inimigo perverso e ameaçador,
interno ou externo, contra o qual os indivíduos devem resistir e lutar; 5. A reificação é a retratação, pela forma simbólica, de uma situação
histórica e transitória como natural e atemporal, não considerando os processos sociais e históricos dos fenômenos sociais. Ela pode se dar através das seguintes estratégias de produção simbólica:
a. naturalização: retratação de elementos sócio-históricos como naturais e inevitáveis;
b. eternalização: cristalização simbólicade fenômenos sócio-históricos, através de sua apresentação como eterno, imutável e recorrente e pelo esvaziamento de seu caráter histórico. O que impossibilita o questionamento de sua existência e manutenção;
c. nominalização/passivização: apagamento dos atores e da ação, como se os fenômenos sociais acontecessem sem a atividade de alguém. Na nominalização, os fenômenos sociais são transformados em nomes, como algo com vida própria. Já na passivização, os verbos são colocados na voz passiva, evitando expor os sujeitos da ação (THOMPSON, 2009, p.81-89)
No caso desta pesquisa, acreditamos que os discursos proferidos pelas ACS são produções simbólicas que podem ser analisadas sob a ótica da teoria
34 de ideologia crítica, na medida em que são profissionais que seguem diretrizes de uma instituição.
Durante a apresentação de sua teoria, Thompson (2009) frisa que “estudar ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação” (p.76), reconhecendo as implicações metodológicas de sua teoria. Propõe, portanto, para a análise das formas simbólicas, uma metodologia que denominou hermenêutica de profundidade, objeto de síntese do próximo tópico.