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BIOENERGIENS ROLLE I ENERGISYSTEMET

In document Bioenergi i Norge (sider 80-85)

Apresentamos a seguir uma perspectiva geracional associando recortes representativos da participação de mulheres e da interação entre os casais, segundo a perspectiva dos membros das três famílias. Nas falas dos nossos interlocutores, a participação feminina nos modos de circulação das noções de cuidado com saúde recebeu grande destaque. A importância de avôs, mães e esposas foi citada tanto nos modos de circulação de mensagens verbais como nas práticas cotidianas.

9.2.1 A Geração das Bisavós

De modo geral, na organização da rotina familiar dessa geração as mulheres arcavam com praticamente todos os cuidados com a saúde dos filhos e realizavam as comunicações verbais e não verbais direcionadas ao tema. Os homens dedicavam-se prioritariamente ao trabalho, praticamente não se ocupando da circulação das noções de cuidado com a saúde. Apresentaremos a seguir alguns recortes dos relatos das famílias Matos e Cabral.

Na família Matos, Joaninha (bisavô) foi responsável pelo cuidado de oito filhos. Constituiu-se, assim, como o principal modelo de cuidado para Ade (o avô). No cotidiano familiar, Joaninha “se virava”, passava orientações e utilizava diversos recursos no cuidado com a saúde: plantas, emplastros, curativos, purgantes, elementos do conhecimento popular.

Simone (Pesq.) – E se acontecia alguma coisa com alguém, como vocês faziam?

Ade (A) – Como assim?

Simone (Pesq.) – Machucou, passou mal...

Ade (A) – Ah, sem ele [bisavô]? Ah! Ali...

Marinho (P) – Minha vó (Joaninha) acho que dava conta...

Ade (A) – Se virava, passava mentruz,54 enfaixava a perna, colocava qualquer coisa, enrolava pano, era tudo

nesse... Não tinha como hoje! Criança, olhava assim: “Essa criança tá ruim!” Pegava, tacava um purgante de óleo... que limpava tudo por dentro [risos].

(transcrição, linhas 275-280)

Vilar, o avô da família Cabral, relata que sua mãe falava e realizava práticas cotidianas de cuidado com a saúde com dedicação e assertividade, o que lhe permitia se sentir muito bem. O modo como ele aborda a temática nos faz crer que a interação era enriquecida, embora

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Erva fitoterápica, também muito conhecida como erva de Santa Maria, usada em diversos tratamentos.

Vilar tenha dificuldades em resgatar com clareza essa história, uma vez que tem de lidar com momentos em que as ideias se turvam e teimam em deixar as palavras desordenadas. Durante a entrevista lembranças e aspectos emocionais foram mobilizados e, mesmo assim, ele gentilmente se esforçou para compartilhar suas vivências. Nesse contexto, acabamos não tendo conhecimento do conteúdo das falas de sua mãe (a bisavó) direcionadas a ele e à família. No entanto, foi possível depreender que Joaninha tinha a “palavra certa” para cada pessoa.

[Cabral, o pai, falava dos cuidados que recebia de seus pais. Vilar, o avô, também se recorda de como era cuidado pelos próprios pais (os bisavós) e comenta:]

Vilar (avô) – Olha, a gente morava no sítio. O meu pai, por exemplo, saia cedo e voltava não sei nem que hora, porque ele lidava com boi e puxava tora [madeira] de carreta. Então, era pouquíssimo o horário [o tempo de convívio familiar]. A minha mãe já era mais... Fazia os cuidados necessários, aqueles que uma mãe tem com os filhos. E de acordo com as possibilidades que ela tinha, que eram bem pouco. Mas valeu muito. Era o eu, o ser dela, o ser humano! Ela tinha palavras e... acho que mal teve o curso primário, mas tinha uma palavra certa pra cada pessoa, pra cada filho, pra cada nora. Era certinha, se encaixava e não ofendia a pessoa.

(transcrição, linha 95)

9.2.2 A Geração das Avós

Passando para a geração das avós, os membros das três famílias descrevem participações semelhantes das bisavós. Elas se configuraram como grandes transmissoras dos cuidados com a saúde, as que falavam e eram observadas realizando grande parte dessas práticas cotidianas.

Segundo os Matos, a avó Florcheta também utilizava produtos fitoterápicos no cuidado familiar. Mas o que Ade, Marinho e João mais destacam é o modo pelo qual ela executava essa tarefa: superprotetor. O casal dessa geração encontrou uma maneira diferenciada da anterior para realizar as práticas de cuidados com a saúde. Ade relata que, observando os comportamentos superprotetores de sua esposa, optava por manter uma postura mais passiva, preservando ao máximo os familiares. Sua percepção é de que as pessoas “aguentam” e devem experimentar diferentes situações, inclusive as adversas.

Isso corrobora o que foi dito no momento em que se discutia o cuidado com a saúde durante a infância de Marinho, ressaltando a ideia de que a avó falava bastante (“não dava uma folga”), enquanto o avô, mesmo não concordando com as atitudes da esposa, procurava se manter mais afastado e não causar conflitos. Ele entendia que posturas antagônicas dos dois poderiam deixar o filho confuso. Nesse enquadre, talvez tivesse sido interessante questionar o quanto ele se sentia autorizado a participar mais efetivamente das atividades envolvidas nessa

área específica do convívio familiar. Ao que parece, seu comportamento também foi considerado uma medida de proteção e cuidado. Marinho, o filho do casal, refere-se à atenção materna com humor e, ao mesmo tempo, reconhece positivamente o modelo que o pai transmitiu.

Ade (A) – Eu me preocupo com minhas coisas: o que é seu, você... Eu deixo as pessoas se cuidarem. Às vezes a

gente fala: “Se cuida aí que a coisa está feia”. Você entendeu? Mas, não fico...

Simone (Pesq.) – Então, quando o senhor via que tinha algo que iria dar problema, aí é que o senhor chegava?

Ade (A) – É... Aí eu chego e falo. Se for local de precisar de algo: “Olha que a coisa tá feia!” O meu linguajar é esse...

Simone (Pesq.) – E quando ele era garotinho?

Ade (A) – Não, porque a mãe que falava, passava a mão na cabeça e corria atrás. E eu tinha que ficar mais

neutro pra não tumultuar tudo em cima dele também, que a mãe não dava uma folga... Só ficava...

Simone (Pesq.) – E como ela [avó] fazia?

Marinho (P) – Superprotetora! [risos]

Ade (A) – Não queria que ele pusesse o pé no chão, que ele saísse sem blusa, você entendeu? Do jeito de mãe.

Eu deixo que se vire.

Simone (Pesq.) – O senhor sabia que ele aguentava pôr o pé no chão?

Ade (A) – É lógico. O que acontece se botar o pé no chão? Sair sem blusa? [risos] Não faz nada! Ela, se vê um

ventinho... qualquer coisa... Até o João... Se tiver qualquer coisa lá, ela liga: “E o João chorou?”

João (F) – Eu não posso atender o telefone um pouco rouco que ela [avó] já manda um xarope de guapo pra

mim! [risos]

Simone (Pesq.) – Ela faz?

Ade (A) e Marinho (P) – É.

(transcrição, linhas 248-260)

Na família Cabral a participação de Florisbela, a avó, é descrita em meio à percepção de envolvimento, planejamento e afetividade, suscitando sensações de admiração e gratidão. Inclusive, o casal se diferenciava dos outros de sua geração pela configuração de uma parceria e pela cumplicidade na participação cotidiana. É interessante notar que Cabral (o filho do casal) frisa que quando recebia mensagens de cuidado com a saúde o que o marcou não foram as falas, mas os exemplos e as atitudes de ambos. De modo geral, em suas falas Cabral nos possibilita pensar que o casal dividia tarefas de cuidado com a saúde e que tanto o avô quanto a avó transmitiam mensagens sobre o cuidado e as faziam circular por meios verbais e pelas práticas cotidianas.

Simone (Pesq.) – O que você lembra que eles te falavam em relação a esses cuidados com saúde?

Cabral (P) – Eu acho que o falar nem tanto. O que ficou marcado na gente são as atitudes... De apresentar um

problema qualquer... E, por exemplo, meu pai conhece bem essa história aqui do joelho [aponta o joelho operado], porque às vezes eu saia pra jogar bola, eu era assim moleque, com 7, 8, 9 anos, depois à noite o joelho doía e chamava: “Pai, meu joelho tá doendo!” E ele vinha e friccionava o álcool ali, tal. E eu acalmava e voltava

a dormir. Então, era incrível... Na véspera de Natal me dava dor de ouvido. Você acredita? Então, saia minha mãe lá... Parava tudo e vinha botar olinho [óleo] quente. Então, falar nem tanto, mas eles estavam sempre prontos pra nos socorrer. São mais as atitudes... De a gente ter um problema qualquer e eles já prontamente sair atrás da solução.

(transcrição, linhas 80-81)

Em relação à participação da avó da família Batalhazzo, a situação é peculiar. Além da percepção do avô, pai e filho, também contamos com a de Dália, que esteve presente durante a entrevista. O relato familiar nos faz pensar que ela devia vivenciar uma rotina sobrecarregada com afazeres domésticos e a responsabilidade do cuidado cotidiano de várias crianças (eram nove filhos, além da presença constante de primos e amigos) não compartilhados com outros adultos. O grupo descreve que ela também seguia o estilo “puxar a orelha”. Dália tentava aconselhar e proteger os filhos; fazia recomendações e ameaças que, por vezes, não eram seguidas. Muitas de suas falas não tinham o efeito desejado – algumas vezes as crianças acabavam omitindo e/ou mentindo sobre determinadas situações. Como ocorre com os outros membros da família, nas falas de Dália aparecem mescladas tentativas de orientação, proteção e intimidação.

Dália (A) – E eu que ficava mais com eles [os filhos] em casa e falava assim: “Não vai fazer arte! Não vai brigar, porque se você apanhar na estrada, quando chegar em casa apanha mais!” Pra por medo, né? Mas, não valia de nada... Eles se ajuntavam com os outros e aprontavam...

Simone (Pesq.) – Mas, se eles brigavam com outros, quando chegavam à casa a senhora batia mesmo?

Dália (A) – Não! Não ficava sabendo!

Nascimento (A) – Eles [Ramos e os irmãos] “nunca brigavam”... Chegavam em casa, nunca tinham feito nada...

“Ninguém fez nada! Nada!”

Dália (A) – Ficava sabendo depois, pelos outros...

Nascimento (A) – Sempre eram santinhos... (transcrição, linhas 385-390)

Hoje, a avó continua tentando transmitir noções de cuidado para todos. Se antigamente ela procurava passar recomendações para que as crianças não se machucassem ou prejudicassem a saúde de alguma forma, agora sua preocupação é que o filho e o neto não deixem de se cuidar em função do excesso de trabalho.

Simone (Pesq.) – E se vocês fossem pensar sobre cuidado? Vocês falariam... acrescentariam alguma coisa ao

que vocês já falaram?

Dália (A) – Eu falo, muitas vezes, para vocês: “Cuidado... cuidado com sua... saúde!” Cuidado em trabalhar,

trabalhar, trabalhar, trabalhar, né? E não se cuidar! (transcrição, linhas 438-439)

Como casal, os avós da família Batalhazzo, mesmo atualmente, descrevem uma interação semelhante à dos bisavós. Existiu e ainda existe uma divisão clara das tarefas cotidianas. Nascimento se posiciona como trabalhador (provedor), distante da rotina familiar. Sua atuação é destacada principalmente em momentos de urgência. Em algumas ocasiões até parece tentar se justificar por não dispor de repertório para falar sobre cuidados com a saúde. Já Dália se ocupa das tarefas domésticas e de cuidados. Na interação entre o casal, é ela quem assume o dever da comunicação verbal; que recomenda, adverte, briga, fala inutilmente, afirma que tinha razão e não desiste de ser uma porta-voz do cuidado com a saúde. Também é interessante notar como o casal se completa para manutenção desse funcionamento até os dias de hoje. Mesmo durante a entrevista o avô delega para a companheira a função de falar sobre essa temática, tarefa que ela assume com disposição.

Simone (Pesq.) – E quando o Ramos era menor, menino, adolescente, vocês [avô e avó] passavam algum tipo de

cuidado pra ele?

Nascimento (A) – Não. Naquele tempo não existia isso, ainda mais lá no sítio. Lá, hoje mesmo, é uma coisa e aqui é outra!

Dália (A) – O cuidado em que sentido?

Simone (Pesq.) – Lá alguém falava: “Cuidado com isso, com aquilo? Com cobra... Cuidado com...”.

Nascimento (A) – Essa parte, sim...

Simone (Pesq.) – Então, como era? Como as pessoas falavam pra ele?

Nascimento (A) – Aí, essa parte... é melhor...

Dália (A) – Deixa eu falar. Tinha coisa que a gente nem esperava, porque ele mesmo [Ramos] pode contar o que

aconteceu com ele numa brincadeira de moleque...55 Subindo em cima de uma carreta de trator, pulando pro outro lado...

Ramos (P) – Caí. Subi na carreta, no corrimão da carreta, desequilibrei... Caí dentro da carreta... Rachou o crânio mais de meia volta por dentro, só. Aí, na hora, só fiquei atordoado. Meu irmão me levou pra dentro de casa porque eu não conseguia andar, desequilibrava. Mas não sabia o que tinha acontecido. No outro dia é que senti muita dor de cabeça. Aí meu pai levou no médico e viu que tinha trincado mais de meia volta no crânio. O médico disse: “Olha, não é pra subir nem descer escada porque se pingar sangue no cérebro pode... matar, né?” E meu filho [Lucas], como bom filho, também procurou fazer as mesmas coisas. Foi subir num tanque de lavar roupas, virou o tanque em cima dele, abriu um corte na testa, caiu de costas, abriu o crânio também, quebrou o dente no tombo... E eu também quebrei dente! Num tombo de varal de carroça... que eu subi... e os primos: “Sobe lá!!!” Depois balançaram, o varal, eu caí, bati e também quebrei dente. Tudo igual, sabe? Pra não ficar pra trás.

Dália (A) – Recomendação a gente dava muito, mas não vencia não, porque eles [os filhos] se afastavam um

pouquinho, se juntavam com dois, três primos e ali...

Simone (Pesq.) – Mas quem dava as recomendações? A senhora? Alguém mais?

55 Neste momento Dália muda a direção de sua fala, mas a retoma depois da intervenção do filho. Talvez sua

tentativa tenha sido de explicitar o que podemos observar com mais facilidade quando nosso olhar é ampliado para trecho integral. Percebemos que recomendações, orientações e conselhos que circulavam no cotidiano não são prontamente reconhecidos e, mesmo à época, eram comumente ignorados. Ao contrário, falas e comportamentos nessa área são logo identificados quando aparecem associados a situações com algum grau de seriedade.

Nascimento (A) – Não, eu não! Porque naquele tempo eu viajava muito. Eu trabalhava com caminhão na estrada. Então, era ela [Dália].

Ramos (P) – Minha mãe, ela que acompanhava mais de perto a criançada, né? Quando criança, eu adorava pegar

a faca, sair cortando as coisas... plantas... as coisas... E ela, aquela voz de mãe: “Cuidado com a facaaa!” Antes de terminar de falar, o dedo já estava cortado! Já tinha o corte no dedo. Isso era... Nossa!!!

(transcrição, linhas 322-334)

9.2.3 A Geração das Mães

Quando o enfoque é a geração das mães percebemos que a descrição da intensidade da participação das mulheres se repete nas famílias Matos e Cabral. A conversa com os Batalhazzo não abordou esse aspecto de modo significativo, mas cabe citar que seus membros relatam que a mãe dos garotos recebeu apoio das avós materna e paterna nos períodos pós- parto, uma prática de auxílio importante entre as famílias brasileiras.

Arabela, a mãe (Matos), tem sua participação destacada por meio de falas que visam prevenção e manutenção para a saúde familiar; por sua atenção e no cuidado direcionado tanto ao companheiro Marinho quanto aos filhos do casal. Ela se preocupa com os remédios, com o estado de saúde, com as condições ambientais e compra equipamentos, estando também envolvida nas consultas médicas.

Simone (Pesq.) – E quem próximo a você fala sobre saúde?

Marinho (P) – Quem fala de saúde?

Simone (Pesq.) – É. Cuidado com isso, com aquilo?

Marinho (P) – A minha mulher. [Ela fala que] Tem que cuidar aqui, cuidar ali... Tem que ir no médico. Tem que

ver isso, ver aquilo. Do jeito que fala pra ele [João], ela fala pra mim.

Simone (Pesq.) – E o que você faz com as coisas que ela [esposa] fala?

Marinho (P) – Me prontifico a ir. Do jeito que ela marca pra ele [João], ela marca pra mim. É tranquilo. Do jeito que tiver que ir eu vou. Não tenho muito problema com isso. Não sou aquele cara que fala não. Meu sogro acabou morrendo porque foi teimoso...

(transcrição, linhas 227-232)

Na interação entre o casal, Arabela e Marinho procuram compartilhar algumas práticas de cuidado com saúde de sua família. Ambos estimulam conversas sobre o cuidado com a saúde e fazem advertências similares. Por exemplo, em uma de suas falas João (o filho do casal) diz: “[...] Meus pais não gostam da ideia de andar de moto” (transcrição, linha 199). O garoto não diferencia a quem pertence a ideia. Contudo, nas práticas cotidianas a mensagem que eles fazem circular é que, em alguns momentos, existe uma divisão de tarefas. Por exemplo, enquanto a mãe se responsabiliza pelos cuidados rotineiros, o pai atende as

demandas surgidas em situações de urgência. Nesse aspecto, Marinho procura se diferenciar da postura mais passiva do avô, e faz questão de assinalar sua participação e sua capacidade de se adaptar para desempenhar a função de cuidador.

Simone (Pesq.) – O que ela [a mãe] faz que você [João] sente que ela está cuidando? João (F) – Ah, sei lá!!!

Marinho (P) – Tudo.

João (F) – Tudo [riso].

Simone (Pesq.) – O que é que tem nesse tudo? João (F) – Deixa eu pensar...

Marinho (P) – Remédio.

João (F) – Tudo que eu preciso fazer... Por exemplo, de vez em quando eu tenho muita dor de garganta, porque meu quarto é meio gelado; ou então, se eu durmo sem coberta e sem camisa eu já fico com dor de garganta. Ela sempre vai atrás de remédio, sempre vai em consulta.

Marinho (P) – Compra aquecedor pra ele...

João (F) – É....

Marinho (P) – Deixa ele sempre numa boa.

João (F) – Ela sempre está ajudando em alguma coisa assim.

Simone (Pesq.) – E é ela quem marca médico?

João (F) – Isso. Marinho (P) – Tudo.

Simone (Pesq.) – Ela sempre te acompanha?

João (F) – Sempre. Ah, toda vez que tenho uma coisa assim, eu falo: “Mãe, vamos passar no médico, no

hospital?” Ela fala: “Tudo bem, vou passar”. É que eu não passo muito, mas toda vez que eu preciso ela está lá.

Marinho (P) – Toda a preventiva é com ela e toda a crise sou eu.

Simone (Pesq.) – Que tipo de crise?

Marinho (P) – Ah, machucou, quebrou, bateu, cortou... Aí sou eu!

João (F) – Acidentes em geral...

Marinho (P) – Ela fica meio apavorada. Assim, ela fica meio traumatizada. Aí eu tenho que juntar, levar e cuidar. Depois ela toca dali. Ela vê que o negócio passou, ela toca dali pra frente.

(transcrição, linhas 172-193)

Na família Cabral, a mãe (Mel) é descrita como companheira, participativa e envolvida nos aspectos verbais e nas práticas cotidianas de cuidado com a saúde. Seu marido e seu filho observam suas atitudes de cuidado e preocupação com a saúde dos familiares. Na interação do casal (Cabral e Mel) encontramos a reprodução de aspectos também descritos na relação entre o casal dos avós, especialmente em termos de cumplicidade e participação compartilhada. Tais aspectos refletem-se na circulação das noções de cuidado, tanto por meios verbais como nas práticas cotidianas. No trecho abaixo podemos observar que quando

Cabral responde uma pergunta direcionada a ele sua frase inicial já agrega a participação da esposa.

Simone (Pesq.) – E você, Cabral, você lembra coisas que fala pro seu filho?

Cabral (P) – A gente tenta passar uma escala de valores que é até um tanto rigorosa... em função dos dias em

que vivemos. Dos 2, 3 anos dele até hoje. Então, a gente sempre teve muito atento a tudo. Em relação ao estudo, à conduta fora de casa... O esforço meu e de minha esposa, durante os anos em que eles são ainda crianças, pré- adolescentes, adolescentes, sempre foi que em um determinado momento da vida deles eles se tornassem competitivos no mercado de trabalho. Então, além do carinho, da atenção, daquela salvaguarda que cabe aos pais exercerem para com os filhos, esse aspecto de procurar dar a melhor escola, a melhor qualificação técnica, enfim... A gente sempre foi meio vigilante em relação às companhias, às condutas na escola. Eu nunca exigi: “Quero só dez aqui!” Não: “Olha, procure na escola aprender e no trabalho, ser competente, ser dedicado”. Assim não tem como falarem mal da pessoa. Então, essa foi sempre a tônica de conversar com eles e, graças a Deus, na prática, hoje, a gente vê que deu certo [...].

(transcrição, linhas 133-134)

9.2.4 A Geração dos Filhos

Entre os participantes posicionados nas famílias como filhos, no momento Beto (Cabral) está noivo, João (Matos) “está na pista” e Lucas (Batalhazzo) não descreve relacionamentos amorosos. Beto relata que conversa com sua noiva sobre vários aspectos da temática da saúde, especialmente porque ambos exercerem atividade profissional na área de educação física. De modo geral, as mulheres que compõe as vivências de cuidados com a saúde relatadas pelos jovens aparecem descritas e posicionadas como mães e avós.

Simone (Pesq.) – Quando você [João] acha que vai começar a ter esses cuidados?

João (F) – Acho que com uns 25 anos. Quando for mais velho... sei lá! Quando estiver morando sozinho, quando

for para faculdade, tiver morando sozinho... é mais importante cuidar, porque não tem minha mãe pra cuidar de mim.

Simone (Pesq.) – E sua mãe cuida hoje?

João (F) – Cuida. Cuida!

(transcrição, linhas 168-171)

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